CAPÍTULO 3 – E ELES, QUEM SÃO?
3.2 As imagens do aprendiz de LI
3.2.2 A imagem do bom aprendiz no dizer dos professores de LI
Como afirma Reis (2007, p. 70), ao falar sobre a aprendizagem, o aluno (ou aquele que se projeta no lugar do aprendiz para falar) fala do lugar do bom aprendiz. Sendo assim, os dizeres sobre si enquanto aprendiz evidenciam PIs das professoras como aprendizes de LI. Observemos:
JÚLIA: eu leciono língua inglesa porque... na realidade começou tudo como um por acaso porque na realidade eu estava terminando o meu curso de línguas né? de língua inglesa em uma escola de línguas e diante do meu desempenho e do meu interesse pela língua inglesa a coordenadora do curso ((TOSSIU))... como eu tava dizendo a coordenadora do curso ela me convidou para lecionar em sua escola [...] quando eu comecei a estudar inglês na realidade eu AINDA era muito jovem... ham::: por volta dos treze anos de idade eu comecei a estudar porque eu queria fazer vestibular e ESCOLA não me dava condições pra isso [...] durante as aulas de inglês eu me sentia como se eu estivesse em um outro lugar/em um outro mundo sempre ADOREI estudar inglês a falar inglês! Então eu me
sentia muito bem muito confortável! [...] Bem eu acho que a minha
apre/aprendizagem ela foi gradativa né? ham eu aprendi através de blocos de aprendizagem quer dizer eu comecei a aprender no verbo to be depois o present continuous depois o simple present!... E::: ham::: ... e/e tentava memorizar essas estruturas e o vocabulário/tinha um caderno de/de vocabulário onde eu anotava as palavras, que eu ainda não conhecia e tentava forma frases com essa palavra... e:::/e até hoje eu tenho essa mania... Quando eu aprendo uma palavra eu tento forma uma frase ah que faça sentido pra mim pra que eu possa memorizá-la.... Eu acho que eu aprendi muita coisa! Eu aprendi a FALA esta língua, eu aprendi a escrever/eu acho que eu aprendi todas as habilidades necessárias pra eu poder interagir com essa língua! (Coleta 2 – depoimento – professora) JÚLIA TYLER: Eu leciono o inglês pela facilidade com que eu encontrei né? com o inglês desde a quinta série quando eu via/eu tive contato com língua inglesa [...] Bom estudar a língua inglesa... CLARO até hoje não tem como não estudar! Então eu estou sempre com um dicionário em mãos né? que é o mais importante na área inglesa/inglês faço muita busca pela Internet quando preciso de uma informação mais especifica... e GOSTO muito é uma coisa que eu faço com muito prazer!... [...] sempre gostei sempre sempre gostei muito sempre fiz TODAS as atividades semp/ né? (Coleta 2 – depoimento – professora)
Nos depoimentos, percebemos reverberar as mesmas representações do bom aprendiz que flagramos no discurso dos graduandos. Expressões como: bom
desempenho, interesse, fazer as atividades, aprender, gostar da LI, ressoam nos
excertos, a partir de reverberações parafrásticas (em negrito). Ao falar sobre a aprendizagem de LI na EI, Júlia relata de seu bom desempenho e interesse que culminaram no convite da coordenadora da escola para lecionar lá. Seu interesse na aprendizagem do idioma, é reafirmado ao dizer que buscou uma EI pois na ER o ensino da língua não atendia aos padrões exigidos pelos vestibulares que pretendia fazer. Esse interesse pela aprendizagem parece ser/ter estimulado pelo gosto pela língua, pois a professora diz que adorava estudar e participar das aulas de LI. O hábito de estudo compõe a representação do bom aprendiz: Júlia sempre estuda.
No discurso de Júlia Tyler ressoam as mesmas representações do bom aprendiz: tenho facilidade, estudo, gosto do idioma, faço sempre as tarefas de casa. No entanto, a imagem do bom aprendiz parece receber destaque no discurso de Júlia Tyler quando representado no lugar do aluno que faz todas as tarefas, que cumpre seus compromissos de aprendiz. O advérbio de freqüência sempre é utilizado de maneira repetida para enfatizar a referência que a professora faz ao seu comportamento enquanto boa aprendiz (cumpridora das tarefas): “sempre gostei sempre sempre gostei muito sempre fiz TODAS as atividades semp/ né? Os deveres de casa e de aula né?” Parece-nos, ainda, que o cumprimento dos deveres de aprendiz era estimulado por gostar muito da LI. O termo sempre nos remete também a outro efeito de sentido: o de tempo infinito, que compreende o passado, o presente e o futuro. No entanto, precisamos lembrar que essa (re)afirmação da afinidade com a LI é constituída também pela não afinidade com o idioma. O encontro com o outro fascinante da LE (a cultura, as palavras novas, a sociedade) revelado na imagem do bom aprendiz desloca sentidos na aprendizagem: o bom aprendiz é fascinado, apaixonado pela LI, logo não precisa se esforçar para aprender porque isso se torna fácil. Essa imagem revela a contradição do discurso do professor que, mesmo situando-se na posição enunciativa do bom aprendiz que aprende facilmente, demanda do aluno esforço e dedicação na aprendizagem.
Concluindo: o graduando se inscreve no lugar do bom aprendiz no intuito de atender às demandas do professor. Este, por sua vez, sustenta as mesmas representações do bom aprendiz de LI que encontramos nos enunciados dos graduandos. A partir desta constatação, podemos dizer que o discurso dos
professores ressoa nos dizeres dos graduandos e inferir uma representação do professor de idiomas: a de gerador (ou criador) de demandas para os aprendizes. Acreditamos, no entanto, que a demanda pelo bom aprendiz não seja a única criada pelo professor de LI. Para analisar tal afirmação, passemos à representação de professor de LI no discurso dos graduandos.