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3.3 Brasileiros lendo em espanhol

3.3.2 A intercompreensão de línguas aparentadas

É relevante expormos aqui o estudo realizado por Carola (2015) que trata da intercompreensão entre línguas românicas (IC), termo utilizado, segundo Escudé e Janin (2010), “pelo linguista Jules Ronat, em 1913, para denominar a capacidade dos locutores em compreender dialetos de diferentes línguas da mesma família” (CAROLA, 2015, p. 30). Acrescentamos a essa definição a de Degache (2006, p. 21) que a define como “compreender a língua do outro e se fazer compreender”. 64 Carola (2015), por sua vez, a denomina como línguas aparentadas. Para ela, “a IC propõe um trabalho simultâneo e integrado com várias línguas de uma mesma família, tirando proveito da proximidade lexical e funcional entre elas para fins de compreensão” (p. 15).

Segundo a autora, sua investigação contribui com a reflexão sobre a nova perspectiva que o ensino de LE assume no mundo: preparar pessoas para viver a pluralidade linguística e cultural. Seu estudo foi realizado com estudantes de Ensino Médio (EM) em uma escola localizada na periferia de São Paulo, o primeiro realizado no Brasil nesse segmento e pouco explorado no mundo no que tange à IC, apesar de os estudos nessa área terem se iniciado na década de 70. Ela ressalta que esse estudo mostrou que para desenvolver uma capacidade de leitura plurilíngue a trajetória é complexa, uma vez que ela é desenvolvida ao longo da vida e envolve formação linguística, conhecimento de mundo, vivência (com estrangeiros), aspectos cognitivos, metacognitivos, socioafetivos e aprendizagem em autonomia.

Carola (2015) pondera que o processo de compreensão recíproca, no qual cada indivíduo utiliza sua LM para se comunicar é mais bem sucedido quando a língua dos interlocutores são aparentadas (próximas/vizinhas), como é o caso desta investigação: português-espanhol, já que, por esse motivo, os interlocutores podem apoiar-se nas semelhanças de ordem lexical, sintática e/ou discursivas entre as línguas mesmo quando desconhecem o idioma um do outro.

No que tange aos conceitos operacionais da didática da IC, Escudé e Janin (2010) os classificam em: o continuum de línguas, a intencionalidade, e a previsibilidade pelo contexto e pela forma. Esses conceitos foram extraídos de dois princípios: (a) não existe isolamento linguístico e (b) a noção de variedade é intrínseca à noção de língua. Sendo assim, o continuum

de línguas, para esses autores, é a ideia fundadora do conceito de IC, pois as línguas fazem parte de uma família, como as de origem latina, por exemplo. Muitas vezes, a estrutura do idioma gerador aparece nas demais línguas. No que se refere à intencionalidade, a consciência do contato das línguas é central no processo de IC. Dessa forma, a IC depende da atitude e do comportamento do leitor. Ou seja, são os (inter)locutores que proporcionam a compreensão plurilíngue – compreender e se fazer compreender. Já relativo à previsibilidade, os autores ressaltam que a atenção ao contexto da comunicação e à forma (estruturas) modifica a condição inicial de opacidade das LEs, reconhecendo fenômenos léxico-morfológicos comuns às línguas, deixando agir sua intuição para inferir o sentido de uma língua em relação à outra e usando elementos do contexto para ajudar a construir sentido (CAROLA, 2015).

A proximidade linguística se instaura assim como um poderoso eixo de aprendizagem e se defende que os falantes de línguas românicas, apoiando-se em conhecimentos gerais e culturais, podem elaborar o sentido de textos por inferências e transparências que se constroem na comparação translinguística do universo românico (MARGUERITTE et al, 2011, p. 26 apud CAROLA, 2015, p. 32).

Nesse sentido, “para que o sujeito aprenda a tratar contexto e forma em uma variedade de línguas, a didática da IC se apoia na transferência de competências e conhecimentos prévios (linguísticos ou não) e na dissociação de competências, dando ênfase à situ ação de compreensão plurilíngue” (CAROLA, 2015, p. 33).

Ela concorda com Cuq (2003) e Escudé e Janin (2010) quanto ao fato de que a noção de transferência refere-se a um conjunto de processos psicológicos que facilitam a execução de alguma atividade em uma dada situação devido ao fato de já ter sido adquirido em outra situação parecida. Nesse sentido, Carola (2015) cita o ato de ler, pois como já dominamos, geralmente, essa habilidade em LM antes do aprendizado de uma LE, transferimos os processos envolvidos de uma para a outra. Mais do que isso, o falante de uma língua aparentada pode transferir ainda conhecimentos prévios, linguísticos e de mundo, o que é variável de acordo com a experiência de cada indivíduo, algo que já discutimos em seção anterior neste trabalho. Desse modo, percebemos que na didática da IC é importante que o leitor da LE saiba que pode transferir e usar conhecimento linguístico prévio da LM no decorrer da leitura, de mundo e estratégico, por exemplo.

Nesse raciocínio, Dabène (1996, apud Carola, 2015) sublinha que a influência de LM no leitor/aprendiz, por exemplo, dota-o de ferramentas metalinguísticas que podem facilitar o processo de compreensão, o que vai além de simplesmente permitir que ele se auxilie na proximidade do léxico.

O projeto da IC rompe com o estigma extremamente arraigado no âmbito de ensino de LE que se deve esquecer a LM para pensar na LE, neste caso: o processo de leitura, pois dá à língua materna do leitor/aprendiz ou a qualquer outra LE já estudada uma posição de relevância. Dessa forma, elas são vistas como uma importante fonte de apoio para a leitura/aprendizagem, o que as tira do status de influência negativa nesse processo (BLANK, 2009).

Muitos projetos envolvendo línguas próximas vêm sendo desenvolvidos na Europa. Relativo às línguas românicas, temos como os mais expressivos: Eurom4, EuroComRom, Galetea e Galanet. O Eurom4, coordenado por Claire Blanche-Benveniste, desenvolvido entre os anos de 1989 e 1997, é o pioneiro no ramo dessas línguas no campo da IC. Nesse projeto, parte-se do princípio que o fato de conhecer uma ou duas línguas românicas, permite ao falante adquirir, com facilidade, competência receptiva das outras. Já o EuroComRom, que faz parte do EuroCom, alemão, tem como intuito desenvolver a IC entre três famílias diferentes de línguas. Isto é, esse projeto tem o intuito de desenvolver as competências receptivas em línguas pertencentes a outras famílias diferentes da LM do leitor/aprendiz (Blank, 2009).

Acreditamos que as semelhanças entre as línguas podem realmente servir como características facilitadoras no processo de leitura. Nesse sentido, devemos aproveitar essa vantagem, porém temos de ter cautela porque em muitos outros casos podem trazer equívocos de compreensão também, o que já discutimos aqui. Essa discussão ainda será retomada com mais detalhes no capítulo de análise deste estudo.

Neste capítulo, falamos de avaliação de proficiência em LE, do que é ser proficiente e do modelo de Competência Comunicativa que nos baseamos para realizar a análise da prova de compreensão de leitura do exame SIELE e também para analisar os resultados obtidos a partir da aplicação de um simulado dessa prova aos participantes desta pesquisa.

Além disso, citamos estudos sobre a avaliação de proficiência de professores de LE em formação, isto é, em pré-serviço, discutimos sobre construto e visões de leitura utilizadas por diversos autores, fizemos uma retrospectiva dos modelos consagrados de leitura até chegarmos ao modo como vemos esse processo na atualidade, explicitamos fatores que podem interferir no ato

de ler, destacamos também as habilidades e estratégias envolvidas nesse processo, expusemos características da leitura entre línguas tipologicamente próximas e a intercompreensão de línguas aparentadas.

Já no próximo capítulo, apresentamos e discutimos os resultados obtidos por nós ao longo dessa investigação. Esses dados são referentes ao perfil dos participantes, à análise da prova que utilizamos para coletar informações referentes à proficiência linguística desse grupo, à análise dos resultados desses indivíduos na prova de compreensão de leitura, dentre outros tópicos que consideramos necessários para alcançarmos os resultados pretendidos com esta pesquisa.

4 ANÁLISE

Neste capítulo, apresentamos e discutimos os resultados deste estudo. Consta a análise do questionário, um dos instrumentos utilizados por nós para coletarmos informações relevantes para traçar o perfil dos participantes e a análise do exame SIELE que fizemos, fundamentando- nos em teóricos citados ao longo deste estudo, para um melhor entendimento de sua estrutura e do que é abordado em sua prova de compreensão de leitura.

Posterior a isso, temos a análise dos resultados da aplicação da prova, discutindo a proficiência alcançada pelos participantes e o contraste entre diferentes grupos para verificar se existe diferença significativa entre eles. Fazemos ainda uma breve discussão para analisar se o nível de proficiência que atingiram é minimamente adequado para professores de ELE em carreira inicial.