CAPÍTULO 3 – E ELES, QUEM SÃO?
3.3 As imagens do professor de LI
3.3.2 O professor que domina o conteúdo
3.3.2.1 As representações do professor de LI acerca de si como professores
Júlia, uma das professoras de LI dos graduandos situa o papel do professor na imagem do mediador do conhecimento, como observamos também em outros dizeres do nosso corpus. Essa representação do professor nos remete à imagem do professor de LI no discurso da ciência. Coracini (2003a, p. 195) diz que, nesse discurso (o da ciência) o professor deve atuar como um mediador entre o conhecimento e o aluno. Observemos:
JÚLIA: O que o professor representa na aprendizagem dessa língua? Eu acho que o professor ele é um GRANDE mediador.... Porque é ele quem méd/dia a aprendizagem, uma vez que é ele que vai proporcionar aos alunos ham::: ... o conhecimento da/das regras é::: gramaticais... Ele vai proporcionar aos alunos talvez o conhecimento de/de estratégias para ler... para interagir nessa língua... e é::: eu considero a presença do professor imPORTANTE porque... eu as vezes lembro da minha própria aprendizagem e eu acho que a gente precisa do outro/interagir com o outro! E como a maioria dos meus alunos não tem a oportunidade de interagir com outras pessoas esta é a oportunidade de interagir com o professor e com os colegas dentro da sala de aula. Porque fora da sala de aula, muito se sentem inibidos em interagir com seus próprios colegas, mais a sala de aula proporciona esse espaço. Ah! O que você representa na
aprendizagem de seus alunos?... Eu/eu acho que eu sou uma figura... é::: importante por ser essa mediadora da aprendizagem que eu falei!... Você teria algo a dizer sobre sobre os professores de língua inglesa que fizeram ou fazem parte da sua aprendizagem?... Bem eu tenho... boas lembranças desses professores, porque eles eram comprometidos, planejavam muito bem as suas aulas, conheciam muito bem a língua que ensinavam, e aprendi muito com eles/aprendi muito nessa troca, nesses momentos de interação. Então eu acho que basicamente é isso é justamente é::: pelo conhecimento que eles tinham e pelo comprometimento que eles tinham com o ensino... [...] E enquanto professor como você é? Bem eu me considero uma pessoa muito responsável é::: comprometida com o ensino porque eu me interesso é::: pelas coisas relacionadas a processo de ensino e aprendizagem! Eu pro/procuro ler eu procuro me informar procuro continuar a minha formação justamente pra que eu possa é facilitar esse processo dentro da sala de aula e ser consciente das necessidades dos meus alunos das minhas necessidades ser consciente ah::: sobre as questões políticas que envolvem o ensino ah tento refletir a minha pla/ a minha pratica conversar com outros colegas de trabalho pra que eu possa fazer o melhor... (Coleta 2 – depoimento – professor)
Esse termo, mediador, remete-nos à representação do professor como transmissor de conhecimentos, uma vez que ele deverá mediar a relação entre conhecimento e aprendiz. Neste sentido, visualizamos dois importantes efeitos de sentido na representação do professor.
A primeira: ele é o detentor do conhecimento, pois é ele quem realiza a ação de criar um acesso ao mesmo para o aluno. Percebemos as evidências desse efeito de sentido nos seguintes dizeres de Júlia: “o professor ele é um GRANDE mediador... [...] ele que vai proporcionar aos alunos [...] o conhecimento da/das regras é::: gramaticais... Ele vai proporcionar aos alunos talvez o conhecimento”. Assim o papel de mediador, destacado pela abordagem comunicativa de ensino de línguas, como uma espécie de caminho, via e meio para que o aluno desenvolva os conhecimento que já possui sobre a língua, é deslocado para o lugar de regulador do conhecimento. Aquele que o detém e que o fornece ao aluno. Este, por sua vez, parece não possuir conhecimento algum, pois nem mesmo a capacidade de interagir na LI ele teria e, dependeria do professor para isso. E se entendemos a aprendizagem de LE como um processo de deslocamentos e re-arranjos subjetivos (SERRANI, 1998), o sujeito, enquanto aprendiz, só poderia ser assim considerado quando munido dos conhecimentos que o professor lhe proporcionaria. Percebemos que, na representação de Lucy, o professor se projeta na imagem de poder que sua posição discursiva lhe atribui e corrobora para a hierarquização das relações discursivas da aprendizagem: o professor está acima do aprendiz, pois detém um conhecimento que o mesmo não possui.
A segunda: o aprendiz não possui conhecimentos que possam contribuir em sua aprendizagem de LI. Esta representação faz-nos retornar à imagem do ensino de LI nas ERs: insuficiente, falho. No entanto, nos enunciados de nosso
corpus muitos graduandos afirmam que aprenderam alguma coisa durante seus
estudos, mesmo que de modo precário. Ao desconsiderar os conhecimentos que o aprendiz traz consigo o professor (nega) desconsidera também sua história, suas demandas, suas necessidades. É desconsiderá-lo enquanto sujeito capaz de deslocar-se entre línguas e produzir sentidos nelas. É desconsiderar sua condição de aprendiz, sua história e suas demandas.
Observemos, nos excertos abaixo, reverberações desse discurso nos dizeres dos graduandos:
ANDRÉIA: Eu tenho percebido que::: só depois da faculdade é que a minha aprendizagem foi ampliada... E as minhas aulas de língua inglesa (elas) se ampliou justamente porque::: eu tenho um professor DIDÁTICO né? Eu tenho tido a sorte de ter um professor didático... E::: com isso tudo o professor faz com que as aulas são (aproveitadas) e de fácil entendimento uma vez que ele é o mediador!... E a minha relação com a língua inglesa em sala de aula dentro disso tudo ela tem sido FACILITADA!... Justamente por eu ter esse professor que media todas as coisas... E por esse motivo eu tenho notado que::: eu tenho aprendido a língua inglesa!... Justamente pela professora dominar::: e nos interagir de acordo com o momento. E dentro disso tudo eu percebo que É IMPORTANTE aprender a língua inglesa!... Justamente porque::: ela me dá uma capacidade de aprendizagem maior... né? [...] E::: o professor na aprendizagem dessa língua... é::: ele apresenta um/ uma peça FUNDAMENTAL! Porque ele tem conhecimentos diversificados, né!... (Coleta 2 – depoimento – 7º período)
Para Andréia o professor é didático; isto é, possui boa didática para ensinar: conhece bem o conteúdo, utiliza bons recursos e boas metodologias de ensino, logo ele é o mediador da aprendizagem e, por isso ela é facilitada. Além de facilitada, aprendizagem (ou o conhecimento da LI) de Andréia foi ampliada. O professor mediador é representado em um espaço discursivo que transcende a sala de aula, pois o professor media tudo. Em outras palavras, além de mediar o conhecimento, o professor media todas as outras coisas: a interação entre os alunos, a facilitação da aprendizagem, o domínio do conteúdo e o acesso ao saber, pois ele domina o conhecimento que é diversificado (não só aquele da LI, mas da didática, da metodologia de ensino, dentre outros).
Lucy também inscreve o professor nessa representação de mediador a partir de um movimento parafrástico desse dizer em seu discurso: o professor é um
facilitador, um ajudador e um direcionador. Notamos, também a contradição do dizer de Lucy ao situar o aluno no controle da aprendizagem: “a aprendizagem MESMO a aquisição MESMO se dá através da nossa autonomia da nossa da nossa própria responsabilidade de de... ADENTRAR né? De de adquirir mais da língua...”. Apesar de o aprendiz ser responsável por adentrar na aquisição da LI é o professor quem o direciona, ajuda e facilita essa aquisição. Assim, o aprendiz não é autônomo. Depende do professor mediador para guiá-lo em sua aprendizagem. Observemos o excerto:
LUCY: O professor ele é um/ ele é um ajudador ele é aquele que vai NOS direcionar! Mas a aprendizagem MESMO a aquisição MESMO se dá através da nossa autonomia da nossa da nossa própria responsabilidade de de... ADENTRAR né? De de adquirir mais da língua... (Coleta 2 – depoimento – 7º período)
Essa representação de professor controlador do processo de aprendizagem retorna, dentre os dizeres de outros graduandos, no dizer de Simplício, que atribui a esse professor o caráter de “preponderante” na aprendizagem de LI:
SIMPLÍCIO: Olha a relação do... do professor no processo de ensino- aprendiza/ aprendizado da língua inglesa é::: representa sim um papel PREPONDERANTE de forma que::: em momento ALGUM o professor poderia sair deste contexto... Porque a pessoa que::: aprende o inglês... de forma::: (autodidática)... haverá aprendizado haverá mas::: não haverá troca de EXPERIÊNCIAS! [...] o professor é essa ponte que existe ENTRE materiais didáticos E o inglês EM USO ele é o portador desse discurso ( ) a língua inglesa em uso! E::: além de tudo o professor deve agir como FACILITADOR... [...] E TAMBÉM o professor não ficar passivo nesse::: processo todo e construir também parte do seu::: do seu conhecimento... (Coleta 2 – depoimento – 7º período)
Para Júlia e, certamente, para outros professores de LI; para Andréia, Lucy e Simplício, assim como para outros graduandos que participaram de nossa pesquisa, o bom professor de LI ocupa um lugar discursivo conflituoso: o de controlador do ensino/aprendizagem, que é o discurso pedagógico historicamente instituído no discurso do mestre. Sua função é fazer com que o graduando aprenda, fornecendo-lhe todos os subsídios lingüísticos, metodológicos e práticos para a utilização do idioma, pois é ele quem detém esse conhecimento. O professor precisa fornecer a ele todos os conhecimentos da língua porque o aprendiz não os possui.
No entanto, se percebemos o processo de ensino/aprendizagem de uma LE a partir de movimentos identificatórios, não podemos conceber esse lugar de não saber para o aprender. É a partir do material lingüístico que o aprendiz possui, de suas identificações e discursividades da LM, que o aprendiz opera os deslocamentos discursivos rumo à inscrição em outra língua (SERRANI, 1998). Nesse sentido, o aprendiz, e portanto, o graduando, é um sujeito constituído de saberes, culturas, histórias e discursos dos quais parte para então aprender um outro idioma. Desta forma ele também possui conhecimentos.
É importante lembrar que o professor ocupa o lugar de um saber instituído de poderes; isto é, o professor é detentor de conhecimentos – saberes instituídos em currículos escolares, programas de ensino, em ciências, em livros didáticos, dentre outros (ALMEIDA, 2004; LOPES, 1999; SILVA, 2004, [1999] 2006). Nesta perspectiva, concordamos com Coracini (2003a, p. 195) ao dizer que o discurso da ciência atua em tais representações; uma vez que esta (especialmente a LA) dedica pesquisas à formação de professores e à aprendizagem de LM e LE, logo, são também formadores de imagens de professor e aprendiz de línguas. Essas imagens compõem, também a subjetividade do professor de LI e do graduando em Letras. Segundo Coracini (2003a, p. 196):
O olhar dos especialistas sobre o professor de língua (materna e estrangeira) acaba por constituir, no entrelaçamento de muitos outros, a subjetividade do profissional e o modo como ele se relaciona com a profissão e com os alunos, parte constitutiva de sua identidade.
Desta forma, a imagem do professor e, acreditamos, do graduando em Letras enquanto possível professor de LI e enquanto aprendiz do idioma, são atravessados pelo discurso da ciência que ocupa um lugar discursivo de maior poder que o do professor. Desta forma teríamos uma escala de poder ideologicamente instituída: a ciência, o professor e o aluno. Nos dizeres de Coracini (2003a, p. 199):
Num patamar superior na escala hierárquica, encontra-se, pois, autor- pesquisador-formador, que desempenha a tarefa de conscientizar o professor do que é importante ensinar, e, sobretudo, das estratégias de aprendizagem oriundas de pesquisas sobre os processos cognitivos; em seguida, o professor, que, por sua vez, tem a responsabilidade de motivar e interessar o aluno para que a aprendizagem ocorra, ou melhor, tem em suas mãos a responsabilidade de todo o processo de ensino/aprendizagem; num patamar inferior se encontra o aluno, que, no entanto, é teoricamente, o centro para o qual deveriam convergir todos os esforços pedagógicos. Na
prática, no entanto, percebe-se que a centralização do processo ainda se encontra no professor
Coracini (2003a, p. 195) sintetiza a representação do professor de línguas no discurso científico (a partir da análise de publicações científicas de pesquisas em LA, livros didáticos e dizeres de aprendizes de línguas) em seis enunciados:
a) O professor precisa de teoria, o que indica que ele não a conheça; b) o professor precisa se atualizar, o que indica que ele está/ é
desatualizado quanto à aprendizagem do idioma;
c) o professor deve usar novas técnicas é, portanto, defasado, atrasado; d) o professor deve ensinar a comunicar, portanto não o faz;
e) o professor deve mediar matéria e aluno e
f) o professor precisa refletir, o que indica que ele não o faz.
Observamos que esses dizeres reverberam em nosso corpus, em cadeias parafrásticas: mediador, facilitador, ajudador; e construções deônticas, próprias de um discurso que se quer objetivo, na ilusão de imparcialidade, como o da ciência: o
professor vai facilitar, ajudar a aprender, o professor deve se atualizar (Coracini,
2003a, p. 195-196). Ressaltamos que uma outra forma de inscrição do graduando no discurso da ciência é através do uso de argumentos que confiram credibilidade a seu dizer, no intuito de produzir um efeito de sentido de credibilidade em seu discurso. Sendo assim, os graduandos inscrevem em seus dizeres enunciados de pesquisadores da área, chegando até mesmo a citar seus nomes, como podemos observar no excerto abaixo:
LUCY: E eu pude verificar que tem vários fatores que afetam a aprendizagem de uma segunda língua e que afetaram a minha aprendizagem que foi a a a::: que é a hipótese do filtro afetivo... que::: que fala Krashen... Então ele fala sobre essa::: esse filtro afetivo... “Se o/ se o aprendiz tiver uma baixa auto-estima seu filtro afetivo será bloqueado e a aprendizagem não ocorrerá” ((parece ter sido lido)) E::: inclusive ele afirma que há três fatores né? Krashen fala de três fatores que afetam a aquisição de uma segunda língua... que é a motivação a auto-estima e a (baixa) ansiedade...