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A interatividade do Direito ao meio ambiente

No documento Jose Francisco de Souza Rolim (páginas 38-42)

As forças de interação sobre as partículas regem o Universo. (Stephen Hawking)

O Direito Ambiental, desde a sua gênese, é ontologicamente interativo. A visão interativa do direito ambiental não serve apenas para designar um objeto específico, mas, nasce, de fato, em virtude da necessidade de manter, em diversas dimensões, uma relação de interdependência. Essa interdependência, de acordo com Paulo Freire Vieira (1995, p.49), é verificada de maneira incontestável pela relação homem-natureza, posto que não há possibilidade de se separar o homem da natureza, pelo simples fato de que o homem depende da natureza para sobreviver. Segundo o autor, “o meio ambiente é um conceito que deriva do homem, e a ele está relacionado; entretanto, o ser humano interdepende da natureza, “como duas partes de uma mesma fruta ou dois elos do mesmo feixe”.

Apesar de tantos usos diferentes do adjetivo “interatividade”, é preciso entender sua origem e seus significados, a fim de se ter a verdadeira compreensão dessa peculiaridade – de natureza principiológica – do Direito Ambiental. Por isso mesmo, deve-se fazer um breve aporte em outras áreas das ciências, mostrando os significados da palavra “interatividade” para, depois dessa compreensão, em momento oportuno, migrar o conceito, não apenas semântico, mas, sobretudo, ontológico, desse importante predicado que, numa ordem de escala, envolve todos os ramos da ciência; a humanidade (vida humana); a natureza (ecossistemas); o planeta Terra e, em última análise, o próprio universo.

O termo interatividade, segundo Becker e Montez (2005), é relativamente recente e foi incorporado aos dicionários da língua portuguesa nos últimos 30 anos. Todavia, o conceito de interação é longínquo, servindo de base para entender a origem e o significado de interatividade. Na física, interação refere-se ao comportamento de partículas cujo movimento é alterado pelo movimento de outras partículas. Em sociologia e psicologia social, a premissa

é de que nenhuma ação humana ou social existe separada da interação. Já na filosofia, existem diversas abordagens sobre a interação, como no pragmatismo e como ele enxerga o ser humano. O estudo da interação também é fundamental na geografia, ao procurar demonstrar como as interações entre geocomponentes refletem na atual formação dos relevos.

É possível perceber que nas diversas áreas do conhecimento científico a interatividade é uma verdadeira constante. Significa aquilo que é interativo, através da capacidade de possibilitar interação e comunicação. Ao conduzir esse conceito à ciência jurídica, à medida que o Direito visa regulamentar a vida em sociedade, nas múltiplas relações estabelecidas no curso da vida, intervindo direta e indiretamente em face do fato social, verifica-se que o fenômeno da interatividade, aqui representada pelo vasto arcabouço do ordenamento, também está presente no mundo jurídico.

Sob o ponto de vista do Direito Ambiental, o sentido que se busca do termo interatividade é justamente a ação de influência entre esse segmento do Direito – que cuida de um conjunto de princípios e de normas jurídicas essencialmente direcionadas à proteção da qualidade do meio ambiente – e os demais ramos da ciência jurídica. A par disso, indo além, ultrapassando os limites da própria ciência do Direito, o direito ao meio ambiente tangencia outras ciências, notadamente as de cunho ecológico, como a biologia, a geografia e a oceanografia, dentre outras, dando significado e sustentação para o conhecimento já sedimentado (= adquirido) e a construção de novas ideias e perspectivas.

A despeito do caráter autônomo da disciplina jurídica ambiental, que se emancipou do espaço dogmático destinado aos direitos públicos, quando ocupava principalmente os campos do direito constitucional e administrativo, percebe-se, por outro lado, a característica interativa do direito ao meio ambiente, ao se relacionar ampla e transversalmente com os demais ramos do Direito outros segmentos da ciência em geral (multidisciplinaridade). Trata- se de uma visão holística de caráter interdisciplinar ou transdisciplinar do meio ambiente, por se tratar de um tema dinâmico e em constante estado de transformação.

Nessa linha de pensamento, Paulo Roney Fagundes (2000), ao acentuar que não só a ciência jurídica está voltada à questão ambiental, mas também uma grande parte das ciências humanas, exatas e biológicas, aponta para a necessidade de uma visão interativa entre os mais variados ramos da ciência, posto que:

[...] todas as questões humanas são complexas. Nenhuma interrogação se apresenta isoladamente. Todos os problemas estão intimamente interconectados. Somente se conseguirá a liberação das amarras da ciência tradicional, no momento em que se tiver consciência de que a destruição do edifício da ciência só será possível a partir das suas próprias contradições internas. Indiscutivelmente, a grande crise que se vive é a da percepção. Os cientistas fazem uma leitura parcial dos problemas. Simplificam o que é complexo. (grifo nosso).

Aproveitando a referência do autor à complexidade, a partir da metodologia científica baseada na Teoria da Complexidade, de Edgar Morin, é possível notar que esse pensamento é capaz de ampliar os horizontes do conhecimento e da explicação científica. Ao ecologizar o pensamento sobre a vida, o homem, a sociedade e o próprio Direito Ambiental, Zanella (2006) acentua que Morin abandona todo o conceito fechado, unidirecional, unívoco, reducionista, disjuntivo, simplificador; rechaça, enfim, toda a definição autossuficiente (da coisa “em si”). O novo paradigma ecológico, a teor do pensamento complexo, vem desafiar o paradigma-rei, cartesiano, de fragmentação e reducionista e supressivo. Afasta-se a noção paradigmática compartimentalizada de incluir ou excluir algo em dada categoria, posto que os fenômenos do mundo coexistem sincrônica e/ou paralelamente. A visão de mundo e da ciência deve ser global e abrangente. Não como um princípio holístico oco, mas como uma conjunção entrelaçada de multidimensionalidade e de complexidade.

Vale dizer ainda que a disciplina, segundo Morin (2005), é uma categoria organizada dentro do conhecimento científico, que institui a divisão e a especialização do trabalho e responde à diversidade das áreas abrangidas pelas ciências. Ainda, nesse contexto, a transdisciplinaridade mostra-se como o contato de diversas áreas organizadas do saber científico, formando uma rede aberta que, em decorrência dos diferentes tipos e graus de interação, propicia a formação de disciplinas híbridas. Isto ocorre a partir de novos conhecimentos que, no futuro, irão torná-las autônomas sem, no entanto, perder sua dimensão interativa. A transdisciplinaridade serve, em perspectiva dialética, como verdadeiro estímulo ao fator de criação de cultura. Essa conceituação se coaduna perfeitamente ao Direito Ambiental, posto que, embora dotada de autonomia científica, está impregnada por outros ramos do Direito que com ele dialogam.

Maria Francisca Carneiro (2009, p.23), ao reunir (e conduzir) os fenômenos da transdisciplinaridade e a complexidade à seara do estudo científico do Direito, esclarece:

A transdisciplinaridade e a complexidade, na pesquisa jurídica, mais que uma consequência das transformações da sociedade e da ciência, significam alteração do método. O enfoque transdisciplinar e o pensamento complexo implicam em talhe renovado das temáticas, então chamadas "transversais", em eixos reestruturados do conhecimento. Para isso, é preciso antes chegar a um acordo sobre essa

reestruturação dos temas, o que caberá a cada estudioso realizar em consonância com o entendimento do professor-orientador da pesquisa.

Conforme se pode observar, a transdisciplinaridade não se trata de uma nova ciência, nem tampouco de uma nova filosofia, mas de um inter-relacionamento entre os diversos segmentos da intelecção cultural ou científica, que permite fomentar a produção de um acréscimo de conhecimento, que somente pode ser observado através de uma visão holística das disciplinas (ALMEIDA, 2010). Ao acrescentar essa compreensão metodológica, de inter- relacionamento entre as mais abrangentes áreas cognitivas, como forma de visão dogmática do conhecimento científico, ao estudo das ciências jurídicas, em perspectiva complexa e sistemática, mormente, ao Direito Ambiental, dá-se lugar à análise do todo, em busca da incessante proteção e conservação do meio ambiente e do bem viver humano.

A propósito, essa abordagem é vista também na lição de Michel Prieur (2011, p.58). Ele acentua o caráter transversal do Direito Ambiental como um direito de interações, que tende a penetrar em todos os setores do Direito para neles introduzir uma concepção ambiental na medida em que:

o ambiente é a expressão de uma visão global das intenções e das relações dos seres vivos entre eles e com o seu meio, não é surpreendente que o Direito do Ambiente seja um direito de caráter horizontal, que recubra os diferentes ramos clássicos do Direito (Direito Civil, Direito Administrativo, Direito Penal, Direito Internacional) e um Direito de Interações, que se encontra disperso nas várias regulamentações. Mais do que um novo ramo do Direito com seu próprio corpo de regras, o Direito do Ambiente tende a penetrar todos os sistemas jurídicos existentes para os orientar num sentido ambientalista.

Henrique Leff (2001, p.42), cuidando da epistemologia ambiental, formula o conceito de transdisciplinaridade, segundo o qual

[...] pode ser definida como um processo de intercâmbio entre diversos campos e ramos do conhecimento científico, nos quais uns transferem métodos, conceitos, termos e inclusive corpos teóricos inteiros para outros, que são incorporados e assimilados pela disciplina importadora, induzindo um processo contraditório de avanço/retrocesso do conhecimento, característico do desenvolvimento das ciências.

Diante da complexidade da questão ambiental, o atual estágio do Direito ao Meio Ambiente, por seu caráter teleológico, não se prende a uma das disciplinas clássicas do Direito, muito pelo contrário, procura nortear, por meio de diversos institutos jurídicos pertencentes a vários ramos do Direito, o comportamento humano em relação ao meio ambiente. O Direito Ambiental é um direito sistematizador, que faz a articulação entre legislação, doutrina e jurisprudência para impregnar, no campo do Direito, uma dimensão ecológica, surgindo como um novo paradigma conceitual que, além de jurídico, deve ser

essencialmente ambiental. Dentro dessa complexa estrutura jurídica, encontram-se, sem dúvida, as circunstâncias que envolvem a degradação do meio ambiente que, diante das peculiaridades de sua dimensão, demandam uma investigação interdisciplinar para a perfeita compreensão da extensão dos danos causados ao meio ambiente e aos seres humanos.

No documento Jose Francisco de Souza Rolim (páginas 38-42)

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