Passou a semana e faltava apenas aquele dia para que Tico pudesse sair de sua toca. Mais uma manhã e uma tarde e poderia visitar seu pai no cume da montanha. Vigiado de perto pelos amigos tão especiais, jamais passou por sua cabeça desobedecer a ordem da garça, mas confessava a si mesmo um louco desejo de voar novamente. Como de praxe, Chanchã e Furriel já surgiam na entrada de sua toca sem pedir licença. Entraram mais alegres do que nunca naquele dia, que estava sendo encarado como o renascimento do pardal, tamanho o sofrimento dos dias em que se entocara compulsoriamente. Sim, pois uma coisa era se enfurnar por conta própria e outra era obrigatoriamente e isto o pardal ainda não tinha superado.
– E aí, Tico, pronto para voar de novo? – lançou o pica-pau. – Bem, pronto eu não sei. Mas morrendo de vontade estou! – e sorriu, como há muitos dias não sorria.
– Que bom vê-lo assim, pardal. Mal posso esperar para vê-lo voando e feliz. Seu pai está esperando-o hoje, bastante ansioso também – contou o canário, que esteve com a coruja no dia anterior.
– Ah, sim! Espero vê-lo hoje sem falta. Sairei até um pouco mais cedo para ficar com ele mais tempo. Estou com saudades.
– A corruíra não apareceu mais, você percebeu? – perguntou Chanchã.
Desejo de voar 93 espécie das corruíras.
– Percebi sim! – respondeu o pardal. – A toca está até mais tranquila.
A observação arrancou gargalhadas dos três amigos.
– Fiquei triste no início – continuou –, mas hoje compreendo que cada ave aproveita ao seu gosto cada momento. Aquele era o momento da corruíra e ela passou aqui como um furacão rápido e intenso. Ninguém consegue ser intenso e duradouro ao mesmo tempo, isto eu já percebi.
– Olhe que nosso amigo já está ficando sábio também, Furriel – comentou o pica-pau. – Parece que estou sobrando aqui – e sorriu com uma gargalhada espontânea.
– Sim, a entocada forçada do nosso amigo serviu para alguma coisa, no final das contas – concordou o canário, também sorrindo. – Depois, vou contar a Karkia que você está quase bom. Hoje, terei que ver um biguá que machucou a ponta da asa ontem. O coitado chorou como criança, mas está bem.
– Diga-lhe que mandei um abraço e a agradeça em meu nome pelos seus dotes e por ter me indicado um enfermeiro tão dedicado – pediu Tico.
– Pode deixar que mando sim. Ela gostará de saber – retrucou o canário.
– O papo está bom, mas vou comer. Quer quantas larvas hoje, pardal? – e saiu voando, sem ouvir a resposta.
– Bem, vou indo também – apressou-se Furriel. – Karkia já deve estar me esperando. Tanto ela como os pacientes biguás são exigentes quanto a horários e, por isso, não posso me atrasar.
– Um bom dia para você, Furriel. Muito obrigado mais uma vez. – Bom dia!
Parecia que, quanto mais chegava a hora, mais ansioso o pardal ficava. E assim é com todas as aves. A vontade de voar ultrapassava todas as outras vontades, até mesmo de encontrar seu pai. E, assim, Tico passou o dia, entre a espera e a vontade desenfreada.
Joca, em sua maturidade, estava bem mais tranquilo. Depois de uma noite de caçada farta e uma manhã de sono satisfeito, lembrou-se do que as ararinhas, periquitos e papagaios diziam sobre nunca ter saído do triângulo e não conhecer as coisas do mundo. Mas fez uma opção por conhecer as coisas da vida, o que é muito mais interessante. Recordou-se, então, de uma belíssima frase que o velho Stan dizia sempre aos alunos quando estes exageravam em suas investidas pelas noitadas da juventude: “No mundo dos fatos, não há caminho que leve ao mundo dos valores. Mas, no mundo dos valores, há sempre um caminho que conduz ao mundo dos fatos”1. E havia ainda a filosofia dos dois trens, de que Joca não se lembrava mais.
Como se estivesse ouvindo suas reflexões, a voz de Stan veio em sua mente imediatamente, como em telepatia.
O segundo trem é sempre mais suave, mais tranquilo, menos ansioso e menos orgulhoso do que o primeiro. É o trem natural e espiritual, o trem da vida.
O primeiro trem, ao contrário, é, além de efêmero e imediatista, mais ansioso, forçoso, societário e material. É o trem do mundo.
Neste trem material, o primeiro, a escolha é sempre afobada, desastrosa, destoante e adulterante à lei divina.
O trem espiritual, o segundo, é, antes de tudo, mais humilde, mais sensato e equilibrado, mais certo e menos duvidoso.
Terminava o dia e o coração de Tico já batia forte. Era hora de voar para ver o seu pai. O sol já ameaçava se esconder e o pardal botou o rosto para fora da toca, ainda com a claridade lhe ofuscando
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Desejo de voar 95 os olhos. Chanchã e Furriel deixaram o Tico à vontade para encontrar seu pai com mais privacidade e o filho da coruja voou quase como estivesse voando pela primeira vez. Sorte que sua toca era um pouco alta em relação ao chão, pois perdera um pouco de altitude num primeiro momento. Armou-se de coragem, consertou o voo tímido e voou rumo ao cume, como se estivesse querendo atingir o infinito.
O pai já estava lá faz tempo, claro, pois também não queria perder nenhum momento deste reencontro. Olhando firme para a coruja, bateu as asas um pouco mais rápido, mostrando agilidade.
– Olhe, papai, já posso voar! Olhe que maravilha! – mostrou Tico, gabando-se da liberdade.
– Ora, não vai dar um abraço em seu pai? – perguntou a coruja, observando o filho rodopiar por cima de sua cabeça.
– Já estou indo, papai – e se entregou aos braços da coruja do mesmo jeito que veio descendo.
– Calma, filho! Não precisa se exaltar. Você já está bom, já pode voar! Mas calma! Como esteve estes dias?
– Ora, papai. Bem triste, bem triste mesmo. Mas aprendi bastante, mesmo dentro da minha toca.
– Está vendo que não é tão imprescindível sair da toca para aprender? São importantes os passeios e as trilhas da vida, mas a Ave Suprema provê oportunidades quando não há condições.
– Mas aprender lá fora é muito melhor.
A coruja sorria da ingenuidade e do temperamento ainda adolescente do filho, mas ouviu com compaixão e ternura tudo o que dizia, confiando que o tempo iria colocar-lhe limites. Mas, depois de uma pausa de abraços longos, continuou a conversa.
– E os seus amigos? Não vieram hoje? – Não, papai. Estranho, desta vez não vieram.
– Seus amigos são boas aves, Tico. Compreendem que, às vezes, os familiares precisam de momentos sós.
– Sim, acho que tive sorte com os meus amigos. Mostraram-se grandes companheiros nestes últimos dias.
– E a corruíra, que nunca mais apareceu?
– Ih, esta sumiu. Passou o tempo dela aqui. Deve estar em outra mata por aí. Que avezinha esquisita!
– Sim, muito ansiosa aquela ave. O canário me contou que, em geral, as corruíras são assim, mas que aquela era além da conta. Provavelmente, não encontrou o sentido da vida dentro do amor sincero e, por isto mesmo, fica vagando atrás de respostas que nunca encontra. Chegará o dia em que também acalmará o coração. Cada ave é única e cada uma delas possui as suas próprias características, com muitos defeitos e virtudes. Um dia, as virtudes dela suplantarão os defeitos ou haverá uma oportunidade em que se perceba que, em determinada situação diferente daquela, as virtudes se ressaltem.
– Puxa, papai. O senhor está falando quase como Aepyornis. – São as visitas dele e as lições de Stan, meu filho. Estão cada vez mais frequentes e estou cada dia mais interessado em descobrir mais coisas e aprofundar mais ainda nos conhecimentos da vida.
– Ainda quero ser assim como o senhor, mas ainda não consigo. Preciso de aventura, preciso voar! – e deu mais uns cinco rodopios por cima da coruja.
– Calma, pardalzinho! Você ainda tem a vida inteira para voar! – disse, rindo das atitudes pueris do filho.
Joca deu mais alguns abraços em Tico e preparou-se para se despedir.
– Ah, papai, já vai?
– Sim, meu filho! Estamos no inverno. Os dias ficam escuros mais cedo, ainda mais nesses dias de chuva. Melhor você ir, não quero meu filho sendo comido por gaviões.
– Mas não existem gaviões por aqui!
Foi dizer isto e o pardal percebeu que entrou na maior das contradições de sua vida, por causa das mentiras que andara contando. Joca fez de propósito para sentir a reação do pequenino, mas desistiu de continuar a história e partiu, acenando, deixando o filhote no cume, até que a avezinha deixou-se levar pelo vento ao longo da encosta da
Desejo de voar 97 montanha.
Apesar do deslize que cometeu, tanta foi sua euforia em voltar a voar que começou a dar inúmeros rodopios por cima da montanha e pela encosta, dando rasantes longos pelo vale e voltando ao alto. Depois de uns vinte e cinco minutos assim, sentiu, novamente, uma dor profunda na asa. Hum! Era forte a dor, quase como se tivesse quebrado outra vez. Teve sorte de estar no alto nesse momento, pois talvez não conseguisse levantar voo, se precisasse. Ajustou sua planagem à entrada da toca e traçou a trajetória para pousar no chão de sua morada, antes gritando com todas as forças da alma acima da toca do canário.
– Furriel! – e foi só o que conseguiu dizer.
Na mesma hora, o canário bateu as asinhas e se dirigiu rapidamente à toca do pardal, trazendo consigo o pica-pau, que também escutou o grito do assa-peixe.
– Que foi isso, pardal? Quebrou a asa de novo? – perguntou o amigo enfermeiro.
– Não, Furriel! Eu só estava sobrevoando o vale quando senti uma dor forte na asa e tive que parar de voar.
– Ah, e quanto tempo o senhor ficou dando piruetas por aí? – inquiriu o canário.
– Uns dez minutos só!
– Tico! – ameaçou Furriel, com voz brava e certa de que Tico havia mentido mais uma vez.
– Está bem! Fiquei uns vinte ou vinte e cinco minutos sobrevoando o cume e o vale.
– Puxa! Mas você não aprende, heim, pardal? – bronqueou o pica-pau.
– Dá vontade de não lhe ajudar mais! – esbravejou o canário. – Mas o que fiz de errado desta vez? Tudo o que faço é errado!
– Você tem um impulso incontrolável de agir, gasta energia demais e depois fica enfurnado aí na toca uns dias. Até parece um
beija-flor! Nem as corruíras fazem assim. Isso é que está errado. Falta- lhe controle, limites! Seu pai não lhe deu? – disse Furriel, como nunca tão nervoso se viu.
– Nossa, meu amigo! Não precisa falar assim. Exagerei no voo mesmo.
– Não aconteceu nada, pelo que vejo em sua asa. Mas ficará mais um dia de castigo na toca, sem voar.
– Ah, não, de novo?
– Sim, isso se quiser voar sempre.
Nisto, Chanchã ficou calado, pois nem ele, em seus resmungos, tinha ficado assim como o canário ficou. Deu para se ver que o amigo, além de doce, era enérgico quando necessário.
– E olhe! – continuou o canário. – Você não pode sair de um acidente e dar piruetas por aí. Tem que começar devagar, dar um tempo para suas asas e só, depois, voar como quiser.
– Está bem, Furriel. Você quem sabe! – disse, já choramingando.
– E fique aí quietinho! Chanchã lhe vigiará, porque eu vou dormir! Hoje, deu um trabalho danado atender o biguá! Até mais.
– Boa noite! – disse o pica-pau, já que o pardal não respondeu.
– E não me olhe assim! Não vou lhe consolar! – continuou a ave, dirigindo-se ao paciente. – Ficarei no assa-peixe apenas olhando, pois já está muito tarde. Durma bem!
– Boa noite! – sussurrou o pardal, ainda choroso.
A noite não foi boa. A expectativa que tinha de voltar a voar tinha caído por terra, literalmente. Tico ficou muito pensativo. Lembrou-se do que o canário disse sobre os extremos, tais como os beija-flores, e sobre o que seu pai lhe disse sobre aprender sem precisar voar tanto. Notou que nunca aprendera tanto quanto nos momentos em que ficou recolhido. Não que precisasse ficar recolhido todo o tempo ou que isso ocupasse o maior tempo de sua vida, mas descobriu que os momentos de reclusão e reflexão eram essenciais,
Desejo de voar 99 como lhe ensinou tão bem a coruja e o pardal, teimoso, não quis ouvir. Pensava que um longo caminho, retilíneo e constante estava destinado para si desde que ficou sabendo que Aepyornis guiava parte de seus caminhos. Percebeu que estava sendo realmente como a corruíra, que era muito intensa e pouco profunda. A superficialidade é, muitas vezes, atrelada à intensidade e a profundidade é vinculada à serenidade. Eram lições que ficariam para sempre. Se pensava em buscar as coisas profundas da vida, tinha que aprender a ser sereno e calmo, esperando a hora certa para tudo e procurando ficar bem em cada pequeno momento, sem pensar tanto nos grandes momentos.
O outro dia foi de grande reflexão, interrompida apenas pelo pica-pau, que lhe trouxe larvas e foi embora novamente. Tudo foi arranjado para que o pardal pensasse um pouco na vida. Joca foi ao cume no pôr-do-sol e somente encontrou os dois amigos do filho, que lhe contaram o acontecido e partiram. Ficaram Joca e Tico, respectivamente, no cume e na toca, pensando no que tinham errado. Foi que, então, surgiu no cume Aepyornis, tão grandioso e iluminado como nunca se mostrara, já que estava escuro e não tinha que diminuir o seu tamanho para caber na morada primeira da coruja.
– Meu caro amigo Joca! Teu coração é quase maior que o mundo! Mas tens que aprender a ser como o canarinho, que, quando preciso, deu uma bronca paternal em teu filho ontem à noite. Estou aqui para te trazer mais um alento para teu coração. “O papel dos pais
é complicado, é difícil discernir, pois o bem-estar equilibrado depende de como agir. Tem que pôr limite, mesmo que isso seja triste, desde que seja com muito amor”. Para finalizar a nossa conversa, a
segunda parte da quarta lição.
O amor, no exercício da vida, exige carinho, dedicação, respeito, sinceridade, devoção. Mas, na hora certa, também exige firmeza, bom-senso, disciplina, mudança. Comete erro o ser que busca todos estes atributos antes do amor. Se busca o amor,
o amor leva naturalmente a todos eles.
Esta parte da quarta lição foi ouvida tanto por Joca quanto por Tico. À coruja, serviu para aprender que realmente é preferível a doçura à rispidez, mas a energia para colocar os limites e dizer não, desde que tenha o amor como alicerce, é bastante necessária nos momentos corretos. Ser firme e doce não é um desafio fácil, mas é preciso enfrentá-lo. Ao pardal, ajudou a entender que precisa controlar os seus impulsos e tentar atingir um equilíbrio no agir, por mais difícil que seja. Descobriu que, antes de viajar e voar, o mais importante é aprender, aproveitar cada instante como uma grande oportunidade de aprendizado. Joca decidiu dar uma boa reprimenda paternal no pardal e Tico, por sua vez, decidiu o seguinte, em suas primeiras reflexões mais profundas:
Voar é uma das maiores maravilhas que a Ave Suprema me concedeu. Mas voar por voar, voar para satisfazer meu instinto de ambições e interesses vãos, voar para provar que posso alcançar grandes alturas, é voar inutilmente. Nem que atrofie minhas asas: a agir de tal maneira, prefiro privar-me do prazer de voar.
Pela cabecinha de Tico, poderia ter passado, naquele momento, a ideia de que, moralmente, tudo o que seja feito apenas para provar aos outros alguma coisa não precisa ser feito. Que a humildade é a maior prevenção contra os reveses do mundo e que basta que as coisas simples sejam feitas para que a trajetória esteja completa. Mas o pardal estava tão feliz e convicto de suas descobertas que não aprofundou os seus pensamentos. Já bastava o que havia aprendido naquele dia.
Sem mais palavras e reflexões, Joca foi caçar e Tico repousar, desta vez com um sono mais profundo, como há dias precisava ter.
CAPÍTULO 12