SUMÁRIO AGRADECIMENTOS
PASTA 1 DISSERTAÇÃO DE MESTRADO (versão em PDF) PASTA 2 APÊNDICES
I. PROGRAMA ENSINO MÉDIO INOVADOR NO CONTEXTO SOCIAL EMERGENTE
4.4 A implantação do ProEMI na escola – a trajetória de um programa
O Programa Ensino Médio Inovador – o ProEMI – foi introduzido na escola Dr. Pacífico da Luz no ano de 2010. De um universo de 1049 escolas, da Rede Estadual de Pernambuco, apenas 16 foram contempladas com este programa, entre as quais, esta instituição, que foi a pioneira na implantação do programa dentre as 70 escolas da GRE do Sertão do Médio São Francisco, que abrange Petrolina e outras cidades circunvizinhas.
De acordo com a gestora da escola, antes da implantação do ProEMI na Pacífico da Luz, a Coordenadora Pedagógica viajou com uma equipe para o Rio de Janeiro para conhecer a proposta do programa em outras escolas e as experiências exitosas com o uso de ferramentas do dia a dia dos jovens, como o computador, por exemplo.
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Mas, como no roteiro de um filme de ação, o programa teve início, meio e fim, com direito a momentos de muito conflito, atuação dos mocinhos nas cenas mais marcantes, como também, o clímax e o desfecho da trama. Portanto, os últimos capítulos deste enredo foram rodados no ano de 2015 e tem muita história para contar.
Após o primeiro ano de funcionamento do programa na escola, o assunto ganhou o noticiário local, ao chamar a atenção da imprensa pela desenvoltura dos alunos na realização de peças teatrais, a princípio no espaço da própria escola (Foto 17) e depois em outros ambientes. A manchete da Rede Globo (2011) anunciava: “MEC investe em currículo flexível para reduzir o índice de evasão escolar”. Assim, como uma das formas de investir na permanência do aluno na escola, o teatro foi utilizado como um recurso a mais.
Nas aulas de Iniciação ao Teatro, os alunos foram responsáveis pela produção de duas peças teatrais, “O diretor maluco” e “Cega, surda e muda”, nas quais se envolveram em todo o processo: roteiro, direção, iluminação, maquiagem e interpretação dos papéis. A reportagem acrescenta que os alunos conseguiram levar cerca de 800 pessoas ao Teatro do Centro de Cultura João Gilberto, em Juazeiro (BA), mesmo com os ingressos cobrados (REDE GLOBO, 2011). Ou seja, o papel do professor foi auxiliar na elaboração desse trabalho, como coadjuvante e, o destaque principal ficou a cargo dos alunos, que brilharam em suas atuações.
Durante nossas observações, percebemos que as atividades artístico-culturais na escola são constantes, independente da existência do programa. Tivemos a oportunidade de assistir e registrar alguns eventos da escola no ano de 2016, como o Dia Internacional da Mulher, no dia 08 de março; a Páscoa, no dia 12 de março; e o Sarau Poético (Foto 18), no dia 08 de abril, em que os alunos prepararam e organizaram as apresentações (músicas, coreografias, poesias e encenações) e conferimos que o protagonismo é algo muito incentivado pelos professores. Então, não é de se estranhar que os alunos foram capazes de conduzir uma produção teatral com tanta destreza.
Mas, as atividades propostas no início do programa, em 2010, não se resumiam apenas às produções teatrais. De acordo com o depoimento da professora Grace, de Letramento, que foi uma das pioneiras no trabalho com o ProEMI, houve oficinas de Literatura de Cordel, construção do Blog da escola, Jornal e Telejornal, entre outras atividades. Ao obter estas informações da professora, ela também nos cedeu vários documentos que serviram de referências, como vídeos, fotos, o banner exposto a seguir (FIG. 10) e o jornal da escola, materiais produzidos pelos alunos sob sua coordenação.
FIG.10 – Banner do ProEMI
Fonte: Arquivo pessoal da professora de Letramento
Ressaltamos que, durante a pesquisa de campo, percebemos a postura da referida professora em delegar funções aos seus alunos. Em conversa informal com um dos alunos protagonistas da Celebração da Páscoa, ficamos sabendo que a professora deu algumas sugestões e os alunos se encarregaram de criar uma “Tarde de louvor”. Eles foram responsáveis pela organização do evento em todas as suas fases, desde a seleção das atrações, ensaios e culminância.
Ainda na reportagem veiculada na Rede Globo (2011), a professora Letícia Ramos, Coordenadora Estadual do Ensino Médio Inovador em Pernambuco fez o seguinte comentário: “É preciso oportunizar aos jovens uma educação com significado. A ciência, por exemplo, parece muito abstrata, muito distante, coisa de alguém iluminado. A escola fica transmitindo conhecimento que o aluno não se identifica”. O que nos leva a entender que havia uma preocupação em criar condições para as aulas práticas, em que os alunos tivessem a oportunidade de conciliar o saber teórico com a experimentação.
No início do programa, os alunos demonstravam muita empolgação, principalmente por causa da criação do Blog da escola7, que era mantido por eles e frequentado pelos demais quando tinham oportunidade. Este foi o depoimento de um dos alunos registrado no vídeo8 produzido por eles em 2010:
Existem várias atividades legais, mas o que chama mais minha atenção mesmo é o Blog. Toda vez que entro no MSN, Orkut, sempre dou uma passadinha lá no Blog para ver o que tá acontecendo e também é interessante para as outras escolas ver o que está acontecendo no Ensino Médio Inovador.
Percebe-se o destaque dado ao mundo virtual com a criação do blog, aproveitando o interesse dessa geração conectada, tanto na produção e manutenção das informações, como no acesso aos conteúdos produzidos. A valorização da interatividade e a constante conexão dos jovens ao mundo on-line na contemporaneidade demonstra ser uma ideia oportuna, especialmente com o uso de blogs, ainda poucos comuns em ambiente escolar naquela época. Neste mesmo vídeo uma aluna fez o seguinte comentário: “Esse projeto que criaram tá uma maravilha, principalmente a Literatura de Cordel. Graças a Deus consegui me encaixar em alguma coisa que eu gosto. A gente aprende mais sobre as coisas da nossa região”. Em sua fala, a aluna demonstra que encontrou algo em que se “encaixar”, ou seja, do seu interesse pessoal e que foi possibilitado pela oficina escolhida. A fala da jovem também revela a apreciação das “coisas da nossa região”, manifestando seu sentimento de pertencimento. Sentimento que nos faz compreender que somos parte desse contexto e que devemos preservar as manifestações culturais locais como um legado às gerações presentes e futuras.
No entanto, nos deparamos com a supensão do programa na Rede Estadual, que mal começou e já teve sua primeira baixa. Segundo a Coordenadora Pedagógica, o PRC (Projeto de Redesenho Curricular) é feito no ano anterior, mas infelizmente o PRC do ano 2016 não foi solicitado pelo MEC. De acordo com a gestora, o programa funcionou até 2015 com muita dificuldade com um saldo da verba do ano de 2014 e não havia previsão para funcionamento para este ano, uma vez que os recursos financeiros não foram repassados.
Ao ler o documento base do ProEMI (BRASIL, 2014), vamos encontrar o valor atualizado do repasse anual para escolas de tempo integral e com o quantitativo de 400 alunos, as cifras de R$ 56.000,00 (cf. Tabela 1, p. 18). Destes valores, R$ 39.200 eram destinados a custeio, ou seja, compras de material de expediente, serviços, transportes, etc. e R$ 16.800 destinados a capital, que inclui compras de equipamentos.
7 <http://escoladrpacificodaluz.blogspot.com.br>. Acesso em 24 nov. 2016.
No Relatório do ProEMI/2014 (Anexo CD-ROM) enviado à GRE, vamos encontrar que, de acordo com o PRC/2014, foram gastos para a realização das atividades, o valor de R$ 28.000,00 (vinte e oito mil reais). E no ano seguinte, 2015, o Relatório (Anexo) consta que foi gasta a mesma quantia, que somada à do ano anterior chegaremos ao total de R$ 56.0000,00 (cinquenta e seis mil reais). O que deduzimos desta contabilidade é que a escola gerenciou o orçamento com muita parcimônia, e, embora com muitos empecilhos, conseguiu trabalhar dois anos seguidos com o valor recebido somente em 2014.
Por causa do corte no orçamento, o programa foi suspenso na escola no ano de 2016. Assim, do entusiasmo inicial, com direito a passeios, viagens e produções dos alunos, previstos para cada ano, o ProEMI caiu completamente, transformando aquele sonho dourado num pesadelo para alunos e professores, restando para nós averiguar até que ponto as práticas vivenciadas no programa contribuíram ou não para a Inovação Pedagógica. Portanto, a análise das atividades do programa foi uma viagem ao passado, dependendo de uma máquina do tempo movida a vestígios deixados pela trajetória dos sujeitos, um trabalho comparado ao de um arqueólogo ou de um detetive, conforme Woods (1993).
Segundo a gestora, a princípio as oficinas eram optativas, ou seja, não eram obrigatórias para os alunos, os quais tiveram acesso a diversas práticas dos macrocampos oferecidos: Robótica, Letramento, Iniciação Científica, Produção de Artes, Cultura Digital e Acompanhamento Pedagógico. E destes, três eram obrigatórios: Letramento, Iniciação Científica e Acompanhamento Pedagógico. Desta forma, foram os professores que indicaram os macrocampos optativos e suas respectivas oficinas e os alunos escolhiam aquelas das quais queriam participar.
Com o passar do tempo, conforme o programa se estabelecia na escola, as oficinas passaram a fazer parte integrante do horário da escola. Assim, em 2014, os alunos também escolhiam as mais interessantes para eles, e em 2015, os professores passaram a trabalhar em sistema de rodízio, ou seja, os macrocampos eram oferecidos a todas as turmas.
Mas, que mudanças a implantação destes macrocampos trouxe à rotina dos alunos, numa escola que funciona em horário integral?
Vamos comparar a grade curricular padrão da escola integral, tendo como referência o ano letivo de 2016, cujas disciplinas foram distribuídas pela manhã (FIG.11) e à tarde (FIG.12), com os macrocampos que foram trabalhados no ano de 2015 (FIG.13), último ano do programa. Através de um recorte da carga horária geral, tendo como amostra uma turma de cada série, perceberemos alguns aspectos interessantes.
FIG. 11 – HORÁRIO DA EREM – PACÍFICO RODRIGUES DA LUZ – 2016/ MANHÃ
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