O ensino de Ciências aborda questões de princípios científicos que nos ajudam a compreender o mundo e as relações que nele se estabelecem, sejam essas entre os seres vivos, sejam entre esses e o ambiente. Como forma de auxiliar os alunos na compreensão desses fenômenos e a partir deles estabelecer uma relação entre teoria e prática, o professor de Ciências pode lançar mão da experimentação e a diversificação em suas aulas, por meio do uso de diferentes metodologias (GIORDAN,1999; GUIMARÃES, 2009; ATAÍDE; SILVA, 2011).
Inúmeras modificações relacionadas à melhoria da qualidade do ensino de Ciências Naturais basearam-se nas atividades experimentais desde a década de 1960. Nesse período as práticas de ensino e a utilização de experimentações eram alternativas adotadas para formar cidadãos com base na racionalidade e em informações confiáveis, de modo a cooperar para o bem coletivo (KRASILCHIK, 1988).
Enquanto professores, temos a tendência de repetirmos aquilo que nos foi ensinado, recaindo sobre os processos escolares que nos acompanham na escola diariamente, o modo como o aluno aprende. É possível, no entanto, propor atividades que poderão fazer diferença na aprendizagem dos alunos. Dessa forma, diante da dificuldade em ensinar determinados conceitos, o professor pode lançar mão de metodologias diferenciadas de ensino, objetivando uma melhor compreensão e aprendizagem dos alunos, enriquecendo o conteúdo por meio de diferentes abordagens do mesmo (GUIMARÃES, 2009).
Para Libâneo (1992), a prática docente é um conceito abrangente. Nela estão incluídas diversas ações que influenciam o processo de ensino e aprendizagem dentro e fora da sala de aula. Nesse contexto, o conhecimento adquirido pelos alunos através da prática educativa exercida pelo professor e seu modo de ensinar é de suma importância para toda a trajetória educacional dos educandos e da própria escola.
A utilização de diferentes ferramentas e metodologias podem auxiliar o professor na dinamização das aulas, agregando aos diversos conteúdos escolares, fatores como
motivação, desenvolvimento de habilidades e atitudes, parceria e cooperação, entre tantas outras qualidades que esperamos que os alunos desenvolvam no processo educativo, assim como o próprio desenvolvimento cognitivo (BORBA,1996).
Krasilchik (2004) descreve o uso da experimentação nas aulas de Ciências como o momento em que o aluno tem a oportunidade de reestruturar seu pensamento, iniciando-se, assim, na educação científica. Vale ressaltar que a experimentação em si não é capaz de desencadear no aluno o aporte científico de uma teoria, mas ambas devem fazer parte do processo de produção do conhecimento, teoria e prática.
Segundo Santos (2014), em qualquer nível de ensino considerado, o ensino de Ciências requer o envolvimento entre teoria e prática, objetivando integrar os conhecimentos científicos àqueles adquiridos pelos estudantes durante a vida cotidiana, advindos do senso comum e de suas vivências.
Importante considerar que tais práticas de ensino não devem se restringir a uma reprodução mecanizada de conteúdos e criação de modelos que não tenham sentido para os alunos; ao contrário, devem permitir que desenvolvam os conceitos estudados a partir de suas próprias observações (GIORDAN, 1999).
Nessa via, deve-se considerar que o professor utilize a experimentação (OLIVEIRA, 2010) ou qualquer outra forma de metodologia diferenciada nas aulas, de modo a ter claros os objetivos propostos, as habilidades a serem desenvolvidas, assim como, quais conceitos serão norteadores do trabalho, tudo isso feito de maneira planejada e definida pelo professor (SANTOS, 2014), para que possa contribuir no processo de ensino e aprendizagem de Ciências (Quadro 1).
As atividades experimentais se configuram por diferentes objetivos, oferecendo diversas contribuições ao ensino e à aprendizagem dos alunos, podendo ser empregadas em vários momentos nas aulas e aos diversos conteúdos do currículo. Para que esses objetivos possam ser atingidos, os professores devem selecionar as ações que julguem mais adequadas, focalizando aquelas que acharem mais coerentes com o assunto abordado, as relações a considerarem entre teoria e prática e os materiais que tiverem disponíveis (GIORDAN,1999; GUIMARÃES, 2009; ATAÍDE; SILVA, 2011).
Quadro 1 - Contribuições das atividades experimentais no ensino e aprendizagem de Ciências.
Para motivar e despertar a atenção dos alunos Para desenvolver a capacidade de trabalhar em grupo Para desenvolver a iniciativa pessoal e a tomada de decisão Para estimular a criatividade
Para aprimorar a capacidade de observação e registro de informações Para aprender a analisar dados e propor hipóteses para os fenômenos Para aprender conceitos científicos
Para detectar e corrigir erros conceituais dos alunos
Para compreender a natureza da Ciência e o papel do cientista em uma investigação Para compreender as relações entre Ciência, tecnologia e sociedade
Para aprimorar habilidades manipulativas Fonte: adaptado de Oliveira, 2010.
Nesse sentido, Araújo e Abib (2003, apud OLIVEIRA, 2010) classificam as atividades experimentais em três formas: atividades de demonstração, verificação e investigação (Quadro 2).
Tais atividades servem como uma complementação ao trabalho do professor, auxiliando-os com estratégias que favoreçam os processos de ensino, diversificando os meios pelos quais ensina. Os alunos, assim, podem ser envolvidos no processo de aprendizagem, não como meros expectadores, mas contextualizando de diferentes maneiras aquilo que é realizado na escola, refletindo as competências alcançadas com o auxílio dessas abordagens diferenciadas de ensino.
Vale ressaltar a importância do planejamento dessas aulas, que, além de tempo, demandam criatividade e motivação dos professores, uma vez que, dependendo da atividade que se irá realizar, tem-se a necessidade da preparação antecipada de materiais, organização desses num local próprio que pode não ser a sala de aula, além de um roteiro pré-elaborado daquilo que se pretende fazer, deixando claros os objetivos desejados, a participação dos alunos nesse momento e o papel do
professor nesse processo (GIORDAN,1999; GUIMARÃES, 2009; ATAÍDE; SILVA, 2011).
Quadro 2 - Classificação das atividades experimentais.
ATIVIDADES DEFINIÇÃO ESTRATÉGIAS SUGERIDAS
Demonstração
São aquelas em que os alunos apenas observam o que é realizado pelo professor; tornam os conceitos ensinados mais perceptíveis; podem ser utilizadas no início ou fim de aulas expositivas, em espaços como as salas de aula, demandando poucos recursos e tempo para execução. Como pontos negativos, podem não favorecer discussões, dependendo da abordagem do professor, e limitar a interação entre os alunos.
Perguntar o que os alunos sabem sobre o assunto, conhecer suas perspectivas em relação à demonstração que será realizada;
Solicitar registro de todas as etapas da demonstração; Explicar o modelo científico
comparando-os às ideias dos alunos;
Utilizar questionários para que se possa discutir o assunto demonstrado.
Verificação
São aquelas que servem para confirmar alguma lei ou teoria; favorecem a observação de fenômenos e comparação de parâmetros; proporcionam a visualização daquilo que está sendo ensinado; podem ser realizadas após uma aula expositiva e/ou uma demonstração; possibilitam aprender técnicas e verificar hipóteses.
Solicitar que os alunos relatem suas observações acerca dos fenômenos expostos durante o experimento;
Sugerir variações no procedimento com o intuito de formular hipóteses;
Permitir que os alunos reflitam sobre as variáveis testadas; Comparar dados e levantar
discussões.
Investigação
Permitem maior participação dos alunos em todas as etapas do trabalho; buscam solucionar problemas; não possuem um roteiro fechado com etapas definidas a serem seguidas; favorecem maior reflexão sobre os processos.
O professor deve auxiliar como mediador dos processos, incitando a formulação de perguntas dentro dos contextos que surgirem;
Os resultados não são previsíveis, os alunos devem ser instigados a refletir para propor soluções.
Fonte: adaptado de Araújo e Abib (2003, apud OLIVEIRA, 2010).
A metodologia utilizada com as atividades diferenciadas tende a fortalecer os processos de ensino e aprendizagem, corroborando com uma escola mais dinâmica, aperfeiçoando as aulas para que essas não sejam consideradas “chatas, repetitivas, estressantes”, podendo esclarecer dúvidas e estimulando outras, o que vem a
fortalecer o método de ensino de Ciências por investigação, método proposto na BNCC.
Em quaisquer modalidades de ensino, a relação entre teoria e prática deve ser o ponto central, objeto do processo de aprendizagem, ampliando o conhecimento do aluno por meio da interação do método científico ao senso comum, objetivando aprimorar sua capacidade de conhecer, de identificar, de fazer, de se relacionar, enfim, desenvolvendo suas potencialidades.