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A Identidade Indígena Amalgamada

No documento BR 1500: o caminho da construção do Brasil (páginas 100-104)

III. O BRASIL DE 1500

III.1. A Identidade Indígena Amalgamada

Ao desembarcarem na América, os europeus chamaram seus habitantes de “índios”, talvez por relacionarem-nos aos habitantes das Índias. Como vimos, mesmo que, provavelmente, soubessem que não se tratava de nenhum ponto da Ásia, mas sim de um novo continente, mantiveram o designativo, chamando todos os naturais da terra assim, como se houvessem uma única grande cultura hegemônica e um único povo.

Entretanto, com este termo – índios – os conquistadores rotulavam as populações mais diversas, desde o norte até o sul do continente americano. Tais populações diferiam umas das outras tanto no aspecto físico como nas suas tradições. Membros de sociedades tão distintas como os incas e os tupinambás, que falavam línguas completamente diferentes, que tinham costumes os mais diversos, sendo os primeiros construtores de estradas e de cidades, vivendo num império administrado por um corpo de burocratas e organizado em camadas sociais hierarquizadas, enquanto os segundos viviam em aldeias de casas de palha, numa sociedade sem camadas sociais, em que a maior unidade política era provavelmente a aldeia, eram tanto uns como os outros incluídos na mesma categoria: índios. Nada, pois, havia de comum entre as populações americanas que justificasse serem denominadas por um único termo, índios, a não ser o fato de não serem europeus (Melatti, 2007, pp. 31, 32).17

Certamente, no início era muito fácil para o colonizador identificar um índio: todos que encontraram na América. Com o passar do tempo, não apenas ficou claro tratarem-se de diversos grupos como também tiverem que lidar com a questão da mestiçagem. Do branco com o índio vieram os mamelucos; do branco com o negro, o mulato; do índio com o negro, o cafuzo; e ainda houve os cruzamentos entre os mestiços (Melatti, 2007, p. 32).

Os tupinambás eram recentes na costa brasileira, como veremos. No entanto, no século XVI eram senhores de quase todo litoral sul-americano, desde a embocadura do Amazonas, até a foz do Rio da Prata (Métraux, 1979, p. xxxiii). Conseguiram tal façanha expulsando as tribos que encontraram pelos caminhos. Outras fugiram, simplesmente se interiorizando no sertão. Para os tupis, os povos da terra se dividiam em tupi e tapuia. Os primeiros eram os vários povos que falavam sua língua e tinham modo de vida análogo, enquanto os outros eram vistos como seus escravos, significado da palavra “tapuia”. Por algum tempo, essa simples divisão foi utilizada pelos jesuítas para distinguir os ameríndios do litoral, daqueles do sertão (Ribeiro, 2001, p. 19). É curioso que o primeiro povo que os móbeis portugueses encontraram ao desembarcar na nova terra foram os “itinerantes” tupis, fato que parece prenunciar todas as mudanças que se inauguravam ali

17 Curiosamente isso continua a acontecer em nossos dias. Talvez não haja exemplo mais contundente do

que a visão que se tem do africano, como se África fosse o nome de um país monocultural. Ganhou destaque a crítica da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, quando fala do “Perigo de uma única história”. Veremos mais sobre isso adiante.

e que estenderiam o Brasil cultural e geograficamente ao que é hoje. Analisaremos o “destino Brasil”, quando nossa rota finalmente chegar à Sorocaba oitocentista.

III.1.1 Os Tupinambá do século XVI

Na década de 1550, Jean de Léry conta que os Tupinambá mantinham guerra furiosa e constante contra outras tribos que ele chamava de margaiá, bem como, aos portugueses a quem chamavam de perôs. O objetivo das guerras sem fim não é o de conquistar países ou terras, porque são abundantes. De igual forma, não tem o objetivo de enriquecimento com os despojos dos vencidos ou pedir resgate de prisioneiros. Nas palavras de Jean de Léry: “Confessam eles próprios serem impelidos por outro motivo: o de vingar pais e amigos presos e comidos, no passado (...) E são tão encarniçados uns contra os outros que quem cai no poder do inimigo não pode esperar remissão” (Léry, 1980, p. 183). Uma vez que a guerra é declarada, dizem que, devido à inveterada injúria, jamais poderiam deixar escapar um inimigo que fosse. O ódio é tão intenso entre eles que se consideram perpétuos inimigos. Entendem que atitudes positivas no presente deles não podiam apagar o malfeito passado. Não há o que se pudesse fazer para apagar as antigas injúrias. Tendo a vingança como único objetivo, usam do expediente da falsidade para alcançá-la.18 O autor testemunha a respeito dos preparativos da guerra. Segundo ele, uma

vez que os ameríndios não têm reis ou príncipes, rendem submissa honra aos mais velhos, ouvindo-lhes os conselhos que instigam à batalha:

Nossos predecessores, dizem falando sem interrupção uns após os outros, não só combateram valentemente mas ainda subjugaram, mataram e comeram muitos inimigos, deixando-nos assim honrosos exemplos; como pois podemos permanecer em nossas casas como fracos e covardes? Será preciso, para vergonha e confusão nossa, que os nossos inimigos venham buscar-nos em nosso lar, quando outrora a nossa nação era tão temida e respeitada das outras que a ela ninguém

18 Curiosamente, esse recurso foi utilizado em outras sociedades tribais. Talvez o exemplo mais contundente

seja o que foi analisado pelo missionário e estudioso Dom Richardson que, trabalhando entre os sawis da antiga Nova Guiné Holandesa, em meados do século passado, percebeu que a “traição” era reconhecida como a “virtude” mais celebrada entre eles. Chamavam isso de “engordar com a amizade”. Primeiramente, ganhava-se a confiança da pessoa até que acreditasse que era amiga. Vinha então o culto da traição, quando a vítima era morta, sua cabeça separada e tida como precioso troféu, e o corpo dividido e devorado. Tal questão cultural revestiu-se de enorme problema para o anúncio da fé cristã, uma vez que o grande herói da proclamação não seria Jesus Cristo, mas Judas. Defensor da tese de que havia, por ordenamento divino, um “gancho” cultural para ser utilizado como “porta” para a evangelização de cada povo, Richardson descobriu que a paz entre as tribos que experimentavam a guerra poderia ser alcançada pela troca de crianças. Assim, as tribos rivais recebiam cada uma a criança da outra. Enquanto bem cuidassem delas, haveria paz. Destarte, aproveitou a ideia para introduzir o cristianismo, mostrando que Deus deu seu Filho aos homens a fim de estabelecer a paz entre o Criador e os seres humanos (Richardson, 2000, p. 36ss).

resistia? Deixará a nossa covardia que os margaiá e os pero-angaipá que nada valem, invistam contra nós? (Léry, 1980, p. 184).

Na sequência, aquele que estava falando bate com as mãos nos ombros e nas nádegas e fala em alta voz: “Não, não gente de minha nação, poderosos e rijos mancebos não é assim que devemos proceder; devemos ir procurar o inimigo ainda que morramos todos e sejamos devorados, mas vinguemos os nossos pais!”. Essas ocasiões se prolongavam, às vezes, mais de seis horas. Os presentes ouviam atentos a cada palavra e sentiam-se como que energizados e tudo faziam para congregar logo todos os aliados das aldeias próximas marcando o momento e o local onde viriam se juntar. Suas armas eram o tacape, descrito como uma espada ou machado de madeira vermelha ou preta, geralmente entre um metro e meio, e um metro e oitenta de comprimento. É chata, arredondada ou ovalada na extremidade, com largura de cerca de dois palmos. A espessura do tacape alcançava mais de uma polegada no centro. Afiado como machado, corta por ser feito de madeira dura e pesada. Os guerreiros eram muito hábeis no manejo, especialmente quando enraivecidos. Segundo Léry, dois dos melhores espadachins da época teriam dificuldade de enfrentar um único tupinambá. Também havia o arco feito da mesma madeira preta, possuindo dimensões maiores no comprimento e na espessura do que aqueles conhecidos na Europa.

Um europeu não o poderia vergar e muito menos atirar com ele mas tão somente o conseguiria com um arco desses que usam os meninos indígenas de nove ou dez anos de idade. As cordas dos arcos são feitas de uma planta chamada tucum; a pesar de muito finas, são tão fortes que um cavalo com elas poderia tirar um veículo. As flechas têm quase uma braça de comprimento e se compõem de três peças: a parte média, de caniço, e as duas outras, de madeira preta ajustadas e ligadas muito habilidosamente com fitas de cascas de árvores. Cada qual comporta duas penas de um pé de comprimento perfeitamente acertadas e amarradas com fio de algodão; nas pontas colocam ossos pontiagudos ou pedaços de taquara seca, dura e acerada como uma lanceta ou ainda ferrões de caudas de arraia que, como já disse, são muito venenosos. Depois que os franceses e portugueses chegaram a esse país passaram os selvagens, na falta de fisgas apropriadas, a usar uma ponta de prego nas flechas (Léry, 1980, p. 185).

As guerras eram travadas entre homens de diferentes portes e constituição física. O general Couto de Magalhães apresenta uma classificação dos índios brasileiros conforme suas características físicas, testemunha que é das nações indígenas em pleno século XIX. Dessa forma, temos: 1) O índio escuro e grande; 2) o índio mais claro, de

estatura média; e 3) o índio mais claro, pequeno, característico da bacia amazônica. Em sua opinião, o primeiro tipo é mostra do tronco primitivo, enquanto os dois últimos, produto da mestiçagem daquele com o branco não recente, mas muitos anos antes do chamado “descobrimento” da América (Magalhães, 1975, p. 61).

No documento BR 1500: o caminho da construção do Brasil (páginas 100-104)