• Nenhum resultado encontrado

ETERNA AMIZADE

No documento Portal Luz Espírita (páginas 73-83)

Tico dormiu completamente envergonhado do que fizera e Joca profundamente preocupado com o filho. Já sabia, no íntimo, que o pardalzinho passaria por momentos assim, mas mentir nunca fez parte de seu comportamento, embora sempre omitisse muitos sentimentos diante do turbilhão de emoções que sempre acontece em grandes transições. Era uma dificuldade que Tico nutria. Acostumara- se tanto a se entocar na morada primeira nos momentos de dificuldade que até hoje, em qualquer lugar, refugia-se em uma caverna interior todas as vezes que passa por uma dificuldade, tornando-se inacessível a qualquer outro ser. Mas Joca entendia também que a própria vida do pardal se encarregaria de resolver este problema.

No dia seguinte, bem de manhãzinha, enquanto Joca ainda dormia o seu sono matutino, encontraram-se, por acaso, o canário e o pica-pau bem na entrada da toca em que o pardal convalescia.

– Olá, Furriel! Tudo bem contigo?

– Tudo bem, Chanchã! É este o seu nome mesmo, não é? – Isto, isto mesmo! Você veio ver o nosso amigo pardal, não? – Sim! A garça me recomendou vir aqui todos os dias, durante uma semana.

– Já que você falou da garça, deixe-me perguntar-lhe uma coisa com que fiquei muito curioso ontem.

– Pode perguntar, pica-pau.

coisa sobre a medicina das aves? Não é de se admirar?

– É de se admirar sim! Mas engano seu que aquela garça vive somente aqui. Karkia conhece muitas lagoas, charcos, rios e praias. É a única garça da comunidade que viaja grandes distâncias de vez em quando.

– Está certo! Mas como ela conheceu a medicina?

– A medicina foi coisa da mãe dela, que aprendeu com a avó dela, que aprendeu com os pelicanos do Leste, que não sei mais com quem aprenderam. A família dela é muito viajada e ela preferiu viver aqui, depois que a mãe morreu.

– Puxa! Quem vê assim, não imagina tudo isto. Bem se vê que Karkia é uma garça diferente, mas não pensava que era tanto. Ela é bem simples pelo tanto que sabe.

– Quanto mais sábia uma ave, menos ela tem necessidade de se mostrar, pica-pau! O orgulho é para os ignorantes e fracos e eles são imensa maioria entre as aves.

– Nossa! Vejo que você também ficou sábio de tanto andar com ela, não é mesmo, senhor canário? – e sorriu com sua voz grasnada, arrancando um sorriso tímido do bico de Furriel.

E, nesse momento, uma voz desafiante e rouca veio de algum lugar bem perto.

– Ei, vocês aí, parem de falar alto! Estão atrapalhando meu sono! – era o pardal, que havia acabado de acordar e não estava com cara de bons amigos.

– Meia volta! Volto amanhã! – disse o pica-pau, ameaçando alçar voo.

– Que isto, Chanchã! Vai dar crédito a esse pardal bobo? Vamos entrar! Ele que se vire com o possível incômodo da nossa visita. Viemos ajudá-lo, não é mesmo?

– É verdade! Você tem razão. Até que essa cara negra em cima desse peito amarelo serve para alguma coisa! – caçoou o pica- pau.

Eterna Amizade 75 Só que porque tem uma faixinha amarela perto dos olhos? Está parecendo mais um pintassilgo1! – retrucou o canário.

E os dois amigos recentes se divertiam com boas gargalhadas enquanto entravam na toca do pardal.

– Olhe quem está aí com cara de quem precisava dormir mais uma semana! – brincou o pica-pau.

– Estava precisando era de voar durante pelo menos uma semana sem parar! – reclamou Tico.

– Ora, ora! E não é que o pardal está reclamando dele mesmo? Pois não foi você quem ficou dias aí dentro sem querer falar com ninguém, esperando uma melhora milagrosa? – disparou o canário.

– Ai, desculpem-me, desculpem-me o mau-humor! – murchou o pardal. – Mas é porque não aguento mais ficar aqui. Sei que a culpa é minha mesmo, mas não tem um modo mais rápido disto melhorar?

– O pior é que não tem! – disse Furriel. – Terá que ficar de castigo aí e me aturar durante mais uma semana. São ordens de Karkia e aviso que não é muito bom descumpri-las, está bem?

– Eu sei! – disse o pardal, lembrando-se do caso da perdiz. – Porque, senão, nunca mais voltarei a voar alto. Eu sei!

– Mas veja por um bom lado! Você ganhou mais um amigo. E um amigo sábio, bem se vê, apesar de ter a cara um tanto esquisita! – brincou Chanchã, apontando a ponta da asa para o canário. – E uma boa ave também! – completou a tempo o pica-pau.

– Sim, mais uma vez você tem razão, Chanchã – refletiu Tico. Preciso aprender a ver tudo com outros olhos, sempre pelo lado bom.

– Isto mesmo! – interferiu Furriel, levantando a asinha do pardal. – Teremos que fazer um novo curativo aqui, pois a garça teve que ferir novamente o que já estava cicatrizado e saiu um pouco de sangue. Acho que, depois deste, só mais um durará todo o resto da semana!

Enquanto o canário trabalhava e o pica-pau observava

1

atentamente o amigo em suas intervenções hábeis, Tico lembrou-se de seu pai e o quanto ele devia estar preocupado com tudo. Esconder-se na toca com a coruja por perto era fácil, mas longe dela tudo era mais difícil e o amor era crescente a cada dia, mesmo porque agora reconhecia o valor do pai como nunca antes pensara. Num átimo, levantou o bico e perguntou ao pica-pau.

– Você se lembrou de avisar meu pai, Chanchã?

– Ih, eu me esqueci! Ontem ele iria no cume no pôr-do-sol, não é?

– Todos os dias ele vai ao cume, pica-pau!

– Desculpe-me! Mas também eu não iria se você não me pedisse, pois a última vez você me fez mentir para ele.

– Desculpe-me mais uma vez. Desse jeito, vou pedir desculpas para o resto da minha vida! – disse o pardal, olhando triste para o chão da toca.

– Não precisa mais se desculpar, só não me peça mais para mentir.

– Está bem! E chega desta conversa, não é? Só lhe peço para levar notícias verdadeiras ao meu pai hoje, tudo bem?

– Claro! Para que servem os amigos senão para ajudar nas horas certas? Conte comigo!

E ficaram ali, descontraídos, trocando doces farpas adolescentes, que pareciam denotar uma briga para quem não entendia que estavam ficando tão amigos.

Neste exato momento, Joca acordou, depois de um sono inquieto, e logo se pôs para fora da morada primeira, buscando o alento da bela vista que o pináculo proporcionava. Ali, lembrou-se dos maravilhosos momentos que tinha passado na vida, como os primeiros passeios no bosque, os longos rodopios ao redor da torre e o parapeito tão consolador da janela do velho amigo. Quando se deu por conta, seus olhos estavam turvos e sua mente embaralhada já estava sendo levada para o campo de margaridas e flores-de-lis, que agora já estava se tornando uma paisagem comum. Mais alguns segundos de mente

Eterna Amizade 77 confusa e lá estava o velho Stan, menos calvo e mais remoçado, batendo papo com suas crianças curiosas.

A coruja começava a entender que estava recebendo uma maravilhosa recompensa pelos seus dias de busca incessante por conhecimento, sempre impedida, a contragosto, pelo seu instinto introspectivo ou pelos contratempos inevitáveis da vida. Começava a perceber a magnitude das ações de seres supremos sobre os indivíduos mais humildes. Deixava-se levar para um mundo de reflexão, em que mergulhava em tudo quanto não fizera em sua vida solitária de coruja. Fez-se pousar na árvore próxima e ouvir o sábio amigo a falar, como se discorresse com adultos.

– Hoje, comentarei sobre a grandiosidade da fé. Prestem atenção!

A fé é muito, muito mais que religião. Aliás, ouso dizer que a fé não é religião, ela transcende e esmaga o conceito simples, dogmático e sectário de religião. Enquanto a religião particulariza e limita a ideia de fé, a verdadeira fé sublima qualquer

convenção. Que existam as religiões, pois são úteis e importantes em certo passo, mas que não sejam a essência da fé.

A fé é tão espetacular que consegue ser universal e individual ao mesmo tempo, desde que se vislumbre apenas a sua essência aconvencional.

A boa e pura fé não é nem pode ser

simplesmente cega ou simplesmente raciocinada. A fé deve ser sublimada. Enquanto a primeira acredita em tudo que lhe contar qualquer dos sentidos, a segunda acredita somente no que toca todos os sentidos. Não existe verdadeira e plena fé nos extremos, somente uma fé parcial.

acontecer, ou seja, nem sensação nem razão. Ela acontece com o sentimento. É uma mistura de certeza com amor, de confiança com resignação.

A verdadeira fé consegue vislumbrar serenamente o futuro. Ela consegue senti-lo não somente como mero fruto da observação repetida, mas como resultado de uma lei divina sem falhas.

Como ao subir de uma montanha e identificar as ruas de uma cidade, a fé sublimada consegue observar, com exatidão, muitos pequenos problemas da vida sem precisar cultivar tantos conceitos racionais.

A fé é poderosa, pois cura as ansiedades da alma. Na verdade, a ansiedade é filha da ausência de fé. À medida que a fé sublimada toma conta do ser, vão desaparecendo as dúvidas e os conflitos e as ansiedades dão lugar a um relativo equilíbrio.

Nossa. Parecia que o velho Stan estava cada vez melhor. Falando com bem mais consciência e certeza do que antes e com uma eloquência invejável. As crianças internalizavam aquelas ideias e pareciam aproveitar cada palavra do que Stanislaw dizia. Sua didática e a sua capacidade de persuasão eram tamanhas que raramente era interrompido. Como aprendera a quase colocar música na voz como Aepyornis, Joca não sabia, mas o tipo mais doce do amigo lhe agradou muito.

Recebeu um aceno amável, mas, desta vez, não teve forças para responder nem para voar em volta da árvore, talvez por causa das fortes inquietações de sua mente na noite anterior. A preocupação com o filho não o deixava viajar tão serenamente como em outras vezes. Voltava agora à abertura do pináculo, de onde não saiu fisicamente, e começou a revolver as lições da mensagem. Precisava meditar muito ainda sobre a fé, que é uma questão relativamente nova para ele. Mas

Eterna Amizade 79 Joca teve condições de entender que a fé está muito mais atrelada à confiança no futuro e à certeza de um bom caminho do que propriamente a uma seita ou a uma pessoa específica, por melhores que sejam os mensageiros divinos. São bons modelos, sim, mas não são a própria essência divina, embora a carreguem dentro de si. Sem se dar conta, começava a vislumbrar o início de uma resposta às antigas questões tornadas confusas com a chegada de Aepyornis.

A coruja tranquilizou-se um pouco e parte das inquietações se foram. O dia ficou mais velho e a espera ansiosa pelo pôr-do-sol ficou mais suportável. Até que chegou o momento esperado e Joca voou para o cume da montanha, bastante esperançoso. Ficou ali por alguns minutos, maravilhado com as cores maravilhosamente empalidecidas pelo ocaso solar, até que avistou dois pares de asas se dirigindo para o alto. Sumiram da vista da coruja por um instante, enquanto alcançavam o ponto mais alto da encosta, e ali estavam um pica-pau- do-campo e, inesperadamente, um canário-do-mato.

– Olá, senhor Joca! Tudo bem com o senhor? – disse o pica- pau metodicamente, sempre repetindo o discurso.

– Tudo bem, senhor pica-pau! Vejo que trouxe um amigo! – rebateu a coruja, também repetindo propositadamente a sua fala.

– Este é Furriel, senhor Joca, um bom canário-do-mato. Ficamos todos amigos, eu, ele e Tico.

– Boa tarde, senhor Furriel! Você já chegou com boas recomendações de Chanchã. Deve ser uma boa ave, certamente.

– Boa tarde, senhor Joca, muito obrigado pelo elogio. Mas ficamos preocupados com seu filho.

– Eu também fiquei muito preocupado, mas ocorreu algo mais grave? Ele disse que estava meditando e achei estranho ter me contado uma mentira. Pedi a Chanchã que o visitasse, mas vocês vieram somente hoje.

– Desculpe-me, senhor Joca – respondeu o pica-pau. – Mas não queria ser novamente um portador de mentiras. Preferi que Tico me pedisse novamente para vir falar com o senhor, de modo mais

verdadeiro. Vou lhe contar, então, o que houve.

– Conte-me logo, senhor pica-pau-do-campo! Não me mate de ansiedade.

Chanchã contou-lhe com detalhes todo o ocorrido, desde a tentativa de fazer mais uma amizade com os biguás, passando pela trombada de Tico com a árvore até os dias de entocamento e a visita da garça. O pica-pau não é de tecer muitos pormenores, mas, desta vez, para a surpresa do canário, a história foi longa. Ao final da narrativa, finalmente a coruja se pronunciou.

– Bem, fico feliz pelo fato de que parece que meu filho está em boas mãos. Uma garça sábia, um canário cuidadoso e um pica-pau sempre alerta. Meu filho está bem acompanhado, pelo que vejo.

– Também ficamos felizes, senhor Joca. – disse Furriel. – estamos ficando muito amigos, pois as redondezas pertencem aos biguás e às garças e, em nosso pequeno habitat na mata, havia um pica-pau perdido, um pardal triste e um canário solitário. Foi bom para todos este encontro. Se depender de nós, Tico ficará sempre bem. – Faço votos para que isto aconteça. Quando é que meu filho poderá me ver?

– A garça disse que dentro de uma semana! – disse Chanchã. – É o tempo para ele se recuperar, já que demorou a pedir auxílio. Mas, agora, fica até mais fácil, pois Furriel mora há quinze árvores de distância da toca de Tico.

– Mas só não entendi uma coisa! – continuou o pica-pau, olhando para o canário. – Como você virou ajudante de Karkia?

– Ora! Ela costuma vir aqui de vez em quando até o cume do monte para meditar e enxergar o vale e outras montanhas para ver para onde viajará. Numa dessas vezes, pousou na mata e foi assim que nos conhecemos. Ela me contou sobre seus dotes de medicina e eu me propus a ajudar, já que tenho facilidade de construir ninhos. Fazer curativos é moleza perto dos ninhos que já construí.

– A cada dia, descubro mais uma coisa misteriosa neste vale, senhor Joca – confessou Chanchã. – É muita história para um pica-pau

Eterna Amizade 81 só em tão pouco tempo.

– E muito mais para uma coruja que nunca se acostumou a ter contato com ninguém. Olha o que não faz o amor de um pai por um filho. Mas foi muito bom conhecer vocês e as suas histórias e espero que continuemos amigos, assim como peço que continuem sendo companheiros de Tico.

– Claro que seremos – afirmou Furriel, fazendo o gesto vertical com a cabeça. – Boas amizades são para sempre.

– Isto mesmo! Agora vão, pois já está tarde para vocês. O sol já se pôs faz tempo e não quero atrapalhar o seu sono.

– Boa noite, senhor Joca. Até outro dia! – acenou Chanchã. – Boa noite! – repetiu Furriel.

– Boa noite, amigos! – disse a coruja, voando montanha abaixo até se entregar ao aparente penhasco do seu lado da montanha, planando levemente.

Os dois amigos também se recolheram, cada qual para a sua morada. Até aquele dia, o pica-pau não tinha arrumado uma toca decente. Havia se alojado em uma junção de galhos no centro do assa- peixe e por ali ficou, protegido do vento e da chuva. Embora ele e o canário tivessem uma plumagem de cores parecidas, eram diferentes pelo tamanho do corpo e do bico e pela personalidade.

O pica-pau não se incomodava muito com detalhes e isto se refletia em suas relações com outras aves e em suas palavras, que eram pronunciadas somente se estritamente necessário. A exceção era feita com aqueles com quem convivia mais proximamente, para quem o coração desmanchava aquela aparente introspecção. A sua voz grasnada contribuía muito para a sua pouca sociabilidade, pois, no início da relação, pouco se entendia dos sons que emitia. Por isto mesmo, quando falava alguma coisa, era em tom sempre um pouco mais alto e as palavras saíam mais rápidas do que de costume em outras aves. Era bastante agitado e impaciente como todo pica-pau, mas, quando se dava para amar um semelhante, se entregava. E o bom convívio com o canário e com o pardal estava deixando Chanchã um

pouco mais à vontade para se abrir ainda mais, embora nunca abandonasse as suas peculiaridades.

O canário era bem diferente. Mais doce e calmo, era bastante cuidadoso e detalhista, mas, ao mesmo tempo, muito desligado. Havia momentos em que parecia viver em outra esfera e seu pensamento parecia vagar bem longe. Às vezes, era preciso chamar o “sanhaço” pelo nome para que se sintonizasse dentro da realidade. No entanto, era uma boa ave e era muito dedicado a quem quer que fosse, sempre atendendo aos pedidos da garça para qualquer ave da redondeza, até mesmo os biguás. Nunca falava com eles, apenas acompanhava a garça e fazia-lhes os curativos. Era permitido que Furriel fosse ao santuário apenas nesses momentos e porque a garça garantiu que a avezinha se alimentava apenas de frutos, nunca de peixes. De qualquer modo, sentia falta de um convívio mais próximo com aves de seu porte.

A mata da encosta da montanha (que depois seria chamada pelos amigos simplesmente de Mata da Encosta) era para ser um bom

habitat para as aves pequenas, mas a proximidade com o Vale dos

Biguás espantava aquelas que gostavam de voar pelas redondezas. Somente personalidades mais particulares como as dos três amigos poderiam justificar a sua estadia ali por longo tempo. Um não se importava muito com relacionamentos, outro era muito distraído e afastado e ainda outro se entocava nos momentos de dificuldade. Era assim que os três amigos tinham seus laços atados e construíam uma amizade que duraria uma vida inteira.

CAPÍTULO 10

No documento Portal Luz Espírita (páginas 73-83)