• Nenhum resultado encontrado

La femme politique – a maneira rousseffiana de ser

A MULHER NA POLÍTICA: BREVE HISTÓRICO

2.3 Minibiografia da Presidente Dilma Rousseff

2.3.1. La femme politique – a maneira rousseffiana de ser

A partir de recortes da biografia da Presidente (AMARAL, 2010), desta- camos algumas frases e pequenos diálogos de Dilma com diversos interlocu- tores, na tentativa de caracterizar seu modus operandi e sua maneira de ser enquanto mulher no exercício da atividade política e de gestão.

Iniciamos citando uma das falas de Dilma feita, quando de sua gestão na Secretaria Municipal de Minas e Energia de Porto Alegre, durante as reuniões e negociações com políticos e empresários:

[Dilma] sabia falar a linguagem dos empresários; tratava de negócios,

não de política, e soube fazer deles seus aliados nas negociações com o governo federal (p. 119).

Dilma também sabia falar duro, como perceberam os novos contro- ladores da telefônica CRT (p. 120).

Dilma era obcecada por fontes alternativas de geração de energia (p.

120).

Em geral, nas referências aos seus interlocutores e observadores sempre aparece o caráter duro de seu modo de dizer: Lula tinha se fixado

“naquela secretária durona do Olívio [Dutra]”, desde os tempos do apagão (p.

128). Em outra situação de discurso político, Amaral (p. 133) comenta: Aí a

ministra durona chorou, referindo-se ao discurso de posse como Ministra de

Minas e Energia, quando Dilma agradeceu às companheiras que durante os

anos 60 e 70 foram combatentes na resistência à ditadura militar, especial- mente àquelas que não estão mais entre nós.

Outra abordagem para desenharmos a maneira rousseffiana de ser é observar situações nas quais a Presidente manifesta o caráter feminino mais tradicionalmente considerado, em geral, relacionado à capacidade de cuidar e proteger. Em um de seus discursos num encontro do Partido dos Trabalha-

dores, Dilma afirma: Nós, mulheres, nascemos com o sentimento de cuidar,

amparar e proteger. Somos imbatíveis na defesa de nossos filhos e de nossa família (AMARAL, 2011, p. 242).

A discussão sobre ser mãe aparece, em junho de 2009, quando Dilma ainda estava na Casa Civil em conversa com Michelle Bachelet, Presidente do Chile à época, durante um café da manhã. Amaral (2011, p. 242) comenta, citando a fala da presidente chilena, que a opinião das duas mulheres políticas converge sobre a questão da maternidade e das projeções de imagem relativas à figura de mãe:

A associação entre os papéis de mulher e mãe na política costuma provocar restrições entre militantes feministas. Dilma nunca se constrangeu em ser chamada de mãe do PAC15 [...]. A presidenta [Michelle Bachelet], chamada em seu país de mãe do Chile, disse à ministra para não se envergonhar do título: “As pessoas sabem que mãe é quem cuida, e é isso que o povo espera de nós, no Chile ou aqui”.

Outros exemplos de posicionamentos e de maneiras de ser da Presidente brasileira são destacados pelo biógrafo Amaral (2011). Descreve o comportamento e as atitudes de Dilma nas inter-relações de trabalho com seus assessores e colegas de trabalho, cujo temperamento forte pode ser aproxi- mado, utilizando a designação de Charaudeau, ao ethos de autoridade, pela maneira durona de falar, explicitada no recorte a seguir:

Para tocar o programa [PAC], Dilma infernizou a vida de assessores e colegas de ministério. Miriam Belchior e outros assessores estiveram a ponto de deixar a Casa Civil. Lula contava que ministros iam a seu gabinete queixar-se da forma como eram cobrados por Dilma. O Presidente recomendava a ela que fosse mais suave, ao menos com os colegas, mas nunca a desautorizou. A fama de durona e irascível se espalhou na Esplanada e chegou à imprensa. Quando repórteres perguntavam sobre o assunto, Dilma costumava se sair com esta: “Sou uma mulher dura cercada de homens meigos” (AMARAL, 2011, p. 170).

Na rotina dos políticos no Palácio do Planalto, em momentos de livre trânsito entre os ministros, Dilma, quando ainda era chefe da Casa Civil, recebe a visita, em seu gabinete, de Antonio Palocci, então Ministro da Fazenda. Ela se surpreende com a insinuação de que seria indicada por Lula a ser candidata

15

à presidência do país, pois ainda não tinha tido conversa direta com o Presidente a respeito. Dilma reage com a seguinte fala:

−Ô Palocci! Ocê tá maluco? – ela forçava a sílaba tônica da palavra maluco, o que dava à sentença um tom de acusação. Um jeito muito Dilma de dizer as coisas: jogar o interlocutor contra a parede. – De onde foi que ocê tirou isso? – ela cobrou (AMARAL, 2011, p. 182).

Nesse recorte, o modo rousseffiano de ser se revela de duas formas, na forma linguística, pelo uso das variações linguísticas típicas da fala mineira (ôce) feita pela Presidente; e pela construção e escolha da frase do biógrafo para descrever a cena, marcadora de comportamento direto e objetivo mostrado pelo jeito muito Dilma de dizer as coisas. Esse comportamento, de quem joga o interlocutor contra a parede, denota certa agressividade, podendo criar imagem de si de valentia e coragem, na vontade de encaminhar a interlocução direto ao ponto, sem rodeios.

Outro episódio revelador do modo de se comportar de Dilma verifica-se no caso do vazamento de informações sobre dossiê de investigações publicado na imprensa. A ex-secretária da Receita Federal, Lina Vieira, alegava que teria ouvido Dilma dizer em uma reunião para agilizar a fiscalização nas empresas

da família do ex-Presidente José Sarney (p. 195). Em resposta à imprensa,

Dilma negou tal acusação, pedindo provas que Lina não apresentou. No momento em que leu no jornal a matéria, a ministra limitou-se a comentar com seu assessor, utilizando um provérbio popular gaúcho:

− Não tá morto quem peleia, disse a ovelha, cercada por 50 cachorros.

(p. 196).

Um significado possível do emprego desse provérbio pode ser de ex- pressar o ethos de mulher guerreira, que se defende corajosamente, marcado pela analogia do ataque de uma matilha a uma ovelha-vítima, querendo dizer que se sentia ofendida pela acusação da ex-secretária.

A mesma expressão proverbial foi utilizada por Amaral para identificar o modo como Dilma lidou com a notícia de estar com um linfoma, um tumor nos gânglios, poucos meses antes de entrar em campanha eleitoral para Presi- dente. Apesar do choque e da tristeza sentida, a então ministra soube superar essa condição grave de saúde, aderindo ao tratamento de quimioterapia e obtendo resultado positivo.

Na caracterização da expressão da afetividade, um dos elementos com- positivos do caráter, há vários pequenos episódios ilustrativos, narrados pelo biógrafo da Presidente. Além dos já referidos relatos da fala de Dilma ao anun- ciar o fim do primeiro e do segundo casamentos, destacamos outro ocorrido no período da prisão, em convívio com outras mulheres também militantes políti- cas.

A vida no cárcere isola a pessoa do contato com os familiares e pessoas mais íntimas, e todas se esforçavam para combater a solidão, inventando até uma sigla CTA – Carência Total de Afeto (p. 79), usada em tom de brincadeira. Um dia, surge um gato no presídio e as 27 mulheres presas adotam o animal, que ia de cama em cama na maior manha. Uma das prisioneiras, Maria Cristina Uslendi, recorda, mais tarde, que Dilma era a mais cuidadosa com o gato e

com sua caixinha de areia, de fundo falso, que servia de correio entre as celas

(p. 79).

Na composição de imagem de si feita pelas mulheres, em geral, os fatores estética e beleza são relevantes e, em alguns casos, prioritários. Para Dilma, cuidar da aparência física era pouco apreciado em sua juventude, quando era militante política. Daquela época, recorda-se de uma passagem com a colega Iara Iavelberg, de família judia e também militante do Polop, quando a moça tratou de ensinar algumas dicas para torná-la mais feminina. Convenceu Dilma a cortar essa juba fora de moda no salão de Carlos Jambert, onde serviam champanhe às clientes, além de ensinar a usar cartão de crédito [recurso financeiro restrito aos muito ricos, na década de 1960]. Referindo-se a esse jeito da nova amiga, de cuidar da aparência e de se vestir com bom gosto, Dilma comentou admirada: Você é uma feminista, Iara, a primeira que conheço (p.59).

Tempos depois, em 2008, quando teve a certeza de que sairia candidata do PT nas eleições presidenciais, pediu o telefone do cirurgião plástico Sérgio Panizzon para modificar sua aparência e imagem, conforme relata Amaral:

As mudanças mais notáveis quando Dilma saiu da clínica de Paniz- zon eram nos olhos: estavam mais destacados depois de um proce- dimento que reduziu as pálpebras. Dilma substituiu os óculos por lentes de contato gelatinosas. [...] Panizzon afilou o nariz da ministra e fez sumir marcas de rugas acima dos lábios. Dilma completou a mudança com um novo corte de cabelo, que ganhou um tom vermelho-claro, no lugar do castanho escuro, e uma pequena franja sobre a testa alta (2011, p.185).

Dias após o tratamento quimioterápico do linfoma, que provoca queda dos cabelos, Dilma mandou a cabeleireira raspar tudo de uma vez (p. 192). Passou a usar perucas para disfarçar a calvície forçada durante oito meses. Quando o tratamento foi concluído com sucesso, a então candidata à Presidente do país dispensou a peruquinha básica e mostrou, pela primeira

vez, o cabelo natural que voltava a crescer num tom castanho mais escuro (p.

205).

Para um sujeito político, com imagem inevitavelmente exposta publica- mente, a imagem a ser criada perante os cidadãos eleitores é refletidamente construída para gerar efeitos de impressão e de sentido, conforme o interesse desse sujeito e de acordo com os padrões socialmente aceitos.

Podemos, como considerações conclusivas a propósito da minibiografia de Dilma Rousseff, indicar que os fatos aqui pinçados, dentre muitos outros contidos na biografia autorizada feita por Ricardo Amaral, visam atender as abordagens a serem feitas nas análises dos quatro discursos proferidos pela Presidente eleita. A seleção de alguns acontecimentos intenciona auxiliar na reflexão sobre a imagem de si provocada pela maneira de ser da Presidente brasileira, mesmo que esboçada indelevelmente, a partir de seu perfil de perso- nalidade, temperamento, modos de falar, de agir e de se comportar.

Em nossas análises vamos utilizar as conclusões obtidas nesse capítulo sobre o modo rousseffiano de ser e estabelecer algumas relações, quando couber, com o ethos discursivo que emerge nos quatro discursos proferidos pelo sujeito enunciador, buscando levantar as convergências e os efeitos de adesão dos co-enunciadores.

CAPÍTULO III