3.1 Discursos da diversidade
3.1.4 A identidade como um dos discursos da diversidade
Segundo Tomaz Tadeu da Silva (2009, p. 76), as identidades são resultado de atos da criação linguística, são criações sociais e culturais; precisam ser ativamente produzidas e estão estreitamente ligadas a sistemas de significação, uma vez que “[...] somos nós que as fabricamos, no contexto de relações culturais e sociais”. Ao afirmar-se uma identidade, implicam-se sempre “[...] as operações de incluir”, porque estamos dizendo “o que somos”, e as operações de excluir, porque estamos também dizendo “o que não somos”. Como afirma o autor, “[...] identidade está sempre ligada a uma forte separação entre o ‘nós’ e ‘eles’”, separação esta que implica em dividir e classificar “atribuir diferentes valores aos grupos assim classificados” (SILVA, 2009, p. 82), o que, por sua vez, implica hierarquizar.
Na presente seção, para discorrer sobre a identidade, selecionamos o artigo “Sobre identidade e diferença no contexto da educação escolar indígena”8
, de Polianne Delmondez e Lucia Helena Cavasin Zabotto Pulino, localizado através do levantamento realizado no banco de dados da Capes.
No artigo Delmondez e Pulino (2014), abordam a educação escolar indígena, ressaltando que, atualmente, as novas práticas pedagógicas destinadas à formação educacional indígena “[...] estão ligadas ao contexto de valorização das particularidades da identidade cultural de cada etnia”, e justamente o desafio do diferencial desse projeto de ensino “[...] é o de propiciar aos indígenas o estatuto de sujeitos de direitos de seus próprios saberes e de transmissão de sua cultura no arcabouço institucional do Estado democrático brasileiro, sem descaracterizar-se de sua diferença” (DELMONDEZ; PULINO, 2014, p. 633), uma vez que lhes é muitas vezes imposta uma identidade nacional. A ideia de sobrepor uma identidade perante outra nos remete aos dizeres de Woodward (2009, p. 11), quando esta afirma que “[...] a identidade é marcada pela diferença, mas parece que algumas diferenças – neste caso entre grupos étnicos – são vistas como mais importantes que outras, especialmente em lugares particulares e em momentos particulares”.
No artigo analisado, Delmondez e Pulino (2014) iniciam o texto fazendo uma revisão das concepções de identidade e de diferença elaboradas por T. T.
8
Silva (2007), Woodward (2007), Hall (2006, 2007) e, também, das críticas à identidade cultural feitas por Guattari (2005). Elas afirmam que “[...] trata-se a noção de identidade mediante o par diferença e a expressão posições identitárias” (DELMONDEZ; PULINO, 2014, p. 633).
As autoras citam Hall (2006), que “apresenta três concepções de identidade a partir da visão de sujeito de cada momento histórico: (a) sujeito do Iluminismo, (b) sujeito sociológico e (c) sujeito pós-moderno”. Na primeira, “[...] o indivíduo unificado e dotado de racionalidade era idêntico a si mesmo ao longo da sua existência”, já na segunda, “[...] é concebida nas relações sociais e a identidade é constituída na interação do sujeito com a sociedade”; e, na terceira concepção, o sujeito “[...] é compreendido como sendo composto por uma fragmentação de suas identidades, que, muitas vezes, mostram-se contraditórias” (DELMONDEZ; PULINO, 2014, p. 633). Essa fragmentação das identidades do sujeito pós-moderno, marcado pelas constantes e rápidas mudanças está relacionado com o cenário da globalização.
Segundo Silva(2009, p. 84), “[...] o processo de produção da identidade oscila entre dois movimentos: de um lado, estão aqueles processos que tendem a fixar e a estabilizar a identidade; de outro, os processos que tendem a subvertê-la e a desestabilizá-la”. O autor acrescenta que “[...] a teoria cultural e social pós-estruturalista tem percorrido os diversos territórios da identidade para tentar descrever tanto os processos que tentam fixá-la quanto aqueles que impedem sua fixação” (2009, p. 84). Para se realizar essa descrição, “[...] têm sido analisadas, assim, as identidades nacionais, as identidades de gênero, as identidades sexuais, as identidades raciais e étnicas” a fim de mostrar que os movimentos sociais “[...] têm questionado a tendência à fixação das identidades e enfatizado o seu caráter fluído” (DELMONDEZ; PULINO, 2014, p. 635).
Delmondez e Pulino dão continuidade na revisão dos autores e autoras, mencionando a questão da identidade social, que diz respeito à semelhança do sujeito para com os outros, e a identidade pessoal que é a diferença do sujeito para com estes mesmos outros, especificando a diferença e a identidade baseando-se na “relação entre o indivíduo e a sociedade ou entre aspectos coletivos e pessoais” (DELMONDEZ; PULINO, 2014, p. 634).
Em seguida, as autoras aproximam-se de Silva (2007) e trazem concepções sobre a afirmação de que a identidade e a diferença são criações da linguagem, conforme foi mencionado no início desta seção. E seguem revisando os/a autores/as, dizendo que:
[...] na perspectiva da diversidade, a diferença e a identidade tendem a ser naturalizadas, cristalizadas, essencializadas” (T. T. SILVA, 2007, p. 73). A diferença exerce papel essencial no processo de construção das identidades, ela pode tanto marcar a marginalização do grupo socialmente excluído como valorizar a diversidade, o híbrido e o heterogêneo. Um ponto importante é que “os sistemas classificatórios são, assim, construídos, sempre, em torno da diferença e das formas pelas quais as diferenças são marcadas” (WOODWARD, 2007, p. 54). Dessa forma, a afirmação da diferença pode ser problemática por criar a ênfase em segregações sociais [...]. Coloca-se a necessidade de uma política de produção da identidade e da diferença que seja constantemente problematizada, uma vez que são construídas por meio de relações de poder (FOUCAULT, 2012) [...]. Assim, “questionar a identidade e a diferença como relações de poder significa problematizar os binarismos em torno dos quais elas se organizam” (T. T. SILVA, 2007, p. 88) (DELMONDEZ; PULINO, 2014, p. 634).
Delmondez e Pulino (2014) ressaltam ainda as colocações de Guattari (2005), em que o filósofo “[...] cria o conceito ‘devir’, que expressa a mobilidade e o questionamento dos movimentos sociais em relação ao caráter estático das identidades”, e esse conceito “[...] valoriza a possibilidade do ‘tornar-se’ e dos vários processos de produção da subjetividade se manifestarem” (2014, p. 635). Por fim, Guattari (2005) nos diz sobre as diferenças, que segundo o mesmo autor, “[...] são versões moleculares dos grupos sociais oprimidos e marginalizados que reivindicam uma política de diferença”, fazendo com que haja “[...] uma celebração e valorização das singularidades culturais e essa ênfase se dá com a celebração das diferenças” (2014, p. 635).
No segundo momento do texto, Delmondez e Pulino (2014), descrevem um breve histórico da educação escolar indígena desde a chegada dos portugueses em território brasileiro e apontam que o entendimento da diversidade é relevante para o estudo desta educação escolar, tendo em vista que “[...] lida com uma enorme variedade de sociedades indígenas com distintas formas de organização social (do parentesco), línguas, cosmologias diferentes, entre outros” (2014, p. 635). A educação escolar indígena hoje deveria fornecer subsídios para que os envolvidos no ensino-aprendizagem
possam construir metodologias próprias, visando à preservação de suas identidades culturais. A afirmação das identidades indígenas e a reivindicação de seus direitos só se intensificaram na década de 1980 após a organização e resistência de movimentos sociais indígenas, e, com isso, uma das conquistas foi o capítulo VIII da Constituição Federal de 1988, que assegura aos índios o direito à Educação, à utilização nela de suas línguas nativas, à criação de seus próprios processos de ensino, bem como à preservação de suas manifestações culturais (DELMONDEZ; PULINO, 2014, p. 635).
As autoras dão continuidade a suas colocações explicando que, no “[...] multiculturalismo e na diversidade, a educação intercultural torna-se o princípio fundamental dos projetos curriculares nas escolas indígenas (FRANCHETTO, 2002)” (DELMONDEZ; PULINO, 2014, p. 636), desde que seja usada como meio de emancipação a fim de sanar a homogeneização cultural e a reprodução das práticas escolares urbanas.
Ao final do texto, Delmondez e Pulino (2014) apontam que as políticas de educação multiculturais brasileiras ainda precisam superar muitos desafios e questões a serem discutidas e problematizadas. A educação escolar indígena tem se preocupado somente em como preparar os indígenas para questões interculturais, esquecendo-se, assim, de se perguntar como os não indígenas tem se preparado para conviver com estas práticas interculturais.