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A interdiscursividade influindo na construção do ethos

CARACTERIZAÇÃO DE ETHOS DISCURSIVO DE DILMA ROUSSEFF

3.2. A relevância das cenografias na constituição de ethos nos discursos de Dilma Rousseff

3.2.1. Cenografia no D1: a abrangência na escolha dos temas

3.2.1.1. A interdiscursividade influindo na construção do ethos

No D1, aparece, em uma das poucas vezes, a marca da interdiscursi- vidade, verificada pela citação direta de um escritor brasileiro, mineiro, deno- minado simplesmente de poeta pelo enunciador:

Recorro a um poeta da minha terra: o que tem de ser, tem muita força.

Trata-se de referência a Guimarães Rosa, recorte de sua obra O grande

sertão: veredas. Esse autor brasileiro, favorito de Dilma Rousseff, conforme

observado em sua minibiografia, é, ao lado de outro poeta e filósofo grego, Cícero (citado no D3), os únicos referenciados nesses quatro discursos sele- cionados.

O recurso da citação direta fortalece o próprio argumento ou crença pessoal do enunciador, no intuito de dar maior peso ao seu ponto de vista, emoldurando com verdade e autoridade o que é dito (MAINGUENEAU, 1997, p. 86). Nessa citação direta, o enunciador distancia-se do co-enunciador, ficando ausente, ao projetar o seu não eu da responsabilidade daquilo que é dito. Traz a presença de outro (o autor da citação) com autoridade maior – consagrado escritor brasileiro – para corroborar o que é dito.

A noção de intertexto (citação de texto dentro de outro) serve para legitimar a autoridade argumentativa do enunciador dentro de seu campo dis- cursivo. Dito de outra forma, a citação legitima a FD à qual o discurso pertence. Tem função de estabelecer o diálogo entre os conceitos e ideias apresentadas, e funciona como argumento na enunciação.

A escolha das palavras de Guimarães Rosa para entrelaçar-se com seu discurso de posse chancela o propósito de construção de imagem de si de

força e de coragem, ethos que transparece claramente nesse discurso D1, com

a perspectiva de construir imagem de si de mulher forte, corajosa. Notamos esforço do enunciador em desconstruir o estereótipo feminino de fragilidade, fixado no imaginário e nos saberes de crença por parte de alguns co- enunciadores, mostrando pelo seu modo de dizer e nas escolhas das palavras a afirmação de ter a força e a competência para governar o país.

A escolha da citação direta de Rosa pode ser examinada como desve- lamento do caráter do sujeito enunciador ao destacar o elemento coragem na construção de seu ethos. Se fizermos um paralelo entre o caráter mostrado no discurso do enunciador com o texto de Ricardo Amaral (2011), a respeito da biografia de Dilma Rousseff, a coragem se mostra presente em ambos os discursos, tendo a coragem como essência de caráter. Tal característica de Dilma Rousseff trazida por Amaral relaciona-se à participação política da presidente desde a juventude, além de também relacionar ao seu modo de desempenhar a carreira pública como gestora municipal, estadual e federal. Acrescente-se a esse fato elementos da história pessoal da presidente, a exemplo dos dias vividos em cárcere durante o regime militar, são momentos carregados de coragem.

Mais adiante, em outro recorte, o enunciador retoma a fala de Rosa para reiterar seu modo de dizer buscando a adesão dos co-enunciadores:

Recorro mais uma vez ao poeta da minha terra:

“O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”. [D1]

Tal recorte, da mesma obra de Guimarães Rosa, O grande sertão: vere-

das, citado no fim do D1, também aparece ao final de livro da biografia de

Dilma Rousseff, escrita por Ricardo Amaral. A finalização dos dois discursos com a mesma referência evidencia o traço principal de caráter manifestado tanto pelo enunciador do D1 quanto pela cidadã Dilma Rousseff. O primeiro quer construir imagem de si positiva para seus co-enunciadores, capaz de governar o país e de marcar presença inédita no cargo da presidência pelo fato de ser mulher; o segundo, quando autoriza seu biógrafo, Ricardo Amaral, a mostrar para os leitores sua biografia, deixa construir um ethos de persona- lidade política histórica e, em ambos ethé, corporificam o sentimento de

coragem. A interdiscursividade se mostra como instrumento de construção de

autoimagem, ao usar da citação direta, escolhendo determinadas palavras. O efeito de sentido desejado é despertar reação emocional nos co-enunciadores e nos leitores do livro de seu biográfico, ciente dos efeitos patêmicos discur- sivos.

Mais adiante em seu discurso, o enunciador acrescenta a esse ethos de coragem outra faceta da imagem de si que quer mostrar: o ethos de humildade, o qual será analisado a partir do seguinte recorte:

Esta não é tarefa isolada de um governo, mas um compromisso a ser abraçado por toda sociedade. Para isso peço com humildade o apoio das instituições públicas e privadas, de todos os partidos, das entidades empresariais e dos trabalhadores, das universidades, da juventude, de toda a imprensa e das pessoas de bem.

A expressão peço com humildade mostra a estratégia do enunciador em posicionar-se diante dos co-enunciadores pertencentes a vários grupos: políti- cos, empresários, mulheres, cidadãos do gênero masculino em geral, para citar alguns. O primeiro efeito de sentido é mostrar a disposição de trabalhar em parceria com diversas instâncias da sociedade em condição de irmandade, no espírito de união de forças para atingir os resultados positivos para o país. Entretanto, há outro efeito de sentido que pode ser entendido, de significar um

modo de dizer clichê, típico das autoridades políticas, demagógicas, eleito- reiras, que falam e prometem ações que não poderão ser cumpridas ou de fato realizadas.

A simples explicitação de tal enunciado com essa característica já implica a vontade do enunciador em assumir conduta, ter um posicionamento explicitado indicando não alimentar em si a imagem de superioridade perante a nação, mas sim, possivelmente, manifestar a vontade de governar com as demais instituições públicas e privadas, despojada de viço autoritário, na crença de compromisso a ser abraçado por toda a sociedade.

Ressaltamos que a palavra humildade, manifestando ethos de humil- dade, será usada três vezes, dentre os quatro discursos escolhidos, conforme veremos mais adiante.