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A importância crescente da tributação da renda no contexto pós-moderno

CAPÍTULO I – TRIBUTAÇÃO INTERNACIONAL E ORDEM JURÍDICA PÓS-MODERNA

I.1.1 Tributação no Estado do século XXI

I.1.1.3 A importância crescente da tributação da renda no contexto pós-moderno

Um dos principais desafios enfrentados pelo Estado neste começo de século é a questão da fiscalidade. Os efeitos da crise iniciada em 2008 ainda se fazem sentir ao redor do globo. Na Europa, Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha e, mais recentemente, Itália encontram-se em sérias dificuldades orçamentárias. Até os EUA, ainda a maior economia do mundo, atravessam uma de suas mais duras crises. Em face da atual conjuntura, indaga- se sobre a melhor alternativa para a consecução de superávits orçamentários.

O aumento de tributo é modelo ultrapassado enquanto solução para todos os males, autêntica panacéia. Na busca de soluções, os Estados esbarram na liberalização e na globalização como obstáculos de difícil transposição, pois acarretam a flexibilização das fronteiras e a perda das bases de tributação mais sujeitas à mobilidade (race to the bottom). Assim, diversos sistemas tributários passaram a onerar mais fortemente o trabalho e o consumo em detrimento do capital, cuja refração à alta tributação se relaciona, diretamente, com sua maior mobilidade.

A discussão acerca da adoção de uma política fiscal mais adequada quanto às bases de tributação está além do escopo deste trabalho. Entretanto, a renda se torna cada vez mais importante como fonte de ingressos públicos num ambiente em que os efeitos de

transbordamento (spillover effects) de um sistema tributário impactam, cada vez mais

significativamente, mercados além-fronteiras.

Nesse contexto, a questão da preservação de receitas é importante ao Estado pós- moderno, que deverá desenvolver políticas de estímulo, confiança e transparência ao investidor que se pretenda atrair, assim como ao que já esteja presente em sua jurisdição. No que toca ao não-residente, a tributação na fonte deve compensar outros fatores decisivos de alocação do investimento, inter alia, infra-estrutura, segurança jurídica e mão- de-obra qualificada; já o residente deve se sentir encorajado a permanecer malgrado a sistemática adotada quanto à tributação da renda – territorial ou universal. 29

Entretanto, somente preservar os níveis de arrecadação não basta. O Estado precisa ampliar suas receitas, pois estas, necessariamente, são pressionadas por despesas crescentes a cada ano, que refletem os efeitos causados pela inflação, crescimento

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OCDE. Taxing profits in a global economy- domestic and international issues, OECD, Paris, 1991, ISBN 92-64-13596-0, p. 11.

demográfico, ampliação de aposentadorias e pensões, dentre outros. Eis uma tarefa árida. Afinal, aumentar o ônus fiscal em um ambiente de competição tributária pode levar ao déficit público. 30

Há uma preocupação geral dos Estados quanto à tributação da renda corporativa, pois distorce a alocação do capital internacional; apresenta grande complexidade; afeta a neutralidade e torna o ambiente hostil pela coexistência de diferentes regimes de tributação com redução de barreiras não-tarifárias.31

Por outro lado, a tributação de indivíduos também apresenta percalços. Segundo Vito Tanzi, houve grande crescimento das rendas forâneas de indivíduos nos últimos anos. Tais rendas são tanto mais passíveis de sonegação quanto menor a capacidade de atuação da administração tributária dos Estados. Outro complicador é a existência de tax havens, que, facilmente acessíveis pelos avanços tecnológicos, ofertam guarida aos indivíduos.32

Em síntese, o papel do Estado contemporâneo, quanto à tributação da renda, pode volver os olhos ao passado recente, quando reduziu o intervencionismo típico do Welfare

State reconfigurando-se como Estado Subsidiário, que, em matéria fiscal, se poderia

denominar Estado Fiscal. A tônica do novo formato é arrecadar com eficiência e

igualdade. Logo, austeridade e parcimônia na coleção fiscal para bem distribuir as receitas

derivadas da sociedade é crucial para um Estado prosperar na pós-modernidade.

Nesta esteira, o imposto de renda pode ser visto como importante ferramenta para promover redução de desigualdades de modo eficiente. No caso brasileiro, o contraste entre o bom desempenho da economia e os altos índices de concentração da renda tornam essa análise ainda mais premente. 33

Fato é que a tributação da renda tem alcance amplo, atingindo residentes e não- residentes na jurisdição. Logo, deve se traduzir por regras simples, transparentes, que busquem promover objetivos previstos na Constituição Federal. Assim, para garantir o

30 TANZI, Vito. Globalization, tax competition by the future of tax systems. In: UCKMAR, Victor (org.). Corso di diritto tributario internazionale, 2 ed., Padova: CEDAM, 2002, p.31.

31 Cf. OCDE. Taxing profits in a global economy- domestic and international issues, p.13. 32 Cf. V. Tanzi, Globalization, tax competition by the future of tax systems , pp. 27-28.

33 Conquanto esteja além do escopo desta tese, a análise econômica do direito pode proporcionar resultados interessantes quanto à eficiência de um sistema tributário, por meio da aplicação de ferramental tipicamente econômico. A economia pode ser utilizada como padrão avaliativo para o direito e as políticas públicas, valendo-se da eficiência. Afinal, melhor concretizar objetivos de uma determinada política pública a custos menores do que a custos maiores. O Estado, portanto, na definição de suas políticas públicas está atrelado ao critério da eficiência. As empresas, por seu turno, ligam-se ao lucro. Por conseguinte, um bom sistema jurídico deve promover a lucratividade das empresas e o bem-estar dos jurisdicionados, de modo que os que buscam lucro devem beneficiar o público. Outro objetivo das políticas públicas é promover igualdade. Para isso é preciso distribuir riqueza. Para maior investida sobre análise econômica do direito, v. COOTER, Robert; ULLEN, Thomas. Direito e economia, 5. ed. Porto Alegre: Bookman, 2010.

desenvolvimento nacional (art. 3º, II, CF), é legítima a atuação no sentido de atrair capital. Todavia, o cenário de competição internacional por riquezas não deve, de plano, sobrepor- se a outros dispositivos constitucionais que informam a tributação da renda, como legalidade, igualdade, não-confisco (arts. 150, I, II e IV, CF), além de outros sob a ordem econômica, como livre-iniciativa e livre-concorrência (art. 170, caput e I).

Segundo Tipke e Lang, o imposto de renda apresenta elevado valor de equidade cuja concreção depende que a generalidade das pessoas e a universalidade das rendas sujeitem-se à sua imposição. Na prática, por ser um imposto mais facilmente perceptível, sofre resistência por parte dos contribuintes, tornando-se administrativamente custoso. Uma das formas de resistência é o lobby, cujo fim está em reduzir o ônus tributário, afetando a qualidade de justiça do imposto de renda. 34

Por conseguinte, o Estado pós-moderno deve atentar para a coerência dos institutos da tributação da renda com o ordenamento jurídico. Preciso observar se tais institutos servem ao fim que lhes deu causa. Objetivos estritamente arrecadatórios devem ser cotejados com objetivos de atração de capital, pois, conquanto não sejam excludentes, a convivência entre eles exige harmonia necessária a que o Estado contemporâneo possa buscar receitas sem prejuízo de sua atratividade aos investidores.