Quando os operários forem instruidos desapparecerão por completo das officinas essas pequenas misérias intrigas mesquinhas com que os operarios se inutilizam e se aviltam reciprocamente, justificando o baixo e condemanavel adágio: “que o nosso maior inimigo é o official do mesmo officio” E’ preciso que os operarios fiquem convencidos que o respeito mutuo, que devemos a nós mesmo e a classe que nos ufanamos de pertencer, impõe-nos o dever de tratar os collegas com toda a distincção, fazendo d’elles uma idéia elevado e digna, afastando de nós o pessimismo de julgar-mo-nos melhor de
quem quer que seja118.
As linhas escritas por Carlos da Costa Fontella119, contempladas na abertura do capítulo e retomadas na passagem acima, apontam para uma das pautas que compunham o programa da União Operaria do Engenho de Dentro para alcançar a tríade União, Paz
e Justiça120, entoada por Elisa Scheid, em coluna publicada na folha A União Operaria:
a instrução. Ainda que isso não esteja contido, claramente, na bandeira erguida pela organização, a questão perpassava os objetivos de seus associados, como observamos nas páginas anteriores, que vislumbravam impetrar a emancipação dos operários que habitavam os subúrbios.
Na coluna A Intrucção do Operario, Carlos Fontella elenca os motivos pelos quais, na sua concepção, os trabalhadores precisavam ser instruídos. De acordo com o autor, a classe trabalhadora precisava dominar seus direitos e as leis do país para, assim, escolherem cidadãos preparados para serem collocados nos poderes supremos do paiz, prevenindo-se com estadistas de merito reconhecido e probidade indiscutível e assim teremos o governo que é tão instantemente reclamado para o progresso social e para a felicidade do povo. Para o operário e 2º orador da UOED,
[...] elles conhecendo os seus direitos e as leis do paiz terão o espirito sufficientemente esclarecido e saberão bem escolher os cidadãos mais aptos para serem collocados nos poderes supremos do paiz, prevenindo-se com estadistas de merito reconhecido e probidade indiscutível e assim teremos o governo que é tão instantemente reclamado para o progresso social e para a felicidade do povo.
118 A União Operaria, 1º de maio de 1904.
119 Ferroviário e operário modelador nas oficinas de locomoção da Estrada de Ferro Central do Brasil. No
início do ano de 1904, ocupou a função de 2º orador da UOED e, em agosto do mesmo ano, foi o 1º orador da entidade.
84 No dia em que ele tiver consciencia de sua responsabilidade, não se dará mais este crime político que se chama “abstenção das eleições” que outro nome não tem senão o de “suicídio moral do povo”.
O que se percebe é que a instrução emergia como algo fundamental para a inserção dos trabalhadores na cena política da cidade, para que eles estivessem inseridos nas lutas e disputas em voga nos primeiros anos do século XX. Conforme assinalamos anteriormente, o fato de o voto ter relação direta com a instrução, já que só os homens alfabetizados tinham direito a isso, fazia com que as associações, como foi o caso da União Operaria do Engenho de Dentro, se mobilizassem em defesa da formação da classe trabalhadora.
Com relação ao analfabetismo dos operários, Francisco Nunes Lobo, operário representante da União Operaria Do Engenho de Dentro, assinou a coluna De longe...121 e fez duras críticas à situação que atingia os operários. No decorrer das linhas, o representante da organização ressalta a importância de os operários serem alfabetizados e, com isso, afastados daquela que era a doença das raças esfaimadas e escravizadas.
De acordo com o autor, se os trabalhadores não fossem ignorantes e não desconfiassem da sua própria força, não admitiriam os patrões; e que se o trabalho fosse organizado de maneira coletiva, de forma que o capital e as ferramentas fossem postas a serviço da utilidade social, os patrões teriam desaparecido. Para Francisco, só havia uma alternativa de mostrar à burguesia que os operários não eram incultos como esses supunham; na perspectiva do operário, era fundamental que os trabalhadores soubessem defender seus direitos, mantendo-se unidos e conservando a mais estreita solidariedade e a mais leal camaradagem. Nas palavras de Francisco, se antes os trabalhadores eram rudes, naquele momento, os tempos eram diferentes e, de um lado a outro do país, soava um clarim, bradando a união dos operários.
A partir de ambas as colunas, se observa o caráter difundido pela organização, desde a sua fundação, cujo objetivo maior era promover a união dos operários e defender os direitos da classe trabalhadora, através dos meios legais, e promover a instrução de seus associados por intermédio de escolas, bibliotecas, palestras e jornais (FRACCARO, 2008). E, de fato, tais iniciativas faziam parte da organização dA União Operaria, que trazia a trabalhadora Appolonia Thereza Leite da Silva, que no cargo de
85 bibliotecária divulgava as ações propostas pelas Escolas Operarias Elisa Scheid, oferecia aulas noturnas e diurnas, além de trazer esses temas para as colunas da publicação de propriedade da UOED.
Na coluna intitulada De Campos122... Damasio Gomes da Silva, presidente do Centro Operário e representante da UOED, destacou que enquanto a sociedade continuasse a considerar a ordem dos que trabalham como inferior, certamente que a miseria estar[ia] com o trabalho e, para ele, o operariado só quebraria os grilhões do poderio do Estado, destacando a importância da completa explanação na instrucção obrigatoria sem distinção.
Já em outro artigo, intitulado Partido Operario Independente123, que no capítulo a seguir será apresentado de maneira mais aprofundada, a redatora e presidente do partido, Elisa Scheid, voltou a ressaltar a preponderância da instrução para os operários. Ao apresentar as diretrizes do partido, a líder sindicalista reafirma que os trabalhadores não deveriam destruir, nem conservar e, sim, reformar e que eles deveriam se unir pelos verdadeiros vínculos da fraternidade
[...] procurando a instrucção pelo cultivo do espirito, a educação pela cultura d’alma firmando assim pelos meios pacificos, generosos e indestructiveis, a ampla e solida base sobre a qual edificará a sua reforma social, será bello o seu porvir cheio de esperanças gloriosas. O que se observa é que a questão da formação dos operários estava para além do ler, escrever e contar, até então vistos como bases da instrução primária nos anos posteriores à proclamação da República. Esses trabalhadores se educavam como classe e a educação se configurava como um primordial elemento para dar continuidade às lutas do movimento operário e associações, como a União Operaria do Engenho de Dentro, que se organizou com o intuito de congregar pessoas atuantes, que apresentassem interesses comuns e que buscassem o ideal de civilização e progresso (COSTA, 2018; MAC CORD; BATALHA 2014).
Naquela configuração, em que o liberalismo conquistava hegemonia, o associativismo representava um espaço significativo “tanto para o fortalecimento da emergente sociedade civil quanto para a organização de suas múltiplas demandas” (MAC CORD; BATALHA, 2014, p. 11). Essas associações se constituíam enquanto frente meritória em favor da igualdade social, do direito a melhores condições de vida e
122 A União Operaria, 1º de maio de 1904. 123 A União Operaria, 8 de outubro de 1905.
86 de trabalho para aqueles que já eram explorados por seus patrões, como foi possível acompanhar, a partir das notícias explicitadas ao longo desse capítulo.
Maciel (2006, p. 279) destaca que, embora alguns estudos históricos apontem para um caráter paternalista do Estado, uma participação popular, por meio da máquina governamental e não através da organização por interesses dos próprios trabalhadores, como uma tentativa de minimizar essa experiência dos trabalhadores ou silenciar “suas formas de pensar e agir e seus espaços conscientes no fazer da nossa história”, faz-nos perceber que o movimento operário estava acontecendo de forma consonante ou divergente das ações propostas pela máquina estatal, substancialmente, no que encerra A União Operaria do Engenho de Dentro, que tinha um líder vinculado a figuras respeitáveis da burguesia suburbana. Assim, é possível supor que esses sujeitos encampavam suas lutas, mediante as desigualdades vivenciadas por eles, no cotidiano das oficinas e fábricas espalhadas pela cidade.
Esse debate, realizado nas páginas da publicação, reitera a hipótese de que os trabalhadores estivessem atuando em muitas frentes, na tentativa de instruir a classe operária, e que não se limitavam a aceitar as condições sociais impostas pelos patrões e pela burguesia. Na coluna Vencer ou morrer, assinada por Benjamin Moyses Prins124, 1º orador oficial da União Operaria do Engenho de Dentro, era ressaltada a relevância de os operários comemorarem o 1º de maio e mostrarem à burguesia que eles não precisavam de seus patrões para a manifestação de seus prazeres com aquela data e que a única coisa que eles exigiam dos patrões era a liberdade do trabalho da consciência do direito político e a justa remuneração de seu produto, a sua mão de obra.
Ainda de acordo com o representante da organização, para que os operários se tornassem resistentes às forças burguesas, seria fundamental que a instrução fosse a sua base principal. Para Benjamin, somente a partir da instrução os trabalhadores tomariam conhecimento de seus direitos e deveres, só através da formação intelectual os operários tomariam conhecimento daquilo que defendia a classe trabalhadora, mediante seus interesses.
Em nossa análise, retomando as palavras que abriram o presente capítulo, a questão da instrução, assim como as que envolviam melhores condições de trabalho e
124 Membro da UOED, 1º orador oficial da organização, no ano de 1904, foi representante da mesma,
juntamente com José Roberto Vieira de Mello, no 1º Congresso Operário Brasileiro. Porém, no ano de 1907, acabou expulso por assembleia geral, em virtude da acusação de malversação de fundos; pouco tempo depois de tal denúncia, deixou o Brasil (BATALHA, 2009).
87 moradia, era uma das principais reivindicações dos operários membros dA União Operaria do Engenho de Dentro, para que esses sujeitos “evoluíssem” moral, social e intelectualmente. O que se compreende, com base nas páginas que compõem este capítulo, é que a temática da instrução atravessou um considerável número de colunas da publicação de propriedade da organização suburbana, possivelmente, não apenas pelo fato de essa pauta estar sendo discutida nas esferas pública e particular, mas também por contar com Elisa Scheid, uma importante personagem do associativismo suburbano.
Nos trilhos conseguintes, partindo da imprensa do período, desvelaremos a atuação dessa professora no movimento operário, suas considerações acerca da educação deles e para eles e suas várias iniciativas nesse campo. Agora, é momento de seguir os trilhos do trem e chegar à última estação dessa viagem.
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- CAPÍTULO 3 –
Elisa Scheid: entre as salas de aula e a liderança operária
Firma-se pois em provas indestructiveis e bellisimas o dogma que faz a instrucção a bussola do nauta que singra esse oceano sem limites, e tão cheio de attractivos: <<a liberdade>>.
Operarios! – a instrucção, sómente a instrucção de ordem intellectual e de ordem moral póde vos preparar para a conquista desses dois polos radiosos: <<a emancipação>> e <<a realidade>>.
Nos capítulos anteriores, conhecemos parte das disputas e das demandas por instrução, que permeavam o Engenho de Dentro, a partir da perspectiva de diferentes atores sociais. Além de alguns impressos, muitos outros sujeitos figuraram nossas páginas, entre operários, professores, trabalhadores e uma professora, em especial. Esses personagens colaboraram para que pudéssemos investigar quais pautas estavam sendo propostas pela classe trabalhadora, pelo Estado e pela própria Estrada de Ferro Central do Brasil, no que tangência à formação intelectual, social e política daqueles que compunham seu quadro de funcionários.
Conhecemos alguns traços do processo de desenvolvimento e urbanização dos subúrbios; viajamos sobre os trilhos do trem e nos deparamos com figuras que estiveram à frente ou a apoiar as lutas dos trabalhadores da Central. Nesta parada, vamos refletir sobre alguns aspectos da vida de Elisa Scheid: professora, presidente do Partido Operário Independente, responsável pela criação de escolas operárias, filha de Sabina e Henrique Scheid, foi figura cativa das páginas dos jornais125. Essa personagem será nossa janela para espreitarmos a cena da instrução destinada ao operariado carioca126.
Desse modo, acompanhando as linhas escritas por Elisa, na coluna Liberdade!, numa publicação da União Operária de 1 de maio de 1904, vamos caminhar em direção às suas iniciativas e lutas, em favor do movimento operário, encampadas na imprensa
125 No decorrer da pesquisa, na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, foram localizadas 254
ocorrências na busca pelo nome de Elisa Scheid na plataforma. Foram localizados, ainda, registros em jornais como: Jornal do Brasil, Gazeta de Notícias, Correio da Manhã, Almanak Laemmert das mais variadas categorias. Foram apresentadas desde nomeação para cargos do magistério público da cidade, entrevistas, propagandas de escola, informações sobre sua família, passando por sua importância para a cena da instrução, especialmente no que tangencia às iniciativas localizadas nos subúrbios da cidade e no entorno da ferrovia, até questões acerca da formação intelectual e moral dos índios, trabalhadores dentre outras temáticas.
126
A pesquisa das fontes apresentadas e analisadas ao longo desse capítulo é fruto do projeto integrado de pesquisa das professoras Irma Rizzini (UFRJ) e Alessandra Schueler (UFF): Gênero e constituição do
89 operária e de grande circulação. Projetamos luz sobre seu percurso no magistério, na cidade do Rio de Janeiro, e suas reflexões sobre a importância da instrução para que os operários alcançassem a liberdade.
Assim, nossa viagem estará calcada na perspectiva apontada por Soihet e Pedro (2007), quando as autoras evidenciam que, ao nos preocuparmos com as identidades coletivas de operários, camponeses, escravos, mulheres e pessoas comuns, pluralizamos nossos sujeitos de investigação e alçamos esses indivíduos à condição de agentes da história. Dessa maneira, nas páginas a seguir, a trajetória de Elisa Scheid nos possibilitará esmiuçar as ideias e perspectivas propostas por ela e por seus companheiros para formação intelectual dos trabalhadores no subúrbio do Rio de Janeiro na Primeira República.