Os instintos de cuidado de Joca para com o seu filhote adotivo já estavam bastante aguçados e Tico parecia corresponder a esse laço, digamos, maternal. Seus olhares para a velha coruja guardavam uma afeição tão pura quanto grata. Se alguma outra ave pudesse acompanhar o comportamento do pardalzinho, perceberia claramente seus olhares atentos para Joca com profunda admiração. Ao mesmo tempo, daria para ver uma coruja dedicada a um filhote ávido de saberes e simples de coração.
Para saciar a avidez do pequeno pardal, Joca deixava que ele fizesse passeios esporádicos pelo triângulo, que era o máximo que Joca permitia a Tico ir, deixando a avezinha explorar o local durante o dia, mas sem deixar de mantê-la sob suas asas protetoras de pai coruja postiço. Como a coruja é uma ave de hábitos noturnos e o pardal de hábitos diurnos, fazia tempo que Joca não dormia de forma sossegada, como sofre toda mãe ou pai nestas circunstâncias. Portanto, teve que se desdobrar fisicamente para vigiar o pardalzinho curioso em suas peripécias aladas.
A brincadeira preferida de Tico era voar entre os vértices do triângulo o mais rápido possível, cada vez mais rápido. Era comum vê-lo voando para o pináculo, daí para a entrada do bosque e daí para o beiral mais alto do telhado do prédio universitário, na semelhança de um jogador de beisebol cruzando as bases do campo depois que rebate a bola. Embora o pardal seja uma ave de voos mais rasteiros
Ansiedade de pardal 39 instintivamente, acabou assimilando alguns hábitos de um filhote de coruja, que alça voos um pouco mais altos. Porém, com a grande extensão do bosque e a serra enflorestada atrás da universidade, pouco se via do pináculo, embora fosse o ponto de maior altitude do local. Esta aventura foi se tornando, aos poucos, algo bastante corriqueiro, que já pedia naturalmente voos maiores, não necessariamente mais altos, mas mais distantes. Ao mesmo tempo, o espírito da avezinha já pretendia vislumbrar o que existiria além daquele triângulo tão restrito. A pré-adolescência do pardal já batia à porta e a curiosidade explodia de dentro para fora. O dia da indagação chegara.
– Papai!
– Que foi, Tico?
– Você nunca me disse o que há além do triângulo. Eu ouço falar por aí do que existe lá adiante, mas cada um fala uma coisa!
– Se eu não falo, é para que não sinta tanta vontade de voar antes da hora. Seu dia chegará.
– Mas acho que já chegou, papai! Não aguento mais ficar voando ao redor do pináculo. A mãe do filhote de ararinha disse a ele que você não quer me deixar ir porque nunca foi.
– Quem lhe disse isso? – Já falei, a ararinha!
– A ararinha fala pelas penas. Quem lhe garante que isto é verdade?
– Ela disse que o velho papagaio contou a todos que você nunca saiu daqui nem para comer. E disse que você morre de medo do mundo lá fora!
– Mas aqui tem tudo o que eu preciso, para que eu devo sair daqui?
– Aham! Não disse que era verdade que você nunca saiu? – Sim, você venceu, é verdade! Mas eu me preocupo com você, Tico. Não quero que você se machuque. Sei que há muitos perigos adiante.
mais livres, não gostam de ficar em um mesmo lugar. E como vou saber se os perigos realmente existem se eu não for até lá para ver?
– Eu sei o que é melhor para você, Tico! Como eu disse, seu dia chegará.
– Aff! Eu não sou uma coruja! – e voou resmungando para dentro da morada primeira.
Em um primeiro momento, a coruja ficou impassível. Mas a última frase de Tico atingiu o coração de Joca como se fosse um punhal. “Será que estou criando o pardalzinho como se fosse uma coruja?” – pensou. “Será que os pardais têm outras necessidades? Bem, o tempo me dirá”.
Nesse momento, o sol da tarde ainda andava alto e o teto do pináculo fazia uma boa sombra na abertura da segunda morada. Joca aproveitou o recolhimento do pardal na morada primeira para se abrigar também e descansar um pouco. Era a primeira vez, desde o surgimento da avezinha, que tinha um tempo maior para dormir. O sono foi difícil, mas o suficiente para relaxar a mente estrigiforme. Alguns minutos depois e a coruja já sonhava.
Desta feita, o sonho foi com o velho Stan. Quanta saudade! Era como se realmente visse o catedrático sentado em um banco de madeira, junto a um jardim de margaridas e flores-de-lis e perto de um pequeno lago, filosofando sobre a vida junto com dezenas de crianças num extenso gramado. Joca voara para uma árvore próxima e ali ficou, como nos velhos tempos em que pousava no parapeito da janela, com os ouvidos completamente atentos.
Como sempre, o professor não se referiu à coruja durante a exposição, mas a afeição era perceptível no ar. Ele dizia que a vida não termina com a morte e que está ainda mais vivo do que antes. Que possui mais disposição para ensinar e alunos ainda mais interessados. Disse que os frutos apodrecem e caem, mas suas sementes fazem
renascer árvores ainda mais frondosas, que dão frutos ainda mais saborosos. A exposição foi longa, mas a coruja não se recorda de
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uma formiguinha anônima no meio de uma savana com grandes elefantes. Como poderia um elefante alimentar um formigueiro se sua tromba não consegue atravessar a entrada? Para levar as simples, mas significativas provisões, só sendo pequeno como a entrada do formigueiro.
Pluf! O sonho havia acabado. No fim, Joca não dormira praticamente nada, mas nem precisava. A lembrança do velho Stan e a lição de simplicidade descansaram a mente da coruja e tocaram profundamente o seu coração. Para auxiliar os semelhantes, não é preciso grandes feitos nem discursos dignos de fama, mas pequeninas ações anônimas bastam para alegrar e suavizar um coração cansado. E cuidar bem daquela avezinha peralta que um dia se lançará ao mundo é, sim, uma pequena grande ação.
Passaram-se alguns dias e Tico ficava cada vez mais acabrunhado, enquanto a coruja, com o intuito de cuidar bem da ave para o futuro, era cada vez mais resistente aos apelos constantes do pardalzinho ansioso. Os voos até o pináculo ficaram menos frequentes, até que a falta de motivação destruiu a vontade do pardalzinho, que se entocou quase definitivamente na morada primeira. Mais algum tempo e a preocupação começou a tomar conta de Joca, que, até então, julgava que a teimosia do pardal era somente coisa de rebeldia adolescente. Chegou a abrir as asas para voar do pináculo até a morada primeira quando, em pleno crepúsculo, tendo apenas uma luz tênue, mas preponderante ao lusco-fusco próprio da hora, a voz de Aepyornis soou solenemente na segunda lição (A
natureza).
O caminho espontâneo do ser é natural, tende para o Infinito. A Naturalidade Divina age sobre o ser, serena e constantemente. O que não é natural, não sobrevive ao Infinito, pois é efêmero e artificial, não é vida. O ser, para corresponder ao caminho infinito, deve agir serena, natural e positivamente.
Pronto. Um tiro avassalou o coração da coruja como uma máquina-trator desbarranca o terreno e aplaina um outeiro teimoso. Terminada a lição, Joca nem conseguiu levantar voo para se desculpar com a avezinha, culpando-se profundamente pelos dias de aventura perdidos por Tico. Uma alma lamentável se encontrava ali naquele momento, corroída pelo grave erro cometido. Até que um poema- canção completou a visita suprema.
Mas foi um segundo apenas na eterna celeste orquestra
Que gerou no ensaio intervalo tão pequeno Bastou que o Maestro levantasse Sua destra E com as asas lhe dirigisse um aceno
Para que voltasse à firme e segura toada mestra Que operava a ode num som suave, doce e sereno De quem tornava a viver dentro de si grande festa Com as trombetas ativas do Pássaro Supremo
É, havia cometido um erro. Mas, aos olhos celestes, era tão pequeno perto da eternidade que a dissonância nem atrapalhou a bela música que seria a vida de Tico. Os erros, no fim, acabam revigorando, dando estímulos aos recomeços, tornando os seres mais humildes e acalmando a ansiedade e o medo. Mesmo chegando a esta consoladora conclusão, a coruja ficou ali na abertura do pináculo, ainda aquela noite, sem saber o que diria e como contaria ao pardalzinho que havia errado. Saiu apenas para mordiscar alguma coisa e se encafuou no chão da abertura do pináculo para refletir mais um pouco.
Ao raiar do dia seguinte, lá estava Joca, sobrevoando o pináculo por uma última vez antes de ter uma boa conversa com Tico, seu filho querido e que já estava pronto para partir sem que ele soubesse ou imaginasse. Seguiu até a morada primeira, deu duas bicadas na entrada da toca solenemente como se a casa não lhe
Ansiedade de pardal 43 pertencesse e, meio sem graça, se dirigiu ao pardalzinho.
– Tico, está aí? – Não!
– Como não está aí, se estou ouvindo sua voz? – disse a coruja, com voz doce.
– Não quero falar com o senhor! Nem com ninguém! – Nossa! Nem para receber uma boa notícia?
– Que notícia? Mais um inseto que pousou no telhado do prédio? Não quero!
– Acho que você está meio chateado, não? Vamos conversar. – Não quero!
– Então, eu vou embora e não lhe darei a surpresa! – Surpresa?
– Sim, uma surpresa! Mas você não quer e ainda está tratando mal o seu pai. Portanto, não está merecendo a surpresa.
– Desculpe, papai. Podemos conversar, se ainda quiser. – Ah, assim está melhor.
– Bem, Tico. Achei que cometi um erro com você. Você queria voar para mais longe e eu impus resistência porque pensei como uma coruja. Mas não entendia que um pardal possui outras necessidades, que você já está maiorzinho e que sua hora já havia chegado. Então, você pode ir se quiser.
– Sério?
– Claro que sim! Não é porque sou seu pai que tenho que lhe prender para sempre.
– Mas papai!...
– Que foi agora, Tico? Desistiu de passear?
– Bem, agora que me deixou ir, estou com muito medo! A coruja deu uma gargalhada amena e colocou as asas em volta do corpo do pardalzinho, entendendo que, apesar de tudo, tinha razão em parte, que Tico não estava tão preparado assim, mas que, por fim, tudo aquilo serviu para estreitar o diálogo proveitoso entre ambos.
Apesar de um pouco rebelde e curioso, Tico tinha realmente receio do que encontraria adiante. Em sua mente jovem, misturavam- se as notícias precavidas de seu pai e as aventuras maravilhosas narradas por seus amiguinhos psitaciformes falantes – a ararinha, o periquito e o papagaio –, contando histórias de outros passarinhos belíssimos e muitas árvores frutíferas e campos com sementes de gramíneas. Qual deles tinha razão? E se realmente houvesse perigo fora do triângulo? Acreditava, a essa altura, que pudesse ser uma combinação das duas coisas e que seu pai queria somente o seu bem, apenas protegê-lo. Afinal, nunca sentiu medo no triângulo, mas isto não quer dizer que não existam perigos fora dele. Ficou durante algum tempo meditando, talvez as primeiras reflexões adolescentes, tais como as crises de identidade de quem ainda não se viu posicionado em um mundo cuja responsabilidade ainda não lhe coube. Pois é muito fácil estar forte e decidido quando o mundo ainda é construído e mantido pelos pais, mas, decerto, não há a mesma facilidade quando tem que ser construído por si mesmo. E Tico experimentava esta sensação agora. Ficou, por alguns dias, refletindo sobre si mesmo e sobre os rumos que deveria tomar e retomou os passeios ao pináculo para pensar melhor acerca de tudo.
CAPÍTULO 5