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Os direitos como um dos discursos da diversidade

No documento fernandabicharadasilva (páginas 57-60)

3.1 Discursos da diversidade

3.1.2 Os direitos como um dos discursos da diversidade

As pessoas e os grupos sociais têm o direito a ser iguais quando a diferença os inferioriza e o direito a ser diferentes quando a igualdade os descaracteriza (SANTOS; NUNES, 2003, p. 56).

Para discorrer nesta seção sobre os direitos, selecionamos o artigo “Cidadania e feminismo no reconhecimento dos direitos humanos das mulheres”5

, de Jussara Reis Prá e Léa Epping, localizado através do levantamento realizado no banco de dados da Capes.

Maria Victoria Benevides aponta que tem se tornado cada vez mais frequente as reivindicações por direitos dos cidadãos. Direitos estes que, segundo a autora, são criados, costumam variar de sociedade para sociedade e “fazem parte de um conjunto de direitos e deveres ligados às ideias de cidadão e cidadania” (s/d, p. 5), que estão especificados em leis, a fim de que sejam exigidos, reconhecidos, protegidos e promovidos, como por exemplo, o direito ao voto. Já os Direitos Humanos, são intrínsecos à dignidade da natureza humana, universais, por serem comuns a todos os seres humanos, “[...] sem distinção alguma de etnia [...], de nacionalidade, de cidadania política, de sexo, de classe social, de nível de instrução, de cor, de religião, de opção sexual6, ou de qualquer tipo de julgamento moral [...]” (BENEVIDES, s/d, p. 6), e históricos por sofrerem modificações ao longo do tempo. Os Direitos Humanos nem sempre estão garantidos em leis e devem ser praticados.

No que diz respeito à evolução histórica do conjunto de Direitos Humanos, Benevides destaca três gerações. A primeira diz respeito aos direitos civis, que são direitos individuais, como os “[...] de locomoção, o de propriedade, de segurança, de acesso à justiça, de opinião, de crença religiosa,

5

Artigo publicado na revista Estudos Feministas, Florianópolis, 20(1), 344, janeiro-abril/2012.

6 Não se faz mais, hoje, uso do termo “opção sexual” por fazer menção a uma escolha, sendo,

então, trocado pelo termo “orientação sexual”. A orientação do desejo não corresponde a uma escolha, segundo, por exemplo, vem sendo consensuado no interior dos setores do Movimento LGBT.

de integridade física” (s/d, p. 9). A segunda geração é a dos direitos sociais, não somente para aqueles que estão empregados, mas para todos, “como o direito ao salário, à seguridade social, a férias, a horário, à previdência [...], o direito à educação, à saúde, à habitação” (BENEVIDES, s/d, p. 10). E a terceira geração “[...] é aquela que se refere aos direitos coletivos da humanidade”, como o “[...] meio ambiente, à defesa ecológica, à paz, ao desenvolvimento, à autodeterminação dos povos, à partilha do patrimônio científico, cultural e tecnológico. Direitos sem fronteiras, direitos chamados de solidariedade planetária” (s/d, p. 10).

No artigo utilizado no presente item, Jussara Reis Prá e Léa Epping (2012) analisam ações de cidadania e de proteção dos direitos humanos, especialmente os direitos das mulheres. As autoras explicam que já existem “[...] diversos instrumentos para a proteção e a expansão”, dos direitos das mulheres, e que a ampliação histórica destes instrumentos aconteceu “por meio da ratificação de planos, acordos, tratados ou protocolos, e isso pode ser creditado ao empenho e à mobilização de movimentos de mulheres e feministas” (PRÁ; EPPING, 2012, p. 33). Esse cenário de mobilizações fez surgir o reconhecimento dos Direitos Humanos das mulheres, pois, com ele, veio “[...] uma nova concepção de cidadania fundamentada na ideia do reconhecimento e da ampliação de direitos da população feminina, incluindo os civis, políticos, sociais, culturais, além dos sexuais e reprodutivos” (2012, p. 33). Essa ideia de reconhecimento nos remete a uma passagem de Boaventura de Souza Santos e João Arriscado Nunes, em que revelam ser estratégico para a emancipação, a utilização de conceitos, como o de direitos, “[...] como parte de discursos que articulam as exigências do reconhecimento e da distribuição, de uma igualdade que reconheça as diferenças e de uma diferença que não produza, alimente ou reproduza as desigualdades” (SANTOS; NUNES, 2003, p. 43).

Num segundo momento do texto, Prá e Epping (2012) discorrem sobre a agenda social internacional que incorporou as questões da mulher através das lutas pela expansão da cidadania feminina que ganharam destaque pelos instrumentos de proteção aos direitos humanos. Sobre esta agenda, as autoras afirmam:

[...] com a realização de conferências internacionais e a assinatura de tratados, acordos, protocolos ou convenções, criam-se importantes formas de apoio para confrontar o problema das desigualdades de gênero, tanto em países desenvolvidos como nos em desenvolvimento. Nesse sentido, várias conferências mundiais sobre mulher (México, 1975; Copenhague, 1980; Nairóbi, 1985; e Beijing, 1995) e, em especial, a Cedaw serviriam para definir a natureza e a gama de problemas que afetam o segmento feminino em diferentes sociedades. Expressava-se, assim, uma das faces da experiência participativa das mulheres, propiciando instrumentos para a elaboração de programas e políticas públicas sensíveis à equidade de gênero (PRÁ; EPPING, 2012, p. 41).

Ainda que a participação social feminina junto às Nações Unidas e às agendas sociais internacionais tenham trazido grandes avanços, o “[...] reconhecimento da cidadania feminina e a sua inclusão em programas de governos e em agendas nacionais, a partir dos anos 1990, não têm se mostrado capaz de garantir todos os direitos humanos a todas as mulheres”, o que faz com que estas práticas continuam a demandar atenção de “quem defende a expansão da cidadania feminina e a equidade de gênero” (PRÁ; EPPING, 2012, p. 42). Para isso, as autoras mencionam que deve haver a continuidade do estabelecimento da relação entre feminismo, gênero e capital social, articulação esta, que segundo elas, pode:

[...] ser vista como resultado da mobilização de ativos (recursos) sociais, políticos, culturais e legais acumulados por grupos e organizações de mulheres e feministas, que resultaram em acordos, tratados ou convenções para promover e defender os direitos humanos das mulheres (PRÁ; EPPING, 2012, p. 42).

De acordo com Prá e Epping (2012, p. 47), houve avanços “[...] no reconhecimento dos direitos das mulheres como direitos humanos”, mas ainda encontram-se “[...] limites diante de verdadeiras cadeias de relações de poder que vão do espaço social até o institucional”, tendo em vista que as necessidades podem variar entre as próprias mulheres, “[...] ora motivando demandas por acesso à saúde ou moradia entre as menos favorecidas, ora gerando reivindicações por acesso à educação superior entre as mais favorecidas”. Em contraponto, existem também alguns temas comuns a elas, como a violência doméstica, o espaço político, que são de abrangência

universal e capaz de “unir esses grupos, potencializando a sua capacidade de ação coletiva e o seu poder de reivindicação”(2012, p. 48).

No documento fernandabicharadasilva (páginas 57-60)