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Classificações do dano ambiental

No documento Jose Francisco de Souza Rolim (páginas 132-136)

AMBIENTE ECOLOGICAMENTE EQUILIBRADO

4 AS DIMENSÕES DO DANO AMBIENTAL

4.2 Teoria do Risco Criado

4.3.2 Classificações do dano ambiental

A expressão dano ambiental possui várias acepções. Em certos casos, diz respeito à alteração nociva no meio ambiente, em outros se relaciona à afetação do direito que a todos assiste a um meio ambiente ecologicamente equilibrado, podendo também ser analisado de acordo com a espécie de prejuízo acarretado ao ser humano, de ordem patrimonial ou extrapatrimonial, pois, conforme esclarece Leite (2010), o meio ambiente possui uma conformação complexa, a partir da natural interação dos inúmeros recursos que o compõe. Por consequência, para melhor visualizar e compreender as facetas do dano ambiental, a seguir, destacar-se-á suas classificações.

4.3.2.1 Quanto à amplitude ou extensão do bem protegido

O dano ambiental puro, também denominado ecológico puro ou dano ecológico stricto sensu é aquele em que há afetação prejudicial dos elementos naturais do meio ambiente, como fauna e flora. Nesse caso, cuida-se do bem ambiental em sentido estrito (em si e autônomo), ou seja, leva-se em conta somente a afetação danosa dos componentes naturais do ecossistema. A par desse dano, ainda inserido nessa classificação, encontra-se o dano ambiental reflexo ou dano ecológico lato sensu, abrangendo não só a lesão ao patrimônio ambiental (microbem e macrobem ambiental), como também o dano à esfera individual ou coletiva dos seres humanos, material ou extrapatrimonial, que podem ser perfeitamente atingidas em face de determinada lesão ao meio ambiente. Procura-se, nessa perspectiva, tutelar a preservação do meio ambiente e os direitos subjetivos do ser humano em razão do dano ambiental.

4.3.2.2 Quanto à determinação dos interesses envolvidos e sua reparabilidade

O dano ambiental individual ou privado é aquela espécie de dano que, embora relacionado ao meio ambiente, encontra-se adstrito a uma determinação dos interesses envolvidos em função do direito subjetivo violado. Trata-se de um dano ambiental que viola interesses pessoais e se direciona, a princípio, ao meio ambiente como um microbem

ambiental, cuja reparação é direta ao ofendido, embora também possa haver determinação de sujeitos atingidos em virtude do dano causado ao macrobem ambiental.160Sendo individual ou individual homogêneo, ao se identificar o(s) lesado(s), busca-se indenizar os valores patrimoniais ou morais do(s) próprio(s) lesado(s). Consequentemente, a reparação dos danos suportados é direta, de forma que a vítima será individual e particularmente indenizada.

De outra ordem, mas nesse mesmo diapasão, encontra-se o dano ambiental coletivo, ofensa causada ao meio ambiente amplamente considerado. Afronta-se, nessa condição, o macrobem ambiental, formado pelo conjunto de interações e elementos naturais do ecossistema capaz de influenciar negativamente o equilíbrio e a harmonia do meio ambiente, de interesse difuso e reparabilidade indireta. A tutela jurídica é voltada à coletividade, em decorrência da repercussão do dano causado ao meio ambiente, que se dá em profusão, diante de seu caráter transindividual e indivisível, por afetar material ou imaterialmente todos os integrantes da coletividade, de uma maneira indiscriminada, atingindo, portanto, sujeitos indeterminados.

4.3.2.3 Quanto aos efeitos da lesão ambiental suportados pelo ser humano

Em razão dos efeitos que o dano ao meio ambiente pode ocasionar à pessoa humana, cumpre esclarecer que o caráter patrimonial ou moral do dano não se prende à verificação da natureza do direito subjetivo lesado, mas aos efeitos advindos da lesão jurídica, visto que em decorrência do mesmo evento danoso, é possível resultar danos de ordem diversa.161 Fundada na mesma estrutura do sistema geral de responsabilidade civil, no que concerne à espécie de direito violado, a obrigação de indenizar, em matéria ambiental, pode ser também de cunho material ou moral.

O dano ambiental patrimonial ou material é o dano ambiental que, ao afetar as condições necessárias para que o ser humano possa viver em um meio ambiente saudável,

160 A despeito da perspectiva da análise do Direito Ambiental ser difusa, de caráter transindividual e indivisível, por afetar à coletividade de uma maneira indiscriminada, o dano ambiental também pode ter um caráter individual. Isto porque, mesmo que em última análise a matéria ambiental sempre seja coletiva lato sensu, aspectos particulares podem atingir especialmente determinados indivíduos. Exemplificando, Farias (2007) cita o caso de um pecuarista que perdeu o gado ou do agricultor cuja propriedade ficou infértil por conta da poluição de uma fábrica vizinha. Nesse caso, a ação ordinária seria o instrumento jurídico adequado para a vítima dos danos ambientais (microbem ambiental), ao mesmo tempo em que a ação coletiva também poderia ser manejada em virtude da degradação causada ao meio ambiente (macrobem ambiental).

161 Segundo Édis Milaré (2000, p.68), “o Direito Ambiental, ao proteger integralmente todos os bens ambientais, abarca não somente o meio ambiente natural, as condições físicas da terra, da água e do ar, mas também o meio ambiente humano, ou seja, as condições que afetam sua existência ou a qualidade de vida humana no Planeta”. Assim, conforme esclarecem Gomes e Pereira (1998, p.9), o Direito brasileiro, ao ampliar o conceito de bem ambiental, apontando para os fatores de ordem econômica, sociais e culturais, admite que além destes serem interativos entre si, produzem efeitos, direta ou indiretamente, sobre a qualidade de vida do homem. Para Maria Isabel de Matos Rocha (2000, p.132), patrimônio ambiental é “um conjunto de bens que possibilitam um desenvolvimento equilibrado da vida humana”, sendo, portanto, pressuposto dos demais direitos fundamentais.

causa prejuízo de ordem material ao sujeito ou à coletividade, por justamente atingir interesses de natureza econômica, cujo enfoque está voltado à reconstituição, reparação e indenização do bem ambiental lesado ou, ainda, quanto ao dever de reparar o prejuízo material, em função do proveito econômico extraído de um meio ambiente saudável. A título de ilustração, seria o singular caso dos danos materiais suportados por um pescador, que deixa de auferir renda, em decorrência do derramamento de produto combustível responsável pela mortandade da fauna marinha.

O dano moral ou extrapatrimonial ambiental é aquele que, em virtude de lesões desferidas ao meio ambiente, ofende-se valores relacionados à dignidade da pessoa humana em âmbito individual ou coletivo. Trata-se da hipótese de configuração do dano moral em virtude da lesão ao meio ambiente enquanto local adequado para realizar a plenitude dos atributos pessoais, reconhecendo-se, dessa forma, um aspecto ecológico da personalidade do ser humano. Em se tratando de dano ao meio ambiente, ao se considerar que essa predisposição danosa recai sobre as condições de vida, atingindo interesses diretamente associados à dignidade da pessoa humana, como a saúde e a qualidade de vida, tanto a esfera imaterial do indivíduo pode ser violada (dano moral ambiental individual), quanto, ampliando essa hipótese, também poderão ser vilipendiados os valores ambientais de certa comunidade (dano moral ambiental coletivo).162

162 A respeito da profusão do dano moral ambiental, Carlos Alberto Bittar Filho (1994, p.45) entende que “o dano moral coletivo é a injusta lesão da esfera moral de certa comunidade, ou seja, é a violação antijurídica de um determinado círculo de valores coletivos”. Para Carlo Castronovo citado por Carlos Alberto Bittar Filho, (2001) o exemplo clássico de dano moral coletivo (lato sensu, já que diz respeito a um direito difuso) é o dano ambiental, já que as agressões ao meio ambiente afetam diretamente a saúde e a qualidade de vida da comunidade. Talden Queiroz Farias (2007, p.120), ao mencionar o reconhecimento por parte da jurisprudência do dano moral coletivo, exemplifica que “Nas ações contra a Petrobrás, por exemplo, o Ministério Público Federal tem sempre requerido a indenização por danos morais coletivos lato sensu em matéria ambiental, além da descontaminação e do monitoramento da área atingida. No mês de março de 2002, na ação civil pública nº2001.001.14586, promovida pelo Município do Rio de Janeiro, a desembargadora Maria Raimunda de Azevêdo, do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, relatou na 2ª Câmara Cível o acórdão que em parte se transcreve condenando um cidadão ao pagamento dos danos morais ambientais: a condenação imposta com o objetivo de restituir o meio ambiente ao estado anterior não impede o reconhecimento de reparação do dano moral ambiental. Pacífico o entendimento por este Colegiado de que a indenização por dano moral comporta pedido genérico, deixando-se ao arbítrio do julgador a quantificação, a ausência de pedido certo e determinado não impede a condenação, uma vez existente pedido genérico. Em se tratando de proteção ambiental a responsabilidade é objetiva, bastando a demonstração do dano existente com a prova do fato perpetrado contra a coletividade pela degradação do ambiente. Uma coisa é o dano material consistente na poda de árvores e na retirada de sub-bosque cuja reparação foi determinada com o plantio de 2.000 árvores. Outro é o dano moral consistente na perda de valores ambientais pela coletividade. De acordo com Simone de Almeida Bastos Guimarães (2002): Com relação

ao dano ambiental moral de caráter individual, vale lembrar os casos em que apenas ou principalmente determinadas pessoas são prejudicadas individualmente, a exemplo de “problemas de saúde pessoal por emissão de gases e partículas em suspensão ou ruídos, a infertilidade do solo de um terreno privado por poluição do lençol freático, doença e morte do gado por envenenamento da pastagem por resíduos tóxicos”. Deverá essa indenização por danos morais ser compatível com a situação do autor e condizer com a abrangência e periculosidade dos danos. Todavia, não poderá a quantia dos danos morais ser pouco significativa quando houver danos irreparáveis à vida e à saúde, que são o mais precioso bem de um homem e que pode abarcar o Direito. (grifo nosso). Não se pode esquecer que alguns danos morais repercutem na esfera patrimonial do prejudicado, fato que obviamente também pode ocorrer com o dano ambiental. É o caso, por exemplo, do sujeito que teve a fazenda contaminada por metais pesados prejudicando a sua agricultura ou sua pecuária. Nenhum negociador compraria ou trocaria gado afetado com tal poluição, já que esses animais morrerão logo ou necessitarão de gastos com medicação. Ninguém comeria a carne desses animais ou beberia o seu leite, nem se alimentaria de seus derivados, devido ao risco de contaminação. Ninguém consciente compraria frutas ou verduras de uma propriedade que estivesse

4.3.2.4 Quanto ao tempo de privação do bem ambiental

No âmbito da responsabilidade civil, os lucros cessantes traduzem aqueles ganhos que, seguindo a ordem natural das coisas, provavelmente afluiriam ao patrimônio da vítima se não tivesse havido o dano (FARIAS; ROSENVAND; BRAGA NETTO, 2015). Desse modo, a estima dos lucros cessantes é basicamente um exame de um processo causal hipotético, com base naquilo que ordinariamente aconteceria se fosse suprimido o evento lesivo. É aquilo que a vítima auferiria de acordo com o curso habitual das coisas ou, segundo a lição de Agostinho Alvim (1980, p.192), “os lucros cessantes representam um prejuízo futuro, cuja condenação é atual, pois o fato prejudicial já ocorreu”.

Arrastando-se tal conceito ao Direito Ambiental, o lucro cessante ambiental, também conhecido como dano interino ou intercorrente, acontece quando a restauração integral do meio ambiente lesado, e a consequente reconstituição completa do equilíbrio ecológico, depender de lapso de tempo prolongado, privando-se, nesse ínterim, a coletividade e/ou o indivíduo da adequada e salutar fruição do meio ambiente. Essa depreciação ambiental, de acordo com Freitas (2011), mesmo que efêmera, deve ser observada para apuração da responsabilidade civil. Nessa condição, o lesado tem direito subjetivo a ser compensado pelo período que mediar entre a ocorrência do dano e a integral reposição da situação anterior.

Dessa maneira, mesmo sendo possível a recomposição do equilíbrio ecológico ao status quo ante da degradação ambiental, tem o dever de indenizar. Segundo Machado (2004), por depender de um decurso de tempo relativamente longo, pelas leis da natureza, para se chegar à restauração completa do meio ambiente prejudicado, os sujeitos prejudicados têm direito de serem indenizados exatamente pelo período que mediar entre a ocorrência do dano e a integral reposição da situação anterior. Constata-se ser uma inegável hipótese de depreciação da qualidade de vida, ainda que transitória, proporcionada por determinado dano

seriamente contaminada. De fato, no mundo da agricultura e da pecuária o nome dessas pessoas estaria moralmente comprometido. Mas o desdobramento social da poluição ambiental também é muito importante. Que pessoa aceitaria tomar

um cafezinho ou um suco ou mesmo um simples chá se soubesse que poderia estar infectado com o chumbo? Que pessoa aceitaria um convite para comer uma galinha de capoeira ou um churrasco ou até uma buchada se soubesse que esses animais poderiam estar gravemente contaminados? Que pessoa aceitaria, mesmo como um presente, uma cesta de laranjas ou um balde de umbus ou uma sacola de pinhas se soubesse que essas frutas poderiam ter um alto grau de intoxicação? Que pessoa comeria o queijo ou beberia o leite feitos nessa casa, se soubesse que poderia estar intoxicado? Ninguém, a menos que não estivesse em sã consciência, aceitaria um convite para fazer uma refeição ou lanche nessa propriedade. O dano moral em matéria ambiental visa a reparar ainda esse sentimento de exclusão ou isolamento da sociedade (grifo nosso). Outro exemplo de dano moral ambiental individual é dado pelo professor e desembargador do Tribunal Federal da 4ª Região Vladimir Passos de Freitas (2001, p.13), ao citar um exemplo de um cidadão que, acostumado a pescar nas limpas águas de um rio, vê-se impossibilitado de o continuar fazendo, porque um curtume passou a jogar detritos na água, sem oferecer nenhum tratamento. Embora não tenha tido nenhum dano patrimonial, ele tem total direito ao ressarcimento de seus danos morais e espirituais, e inclusive de maneira individual, segundo expressão do jurista, já que se viu privado de um lazer essencial ao seu bem-estar. Segundo o magistrado, o dano moral ambiental é uma ocorrência mundial, que tem sido adotada pela legislação de diversos países.

causado ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. Como se disse, esse fenômeno consiste em um “lucro cessante ambiental”, expressão cunhada pela doutrina especializada, que muito bem reflete o período de carência ambiental em função do dano a esse tão caro bem.

No documento Jose Francisco de Souza Rolim (páginas 132-136)

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