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O ethos de credibilidade: o empoderamento feminino

CARACTERIZAÇÃO DE ETHOS DISCURSIVO DE DILMA ROUSSEFF

3.2. A relevância das cenografias na constituição de ethos nos discursos de Dilma Rousseff

3.2.4. Cenografia no D4: rompendo centenas de anos de exclusão política

3.2.4.1. O ethos de credibilidade: o empoderamento feminino

Há muitos séculos as mulheres esperavam a condição de ocupar espaços políticos e sociais, em busca da constituição de identidade social própria. Neste discurso D4, as identidades social e discursiva se fundem em razão de o enunciador discursar com voz feminina e ao mesmo tempo, o sujeito empírico ser do gênero feminino. Concordamos com Charaudeau (2011) que as identidades (social e discursiva) podem se fundir no ethos, tornando tênue sua distinção.

A estratégia adotada pelo enunciador, no D4, foi de unir o ethos de credibilidade com o exercício do poder pelas mulheres (empoderamento femi- nino). A partir das escolhas das amplas temáticas relativas às questões do feminino, estamos diante do campo discursivo do feminino, fato que nos favore- ce verificar a maneira de constituição do ethos discursivo de voz feminina.

Os assuntos abordados partem do campo discursivo do feminino, composto por temáticas afeitas às mulheres (maternidade, direitos das mulheres, mercado de trabalho feminino, para citar alguns). O enunciador, posicionando-se a partir desse campo e incluindo-se nele, dirige-se de modo indiscriminado e de caráter universal às mulheres pertencentes a vários grupos: das líderes de países ali presentes no momento da enunciação, das mulheres do Brasil e das do mundo, de modo geral. O enunciador percorre amplo leque de temas e subtemas relativos às conquistas das mulheres e aos que ainda precisam ser realizados para ampliação da participação feminina no espaço político e da igualdade de direitos entre homens e mulheres.

Esses temas podem ser divididos em dois grandes blocos: um relativo ao âmbito internacional e comum a todas as mulheres do mundo; e outro relativo ao Brasil, dirigido ou relacionado às mulheres brasileiras.

No tocante ao âmbito internacional, predomina a visão planetária e universal como condutora das ações das mulheres na política, sob a perspec- tiva de três pilares de sustentação, explicitado no seguinte recorte do D4:

A preocupação com a consolidação da presença das mulheres na política deve nortear as iniciativas ligadas a cada um dos pilares do desenvolvimento sustentável: o econômico, o social e o ambiental.

A condição feminina ao longo das épocas da história da humanidade sempre esteve intrinsecamente vinculada ao aspecto econômico, sendo padrão na maioria das culturas, da posição subalterna e de dependência econômica em relação ao pai, ao marido e mesmo, em alguns casos, aos filhos homens.

O enunciador usa o conhecimento de mundo compartilhado, especi- almente a dinâmica contemporânea da economia mundial, relembrando fatos observados criticamente e sob o olhar de uma mulher. Tal estratégia une e aproxima enunciador e co-enunciadores femininos em busca de soluções, ao mesmo tempo em que se apontam os pontos fracos e vitais para a transfor- mação da condição feminina no mundo, conforme a sequência de recortes do D4:

A autonomia econômica das mulheres, particularmente afetada nessa conjuntura de crise global, é fundamental para a construção de sua cidadania plena.

[...]

O empreendedorismo das mulheres deve ser facilitado por instrumentos de crédito, assistência técnica e propriedade,...

[...]

As mulheres, como geradoras de vida, ocupam, em todas as sociedades humanas, um papel especial,... da proteção ao meio ambiente... como agentes do desenvolvimento.

[...]

O papel das mulheres, também, nas atividades de ciência, tecnologia e inovação tem que ser cada vez mais impulsionado.

[...]

Defendemos a qualidade crescente do trabalho feminino. Além disso, a participação das mulheres no mercado de trabalho...

[...]

As mulheres são a face principal da pobreza no mundo - as mulheres e as crianças.

Já pela abordagem das temáticas nacionais, os fatos referentes ao universo feminino são contemplados na seleção das ações presidenciais direcionadas às mulheres brasileiras, mostrando a prática interdiscursiva ao interligar os campos discursivos político, econômico e do feminino. Os recortes do D4 a seguir ilustram essa ideia:

Nos nossos programas sociais, no Brasil, essa é uma reali- dade. Por isso, no Bolsa Família, 93% dos cartões de transferência de renda estão nas mãos de mulheres. No Minha Casa, Minha Vida, é obrigatório que o título de propriedade seja emitido em nome das mulheres, no caso das famílias mais pobres. Nas políticas fundiárias

do governo brasileiros, as mulheres também estão sendo empode- radas como proprietárias.

[...]

Em sua relação com o meio ambiente as mulheres têm se destacado como aliadas nas mudanças nos padrões de consumo, no uso de energia, no uso da água e do solo. São guardiãs de conhecimentos tradicionais, mas também são capazes de disseminar avançadas práticas sustentáveis.

[...]

No Brasil, estamos investindo para superar dificuldades e precariedades neste acesso aos serviços públicos de saúde com pleno exercício dos direitos sexuais e reprodutivos, inclusive, o planejamento familiar, a gestação, o parto, o puerpério com assistência de qualidade.

[...]

Por isso, precisamos antecipar os desafios emergentes do desenvolvimento sustentável,...

[...]

O desenvolvimento sustentável deve ser construído como um projeto inclusivo e aberto para todos os sexos, raças, etnias, orientações sexuais, filiações religiosas, idades e condições físicas.

[...]

Devemos pôr fim a todas as formas de violência, de discriminação de que as mulheres são vítimas, em tempos de guerra e em tempos de paz.

A cena de enunciação, revelada neste D4, ajuda a construir o lugar do enunciador que sempre ultrapassa o do sujeito empírico e faz coincidir com conceito maior e despersonalizado, como o Brasil, o país, enfim, qualquer nação do mundo (MAINGUENEAU, 1997, p. 62). Uma das ações políticas realizadas pode ser exemplificada no seguinte recorte do D4:

Muito foi conquistado pelas brasileiras nos últimos anos. A criação da Secretaria de Políticas para as Mulheres, o Plano Nacional de Políticas para as Mulheres, elaborado com a participação da sociedade, e a Lei Maria da Penha, que torna crime a violência contra mulher, inclusive a violência doméstica, são alguns exemplos.

A instância de representação da cidadã implicada nas ações políticas adotadas pelo enunciador, posicionado na instância política, amplia o valor dessas estratégias de criar organismos representativos e gerenciados por mulheres e voltados às causas das mulheres. Nota-se a interfusão dos papéis assumidos pelo enunciador no tocante aos temas e propostas do campo do feminino.

O enunciador aproveita o próprio papel de representação social enquan- to Presidente, consolidando a constituição de seu ethos. Curiosamente, além

da autoconsciência de ser e estar construindo seu ethos discursivo, o enuncia- dor também se vale da imagem que os outros fazem de si, enquanto mulher, para reforçar seu próprio ethos. Sua maneira de dizer sintoniza-se com sua maneira de se comportar, aproximando-se dos co-enunciadores, visando fun- dir-se numa única identidade social, igualando representante e representado.

A constituição do ethos do enunciador resulta da construção de imagem de si no discurso conjugada à imagem de mulher veiculada em sociedade. Suas posições, opiniões, colocações, críticas e defesas são calcadas nos valores comuns, disseminados social e culturalmente, valendo-se de estereó- tipos para constituir sua imagem pública.

A maneira de conciliar essa imagem pessoal e pública é feita em tom sério, quase austero, revelando nesse procedimento um ethos de seriedade, cuja predominância não foi observada nos discursos anteriores analisados. Aqui, mesmo o enunciador estando imerso no campo do discurso político e do feminino, sua maneira de dizer é feita com a ausência de recursos patêmicos, não apelando para estruturas linguísticas carregadas de significados semânti- cos ligados às emoções.

Perante o público feminino, o enunciador de voz feminina posiciona-se acima de qualquer conotação de disputa entre o universo masculino e o femi- nino, para transcender a questão de gênero humano, relegada aqui ao segun- do plano, pois ao enunciador interessa discutir com seriedade usando sua posição de credibilidade. Esse tom discursivo engendrado beira à neutralidade de gênero humano, podendo ser representativo tanto de enunciador de voz feminina quanto o de voz masculina.

Com isso, a imagem de mulher defendida pelo enunciador no Fórum das Mulheres Líderes, no Rio+20, centra-se no diferencial de acesso aos recursos econômicos e sociais, expondo as desigualdades sociais de direitos, as precariedades da vida familiar e de sobrevivência de milhares de mulheres em diversos países, em contradição à conquista de postos de poder e de status por outras camadas sociais mais elitizadas. O olhar realista e engajado politicamente predomina na constituição de ethos do enunciador, nesse D4, convergindo com a afirmação de Avelar (1996, p. 75) que quanto mais elevado

o status na rede de inter-relação social e pessoal, maiores são as chances de ascender à elite política.

3.2.4.2. O ethos constituído pelo estatuto do enunciador e do co-