CAPÍTULO I – TRIBUTAÇÃO INTERNACIONAL E ORDEM JURÍDICA PÓS-MODERNA
I.2 CONCLUSÕES DO CAPÍTULO
II.1.6 Sistemas Tributários Competitivos
Em termos de fluxo de IED, o Brasil tornou-se o 5º destino mais atrativo do mundo, segundo os dados divulgados pela UNCTAD em seu World Investment Report 2011.96 O País subiu dez posições em apenas um ano, colaborando para que o fluxo de IED aos países em desenvolvimento (inflow) superasse, pela primeira vez, o volume destinado a países desenvolvidos. Ante este resultado alvissareiro, cumpre indagar o que teria feito as MNEs aumentarem seus investimentos em PED. A UNCTAD aponta para rápida recuperação da economia no contexto da crise de 2008, demanda interna aquecida, e crescimento do fluxo sul-sul, todos fatores econômicos que poderiam ser resumidos em apenas um único objetivo das MNEs: manterem-se competitivas no cenário da produção
mundial.97
Se o investidor estrangeiro pretende se manter competitivo no cenário internacional, correndo riscos no exterior em vez de investir em sua própria residência, é por encontrar ambiente propício a tais realizações. Seria uma análise do fluxo de IED em sentido inverso (outflow). Sob este ângulo, embora ocupe posição destacada no âmbito da América Latina, 98 o Brasil não lista entre os 20 principais exportadores de investimento,
95 G20. Declaration on Strengthening the Financial System. Disponível em: www.g20.org. Acesso em 01 dez 2011.
96UNCTAD, World Investment Report 2011, p.3. Disponível em:
http://www.unctad.org/Templates/webflyer.asp?docid=15189&intItemID=2068&lang=1&mode=downloads. Acesso em 10 out 2011.
97
Cf. UNCTAD, World Investment Report 2011, p.3.
diferente do que ocorre com os outros BRICs, já que China, (5ª posição), Rússia (8ª) e Índia (20ª) desenvolvem política de investimento de forma ambivalente. 99
Naturalmente que uma análise completa acerca dos fatores que podem ter conduzido o Brasil a esse bom resultado deve considerar variáveis que estão além do escopo deste trabalho. Entretanto, a tributação, enquanto um dos fatores de influência sobre a alocação do IED, pode ser útil instrumento de competitividade para o País, o que justifica a seqüência das análises.
A configuração de um sistema tributário competitivo requer medidas no campo da
fiscalidade e da extrafiscalidade, além de outras referentes à atuação eficaz e harmônica de
organismos ligados ao Executivo, Legislativo e Judiciário que, de alguma forma, participam da relação entre Estado e contribuinte, como agentes de fiscalização, cortes administrativas, legisladores e magistrados. A pós-modernidade exige transparência,
agilidade e coerência nas respostas à sociedade internacional.
A seguir, passa-se a sintetizar algumas características relevantes para o aumento da competitividade no cenário internacional, com base na lição de Joachim Lang,100 sem que se afaste da teoria da internacionalização da produção, iniciada por Hymer.101
(i) Eficiência econômica da tributação: Sistemas tributários competitivos são
eficientes do ponto de vista econômico, o que se verifica pela relação de benefício entre carga tributária e fatores de localização do investimento. Quanto mais fatores locacionais favoráveis, menos o Estado oferta incentivos fiscais; já a ausência dos primeiros leva a maior oferta dos últimos.
Um sistema tributário eficiente deve ofertar neutralidade de decisão econômica, evitando, ao máximo, o efeito alocativo. Assim, distorções da eficiência econômica seriam causadas por normas tributárias indutoras com suas onerações especiais e auxílios fiscais ou, ainda, por cedularização da renda que deveria ser gravada com base na universalidade.
Ocorre que não há – e parece não ser possível haver- tributo que não influencie o comportamento do agente econômico. Neste ponto, está-se diante de uma utopia. Ao legislador, ao invés de buscar atingir a neutralidade, melhor seria “ponderar os efeitos
99 A China vem promovendo uma notável expansão, adquirindo ativos no exterior em ampla faixa de segmentos e países, havendo superado, inclusive, os japoneses no total de saída de IED ao atingirem US$ 68 bilhões de IED em 2010. Cf. UNCTAD, World Investment Report 2011, p.7
100
Cf. J. Lang, A tributação das empresas no contexto da concorrência internacional, pp. 29-37. 101 V. tópico II.1.1 supra.
econômicos de suas medidas, utilizando-se das normas tributárias (...) para indução (...) visando às finalidades da própria intervenção econômica.”102
Com base nesse raciocínio, o enfoque sobre a neutralidade recairá, prioritariamente, no escopo da livre concorrência. Em outro dizer, não a neutralidade decorrente da insipidez do tributo para o agente econômico, mas aqueloutra que deve inspirar condições de igualdade no mercado, a neutralidade concorrencial, que merecerá um tópico infra.103
A eficiência econômica, pois, não pode significar um tributo neutro do ponto de vista do investidor, mas um que esteja ajustado aos fins da ordem econômica, atuando para a concretização de seus objetivos.104
(ii) Alíquotas tributárias competitivas: a redução de alíquotas parece o caminho
político mais simples para aumentar competitividade, uma vez que melhora a relação entre carga tributária e outros fatores locacionais. A redução das alíquotas e a ampliação da base de cálculo iniciada pelos EUA, nos anos 80, tornou-se tendência mundial.
Dados do Relatório da KPMG, intitulado Corporate and Indirect Tax Rates Survey
2010, demonstram ter havido queda na alíquota média global do imposto de renda da
pessoa jurídica, no período 2005-2010 de 27,86% para 24,99%. No mesmo período a alíquota média dos membros da OCDE decresceu de 28,31% para 25,94%.105 O Brasil manteve-se com a imposição de 34%, composta por uma alíquota básica de 15% e um adicional de 10% sobre lucros tributáveis que ultrapassarem R$ 240.000,00/ano, ao que vem acrescer uma alíquota de 9% a título de contribuição social sobre o lucro líquido- CSL.
(iii) Concretização do princípio da capacidade contributiva
A concretização da capacidade contributiva no contexto da tributação corporativa se dá pelo princípio da renda líquida, que demanda a dedução de gastos necessários à atividade empresarial.
Inobstante a dedução de todas as despesas necessárias à obtenção da renda possa ser impossível, pois esta não é alcançada integralmente pelo legislador, havendo limites, inclusive, de ordem prática- em nome da igualdade deve a renda líquida ser perseguida.
102 SCHOUERI, Luís Eduardo. Direito tributário. São Paulo: Saraiva, 2011, p. 39. 103
V. II.2.2.4.
104 SCHOUERI, Luís Eduardo. Direito tributário. São Paulo: Saraiva, 2011, p. 39
105KPMG, Corporate and Indirect Tax Rates Survey 2010,p. 29. Disponível em: http://www.kpmg.com/lu/en/issuesandinsights/articlespublications/pages/kpmg'scorporateandindirecttaxrates urvey2010.aspx. Acesso em 07 nov 2011.
Lang cita a reforma da tributação corporativa alemã de 2008, que, para financiar a redução de alíquotas, violou, substancialmente, o princípio da renda líquida objetivo ao vedar deduções com despesas financeiras e prejuízos em um mesmo grupo econômico. Em conclusão, sustenta que transgredir limites da capacidade contributiva abala a competitividade de um dado regime de tributação, já que a vida da empresa fica seriamente em risco em tempos de crise.
(iv) Simplicidade e Transparência na tributação
Esse é um dos maiores desafios ao Brasil, pois para ser competitivo, um sistema tributário deve ser estruturado em princípios, de forma lógica e coerente. A primeira máxima tributária de Adam Smith – igualdade – unifica capacidade contributiva e benefício. A segunda – certeza- prega um direito tributário o mais compreensível possível. O sistema brasileiro é tão complexo que mesmo tributaristas correm alto risco de aconselharem mal, o que inibe o investidor estrangeiro.
Diversos fatores contribuem para a complexidade de um sistema de tributação da renda. O legislador poderá conferir tratamento diverso a espécies de renda (do trabalho, do capital) ou prever distintas formas de tributação (definitiva na fonte, apuração do lucro real ou presumido). Poderá, igualmente, introduzir diferentes taxas de depreciação conforme a vida útil do bem. Além disso, a tributação estará sempre ligada à própria complexidade social, exigindo incidência sobre diferentes manifestações de riqueza. No caso do Brasil, uma dificuldade a mais resulta da estrutura federativa do País, que, por vezes, gera incidências múltiplas sobre a mesma base econômica.106
Do mesmo modo, a transparência das decisões e políticas implantadas é vital para a segurança do investidor estrangeiro. Configurando-se como princípio ético-jurídico implícito na Constituição Federal, a transparência, no dizer de Ricardo Lobo Torres, atua como mecanismo de superação das contradições trazidas pela globalização, marcadas pela insegurança dos capitais voláteis e redução da imposição fiscal sobre as MNEs.107
Considerada a pior jurisdição do mundo no que toca ao cumprimento da obrigação tributária, exigindo dos contribuintes a média de 2.600 h/ano enquanto a média mundial perfaz 282h/ano, o Brasil, neste quesito, muito tem a superar.108 Medidas de simplificação
106 Cf. L.E.Schoueri, Direito tributário, p. 42.
107 TORRES, Ricardo Lobo. Tratado de direito constitucional financeiro e tributário- valores e princípios constitucionais tributários, v. II. Rio de Janeiro: Renovar, 2005, pp. 244 e 247.
108
Os dados se referem a todo o sistema tributário brasileiro, sendo a tributação da renda apenas parte do conjunto. V. BANCO MUNDIAL; CORPORAÇÃO FINANCEIRA INTERNACIONAL e
como o SIMPLES para o pequeno e médio empresários, assim como o SPED – Sistema Público de Escrituração Digital –, em implantação nas três esferas de governo, deverão reduzir a burocracia em questão.
Simplicidade, clareza, objetividade e transparência são obrigações de Estado e contribuintes no combate a favorecimentos e corrupção.
(v) Qualidade da administração tributária e segurança no planejamento tributário
Os tributos devem ser formatados para arrecadar ao máximo com o mínimo de despesas da Administração. O contribuinte, para planejar suas disponibilidades de caixa, precisa de segurança no planejamento tributário. Logo, espera do Estado, decisões definitivas, claras e coerentes. Alterações constantes da legislação tributária dificultam o entendimento e aumentam custos para atender as normas. A Constituição Federal, em seu art. 150, expressa notáveis especificações sobre proteção da confiança,109 que precisam ser bem disseminadas na seara administrativa, exigindo formação de pessoal conhecedora dos princípios constitucionais, especialmente para o atendimento do contribuinte.