• Nenhum resultado encontrado

A PARTIDA DE TICO

No documento Portal Luz Espírita (páginas 45-49)

Um sol brilhante e forte contrastou com o céu frio do final de outono naquele dia e o estado de tensão de Tico poderia ser percebido até por uma lesma da qual às vezes se alimentava. O desejo de ir e de não ir estavam se conflitando e a preparação de semanas parecia ter sido em vão. “E se eu não conseguir comida?” – pensou o pardal. “E se eu não encontrar amigos? E se houver perigos?” Toda sorte de pensamentos povoou a mente do pardalzinho naqueles momentos.

Joca acompanhava também aflito a partida de seu filho adotivo para o mundo, deixando que ele se preparasse ao seu gosto, embora sentisse necessidade de dizer algumas palavras. Mas a ansiedade e o medo de Tico se mostraram tamanhos que a coruja precisou intervir e lhe dar uma injeção de ânimo para que pudesse partir mais confiante.

– Tico, contarei a você agora umas coisas que nunca lhe contei, mas acho que agora é necessário. Cada um tem a sua crença, por isso lhe respeitei como pardal que é. Mas cabe a um pai ensinar pelo menos um caminho, para que você possa escolher com mais consciência no futuro. Pois vários caminhos existem, mas todos os bons caminhos levam à vida espiritual e quem somos nós para julgá- los se estão certos ou errados. Foi o meu velho amigo professor quem me disse isso.

– Quando o velho Stan se foi – continuou a coruja – e eu perdi as suas aulas maravilhosas no prédio, fiquei sem chão, sem esperanças

e sem alento. Mas, com o tempo, descobri que as coisas belas não estão restringidas a uma pessoa, a uma coisa ou a um lugar. Existe, sim, alguém maior, que, a bem da verdade, ainda não sei muito bem quem é, mas que se manifesta através de qualquer coisa bela, como uma árvore, uma flor, um lago e até pelas coisas que não se apresentam tão belas, mas que também possuem o seu valor e a sua lição.

– Quando eu estava bastante desalentado com a perda do velho Stan, uma figura, a princípio, estranha me apareceu na entrada da toca com uma luz que quase me cegou, dizendo lindas palavras. A partir daí, comecei a receber lições e ouvir músicas em forma de poemas em cada instante decisivo da minha vida, o que começou um pouco antes de você nascer.

– Quem é essa figura, papai? – falou o pardal, assombrado. – Disse que se chama Aepyornis e que é o Pássaro Supremo entre as aves, que cuida das aves de todo o planeta e que veio me trazer um alento maior. Não tive razões para duvidar disto, pois se mostrou solícito e ponderado em todos os momentos importantes. Como o velho Stan dizia, baseado em seu mestre humano: “pelo fruto, conhece-se a árvore” 1.

– Nossa, papai! Se foi bom para você, isto também pode ser bom para mim. Posso conhecê-lo?

– Bem, isto eu não sei. Acho que depende muito mais dele do que de mim e de você. O que quero dizer com isto tudo é que você deve ter fé em seu caminho, confiar em Aepyornis, que me disse que você é uma avezinha muito curiosa e que conhecerá muito sobre as coisas profundas da vida e que, aliás, esta seria a missão de sua vida.

– Que coisas profundas são essas?

– Não me aperte, passarinho atrevido. Quem sou eu para saber? – e sorriu despreocupadamente, embora estivesse agonizando

1

A partida de Tico 47 por dentro diante do momento tão importante.

Tico o acompanhou no sorriso, embora entendesse pouco do que quisera dizer. Acompanhou profundamente as explicações do pai, mas não compreendia a dimensão do que estaria por vir.

– Papai? E por onde devo trilhar? Qual será o meu caminho? E você ficará aqui sozinho?

– Quem determinará o seu caminho é o seu coração. Aepyornis já deve tê-lo preparado. Quanto a mim, não se preocupe. Você vem me visitar de vez em quando e me contar tudo o que aprender. Sou uma velha coruja, que não consegue mais se aventurar por aí.

– Eu venho sim, papai, sempre que puder. Mas, ainda assim, estou com medo do caminho! – disse o pardal, chorando e abraçando o velho pai e sabendo que poucas vezes o veria a partir daquele dia.

As emoções emanavam forte dos corações e um momento sublime e iluminado pairou sobre as suas cabecinhas de ave. Entre suspiros e soluços de pai e filho, a voz doce novamente se manifestou, parecendo sussurrar em seus ouvidos.

Mas vamos encontrar o caminho, todos nós Pois somos como um rio em corredeira Um tanto d’água em direção à foz

Procurando vencer a natureza pelas beiras Mesmo no início tendo instinto feroz Mas depois acariciando toda touceira Brincando com música pra ser como a voz Que vem do canto sereno da cachoeira

– Que lindo, papai! Você ouviu isto?

– Foi Aepyornis, meu filho! Esta voz doce e suave é dele. Ele lhe acompanhará durante todo o seu caminho. Bom, já está na hora de você ir. Eu só lhe direi mais uma coisa.

– Você não deve se preocupar exatamente com o que existe além do triângulo, mas como existem. Não deve pensar nas coisas da vida no que são, mas em como são. Um dia, você entenderá isto melhor. O que posso lhe dizer é que a região além daquela montanha faz parte do Parque das Aves, como já explicou Stan.

As palavras soaram como um refrão na cabeça de Tico: não

no que são, mas em como são. Recebeu uma bicada de carinho do

velho pai na bochecha, acenou com a ternura de quem tem a pureza no coração, bateu asas e voou.

Joca chorou. Pela segunda vez, as amargas lágrimas da vida lhe bateram à face. Desta vez, pelo menos, sabia antecipadamente que vinham por um bom motivo e, então, o sofrimento foi um pouco menor. De qualquer modo, não é fácil para o coração de um pai coruja suportar a partida de um filho, que estava agora vagando sozinho pelo mundo. A velha coruja, mais madura, abrigou-se na morada primeira por quase todo o longo dia, tentando disfarçar para si mesma a sua tristeza que só o tempo iria curar.

CAPÍTULO 6

No documento Portal Luz Espírita (páginas 45-49)