A afronta ao direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado (direito geral de personalidade e fundamental) gera ofensa à dignidade
e é caso de dano moral à pessoa humana
Doutorado em Direito
José Francisco de Souza Rolim
A afronta ao direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado (direito geral de personalidade e fundamental) gera ofensa à dignidade
e é caso de dano moral à pessoa humana
Tese apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do título de Doutor em Direito, sob orientação da Profa. Dra. Regina Vera Villas Bôas.
A afronta ao direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado (direito geral de personalidade e fundamental) gera ofensa à dignidade
e é caso de dano moral à pessoa humana
Tese apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do título de Doutor em Direito, sob orientação da Profa. Dra. Regina Vera Villas Bôas.
Aprovado em: _____/____/____
Banca Examinadora
Professora Doutora Regina Vera Villas Bôas (Orientadora).
Assim como o direito fundamental tem um núcleo essencial, intangível, fundado na dignidade da pessoa humana, inviolável, portanto, que tem sido tratado como verdadeiro axioma, o ser humano também tem o seu: a família. Trata-se de um fator imprescindível para que o indivíduo possa ter vida de forma digna. Por isso, sinto-me extremamente digno. E, é por isso, que dedico essa tese a esse núcleo sagrado: Vanessa, Felipe e Mariana.
Vanessa, pelo amor e pela profunda dedicação, que faz parte de mais de metade da minha vida e me completa por inteiro.
Felipe, um rapazinho de 8 anos de integridade moral inabalável; companheiro de toda hora, ungido pela dor e alegria de seguir o time tricolor de coração de quatro gerações.
Mariana, mocinha, como diz a própria, de 4 anos, doce e meiga, com um sorriso fácil e sempre estampado no seu rosto.
Agradeço à minha mãe, Maria Helena, por sua força renovadora e apoio incondicional ao mundo da pesquisa, em especial, ao presente trabalho. À Thais, irmã bondosa e toda sua família.
Ao Ivan e à Ivonete, sogro e sogra companheiros de toda hora.
In memorian, Adilson de Souza Rolim, pai inesquecível, cujos ensinamentos serão levados por toda a vida, e Adauto Suannes, pela inspiradora erudição e inquietude até os últimos dias de vida.
Agradeço à Professora Doutora Regina Vera Villas Bôas, minha orientadora, pela verdadeira acolhida desde os primeiros passos como aluno ouvinte até o epílogo desse trabalho.
O presente trabalho tem o escopo de analisar os novos paradigmas na relação do ser humano com o meio ambiente, a fim de que o Direito possa responder com efetividade às múltiplas demandas emergentes, sem perder de vista o componente essencial da dignidade humana. A análise científica teve como referenciais o estudo de doutrina, pátria e estrangeira, da legislação e do comportamento jurisprudencial que envolve o tema abordado. Sob essa perspectiva, ao analisar a atual predisposição do Direito, busca-se compreender como o direito ambiental pode ser relacionado aos direitos fundamental e de personalidade do indivíduo. Ao se examinar essa dinâmica, sendo o direito ao meio ambiente sadio e ecologicamente equilibrado um direito fundamental, ele pode, perfeitamente, fundir-se ao direito geral de personalidade, formando um direito fundamental de personalidade ao meio ambiente, pelo qual o ser humano poderá desenvolver plenamente suas qualidades e atributos essenciais. A conexão do direito ambiental com o direito fundamental e o direito de personalidade encontra amparo na teoria da complexidade de Edgar Morin, que entende ser possível ampliar a natureza jurídica do direito ao meio ambiente. Além disso, o estudo enfrenta o problema de como os danos causados ao meio ambiente podem afetar a pessoa humana. Com esse propósito, a pesquisa enfatiza os aspectos teóricos que possibilitam configurar dano moral indenizável à pessoa humana quando houver lesão ambiental. Assim, conclui-se que o dano ecológico não consiste apenas e tão-somente na lesão ao equilíbrio do meio ambiente (dano ambiental puro), mas afeta, igualmente, outros valores precípuos fundamentais, como o direito de personalidade e a dignidade humana (dano ambiental reflexo ou ricochete).
The present work has the scope to examine the new paradigms in human relationship with the environment, so that the right can respond effectively to the many emerging demands, without losing sight of the essential component of human dignity. Scientific analysis had as reference the doctrine study, native and foreign country, of the legislation and judicial behavior in face of the subject discussed. From this perspective, to analyze the current predisposition of the law, one seeks to understand how environmental laws can be related to fundamental rights and personality of the individual. By examining this dynamic, being the right to healthy and ecologically balanced environment a fundamental right, this right can perfectly merge with the general right of personality, forming a fundamental right of personality to the environment where humans can fully develop their qualities and essential attributes. The connection of environmental law with the fundamental right and the right to personality is supported on the theory of complexity of Edgar Morin, where it is possible to extend the legal nature of the right to the environment. In addition, the study faces the problem of how damage caused to the environment can affect the human being. For this purpose, the present study turns the attention to the theoretical aspects that allow the configuration of moral damage subject to compensation to the human being compared to the environmental damage. Thus, one can conclude that the ecological damage is not the only damage to the balance of the environment (pure environmental damage), affecting also other fundamental values, such as the right of personality and human dignity (environmental damage reflection or rebound).
Keywords: Environmental damage. General right of personality and fundamental right. Offense of the human dignity. Moral damage of human person.
duas crises separadas, uma ambiental e outra social, mas uma única e complexa crise sócio-ambiental. O nosso corpo nos coloca em uma relação direta com o meio ambiente e com os outros seres vivos.
(Carta encíclica do Papa Francisco de junho de 2015 sobre o cuidado da casa comum)
Creio no mundo como num malmequer, Porque o vejo. Mas não penso nele Porque pensar é não compreender... O Mundo não se fez para pensarmos nele (Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo... Eu não tenho filosofia; tenho sentidos...
Se falo na Natureza
não é porque saiba o que ela é, Mas porque a amo, e amo-a por isso Porque quem ama nunca sabe o que ama Nem sabe por que ama, nem o que é amar... (Fernando Pessoa)
E se você puder me olhar Se você quiser me achar E se você trouxer o seu lar
Eu vou cuidar, eu cuidarei dele Eu vou cuidar, ah! ah! ah! ah! ah! Do seu jardim
Eu vou cuidar, eu cuidarei muito bem dele Eu vou cuidar, ah! ah! ah! ah! ah! ah! Eu cuidarei do seu jantar
Do céu e do mar E de você e de mim (Nando Reis)
1 INTRODUÇÃO 11
2 O MEIO AMBIENTE E O DIREITO 19
2.1 O ser humano, a natureza e a sociedade: elementos estruturantes
do Direito Ambiental 20
2.2 Ética e meio ambiente 24
2.3 A origem da conscientização do meio ambiente sob o panorama internacional 33
2.4 A interatividade do Direito ao meio ambiente 39
2.5 A formação do Estado de Direito socioambiental 43
3 A DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA: NÚCLEO ESSENCIAL DO DIREITO FUNDAMENTAL E DO DIREITO DE PERSONALIDADE
AO MEIO AMBIENTE ECOLOGICAMENTE EQUILIBRADO 49
3.1 Dignidade da pessoa humana como valor-fonte da experiência
axiológica do direito 50
3.1.1 Princípio da dignidade da pessoa humana no sistema constitucional brasileiro 57 3.1.2 A dignidade da pessoa humana como fundamento do princípio do
não retrocesso ambiental 59
3.1.3 A dimensão ecológica da dignidade da pessoa humana 61
3.2 Meio ambiente e direito fundamental 64
3.2.1 O direito fundamental ao meio ambiente sadio e ecologicamente equilibrado 65 3.3 O direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado como um direito da
personalidade humana 68
3.3.1 Os direitos de personalidade no ordenamento jurídico brasileiro 68 3.3.1.1 A relação jurídica entre os direitos fundamentais e os direitos de personalidade 69 3.3.1.2 Direito Público versus Direito Privado: da dicotomia à tendência de unificação
e a influência sobre o redimensionamento entre o direito fundamental
e o direito de personalidade 73
3.3.1.3 Os direitos de personalidade como normas de direitos fundamentais atribuídas
segundo Robert Alexy 78
3.3.1.4 A evolução doutrinária do conceito dos direitos de personalidade
e sua incorporação aos direitos fundamentais 81
3.3.2 O direito ao meio ambiente sadio e ecologicamente equilibrado como
direito da personalidade 89
3.3.2.1 A qualidade de vida e o direito de personalidade 90 3.3.2.2 O meio ambiente enquanto lugar de realização da personalidade humana 94 3.3.2.3 O direito de personalidade ao meio ambiente na perspectiva
do direito comparado 96
3.3.2.4 O direito ao meio ambiente equilibrado como uma categoria geral
e autônoma do direito de personalidade 103
3.3.2.5 O meio ambiente equilibrado como um prolongamento do
direito de personalidade: as visões de Limongi França e de Pontes de Miranda 109 3.4 A consagração do direito de personalidade ao meio ambiente equilibrado 114 3.4.1 A conclusão silogística de que o direito ao meio ambiente ecologicamente
equilibrado é um direito fundamental e de personalidade 116 3.4.2 A consequência da violação dos direitos fundamentais
4.2.1 Teoria do Risco Integral 129
4.3 O dano ao meio ambiente 131
4.3.1 Conceito de dano ambiental 131
4.3.2 Classificações do dano ambiental 133
4.3.2.1 Quanto à amplitude ou extensão do bem protegido 133 4.3.2.2 Quanto à determinação dos interesses envolvidos e sua reparabilidade 133 4.3.2.3 Quanto aos efeitos da lesão ambiental suportados pelo ser humano 134
4.3.2.4 Quanto ao tempo de privação do bem ambiental 136
4.3.3 Reparação do dano ambiental 137
4.3.4 A quantificação do dano moral ambiental 138
4.3.5 A formação de um microssistema de responsabilidade civil por
danos causados ao meio ambiente 139
5 DANO MORAL AMBIENTAL INDIVIDUAL 142
5.1 O reconhecimento do direito fundamental de personalidade em razão da força
concêntrica do princípio da dignidade da pessoa humana 142 5.2 A configuração do dano moral sob a perspectiva da lesão aos direitos
de personalidade e a ofensa ao princípio da dignidade humana 149 5.3 A relação do ser humano com o meio ambiente ecologicamente equilibrado 152 5.4 A ofensa ao direito de personalidade (e fundamental) ao meio ambiente,
com efeitos nocivos sobre a dignidade da pessoa humana, e a caracterização
do dano moral ambiental 155
5.5 A importância do princípio da responsabilização integral à admissibilidade
do dano moral ambiental 158
5.6 O dano moral ambiental individualizado diante da lesão ao
microbem e macrobem ambiental 165
5.7 A complexidade bidimensional do dano moral ambiental:
o dano consequência e o dano-evento mitigado 169
5.8 A dupla face do direito violado: o reconhecimento da natureza jurídica do meio ambiente ecologicamente equilibrado enquanto bem-direito
e a influência sobre o tratamento da danosidade ambiental 181 5.9 A legislação aplicável: as hipóteses legais de incidência do
dano moral ambiental individual 186
5.10 O tratamento jurisprudencial ao dano moral ambiental individual 188
6 CONCLUSÃO 197
1 INTRODUÇÃO
A consciência ecológica está impregnada na cultura contemporânea e ninguém mais discute a necessidade de se preservar o meio ambiente. Muito disso, por mais paradoxal que possa parecer, deve-se à própria degradação ambiental que vem acometendo a sociedade nos últimos tempos. Esse lamentável cenário trouxe a necessidade de reconstrução de novos paradigmas na relação do ser humano com o meio ambiente, a fim de que o direito possa responder com efetividade às múltiplas demandas emergentes, sem perder de vista o componente essencial da dignidade humana. Com isso, o meio ambiente sadio e ecologicamente equilibrado foi consolidado como um direito fundamental. No entanto, para que o Direito possa responder satisfatoriamente às demandas contemporâneas, é preciso admitir a configuração do dano moral ambiental como meio de amparar a lesão aos direitos de personalidade.
Observar-se assim que, na sociedade contemporânea, o tema envolvendo o dano ao meio ambiente constitui uma importante preocupação inserida no contexto das questões que atingem o ser humano. O dano ambiental, por outro lado, incide sobre um campo transdisciplinar do saber, carecendo de diversas áreas do conhecimento, para se buscar compreender a real dimensão desse fenômeno. Assim, como não poderia ser diferente, esse fenômeno também repercute sobre a ciência jurídica, tendo em vista que o dano ao meio ambiente, diante de sua notável característica multidimensional, atinge o bem ambiental per se e outros interesses humanos relevantes, como a qualidade de vida, o direito de personalidade e a dignidade da pessoa humana, envolvendo, consequentemente, diversas áreas do Direito.
Seguindo essa linha de pensamento, inicialmente, o que se coloca sob reflexão são as próprias concepções de natureza, de meio ambiente e de ser humano, conceitos centrais para o entendimento do tema que se começa a pensar. Vale dizer que o objeto principal desta investigação é o meio ambiente, bem de natureza complexa e dotado de múltiplos aspectos, já que ele pode ser concebido ora como um bem humano (atributo da personalidade), ora jurídico (direito fundamental), ora social (interesse coletivo lato sensu). Todavia, salienta-se, embora o meio ambiente possa se expressar de diferentes formas e de modos distintos, seja como produto do artifício humano ou como manifestação cultural de valores e sentimentos individuais ou coletivos, é o meio ambiente natural que se toma aqui como objeto de investigação jurídica.
Justifica-se sua investigação porquanto o meio ambiente natural constitui parte das relações do ser humano com o entorno, consigo mesmo ou com os demais seres humanos, o que, de um ponto de vista epistemológico, localiza-o na interdisciplinaridade entre o Direito, as Ciências Ambientais e a Ética enquanto objeto de estudo. E, nessa mesma direção, ele também se configura como objeto de reflexão num exame jurídico transdisciplinar, se considerado como direito fundamental do indivíduo, direito civil da pessoa natural e direito ambiental de todos os cidadãos. Por essa razão, toma-se a complexidade do meio ambiente natural como um bem universal dos seres humanos, se considerado à luz dos interesses difusos e coletivos, e um bem individual e personalíssimo, sob a égide dos direitos fundamentais do indivíduo e dos direitos de personalidade.
E é exatamente aqui que se começa a explicitar a complexidade do tema em discussão: quando se confrontam direitos, que tradicionalmente são tratados de forma distinta, pela tradicional Teoria Geral do Direito, de postura cartesiana, inserindo-os em segmentos estanques e compartimentados, por terem naturezas conceituais tão singulares, como é o caso do direito ambiental e do direito de personalidade, necessário reanalisar a própria concepção clássica do Direito. De fato, muito embora a tradição proponha que o Direito possa ser público, privado ou difuso, é preciso superar essa taxionomia e compreender o conceito contemporâneo de Direito primeiramente num sentido dogmático-estrutural: o Direito como ordenamento jurídico objetivo, isto é, como um sistema normativo uno e único, segundo leciona Norberto Bobbio.
se organiza em complexos distintos e separados entre si em função de matéria disciplinar, mas constitui uma disciplina geral e dogmática de condutas unas, a partir da qual um mesmo fato, especialmente relevante ao Direito, pode ser significado de diferentes maneiras e por diferentes regras.
Isso quer dizer que a perspectiva jurídica contemporânea da realidade social deve dar conta da própria complexidade das relações humanas que o ordenamento jurídico venha a disciplinar. Desta maneira, o objeto desta pesquisa é o meio ambiente natural sob o prisma de um estudo interdisciplinar e transdisciplinar, a partir do qual seja possível relacionar o direito ambiental, o direito fundamental e o direito de personalidade em razão da mesma situação fática. Além disso, buscando aprofundar as consequências dessa relação, esta tese também se destina a investigar a ofensa a um interesse juridicamente protegido, ou seja, o fenômeno do dano causado ao meio ambiente como um correspondente dano de natureza moral que se configura pela lesão ao direito de personalidade da pessoa natural.
A compreensão desta interdisciplinaridade encontra resposta na teoria da complexidade de Edgar Morin (1996), pela qual é possível perceber que o pensamento complexo é capaz de ampliar os horizontes do conhecimento e da explicação científica, à medida que se concebe todas as dimensões ou aspectos, atualmente separados e compartimentados, da realidade humana, porque alia a dimensão científica às dimensões epistemológica e reflexiva. Com base na noção do pensamento complexo, é possível compreender que o homem integra o meio ambiente, e vice-versa, ou seja, é um elemento do sistema, sem perder a sua individualidade. Há uma nítida relação de interdependência, não sendo mais possível separá-los em eixos distintos como o fez a doutrina clássica, colocando-os em pcolocando-osições refratárias e diametralmente opcolocando-ostas, conforme visto nas duas grandes visões éticas-filosóficas de pensar o meio ambiente (antropocentrismo e ecocentrismo).
A partir dessa ideia, considerando a possibilidade da relação entre o direito ambiental e o direito de personalidade no plano dos direitos fundamentais do indivíduo, a pesquisa realizada nessa tese pretende responder à seguinte questão: quando é possível falar em direito ambiental como direito simultaneamente fundamental e de personalidade? Para isso, é preciso ponderar sobre os fundamentos principiológicos e constitucionais que baseiam toda a disciplina jurídica do direito ao meio ambiente, dos direitos fundamentais e dos direitos de personalidade, com a finalidade de averiguar de que modo e quando essa relação se torna possível.
Assim, o problema de que trata essa tese se desdobra em duas linhas básicas de investigação, logicamente concatenadas. A primeira, que busca entender o direito ambiental como constituinte necessário da personalidade jurídica do sujeito e sua consagração como direito fundamental de natureza jurídica complexa, posto seu exercício e fruição ser concomitantemente individual e coletivo. E, a segunda, que partindo dessa percepção, depara-se com as possíveis formas de lesão ou descumprimento de depara-seu regramento jurídico, visando identificar a amplitude da responsabilidade do causador do dano ambiental em relação ao direito de personalidade e fundamental da pessoa humana.
Percebe-se que a relação entre os direitos ambientais e de personalidade orienta o curso dessa pesquisa a responder as seguintes questões, que constituem a problematização do trabalho: (1) Qual a natureza jurídica do direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado? Trata-se de um direito fundamental? Esse direito constitui um direito de personalidade? É possível conceber o direito ambiental à qualidade de vida saudável num ambiente ecologicamente equilibrado como um direito fundamental de personalidade? (2) A lesão ou privação de um bem jurídico – meio ambiente ecologicamente equilibrado – sobre o qual a vítima teria interesse juridicamente reconhecido constitui dano moral? Caberia dano moral ao indivíduo decorrente de um dano ao meio ambiente?
dimensão ecológica deste preceito fundamental. Não há que se falar em vida digna da pessoa humana se ela não puder usufruir de um ambiente ecologicamente saudável e equilibrado, capaz de lhe garantir o amplo desenvolvimento de suas qualidades.
Já em relação ao segundo conjunto de questões que constituem a problematização desta tese, a hipótese é a de que: o autor da lesão ao meio ambiente é inegavelmente responsável pela reparação do dano causado a ele, tanto quanto é responsável por quem se entender desrespeitado no seu direito de personalidade. Em razão disso, ainda que a tutela do meio ambiente natural, enquanto macrobem ambiental, caiba ao Poder Público, através de suas instituições legais, pode o indivíduo, diante do princípio da responsabilidade integral do dano, requerer a justa e correspondente reparação do dano moral ambiental suportado, no que couber à pessoa lesionada, pela injusta violação ao seu legítimo interesse de viver em um meio ambiente ecologicamente equilibrado, devendo ser integralmente reparado, em especial, no que concerne à ofensa ao seu direito de personalidade.
Assim, busca-se compreender que o direito fundamental ao meio ambiente ecologicamente equilibrado (artigo 225 da Constituição Federal), no âmbito do direito civil, também constitui um direito de personalidade, embora não disposto taxativamente no Código Civil, tendo vista que os direitos de personalidade não são taxativos, à medida que novos direitos dessa categoria se integraram, no decorrer do tempo, ao seu elenco. Surge, nesse contexto, o direito ao meio ambiente, posto ser essencial para o desenvolvimento dos atributos da personalidade humana. Com isso, o direito ao meio ambiente é considerado um direito geral de personalidade fundado na ideia de uma cláusula geral de salvaguarda da dignidade da pessoa humana. Nesse aspecto, a ofensa a esse direito, de natureza complexa, simultaneamente, fundamental e de personalidade, constitui dano moral ao indivíduo.
É justamente o caso do direito ao meio ambiente e do direito de personalidade, muito mais próximos a fins do que a tradicional dogmática pretende explicar: é preciso investigar suas relações, proximidades e elementos comuns para averiguar a própria unidade e unicidade do ordenamento jurídico enquanto esquema conformador de sentido. E por que isso é preciso? Porque o Direito não pode ser visto como um mero conjunto mais ou menos organizado de disciplinas intercomunicantes entre si, mas como um conjunto de conhecimentos jurídicos dotado de certa complexidade, tal como a própria sociedade e sua forma de pensar a si mesma se caracteriza.
Então, pensar a relação entre o direito ambiental e o direito de personalidade é compreender o próprio modo de constituição da personalidade do sujeito, em face de um meio ambiente natural ecologicamente equilibrado e saudável, para além dos ditames normativos da disciplina jurídica dos direitos civis; é compreender o Direito como parte da constituição da natureza humana e vice-versa. Ao longo do trabalho, o detalhamento dessa complexidade é sistematicamente observado, justificando a linha de pesquisa científica que norteia a investigação necessária sobre a compreensão de como deve ser o relacionamento entre o ser humano, o meio ambiente e o Direito, a partir de uma perspectiva interdisciplinar e multidisciplinar.
A metodologia científica adotada, para tanto, pautou-se na pesquisa teórica bibliográfica, que teve como referenciais o estudo da legislação pátria vigente, de legislação estrangeira por comparação, das publicações científicas da área e de análise jurisprudencial. A partir do levantamento dos argumentos teóricos propostos pelos mais diversos juristas pátrios e estrangeiros, tanto do Direito em geral como aqueles que se dedicam a tratar do direito ambiental, buscou-se chegar às conclusões que se pretende obter com este trabalho. O método que circunscreveu o itinerário desta pesquisa e de sua produção textual ainda encontrou inspiração na teoria da complexidade de Edgar Morin. A partir dela foi possível pensar a relação entre diferentes objetos de estudo, não como elementos ou conteúdos isolados, mas como componentes intercomunicantes e interdependentes, onde o ser humano tem um papel relativo de produção de conhecimento e de sentido da realidade.
perspectiva constitui propriamente um conhecimento complexo, razão pela qual se buscou uma percepção diferente da própria ciência jurídica, aqui tratada como um pensamento jurídico multidimensional acerca das relações entre o direito ambiental e o direito de personalidade.
Nesse sentido, objetiva-se compreender as relações possíveis entre direito ambiental e direito de personalidade, principalmente no que se refere ao problema da lesão ao meio ambiente considerado direito fundamental de personalidade. Especificamente, buscar-se-á nesta investigação, apresentar a relação entre natureza, ser humano e meio ambiente a partir de diferentes perspectivas teóricas. Apresentar-se-á assim os princípios orientadores e as normas disciplinadoras do direito ambiental, do direito de personalidade e das formas de identificação e de reparação dos danos ambientais. Explicitar-se-á também as dimensões do direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado e suas relações com os direitos fundamentais. E, o quanto necessário, investigar-se-á a disciplina jurídica da responsabilidade civil no direito brasileiro, com especial foco à sua dimensão individual.
No plano estrutural, a tese foi organizada em quatro capítulos de modo a constituir, cada qual, uma etapa de reflexão e de compreensão acerca do tema apresentado à discussão. Após a Introdução, no segundo capítulo, “O meio ambiente e o direito”, apresentam-se conceitos fundamentais do pensamento ambientalista e os fundamentos constitucionais e legais da disciplina jurídica do direito ambiental. Nesse capítulo explica-se o que se entende por natureza, por ser humano e por meio ambiente, sobretudo, a partir da análise das concepções antropocêntrica, ecocêntrica e biocêntrica vis a vis da relação entre o humano e a natureza. Ao tratar da disciplina jurídica do direito ambiental apresenta-se a origem da conscientização do meio ambiente sob o panorama internacional; a notável interatividade do direito ambiental, chegando-se até a noção do Estado de Direito Socioambiental.
No quarto capítulo, "As dimensões do dano ambiental”, trata-se do estudo dos danos causados ao meio ambiente, examinando-os sob a ótica da sistematização da responsabilidade civil por danos ambientais em suas funções precaucionais, pedagógicas e indenizatórias. Procurar-se-á delinear o sistema de responsabilidade civil amoldado à tutela das questões envolvendo o meio ambiente. Desse modo, será possível perceber que a responsabilidade civil objetiva, fundada na teoria do risco, revela a transformação que o instituto, nos últimos tempos, vem passando para adequar-se ao dano ambiental. Além disso, verifica-se que o sistema de responsabilização, incutido nas Leis nº6.938/81 (Política Nacional do Meio Ambiente) e nº7.347/85 (Lei de Ação Civil Pública) e os preceitos do artigo 225 da Constituição Federal de 1988, concebe uma ampla e coesa defesa jurisdicional do dano causado ao meio ambiente.
2 O MEIO AMBIENTE E O DIREITO
Para se compreender corretamente a extensão e o modo de reparação do dano ambiental é fundamental saber como a relação do ser humano com o mundo natural deve ser tratada pelo Direito (ANTUNES, 2015). Antes, porém, é preciso dizer que a atividade humana atingiu tal nível de intervenção sobre o mundo natural que, em muitas situações, ele não pode mais existir como elemento autônomo e independente em relação ao homem. Nessa direção, Bill Mckibben (1990, p.55) observa que “a temperatura e a chuva não serão mais obras exclusivas de alguma força independente e incontrolável, mas em vez disso, em parte, um produto de nossos hábitos, economias e modos de vida”.
Ao se apropriar da natureza, o homem e, em última análise, a sociedade, decretaram a subjugação do mundo natural aos seus interesses. Logo, o equilíbrio ecológico ambiental vem, progressivamente, dependendo dos vetores sociais. A partir dessa constatação, deve-se examinar, segundo Mckibben (1990), quais valores têm sido utilizados nas diferentes intervenções humanas sobre a natureza. Ora, se a sociedade contribuiu direta e decisivamente para os problemas ambientais existentes em todo o planeta, também socialmente as alternativas para tais problemas devem ser buscadas. Assim, a sociedade deve ser capaz de fornecer novos paradigmas de relacionamento para a análise das questões políticas e sociais envolvendo o ser humano e a natureza.
Na esfera jurídica, a degradação do meio ambiente e o nascimento de uma consciência ecológica planetária também impuseram ao pensamento contemporâneo a necessidade de se repensar as bases éticas tradicionais que compõem a conformação do arcabouço do ordenamento jurídico. Nesse sentido, propõe-se a ampliação da comunidade moral1, de maneira a incluir, sincronicamente, a proteção humana e o conjunto da natureza. Além disso, uma decorrência lógica da evolução humana é a ampliação de suas relações com a natureza, num contexto de avanço não só das relações consolidadas, mas também de incorporação de novas tecnologias, cenário esse que, indubitavelmente, é propício ao surgimento de novos direitos.
Nesse quadro conjuntural, buscando integrar a relação do ser humano, da sociedade e da natureza, surge uma nova ciência, o Direito Ambiental, fruto da preocupação com a
1De acordo com Fabio Alves Gomes de Oliveira e Rachel Souza Martins (2014, p.2), “a definição de quem são os ‘nossos’ e,
necessidade de proteção do meio ambiente, que, segundo Mukai (1992), dedica-se a estruturar um conjunto de princípios e regramentos que possam orientar as ações humanas relacionadas com o meio natural. É a preocupação de se contemplar uma vida saudável em um ambiente propício ao pleno desenvolvimento dos atributos do ser humano. Por consequência, a possibilidade de se vislumbrar um componente ecológico entre as múltiplas dimensões da pessoa humana.
Desta maneira, o ingresso do Direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado ao rol dos direitos constitucionalmente assegurados corresponde, na acepção de Rabenhorst (2010), a ideia de ampliação dos direitos humanos, à medida que se busca concretizar uma das principais exigências concernentes ao reconhecimento da dignidade humana. Assim, para um perfeito entendimento da atual conformação entre o Direito e o Meio Ambiente, é preciso antes examinar os elementos que integram essa relação, para depois, em momento oportuno, analisar o resultado e as consequências dessa associação.
2.1 O ser humano, a natureza e a sociedade: elementos estruturantes do Direito Ambiental
A crise da sociedade moderna é uma crise de seus magmas de significações. A questão ambiental é um dos componentes que integram esta crise. A ideia de desenvolvimento econômico vinculado à dominação da natureza está abalada. (MARQUES, 2004, p.175).
Mesmo se considerarmos inválido o exemplo de harmonia social e ambiental das sociedades matrísticas, argumentando que não podemos ter certeza de acontecimentos tão antigos, isso não significa que uma sociedade mais justa e sustentável não seja possível, e que não devamos continuar avançando nessa direção. Ainda temos chance de provar que não somos uma “inteligência estúpida”.
(ALBUQUERQUE, 2007, p.92).
Conforme observa Jefferson Marçal da Rocha (2011, p.32), a noção da “natureza”, como se esta fosse pensável enquanto realidade em si, é uma abstração.2 A quase totalidade dos meios naturais que se pode observar é produto da ação dos homens. Neste sentido, é preciso considerar não só as escalas de tempo e de espaço, mas a relação que as sociedades possuem com o meio natural à sua volta, posto que:
O homem está presente em praticamente todos os lugares do planeta, mas a forma de apropriação que as diferentes sociedades fazem dos recursos naturais é diferenciada. Alguns sistemas podem nem “perceber” certas perturbações causadas por sociedades
tradicionais, por exemplo. Ou seja, a escala da perturbação causada é muito pequena em relação ao sistema. Além disto, determinados fenômenos da dinâmica natural ainda não são influenciados pela ação do homem, mas o influenciam grandemente, e configuram o ambiente, como erupções vulcânicas, terremotos, el niño, el niña,
entre outros.
É possível verificar, a partir de uma análise histórica e das sociedades, que a relação do homem com o meio ambiente é considerada altamente sinuosa, havendo, portanto, diversas formas pelas quais a humanidade já se relacionou com a natureza. Na Pré-história, o homem não se considerava um ser separado da natureza. Enxergava-a como uma mãe que acolhia a todos e cuidava para que tivessem o que precisavam para viver bem. Os homens retiravam do meio apenas o necessário e viviam basicamente do consumo de recursos renováveis. A coleta de frutos e a caça eram praticadas em uma escala tão pequena e a poluição gerada era tão pouca que deixavam praticamente intacto o funcionamento dos ecossistemas. (ALBUQUERQUE, 2007).
No período entre a Antiguidade Clássica e a Idade Média, não obstante o limiar das sociedades urbanas e comerciais, a produção e a densidade populacional ainda não eram muito significativas, não ameaçando, de forma generalizada, o equilíbrio do meio natural. O impacto destrutivo da ação humana não avançou muito, mantendo-se em nível suportável, apesar dos registros de problemas ambientais causados principalmente pela queima de carvão. É nessa época que o homem começa a entender-se como uma entidade separada da natureza. (ALBUQUERQUE, 2007).
2 Thomas (1975) citado por Francisco Lothar Lange Jr. (1996, p.81) entende que a problemática ambiental da atualidade é o
Surge assim o paradoxo do homem não-natural, que teoricamente pode se aproveitar dos benefícios da natureza sem sofrer consequências. Foi justamente na Idade Moderna que se desenvolveu uma concepção de natureza que levaria o homem a se considerar dominador desta. (ALBUQUERQUE, 2007). A natureza, que já era considerada inferior ao homem, deixa de ser divina e passa a ser racional e controlável. Os recursos naturais são vistos apenas como insumos destinados à manutenção das necessidades humanas e sociais. Trata-se do surgimento do conceito da natureza como fonte de matéria-prima para transformação em larga escala industrial.
Desde então, a intensidade da ação do homem sobre a natureza, baseada na fruição desmedida e avassaladora, tornou-se cada vez mais presente e invasiva, progredindo em escala geométrica. Após a Revolução Industrial e Tecnológica, esse cenário tem seu apogeu na sociedade de consumo. Além disso, essa dinâmica, associada à explosão demográfica, levou o ser humano a buscar o domínio quase ilimitado da natureza, ante a crescente necessidade de utilização dos seus recursos, alterando os fatores naturais indiscriminadamente em prol de seus objetivos de crescimento, sobretudo de caráter econômico, a qualquer custo.
Sobre essa questão, Marques (2004) registra que a ordem social contemporânea demonstra que as interações do homem moderno com o seu meio, munido pelo manancial da ciência e da técnica, foram de tal modo incríveis que acabaram gerando um potencial destrutivo de risco em larga escala em relação ao meio ambiente. Ou seja, o entendimento dessa relação exploratória entre o ser humano e a natureza é essencial para a percepção de que a dissociação entre o sujeito racional e o meio ambiente os afastaram de tal maneira que a destruição deste parece ser banal e, por que não, necessária.
Não há mais como prosperar esse triste e decadente cenário. Deve-se repensar o modelo de desenvolvimento que considere futuras gerações e a preservação ambiental em longo prazo. Para Angélica Bauer Marques (2004, p.176-177), “a relação sociedade-natureza, em que o desenvolvimento acarretava sair da natureza, dominá-la e usurpá-la, está completamente ultrapassada, destoando dos anseios sociais que clama por uma sociedade justa com ela e, sobretudo, com a natureza”. Sem dúvida, a relação pautada na cumplicidade e no mutualismo deve ser a tônica do bem viver humano em meio à natureza. Como ressalta José Afonso da Silva (2002, p.53-54), “a vida humana e o meio ambiente se entrelaçam como valores reciprocamente coimplicantes.”
O meio ambiente é conceito que deriva do homem, e a ele está relacionado. Há que considerar que os homens, como seres sociais, participam dos processos de formatação dos meios que ocupam. A superação da crise ambiental só ocorrerá quando se modificar as bases da relação do homem com a natureza. O processo civilizatório, conforme enfatiza Rocha (2011), não pode conter em si o risco da extinção do homem e da biodiversidade do planeta, mas sim possibilitar um convívio social livre de opressões.
No entanto, é preciso compreender que o desenvolvimento, em seus mais diversos segmentos (econômico, social, científico, tecnológico, etc.), constitui um fator preponderante para a erradicação de muitos males da vida (pobreza, doenças, desigualdades, etc.), além de contribuir para o prolongamento da vida humana com qualidade. Esse ciclo desenvolvimentista, entretanto, tem uma face não tão virtuosa: o ônus que a humanidade e o planeta vêm pagando por tudo isso, de forma cada vez mais intensa, é a degradação do meio ambiente.
Nota-se que este é um dos paradoxos que ocupa e, mais que isso, incomoda à sociedade contemporânea. Quer-se dizer com isso que se o desenvolvimento, por um lado, resulta em condições favoráveis à qualidade de vida, por outro, contribui para a exploração desordenada dos recursos naturais. A tentativa de resolução desse paradoxo, sem dúvida, é o desafio da sociedade moderna. Não enfrentá-lo, porém, é caminhar, a passos largos, para um irremediável colapso da vida, em todas as suas formas, especialmente a humana. Fundamentalmente por isso, é cada vez maior a necessidade de se garantir a manutenção daquilo que é imprescindível à qualidade de vida humana, o meio ambiente saudável e equilibrado, o que só é possível por meio da preservação ambiental.
Consoante enfatiza Antonio Silveira Ribeiro dos Santos (1995, p.94), “na história do Planeta Terra há mais de 3 bilhões de anos não havia vida em sua superfície, o que só ocorreu depois das grandes mudanças climáticas, que propiciaram o surgimento de seres vivos, chegando atualmente a uma diversidade nunca antes atingida.” Daí porque, como acrescenta o autor, “surge a necessidade da conscientização do ser humano de sua responsabilidade para preservação dessa riqueza que atingiu seu ápice nesta época moderna.”
desenfreado e a qualquer custo. Não é, pois, por outro motivo que o desenvolvimento racional e equilibrado (= desenvolvimento sustentável) aponta para esse horizonte.
Na verdade, a superação da crise ambiental só ocorrerá quando se conseguir modificar as bases da relação entre o homem, a sociedade e a natureza. A necessidade de se estabelecer a relação entre cidadania e meio ambiente está expressa no direito do indivíduo ter um meio ambiente saudável. O sujeito consciente de sua missão social é o sujeito igualmente consciente de sua missão ecológica, de sua responsabilidade com todos os outros seres humanos. O interesse pela questão ambiental está diretamente vinculado ao interesse pela realização integral do indivíduo como ser humano. O pouco caso com a questão ambiental denota o pouco caso com a qualidade de vida. Nesse sentido é que se faz necessário examinar a compreensão ética do ser humano em face do meio ambiente e, em seguida, a inserção desse relacionamento frente ao Direito.
2.2 Ética e meio ambiente
Ao lado das normas jurídicas, porém, há outras normas que regulam a conduta dos homens entre si, isto é, normas sociais, e a ciência jurídica não é, portanto, a única disciplina destinada ao conhecimento e à descrição de normas sociais. Essas outras normas sociais podem ser abrangidas sob a designação de Moral e a disciplina dirigida ao seu conhecimento e a descrição pode ser designada como Ética. (KELSEN, 2003, p.93).
Ao examinar a relação da ética com o meio ambiente é preciso, antes, minimamente, conceituá-la, delineando seu papel dentro da dogmática jurídica. Loureiro Filho (2009) observa que a ética é a ciência do comportamento humano (da conduta do ser) e, sob o seu domínio, aponta-se os sistemas normativos necessários à viabilização da vida em sociedade. Estão reunidos, sob o seu manto, a Moral e o Direito3. A partir de premissas próprias, empregando metodologia e instrumental diversos, cada um desses campos possui certa afinidade teleológica, em vista da finalidade desejada: estabelecer regras de conduta do ser humano.
3 Nessa oportunidade, tratar-se-á do Direito Natural, enquanto gênese do Direito Positivo. Segundo Maria Helena Diniz
A Ética, ao se dedicar a compreender a conduta pela qual os seres humanos devem se orientar, com base em preceitos ideais ligados à essência natural da humanidade, preocupa-se com o estudo geral do que é bom ou mau, o que significa "bom costume", "costume superior" ou "portador de caráter". Diferencia-se da moral, pois, enquanto esta se fundamenta na obediência a costumes e hábitos recebidos, a ética, ao contrário, busca fundamentar as ações morais exclusivamente pela razão (DELEUZE, 2002). Assim, um dos objetivos da Ética é a busca de justificativas para as regras propostas pela moral e pelo Direito. Ela é diferente de ambos – Moral e Direito – pois não estabelece regras. Esta reflexão – do bem e do mal, do certo e do errado – sobre a ação humana é que a caracteriza.
Os influxos de valores éticos, que resultam da natureza humana, são expressões da consciência universal de toda humanidade. Trata-se de um ideal de comportamento ligado à essência natural da humanidade. Ora, se a ética se preocupa com as ações voltadas à afirmação do caminho retilíneo (= justo) por onde o ser humano deve se conduzir, a grande indagação, no campo da relação do homem com o meio ambiente, é a seguinte: como a eticidade deve penetrar nesta relação? A resposta deriva de como o ser humano se vê perante o meio ambiente, sua preocupação e a relevância da natureza para o pleno desenvolvimento de sua personalidade.
O relacionamento do homem com a natureza, independentemente de imperativos ou modelos a ele impostos, deve ser de respeito. Este modo de proceder, resultando da ontologia ética (dever ser), parte da necessidade de proteção ambiental em vista da própria necessidade de preservação da espécie humana. Assim, a compreensão desse relacionamento está no próprio valor da vida (e de sua manutenção), tendo em vista que o meio ambiente saudável é o lugar por onde o ser humano desenvolve seus atributos pessoais. Desse modo, a ética como princípio fundamental do comportamento do ser humano em todos os seus aspectos, busca um modo reto do homem se portar diante do meio ambiente.
exemplo. Esse modus vivendi – que urge ser totalmente repensado – é uma quimera insustentável e devastadora.
Na realidade, o ser humano, para alcançar o seu verdadeiro Olimpo, representado pelo desenvolvimento socioeconômico num meio ambiente saudável e harmônico que lhe permita realizar a plenitude de sua existência, se percorrer o estreito caminho de seu destino, sem afeição à natureza, fatalmente hesitará. Oto, na mitologia grega, ao tentar escalar o Olimpo, foi morto pela audácia. Zeus (pai dos deuses e dos homens) subiu ao Olimpo, mas junto com seus irmãos Poseidon (deus do mar) e Hades (deus da terra) que o ajudaram nessa árdua conquista. Zeus, ao dar ao homem o caminho da razão, ensinou que o verdadeiro conhecimento é obtido apenas a partir da dor. Em paráfrase, sentindo os efeitos nocivos da degradação do meio ambiente (= dor), o ser humano, ao aprender a lição e absorver uma consciência ecológica, deve buscar um comportamento ético ambiental (= razão), sem o qual, qualquer estágio de desenvolvimento que possa eventualmente atingir, será mera efemeridade.
Sob essa perspectiva, Sarlet (2012) adverte que a própria existência humana, e não mais apenas a dignidade, encontra-se ameaçada pela crise ambiental. Ao colocar em xeque a “civilização tecnológica”, o autor propõe uma abordagem ética da ciência, em vista principalmente dos riscos existenciais trazidos pelas novas tecnologias desenvolvidas pela racionalidade humana, numa dimensão sem precedentes, que expressam o triunfo do homo faber sobre a natureza e a vocação tecnológica da humanidade. A operacionalização do arsenal científico e tecnológico, a fim de preservar a condição existencial humana, bem como a qualidade de vida, deve ser submetida a parâmetros éticos.
Compartilhando esse pensamento, Édis Milaré (2005) pondera que a ética é a “ciência ou tratado dos costumes que, por seu caráter eminentemente operativo e prático, pode assumir a fisionomia de arte ou o exercício dos bons hábitos e comportamentos morais, quer na vida individual quer na social”. A relação do homem com o meio ambiente, mediante suas múltiplas e variadas relações, é inspirada e se fundamenta em preceitos éticos, e deles não se devem afastar, tendo como ponto fulcral uma dimensão preservacionista do meio ambiente, trazendo, de volta, uma contrapartida da natureza: a qualidade de vida em um meio ambiente propício para o desenvolvimento humano nos diversos aspectos de sua existência.
(FRACALOSSI, 2010). É entendida como o estudo de juízos de valor da conduta humana em relação ao meio ambiente. Trata-se da compreensão que o homem tem da necessidade de preservar e conservar os recursos naturais essenciais à perpetuação de todas as espécies de vida existentes no planeta. (SIRVINSKAS, 2013).
Para Gilles Lipovetsky (2005, p.12), a ética ambiental deve ter por suporte uma educação ambiental sólida e eficaz4, “pois apenas por intermédio da construção de uma nova moralidade diante do meio ambiente poderá ser alcançada uma melhora na qualidade de vida de todos os ocupantes do planeta e um adequado equilíbrio ambiental.” Além disso, o autor sustenta que deve ser expurgado aquele comportamento ecológico minimalista dominante do dia a dia, da prevalência do jus abutendi sobre o jus fruendi, a qual “não prescreve nenhuma auto-renúncia, nenhum sacrifício supremo, somente não desperdiçar, consumir um pouco mais ou pouco menos”.
Em arremate, Ingo Wolfgang Sarlet (2012) esclarece que se deve construir uma nova concepção ética a partir de uma adequada compreensão da ação humana em vista do atual estágio de degradação do meio ambiente. A compreensão ética também deve ser reformulada para o efeito de dar conta da complexidade da ação humana, posto que o atual estágio de desenvolvimento tecnológico alterou significativamente a relação de forças existentes entre o ser humano e a natureza. Se há algum tempo o poder de intervenção humana no meio natural era ilimitado, hoje a balança se inverteu de forma definitiva. Do ponto de vista ecológico, a relação de causa e efeito vinculada à ação humana tem uma natureza cumulativa e projetada para o futuro, o que somente reforça a necessidade da atualização do agir humano, voltada à preservação ambiental.
4A respeito da educação ambiental, Ricardo Luis Lorenzetti (2008, p.362) anota: “[...] os procedimentos
A partir da visível necessidade de se afirmar um comportamento ético-ambiental, cumpre dizer que as formulações jurídicas sobre o homem e o meio ambiente poderão variar. Tradicionalmente, sob forte influência do pensamento aristotélico-cartesiano, criou-se, no direito ambiental, uma grande dicotomia, que culminou com a divisão de duas correntes filosóficas antagônicas: a antropocentrista e a ecocentrista. É de se notar que tal divisão, nitidamente polarizada, está imbuída de um intenso maniqueísmo, como se representasse a luta do bem contra o mal.
O antropocentrismo, de um modo geral, considera que a humanidade deva ser colocada no centro do universo. O ser humano, de acordo com essa concepção, é o ente principal (central, nuclear), exercendo um tropismo natural sobre tudo que o circunda. O universo, desta forma, deve se sujeitar às necessidades do homem, ficando totalmente à mercê da humanidade. Ao defender a centralidade indiscutível do ser humano, o antropocentrismo, enquanto perspectiva ética-filosófica da compreensão do mundo coloca-o em posição superior e de domínio sobre todas as coisas e seres do universo.
A posição nuclear ocupada pelo ser humano, na dimensão antropocêntrica, decorre de sua peculiar capacidade de raciocinar e de interagir com tudo aquilo (corpóreo ou incorpóreo, biótico ou abiótico) ao seu redor. Daí resulta sua inquestionável capacidade de interferir e de transformar o meio ambiente. A tutela ambiental, nessa perspectiva, tem como precípua finalidade atender às necessidades ínsitas do ser humano, na medida em que este é o único destinatário das normas jurídicas. Para Celso Antonio Pacheco Fiorillo (2008, p.16), fervoroso defensor do pensamento antropocêntrico, “o direito ao meio ambiente é voltado para a satisfação das necessidades da pessoa humana. A vida que não seja humana só poderá ser tutelada na medida em que sua existência implique garantia de qualidade de vida do ser humano.”
Em sentido contrário, o ecocentrismo defende o valor per se do meio ambiente, ou seja, um valor não instrumental dos ecossistemas, cujo equilíbrio pode obrigar a limitar determinadas atividades humanas (ALMEIDA, 2008). O termo ecocentrismo foi cunhado na década de 1970, pelos adeptos do deep ecologists, ao fazer referência à ideia de que todas as vidas – e não só a humana – possuem um valor intrínseco. Concebe-se que a natureza, assim como qualquer ser que nela exista, tem um valor além daquele associado à sua utilidade para os homens.
mas estabelecida por uma interação igualitária das partes interconectadas e, segundo a regra moral principal dessa perspectiva, a evolução natural desses sistemas não deve sofrer interferência. A metáfora predominante é a orgânica, na qual todas as coisas estão conectadas a todas as demais, e relacionamentos e processos internos ocorrem entre as partes.
Ao rechaçar a prevalência humana sobre a natureza, o ecocentrismo afasta a ideia de dominação do meio ambiente pelo indivíduo, enjeitando a possibilidade de fruição desmedida dos recursos naturais por quem quer que seja. Neste sentido, Fabio Alves Gomes de Oliveira e Rachel Souza Martins (2014, p.169) salientam:
A Ecologia Profunda, assim, mostra-se como uma teoria revolucionária na medida em que rompe com o aspecto contratualista da moral tradicional e visa ao estabelecimento de deveres morais para com todos os seres. A moral tradicional limitava-se a uma comunidade daqueles que podiam fazer parte do ‘contrato’ ou dos
que eram assistidos pelos humanos, como as espécies privilegiadas. Na tentativa de ampliar tal comunidade a Ecologia Profunda procura reconhecer os valores intrínsecos de seres pertencentes ao meio que nos circunda.
É possível aqui, delimitar alguns conceitos trazidos pela perspectiva da Ecologia Profunda a fim de analisá-los detalhadamente. Tal teoria ética prevê: a) o valor intrínseco da vida humana e não-humana como base de seu ideal ético-ecológico e b) a própria biodiversidade possui um valor em si mesmo. A partir da visão defensora de um valor para o todo e não meramente de suas partes, bem como o reconhecimento de um valor inerente à vida, é possível traçar uma perspectiva ambiental centrada não somente no homem e seus interesses gerais, mas tal ética é centralizada no meio ambiente como um organismo vivo capaz de autogerir-se ou autorrealizar-se.
Observa-se assim que a proteção à natureza acontece em função dela mesma e não somente em razão do ser humano. A natureza é passível de valoração própria. Além disso, como a natureza tem valor per se, a sua proteção poderá, inclusive, ser em desfavor do próprio homem. Ou seja, conforme aponta Édis Milaré (2004, p.20), “não é mais possível considerar a proteção da natureza como um objetivo decretado pelo homem em beneficio exclusivo do próprio homem. A natureza tem que ser protegida também em função dela mesma, como valor em si, e não apenas como um objeto útil ao homem.”
É importe esclarecer, no entanto, que essas duas cosmovisões da relação do homem com a natureza têm propiciado um fervoroso embate na doutrina ambiental, marcado pela animosidade recíproca. Trata-se, portanto, de mais uma polarização de conceitos e paradigmas experimentada pelo Direito (= dicotomia). Em termos gerais, os adeptos dessas concepções éticas, de lado a lado, buscam ostensivamente investir contra a posição filosófica contrária, expurgando o pensamento que lhe é desafeto, com a finalidade de firmar, no mundo jurídico-acadêmico, sua predileção sobre um determinado pensamento ético ambiental, se antropocêntrico ou ecocêntrico.
Nesse sentido, Sônia Teresinha Felipe (2010) anota que a crítica que o antropocentrismo faz ao ecocentrismo se concentra na privação da liberdade individual. Enquanto a visão ecocêntrica propõe uma redução drástica no consumo a fim de se evitar o que eles denominam de um verdadeiro “holocausto ambiental”, o antropocentrismo aponta que essa privação não precisa ser tão radical, de forma a afetar o desenvolvimento econômico. Ao seu turno, o ecocentrismo responsabiliza a concepção antropocêntrica do meio ambiente por atribuir ao ser humano a qualidade de dominador da natureza, podendo usufruí-la indeterminadamente para atender aos seus desígnios. Para Marcelo Abelha Rodrigues (2013, p.64), “a aposentada e deturpada visão antropocêntrica, fruto de um liberalismo econômico exagerado e selvagem, não há mais como prevalecer num mundo em que se enxerga que o bem ambiental de hoje pertence às futuras gerações”.5
Verifica-se assim que os adeptos de determinada cosmovisão, entendendo que a sua posição é certa e inexpugnável, passa a tratar o tema como um verdadeiro dogma. Não fosse isso o bastante, ainda como reflexo dessa dicotomia, tanto o antropocentrismo como o ecocentrismo, em detrimento da concepção “adversa”, procura “satanizar” aquela que lhe contrapõe. Daí resulta a forte tendência de se tratar a concepção antropocêntrica de forma pejorativa, exprimindo um sentido negativo, de que a adoção desse conceito ambiental denotaria a desvalorização das outras espécies do planeta e estaria, portanto, associado à degradação ambiental, uma vez que a natureza estaria subordinada aos interesses dos seres humanos. Ainda é possível extrair dessa beligerância revelada pelos ecocentristas certa soberba, ao arrogarem para si a qualidade de únicos defensores da questão ambiental.
5 Para Aristides Arthur Soffiati Neto (2005, p.202-208), “[...] nenhuma cultura colocou o ser humano em pedestal tão elevado
Todavia, não se pode perder de vista que a degradação e/ou a preservação ambiental não resultam do acolhimento de uma ou de outra concepção ética acerca do meio ambiente (dever ser), mas da forma com que a fruição do meio ambiente é realizada (ser), independentemente do conceito filosófico adotado. Quando se trata de preservação (fazer) ou não degradação do meio ambiente (não fazer), o que prevalece é o comportamento (fato jurídico humano). Não se pode querer que o “mundo das ideias”, abstrato e inanimado, exerça uma função que não é, essencialmente, dele e sim do “mundo real”, por onde a conduta humana (positiva e/ou negativa), em que pese a força da natureza, é considerada fator preponderante para contribuir ou não por um meio ambiente sadio e equilibrado.
Certamente, há que se afastar a maneira oposicionista como os preceitos ético-filosóficos envolvendo a relação do ser humano com o meio ambiente são tratados na dogmática brasileira. A dicotomia entre antropocentrismo e ecocentrismo, impingida pela doutrina, tal como a luta do bem contra o mal, resta, portanto, superada, à medida que não se reconhece, nesse triste cenário, vencidos e vencedores. O meio ambiente, diante de suas múltiplas formações, deve contemplar a coexistência entre o homem e a natureza no mundo real ou das ideias. Tudo isso como meio de assegurar uma estreita relação, sob qualquer ponto de vista, entre o ser humano e a natureza, sobretudo baseada no respeito a todas as formas de vida do planeta.
Seja qual for a concepção adotada, o relacionamento entre as pessoas e o meio ambiente não deve ser revestido de um caráter oposicionista, como lamentavelmente acontece, dividindo o mundo, de forma simplista, ou até mesmo inocente, entre bom e mau. Ora, nenhuma dessas concepções éticas é intrinsecamente má, e nem absolutamente boa. Não se nega, na realidade, que o meio ambiente carrega em si um valor autônomo e independente do ser humano, mas essa asserção não referenda, como quer os ecocêntricos extremistas, que tal reconhecimento reduza simplesmente a pó a importância da pessoa humana para o Direito e o planeta.
Nesse aspecto, Fracalossi (2010) ressalta que não é possível, de um lado, admitir que o animal humano arrogue para si o direito sobre o destino de todos os demais simplesmente porque pode, porque é o mais forte; nem tampouco, de outro, a ecologia radical (deep ecology), base fundante do ecocentrismo, que se alimenta de um impulso romântico extraordinário de retorno à natureza, verdadeiro paraíso perdido, adornado de todas as seduções da virgindade. Esse quadro dramático, emoldurado pelas boas linhas do autor, representa o extremo conflito entre os paradigmas éticos da relação entre o homem e a natureza.
Para dirimir essa dicotomia, é preciso fundir as duas grandes cosmovisões, com vistas ao surgimento de um terceiro gênero, a tutelar equitativamente aqueles que compõem o planeta. Nessa linha de pensamento, Rodrigues (2013) esclarece que, ao colocar em seu eixo central a proteção a todas as formas de vida, a Lei nº6.938/81 concebeu um novo paradigma ético em relação ao meio ambiente, adotando, desde então, a concepção biocêntrica. Essa visão do meio ambiente distanciou a ideia antiquada de considerar o homem como algo distinto do meio em que vive, passando a integrá-lo como um elemento que participa das forças da natureza. O fato de o ser humano ser colocado no centro da questão ambiental não significa inferir que ele está acima da natureza.
Partindo dessa mesma ideia, Benjamin (2001) afirma que o Direito Ambiental bem recepciona as duas concepções jusfilosóficas, tendo em vista que a proteção do meio ambiente, no sistema jurídico brasileiro, possui uma dupla valência. Ao absorver as duas maiores acepções éticas ambientais, abrange ao mesmo tempo um direito do homem e a manutenção do ecossistema. Assim, rompe com o paradigma antagônico e dualista, a concepção biocêntrica que considera o ser humano como um elemento indissociável do meio ambiente.
Antropocentrismo e ecocentrismo, passando-se mais adiante pelo biocentrismo, são diferentes cosmovisões da relação indissociável entre o ser humano e o meio ambiente. O paradigma ético ambiental, baseado na preservação da natureza e no equilíbrio ecológico, deve se pautar pela interligação do ser humano ao meio ambiente, inserindo uma consciência preservacionista e cooperativa, já que sem ambiente ecologicamente equilibrado, não há perspectiva de vida humana digna para presentes e futuras gerações (MILARÉ, 2005). O que se pretende destacar é que a evolução do Direito Ambiental segue de tal modo a salvaguardar a vida em todas as suas formas, tornando-o um instrumento de proteção à vida lato sensu. Este é o seu objeto, a vida, em todas as suas extensões e dimensões. Tal é o pensamento biocêntrico, que transporta a tutela jurídica a uma seara maior, onde a vida em ampla perspectiva deve ser preservada.
2.3 A origem da conscientização do meio ambiente sob o panorama internacional
Princípio 1 O homem tem o direito fundamental à liberdade, à igualdade e ao desfrute de condições de vida adequadas em um meio ambiente de qualidade tal que lhe permita levar uma vida digna e gozar de bem-estar, tendo a solene obrigação de proteger e melhorar o meio ambiente para as gerações presentes e futuras. (Declaração da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano –
1972).
A compreensão do direito ao meio ambiente como direito fundamental e um direito de personalidade do ser humano, tal como oportunamente será desenvolvido, passa, em princípio, pela busca da gênese de um processo que transformou o modo como a humanidade vê e utiliza a natureza, a partir do surgimento de uma consciência ambiental global, resultado de grandes movimentos mundiais. É bem verdade, no entanto, que esse processo de conscientização ambiental é relativamente recente, havendo ainda diversas medidas a serem efetiva e sistematicamente tomadas, ao longo do tempo, para minimizar o impacto causado pelo homem no meio ambiente e, sobretudo, para proteger e preservar o patrimônio natural remanescente.
ocasionando a morte de milhares de pessoas em virtude da intensa poluição do ar.6 Esse fenômeno foi considerado um dos piores impactos ambientais até então, causado pelo crescimento incontrolado da queima de combustíveis fósseis na indústria e nos transportes viários.
Depois de aproximadamente uma década, em 1968, alarmados com os rumos tomados pelas transformações da sociedade e suas consequências sobre os recursos naturais, o industrial italiano Aurelio Peccei e o cientista escocês Alexander King fundaram o Clube de Roma. Tratava-se de um grupo de notáveis e estudiosos de diversas aéreas (dentre eles o ex-Presidente da República Fernando Henrique Cardoso) que se reuniram com o propósito de debater um vasto conjunto de assuntos relacionados à política, à economia internacional e, especialmente, ao meio ambiente e desenvolvimento sustentável7.
Com base em um estudo levado a cabo por esse grupo junto ao Massachusetts Institute of Technology (MIT), elaborou-se um relatório, publicado em 1972, “Os limites do crescimento”, que basicamente tratava de problemas fundamentais para o futuro desenvolvimento da humanidade como energia, poluição, saneamento, saúde, meio ambiente, tecnologia e crescimento populacional (LAGO, 2007). Esse trabalho trouxe previsões extremamente negativas e alarmantes em relação aos efeitos do crescimento populacional sobre a degradação do meio ambiente e o esgotamento dos recursos naturais. Ainda que essas projeções tenham sido alvo de críticas, por seu caráter catastrófico e apocalíptico, é certo que, inegavelmente, contribuíram para alertar governos e a população mundial sobre a importância da preservação ambiental e a necessidade de mudanças de comportamento do ser humano frente ao meio ambiente.
Sob esse cenário e influência, em 1972, na capital da Suécia, em Estocolmo, aconteceu a Primeira Conferência Mundial sobre o Homem e o Meio Ambiente, realizada pela ONU (também conhecida como Conferência de Estocolmo), juntamente com os Estados
6 Conforme relata Ribeiro (2010), em dezembro de 1952, uma frente fria chegou a Londres e fez com que as pessoas
queimassem mais carvão que o usual no inverno. O aumento na poluição do ar foi agravado por uma inversão térmica, causada pela densa massa de ar frio. O acúmulo de poluentes foi crescente, especialmente de fumaça e partículas do carvão que era queimado. Devido aos problemas econômicos no pós-guerra, o carvão de melhor qualidade para o aquecimento havia sido exportado. Como resultado, os londrinos usaram o carvão de baixa qualidade, rico em enxofre, o que agravou muito o problema. O nevoeiro resultante, uma mistura de névoa natural com muita fumaça negra, tornou-se muito denso, chegando a impossibilitar o trânsito de automóveis nas ruas. Muitas sessões de filmes e concertos foram canceladas, uma vez que a plateia não podia ver o palco ou a tela, pois a fumaça invadiu facilmente os ambientes fechados. Acredita-se que o nevoeiro tenha causado a morte de 12.000 londrinos, e deixado outros 100.000 doentes.
7 O Clube de Roma é uma organização independente sem fins lucrativos. A função do Clube de Roma é debater as causas
participantes e a comunidade científica, visando tratar da problemática: o homem e o meio ambiente.8 Segundo Ribeiro (2010), esta conferência marcou uma etapa muito importante na ecopolítica internacional. Basicamente, foi a primeira grande reunião organizada para tratar de questões ambientais e a primeira atitude da comunidade internacional na busca da preservação do meio ambiente. Princípios e conceitos extraídos da conferência tornaram-se base para impulsionar a questão ambiental, influenciando as relações entre os atores internacionais no que diz respeito ao meio ambiente.
Do ponto de vista geoeconômico, a conferência foi marcada pelo impasse entre as diferentes perspectivas dos países desenvolvidos e dos países em desenvolvimento. A discussão girava em torno da produção industrial e da degradação do meio ambiente. Conforme observa Machado (2006), os países desenvolvidos e economicamente estabilizados estavam mais preocupados com as questões ambientais e a preservação da natureza. Por outro lado, os países em desenvolvimento viam a produção industrial como única forma de rapidamente sair da miséria e resolver seus problemas de moradia e de saneamento básico.
Dentro desse contexto, o Brasil, marcado por seu precário desenvolvimento social e econômico e sob a égide de um governo autoritário, necessitando dar uma resposta rápida aos anseios populares por meio de um desenvolvimento a qualquer custo, apresentou-se, na Primeira Conferência sobre o Meio Ambiente da Organização das Nações Unidas, a favor do crescimento econômico despreocupado com a proteção e preservação ambiental, a pretexto de ser essa a única forma de erradicar a pobreza e projetar um futuro promissor de desenvolvimento econômico e social para o país.
Posteriormente, já na década de 1980, a comunidade internacional retomou a discussão sobre o meio ambiente frente ao desenvolvimento econômico. Em 1983, a Organização das Nações Unidas, em assembleia geral, indicou a então primeira-ministra da Noruega, Gro Harlem Brundtland, para a presidência da Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (CMMAD), criada para estudar o tema. Como resultado dessa comissão, em 1987, apresentou-se o relatório intitulado Our Common Future, também
8Segundo Le Preste (2000, p.174-175), quatro fatores influenciaram a realização da Primeira Conferência do Meio Ambiente: