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A responsabilidade civil ambiental na sociedade de risco

No documento Jose Francisco de Souza Rolim (páginas 124-127)

AMBIENTE ECOLOGICAMENTE EQUILIBRADO

4 AS DIMENSÕES DO DANO AMBIENTAL

4.1 A responsabilidade civil ambiental na sociedade de risco

A sociedade contemporânea, de um modo geral, está ligada à ideia de sociedade de consumo, fundada no avanço desenfreado do desenvolvimento industrial; caracteriza-se pelo consumo massivo de bens e serviços, disponíveis graças ao elevado modo de produção. Sob a perspectiva macroeconômica, a sociedade de consumo está voltada à economia de mercado, baseando-se no equilíbrio entre oferta e demanda através da livre circulação de capitais, produtos e pessoas, de relativa intervenção estatal. Hiperdimensionado essa cenário, frente à desmedida ampliação do consumo, impulsionada pelo progresso tecnológico, que cria demandas até outrora desconhecidas, chega-se ao que atualmente se chama de Sociedade de Risco, marcada, paradoxalmente, pelas incertezas deflagradas pelos novos campos do conhecimento humano.

Esse novo modelo de sociedade pós-industrial conforma o estágio atual da modernidade em que as ameaças ao meio ambiente deixaram de ser etéreas, passando a preocupar até mesmo os mais céticos (FERNANDES JUNIOR, 2015). A Teoria da Sociedade de Risco reflete justamente a conscientização do exaurimento do modelo de produção do período industrial clássico, marcando a passagem de uma sociedade industrial mecanicista para uma formatação tecnologicamente potencializada, que deixa a sociedade à mercê do

risco permanente de desastres, além do risco inerente ao uso desmedido dos bens ambientais, da própria expansão demográfica e do compulsivo afã mercantil.

Atualmente moldada por esse quadro conjuntural, a sociedade foi capaz de exercer profundas irritações no âmbito do sistema de Direito, inclusive no que diz respeito ao Direito Ambiental para lidar com os danos ecológicos produzidos pela sociedade.145 A sociedade de risco, como destaca Carvalho (2007), produz, a reboque, riscos ecológicos, cujas características são: a invisibilidade (fogem à percepção dos sentidos humanos e são caracterizados por uma hipercomplexidade causal); a globalidade (refere-se à amplitude das consequências negativas causadas pelos ecológicos, desencadeando efeitos de dimensões globais) e a transtemporalidade (consiste no seu potencial danoso projetado para o futuro).

É perceptível assim que a incerteza na sociedade complexa e de risco é uma constante. Logo, na sociedade contemporânea, não há mais como conviver sem a sua presença ou, pelo menos, sem a sua sombra. Em virtude dessa conjuntura, deve haver uma conformação entre o risco e o Direito, sobretudo no que diz respeito ao Direito Ambiental.146 Da mesma forma que a sociedade não mais pode negar a existência da incerteza, por onde frutifica o risco, o Direito não pode ficar inerte diante desta constatação. O Direito nasce da sociedade e a ela, contínua e sistematicamente, deve se adaptar147. Se, atualmente, o risco é um fundamento da sociedade, deve o ser também do Direito.

No campo da responsabilidade civil ambiental, o risco representa um dos maiores problemas a serem enfrentados, especialmente quando se trata da apuração do dano ao meio ambiente.148 O sistema jurídico mais adaptado ao dano ambiental precisa criar novos

145 Nesse sentido, José Rubens Morato Leite (2012, p.53), ao tratar da sociedade de risco e a responsabilidade civil por danos ao meio ambiente, salienta: “A teoria da sociedade de risco, característica da fase seguinte ao período industrial clássico, representa a tomada de consciência do esgotamento do modelo de produção, sendo esta marcada pelo risco permanente de desastres e catástrofes. Acrescente-se o uso do bem ambiental de forma ilimitada, pela apropriação, a expansão demográfica, a mercantilização, o capitalismo predatório – alguns dos elementos que conduzem a sociedade atual a situações de periculosidade e de crise ambiental. A sociedade de risco é aquela que, em função de seu contínuo crescimento econômico, pode sofrer a qualquer tempo as consequências de uma catástrofe ambiental.”

146 Para Meirelles (1986), a degradação do meio ambiente, sobretudo, a partir de meados do século passado, agravou-se em virtude do incontido crescimento populacional e, paradoxalmente, em razão do progresso da ciência e da tecnologia que proporcionou à humanidade o domínio e a fruição desmedida dos mais diversos recursos naturais, culminando com o avanço da ocupação desordenada do solo para, minimamente, atender às necessidades de produção e habitação do ser humano. Em razão disso, os mais variados ecossistemas vêm, sistematicamente, sofrendo danos e agressões em profusão. Diante desses incontestes e fatídicos acontecimentos, o Estado contemporâneo se encontra na contingência de preservar o meio ambiente, para assegurar a sobrevivência das gerações futuras em condições satisfatórias de alimentação, saúde e bem-estar, fazendo eclodir um novo ramo, o Direito Ambiental.

147 De acordo com Rammê e Azeredo (2011), em virtude da incerteza científica a respeito dos riscos ecológicos gerados pela sociedade contemporânea, fundada no avanço de (novas) tecnologias. Trata-se de riscos abstratos, de dimensão incerta, reflexo de uma ecocomplexidade característica da sociedade pós-industrial. Destarte, nesse contexto social, na qual os riscos ecológicos são fruto de uma ecocomplexidade, surge a necessidade de jurisdicização do risco, isto é, a autoirritação do Direito Ambiental, em suas estruturas tradicionais, para assimilar os riscos e perigos ecológicos. Há, portanto, uma necessidade de uma abertura cognitiva que dote o Direito Ambiental de reflexividade para o enfrentamento da ecocomplexidade. (RAMMÉ; AZEREDO, 2011).

148 Tratando-se de dano ao meio ambiente, há necessidade de adaptação do sistema de responsabilidade civil, pois, como bem observa Leite (2012, p.56), a abordagem deve ser outra, pois: “o dano ambiental tem condições de projetar seus efeitos no

mecanismos de responsabilização preventivos e de precaução imputando sanção e prudência aos novos riscos ambientais, potenciais ou abstratos, mas intoleráveis na sociedade pós- industrial, que comporte, concomitantemente, a proteção dos recursos naturais e da dignidade da pessoa humana. Para Coellho (2009), o instituto da responsabilidade civil procura garantir a todos os sujeitos a preservação de seus direitos (patrimoniais ou da personalidade), no sentido de assegurar a respectiva e adequada indenização.

Desse modo, a responsabilidade civil voltada às questões ambientais surge como um instrumento capaz de garantir a recomposição do dano suportado pela vítima, cuja predisposição pode ser individual ou coletiva. Conforme se pode notar, a responsabilidade civil por dano ambiental é tratada pela Lei da Política Nacional do Meio Ambiente (Lei nº6.938/81), que, em seu artigo 14, §1º, dispõe: “sem obstar a aplicação das penalidades previstas neste artigo, é o poluidor obrigado, independentemente da existência de culpa, a indenizar ou reparar os danos causados ao meio ambiente e a terceiros, afetados por sua atividade.” (assinalado). Percebe-se, pois, que se trata de responsabilidade civil independentemente da existência de culpa, sendo, por isso, objetiva, bastando provar o dano e o nexo de causalidade para dar ensejo ao dever de indenizar.149

Permite-se assim afirmar que a Teoria da Responsabilidade Objetiva está plenamente incorporada ao sistema de responsabilidade civil ambiental. O elemento culpa deixa de ser um dos requisitos para a configuração da obrigação de indenizar frente aos danos causados ao meio ambiente.150 Essa constatação resulta em um enorme avanço para preservar e proteger os recursos naturais. Ora, se não há mais discussão se a responsabilidade civil em matéria ambiental é subjetiva ou objetiva, o mesmo não se diga sobre o tipo de responsabilidade objetiva que se aplica na hipótese de dano ambiental, se fundada na teoria do risco criado (ou mitigado) ou se baseada na teoria do risco integral. Há, nesse sentido, divergência quanto ao

tempo sem haver uma certeza e um controle de seu grau de periculosidade. Pode-se citar como exemplos: os danos anônimos (impossibilidade de conhecimento atual), cumulativos, invisíveis, efeito estufa, chuva ácida e muitos outros. Os referidos exemplos são provas incontestáveis da crise ambiental, bem como da necessidade de formas alternativas de reparação do dano e de compensação ecológica. Toda essa proliferação das situações de risco acaba por vitimizar não só a geração presente, como também as futuras gerações.”

149Desta forma, Clarice Viana Binda (2009, p.71) anota que “a responsabilidade civil, quando se trata de meio ambiente, configura-se como objetiva, ante a necessidade de busca de instrumentos legais mais eficazes, pois as regras clássicas da responsabilidade fundada na culpa não “ofereciam proteção suficiente e adequada às vítimas de dano ambiental”. Do mesmo modo, segundo explica Paulo Afonso Leme Machado (2004, p.324-325), trata-se “[...] de bens de interesse da coletividade, cuja lesão ou destruição terá consequências não só para a geração presente, mas também para a geração futura”. Assim, a objetivação da responsabilidade civil ambiental é oportuna em decorrência do bem que se protege: o meio ambiente, de natureza difusa, pertencente a toda coletividade. Na concepção objetiva, para efeito de responsabilidade civil, devem estar presentes o dano e o nexo causal. Isso significa que aquele que contribuiu para causação do dano ambiental tem o dever de repará-lo.

150 Segundo Leite (2003), o estabelecimento da responsabilidade civil objetiva é de fato uma tentativa de resposta da sociedade ou de adequação a certos danos ligados a interesses coletivos e difusos, que não seriam ressarcíveis, tendo em vista a concepção clássica de danos ligados a interesses próprios, certos.

tipo de responsabilidade objetiva que se aplica na hipótese de dano causado ao meio ambiente: se é a teoria do risco criado (ou mitigado) ou a do risco integral.151

O descompasso doutrinário se deve em razão do artigo 14, §1º da Lei nº6.938/81. Ao prescrever que o poluidor é obrigado, independentemente da existência de culpa, a indenizar ou reparar os danos causados ao meio ambiente, resta inquestionável quanto à desnecessidade de se perquirir a culpa na consecução da responsabilidade ambiental. Trata-se de típica responsabilidade civil objetiva. No entanto, o mesmo dispositivo deixa dúvidas, por não dispor expressamente, quanto à necessidade de se aferir se o dano decorreu, ou não, do exercício de uma atividade reconhecida legalmente, de forma a excluir a responsabilidade se derivada dessa licitude.

No documento Jose Francisco de Souza Rolim (páginas 124-127)

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