Depois de algum entendimento sobre as discussões que figuravam as folhas dA Tribuna, avançaremos no tempo e caminharemos em direção à Rua Dr. Manuel Victorino, localizada nos arredores da estação do Engenho de Dentro, para investigar um pouco mais sobre as demandas e discussões acerca da instrução, por meio das páginas dO Echo Suburbano.
O periódico suburbano, ao longo de suas quatro páginas, apresentava as colunas: O Echo Suburbano, que contemplava as demandas locais e os aspectos a respeito do próprio jornal; Pelo bem geral, que se dedicava às reivindicações por melhores condições de trabalho para os operários das Oficinas da Estrada de Ferro Central do Brasil; Noticiário, na qual eram feitas denúncias dos moradores do Engenho de Dentro; e, a partir da edição de número sete, a coluna Expediente, que passou a trazer
56 informações sobre a circulação e a venda do jornal. Nas páginas seguintes, pode-se encontrar anúncios de grêmios, folhetins, classificados e notícias variadas.
Com tiragem de 100 exemplares semanais, a aquisição podia ser realizada de forma avulsa, pela quantia de 100 contos de réis, com periodicidade: mensal ao custo de $500, semestral por 3$000 e anual por 5$00087. As vendas desse periódico eram realizadas nos jardins das Oficinas da Estrada de Ferro Central do Brasil – localizado nas proximidades da estação do Engenho de Dentro e da sede do jornal, cujo logradouro era na Rua Dr. Manuel Victorino, nº 12, conforme pode ser visto no mapa – e também contava com dois representantes para atender aos leitores de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro Santa Cruz, Guaratiba e Itaguaí.
Figura 2 - Mapa do entorno da Estação do Engenho de Dentro – 1904.
Fonte: Planta da Estrada de Ferro Central do Brasil no ano de 1904 - Folha 014. Localização: http://www.trilhosdorio.com.br/web/mapaefcb1904_014.html
A partir do mapa, podemos observar que a distância entre a estação do Engenho de Dentro (destaque em verde) e o endereço da redação do jornal (destaque em azul) era relativamente curta, o que poderia proporcionar a circulação do impresso na região e o
87 O valor para aquisição de números avulsos da publicação se assemelhava a alguns jornais de grande
circulação, como Correio da Manhã, Jornal do Brasil, Gazeta de Notícias e O Paiz, fato que não acontecia com as assinaturas de caráter mensal, semestral e anual das mesmas publicações (BARBOSA, 2010).
57 recebimento de pautas a serem exploradas, sob a pena de Ernesto Nogueirol, ex- funcionário da Estrada de Ferro e morador das redondezas.
De acordo com Silva (2018), a partir da noção de geografia associativa, termo cunhado por Claudio Batalha (2009), o endereço das associações operárias, ao longo da Primeira República, costumava estar próximo ao local onde trabalhadores exerciam seus ofícios. Nesse sentido, embora O Echo Suburbano não fosse uma associação operária, o periódico pretendia atingir não apenas os moradores da região do Engenho de Dentro, mas também, e principalmente, a classe trabalhadora, logo, sua localização nos arredores das Oficinas da Estrada de Ferro Central do Brasil poderia favorecer a circulação do jornal entre os operários.
A proximidade entre o local de redação do periódico e as Oficinas, possivelmente, constituiu um facilitador tanto no que se referia à circulação das notícias que ali eram publicadas, quanto à venda do impresso e às práticas de leitura do mesmo. Conforme aponta Barbosa (2010), a leitura passava a ser, naquele momento, um hábito nas cidades, fosse debaixo dos postes iluminados, nas praças, nas ruas, nas avenidas ou nos jardins, o que mostra que a leitura era mais um espaço de sociabilidade entre trabalhadores e trabalhadoras da cidade.
O uso de espaços variados para a leitura dos jornais recebeu destaque nas páginas dO Echo Suburbano, na coluna Pelo Bem Geral, quando, na quinta edição da folha, Ernesto Nogueirol utiliza essas linhas para reivindicar o direito de venda de seu jornal nos jardins das Oficinas da Estrada de Ferro Central do Brasil. Segundo a denúncia do editor e diretor do impresso “modesto jornalsinho[...]enraizado como já se sente, no coração desta generosa população”,
[...] o jardim das Officinas é franco ao publico e LEGALMENTE ninguem mais tem o direito de privar quem quer que seja de transitar por elle, mesmo porque: onde fica o seguimento da rua Goyaz desde o canto da rua Padilha até á rua José dos Reis?...Enguliram-n’o?... Alguem tem direito de construir no meio de uma via publica interceptando o transito?...
Prosigamos.
A hora do almoço e da sahida geral dos operarios não é raro ver-se apregoando em frente ao portão das Officinas: – fazenda, peixe, cebolas, cossas bonitas baratas, bilhetes de loteria, etc, etc..; pois bem todo aquelle mercado não ha empecilhos, mas para os jornaes que não pactuam com o seu modo de ver, que procuram correr em favor do fraco contra o forte, usa-se do maior rigor, é expressamente prohibido!!!...
58 A prepotência, por seus ordenanças, ultrapassou os limites do desaforo, e foi assim que, a 26 corrente, ás 10 horas da manhã, pouco mais ou menos, fomos surpreendidos pela noticia da prisão de um dos nossos vendedores que procurava ganhar honestamente a sua vida, apregoando O Echo Suburbano, á sahida dos operarios, em frente áquelle portão, prisão esta ordenada por um simples guarda, que, não duvidamos, e
estamos mesmo certos, cumpria ordens superiores [...].88
Figura 3 - Planta das Oficinas do Engenho de Dentro (1907).
Fonte: Memória Histórica da Estrada de Ferro Central do Brazil, p. 845. Rio de Janeiro. Imprensa Nacional. 1908
A partir da notícia e do mapa acima – com destaque em azul, as ruas Dr. Padilha e José dos Reis; em verde, o Jardim; em vermelho, o coreto – observamos que os espaços de circulação dos trabalhadores das Oficinas, possivelmente, poderiam favorecer a venda, a circulação e, provavelmente, a leitura pública do Echo Suburbano.
Naquele momento, a popularização dos periódicos estava diretamente relacionada à possibilidade da participação de seus leitores [e leitoras]. Quer a partir da fala de quem escrevia, quer pela identificação com o que figurava naquelas páginas, quando o leitor se percebia como parte do discurso e, com isso, se sentia mais próximo da imprensa. Não obstante, era a partir de exemplos de personagens, que saíam de seus próprios cotidianos, que os jornais buscavam incluir os leitores nos impressos89.
88 O Echo Suburbano, Engenho de Dentro, ano 1, n. 5, edição 31 de agosto de 1901. 89 BARBOSA (2010).
59 Ana Luiza Costa (2012) destaca que os impressos, fossem eles jornais ou revistas, apresentavam uma circulação mais ampla e democrática que o livro, seja por conta do formato, da linguagem ou do custo, especialmente se tratando das classes trabalhadoras enquanto público leitor. A leitura e a escrita eram politizadas, não se davam de maneira mecânica e, tampouco, eram ouvidas de forma displicente. Os trabalhadores se reuniam em espaços diversos para lerem e compartilharem suas histórias, que também eram aquelas reproduzidas nas páginas dos jornais.
O Echo Suburbano se apresentava como uma extensão das Oficinas, muito em função da relação de Ernesto Sidonio de Souza Nogueirol – jornalista, redator e proprietário do jornal – com as Oficinas da Estrada de Ferro. Antes de se tornar proprietário e diretor de jornal, Ernesto era funcionário da Estrada de Ferro Central do Brasil, tendo atuado como praticante90 e, posteriormente, como guarda da ferrovia, cargo ocupado por ele entre os anos de 1896 e 189891. Porém, antes mesmo de ser demitido, Ernesto já fazia reivindicações em prol da causa operária, por meio da imprensa, nas páginas do Jornal do Brasil (MENDONÇA, 2014).
De acordo com Maciel (2006), a presença de trabalhadores – dos mais variados ofícios, inclusive funcionários de estradas de ferros – era recorrente em diferentes espaços e iniciativas letradas92. A criação de jornais por iniciativa deles se insere numa proposta de “expressar e debater ideias, valores, projetos e reivindicações, [daqueles que] se constituíam como sujeitos de ação coletiva [e] capazes de fundar espaços de atuação pública por meio da palavra impressa”93
, além de significar uma possibilidade de sobrevivência para aqueles que, como Ernesto, estivessem sem trabalho.
Assim, dentre as muitas pautas presentes nas páginas dO Echo Suburbano, a instrução também figurava, de forma direta e indireta, nas linhas do impresso. A coluna Pelo bem geral, agora na edição do dia 28 de setembro de 1901, apontou o anseio de Ernesto e seus colaboradores de mudarem o endereço da redação do jornal, em virtude do desejo de o Echo Suburbano ampliar o espaço para chamar a:
90 Espécie de ofício para iniciar a carreira nas ferrovias (LANNA, 2016).
91 Almanak Laemmert, ano 53, 1896, p. 1223; ano 54, 1897, p. 716; ano 55, 1898, p. 716 e 1336. 92
O editor e proprietário do periódico suburbano publicou A Biblioteca Domestica, conforme noticiado, em 1885, no jornal O Apóstolo: Periódico religioso, moral e doutrinario, consagrado aos interesses da
religião e da sociedade. A obra foi localizada na seção de periódicos da Biblioteca Nacional, porém, com
apenas uma edição disponível para consulta. Nesse aspecto, a obra seria uma espécie de enciclopédia e o fascículo localizado seria um tipo de folhetim/romance sobre aventureiros na África do Sul.
60 [...] laboriosa classe á comprehensão dos seus deveres e dos seus direitos, [para que fosse possível] aos domingos, fazer algumas prelecções, chamando o proletariado á comprehensão das verdades que devem ter guarida em seus corações. E’ preciso, porém, que nos ajudem a poder receber em nossa casa entidades que possam mais facilmente conversar com aquelles que precisam e têm a restrictiva obrigação de se instruir para poder dar a seus filhos os conhecimentos de que carecem para o futuro94.
Considerando o conteúdo da coluna, fica evidente, para além dos estabelecimentos de ensino, a imprensa se insere como espaço de instrução para a laboriosa classe trabalhadora. Nesse aspecto, Pinto (2014, p. 88) expõe que as práticas e os espaços destinados à educação se davam em locais difusos e que essas eram “resultado de uma aprendizagem social transmitida de geração para geração; [que] manifesta[va]m-se em procedimentos e estratégias de ação; [...] carregam ideologia e supõem competências”, que podem ser vivenciadas em contextos diversos da vida social, sendo práticas complexas e interdependentes que podem se apresentar de maneiras distintas, em múltiplos contextos sociais, como na imprensa, em festas religiosas, entre outros.
Ainda nessa perspectiva, retomando o estudo de Costa (2012), os jornais voltados para a classe trabalhadora eram conscientes quanto ao seu papel formativo para aqueles sujeitos. A experiência no e com o mundo das letras não se dava ao acaso ou mesmo sem reflexão. A leitura daqueles impressos acontecia em espaços variados, ocorrendo em associações, no intervalo da jornada de trabalho ou até nas redações dos periódicos, o que evidencia a estratégia de seus redatores, que muitas vezes também eram operários, de difundir discussões e debates do cotidiano do mundo do trabalho.
Nessa conjuntura de desenvolvimento e ampliação do movimento operário, que permeava a República, o número inaugural dO Echo Suburbano publicou a coluna Pelo Bem Geral que, dedicada às causas operárias dos trabalhadores das Oficinas, se deteve a tecer críticas acerca da jornada de trabalho daqueles. A publicação apresentou, como pauta, as condições de trabalho dos operários que, de acordo com a coluna, eram análogas à escravidão. Segundo a publicação, ao contrário dos demais operários, que trabalhavam oito horas por dia, os das Oficinas exerciam seus ofícios por dez horas
61 diárias95 e ainda sofriam punições, que incluíam mudança no horário de almoço, pagamento de multas e proibição ao fumo durante o horário de trabalho96.
Essa crítica evidencia o cenário de lutas dos trabalhadores, no período que sucedeu a proclamação da República. Goldmacher (2009) destaca que, entre os anos de 1890 e 1920, o Rio de Janeiro vivenciou uma efervescência do movimento operário, especialmente no que tange à deflagração de greves que atravessaram muitas categorias, para as quais, entre as variadas reivindicações, estava a luta em prol da redução da jornada de trabalho para oito horas diárias97.
Ainda na perspectiva do movimento operário, Batalha (2000) destaca que a Primeira República significou um momento crucial no que diz respeito à mobilização coletiva e à organização da classe operária. Desde a segunda metade do século XIX, trabalhadores urbanos livres, especialmente os de ofícios artesanais, passaram a se organizar em sociedades de socorros mútuos, porém, foi sob a constituição republicana que se deu o surgimento de uma nova forma de associação, o sindicato operário e, assim, é desencadeada uma efervescência no número de greves de trabalhadores dessa classe.
No ano de 1889, os operários das Oficinas da Estrada de Ferro Central do Brasil – à época, ainda, Estrada de Ferro Dom Pedro II98
– se mobilizaram para deflagração da primeira greve da categoria, que tinha, como pleito, o aumento de salários aguardado; contudo, a paralisação acabou não resultando em uma greve propriamente dita. De acordo com Fraccaro (2008), dos 600 trabalhadores que compunham o quadro das Oficinas, apenas 70 decidiram manter a paralisação; entretanto, mesmo com baixa adesão por parte dos operários, as reclamações foram atendidas e todos os funcionários da Estrada de Ferro receberam o aumento.
Naquele momento, o ideal de mobilização se fazia, paulatinamente, mais presente nos mundos do trabalho. Esse discurso era frequente, naquele período, tendo
95 No capítulo a seguir, as questões relacionadas à jornada de trabalho dos ferroviários serão abordadas
novamente e, dessa vez, teremos maiores informações sobre as conquistas dos operários da Estrada de Ferro Central do Brasil acerca dessa demanda.
96 Ver FRACCARO, 2008; SOUZA, 2011.
97 Nesse contexto, de lutas por melhores condições de trabalho para o operariado carioca, os operários da
Estrada de Ferro Central do Brasil realizaram nove greves, a primeira delas aconteceu no ano de 1892, impulsionada pela prisão de dois trabalhadores que haviam afrontado moradores do Riachuelo (GOLDMACHER, 2012).
98
Em 22 de novembro de 1889, por meio do aviso n. 143, a Estrada de Ferro Dom Pedro II foi nomeada Estrada de Ferro Central do Brasil, sendo denominada Central a antiga estação da Corte (RODRIGUEZ, 2004).
62 em vista que o trabalho era uma das bandeiras erguidas pelo novo regime. A ideia da morigeração tocava os ferroviários de forma peculiar, não somente através do discurso oficial, mas também por meio da imprensa e da própria direção da Estrada de Ferro.
Embora esses discursos apresentassem os trabalhadores como exímios patriotas, ao longo da última década do século XIX e nas décadas seguintes, as greves eram cada vez mais recorrentes na rotina da cidade e de operários da Estrada de Ferro. Por esse motivo, a questão da instrução, formação moral e intelectual desses trabalhadores se tornou tema comum e rotineiro na imprensa.
Na coluna O Echo Suburbano, do dia 9 de outubro de 1901, A. Martins anunciava que a grandeza de um país tinha relação com a instrução dada aos cidadãos, já que isso tinha vínculo direto com a formação do caráter e o engrandecimento industrial, posto que o desenvolvimento econômico de países como França, Inglaterra e Argentina estava associado à atenção dada, por eles, à instrução pública, enquanto que, no Brasil, pouco se fazia no campo da educação. Em meio a greves e a uma crescente constitucionalização dos poderes públicos, a necessidade de instruir o povo se fazia substancialmente presente e a difusão dessas questões era intensa nos discursos do Estado e da imprensa.
Essa relação intrínseca entre instrução e cidadania se constituiu como fio condutor da luta de classes. Costa (2017) salienta que esse debate em torno da instrução se tornou um ponto crucial no processo de constituição da concepção de povo e de nacionalidade. Essa ideia significava mais do que uma corriqueira garantia de direitos: era fundamental, tanto no processo da educação pública, como nas iniciativas dedicadas à formação dos trabalhadores.
Nesse sentido, a instrução pública representava um importante aporte republicano para a disseminação do ideal de modernidade e civilização, tão eloquente naquele período. Conforme salienta Faria Filho (2003, p.80/81), é fundamental considerar que o processo de escolarização está relacionado à produção e ao fortalecimento do Estado Nacional, sendo caracterizado “como um momento/ uma forma de produção do próprio Estado moderno e não apenas como uma forma de atuação deste mesmo Estado”, se apresentando como produtor da sociedade e tendo impacto direto ou indireto na vida social dos indivíduos.
Assim, a proposta de instruir a população era o carro-chefe da República, a fim de preparar a nação para suas atribuições e noções de civilidade enquanto cidadãos.
63 Esse processo de escolarização desempenhou importante função na produção, articulação e divulgação de representações sociais para os indivíduos “à medida que funciona como uma instituição que produz, divulga e legitima identidades, competências e modos de vida ao mesmo tempo em que deslegitima outros” (FARIA FILHO E BERTUCCI, 2009, p. 14).
Na coluna O Echo Suburbano, de 17 de setembro de 1901, a importância do civismo no cenário republicano foi tema da publicação do Engenho de Dentro. Maia Maciel voltou às páginas da imprensa, dessa vez, para falar sobre o civismo, sobre a concretização do verdadeiro sentimento de amor à pátria e acrescentou que só quem tivesse esse sentimento dentro de si seria digno do Brasil, da livre América, da República, da civilização. Consoante ao autor:
[...] para conseguirmos tornar realidade pratica esse nobre sentimento [cívico] sejamos o ensino desses verdadeiros typos de bons cidadãos.
Quem tem patriotismo, quem possui espírito civico, nunca descrê; não desanima diante de circunstancia alguma; em toda e qualquer parte mantém-se firme e sereno no cumprimento do dever.
Na edição seguinte, a coluna deu continuidade à temática proposta na semana anterior. Para o colaborador do jornal:
Diante do dever, o mais modesto artezão, o mais singelo operário do campo ou da industria, póde ser o melhor dos cidadãos, o mais útil dos homens.
[...]
Nos momentos críticos devemos nos tornar mais fortes e mais capazes de nos sacrificar pelo bem geral, assim como ordena a nossa divisa nacional:
“Um por todos, todos por um”.99
É notório que esse colaborador estava articulado às campanhas públicas republicanas e que, consecutivamente, as pautas abordadas por ele, em suas notícias, referendava as propostas de educação para a população e para os operários das Oficinas. Na edição de 31 de agosto de 1901, por meio da coluna O Echo Suburbano, foi a vez de o jornal voltar a atenção para a necessidade de educar as crianças para afastá-las das ruas. O texto apresentava uma crítica contundente à vadiagem daqueles que, na concepção do impresso, deveriam estar na escola, aprendendo as primeiras letras; o que constituía uma tentativa de afastar aqueles sujeitos da desocupação das ruas e praças
64 públicas, para que recebessem, ao menos, o ensino das primeiras letras e, assim, pelo menos, aprendessem a ter “o respeito devido aos seus semelhantes”.
Diante da crítica ao possível fato de as crianças, moradoras do Engenho de Dentro, não estarem frequentando as escolas de primeiras letras, refletimos sobre a oferta e a demanda por instrução nos subúrbios da cidade. Ao longo da gestão Pereira Passos100 (1902-1906), nessas regiões, a oferta, por parte do poder público, não se diferenciava de forma substancial em relação à década de 1890, por exemplo. Em 1904, a então Capital Federal contava com 187 escolas primárias, com um quantitativo de 25.542 alunos, 78 escolas elementares e 8 escolas modelos – com 5.382 e 2.371 alunos matriculados, respectivamente; totalizando 273 escolas, que atendiam 28.645 alunos; desse total, 68 delas localizadas no subúrbio, sendo 39 elementares e 29 primárias (SCHUELER E RIZZINI, 2017).
No entanto, mesmo os índices tendo apresentado considerável aumento acerca da instrução, nomeadamente, a partir da última década do século XIX, os números apresentados no recenseamento do ano de 1906101 apontam que, a respeito do analfabetismo na cidade, os distritos suburbanos ainda mantinham elevados números em relação aos dos distritos urbanos. Comparativamente, os primeiros apresentavam níveis menores, com um total de 68.176, sendo 41.861 homens e 26.315 mulheres – muito embora, talvez, pelo fato de terem um número menor de habitantes102 – ao passo que os segundos registravam o total de 348.629 pessoas alfabetizadas, 214.855 homens e 133.774 mulheres. No que tangencia à população não alfabetizada, as regiões urbanas também apresentavam índices superiores aos das regiões suburbanas. Nas primeiras,