CAPÍTULO 2. Das causas conexas
2.4. A interplexão com protagonistas masculinos
Uma característica da Congregação de São José que pode parecer de menor importância, mas que talvez tenha também seu condão explicativo em alguns desdobramentos na trajetória do Colégio de Castro é a interplexão com figuras masculinas na condução de suas atividades.
Como já descrito acima, a implantação da Congregação no século XVII deveu-se à articulação de dois religiosos – o Padre Médaille, que forneceu a inspiração e a base doutrinária, e o Bispo Henri de Maupas, que se preocupou com a institucionalização perante a hierarquia católica e proveu materialmente as primeiras necessidades de instalação.
Comentando a maneira de atuar do padre Médaille, direcionada às populações mais simples, despida dos ornamentos retóricos que teria aprendido a manejar durante sua educação nos colégios jesuíticos, informa o cônego Bois que:
“nenhum discurso de efeito; Jean-Pierre Médaille não guardará dos seus Preceitos de retórica senão a arte de expor claramente as coisas sublimes. Sua palavra simples, familiar, cheia de imagens, alimentada por substancial doutrina, sabia extrair do amor que ardia em seu coração por Deus e pelas almas, o dom de esclarecer e de tocar”.163
Quanto ao Bispo do Puy, Henri de Maupas du Tour, as qualidades que o descrevem são em tudo opostas às do Padre Médaille, a começar por sua origem aristocrática, tendo como padrinho de batismo o Rei Henrique IV de França. Logo após sua ordenação como padre foi empossado vigário geral de Reims e, mais tarde, tornou-se o confessor da Rainha Ana. Nomeado Bispo do Puy em 1641, ocupou a sede
163 «pas de discours d‟apparat; Jean-Pierre Médaille ne gardera de ses Préceptes de rhétorique que l‟art d‟exposer clairement de sublimes choses. Sa parole simple, familière, imagée, nourrie de substantielle doctrine, saura puiser dans l‟amour qui brûle son coeur pour Dieu et pour les âmes le don d‟éclairer et de toucher»”.
in BOIS, A. op. cit., p. 45.
episcopal por dezessete anos. Foi o primeiro biógrafo e grande admirador de Francisco de Sales, cujas premissas de serviço cristão quis ver realizadas pelo Padre Médaille em sua diocese. Por sua história pessoal, sentia-se, por certo, à vontade para organizar a nova instituição da forma que julgasse conveniente e dar-lhe o impulso inicial com as características que já anotamos acima. Assim, em
“15 de outubro de 1650, festa de Santa Teresa, Monsenhor de Maupas reuniu as novas religiosas no Hospital de Órfãs do Puy que foram confiadas a seus cuidados. Fez uma exortação perpassada pelo espírito de Deus, determinou a forma do hábito, o impôs solenemente e deu às Irmãs as Regras de conduta para sua vida. Terminou a cerimônia colocando sob a proteção do Chefe da Santa Família o modesto Instituto, ao qual batizou definitivamente Congregação das Irmãs de São José. Em 10 de Março de 1651, autentificou-lhe a autorização de funcionamento.”164
Autorizações subscritas por um clérigo tão bem relacionado com a coroa francesa não seriam facilmente questionadas. Tornou-se possível, então, que a nova maneira de atuar de religiosas católicas tivesse seu impulso inicial. Como se depreende do trecho citado acima, o patronato de São José foi uma escolha de Maupas. A indicação de uma figura masculina para referenciar o instituto deu vitalidade à característica proposta de presencialidade no mundo, através de São José, símbolo de trabalho e serviço à vontade divina, a ser imitado por aquelas mulheres que não teriam de início a proteção das paredes conventuais.
Ao longo da trajetória européia da Congregação citamos, por ocasião de sua reorganização no século XIX, outro prelado de alta inserção, o Cardeal Fech, como indutor e protetor das novas casas. Após a chegada das Irmãs ao Brasil, nota-se a persistência do mesmo modelo de interplexão com os clérigos, de duas maneiras: em
164 «Le 15 octobre 1650, fête de sainte Thérèse, Mgr de Maupas assembla les nouvelles religieuses dans l‟Hôpital des orphelines du Puy qui furent confiées à leurs soins. Il fit une exhortation pénétrée de l‟esprit de Dieu, détermina la forme de l‟habit, l‟imposa solennellement et donna aux Soeurs des Règles pour la conduite de leur vie. Il termina la cérémonie en mettant sous la protection du Chef de la sainte Famille le modeste Institut, qu‟il nomma définitivement Congrégation des Soeurs de Saint-Joseph. Le 10 mars 1651, il l‟autorisait d‟une manière authentique.»
in Congrégation des Soeurs ... op. cit., p. 10.
primeiro lugar pela substituição das figuras dos bispos franceses, pelos seus correspondentes locais, os Bispos de São Paulo, Curitiba e Porto Alegre; em outro aspecto, quanto à função de diretor espiritual ou padre-confessor, o acompanhamento de sacerdotes franceses aos grupos de religiosas emigradas. Trésal informa a vinda de quatro deles: os abades Anxionnaz, cura de Bourg-Saint-Maurice165, e antigo missionário na Martinica, e Lassiaz, cura de Celliers, em 1896; o abade Michel, em 1898, que sabemos ter estado em Castro em 1904 para escolha do local do Colégio; e o abade Béroud, em 1903.166 Cabe lembrar também o Padre Maurice Dunnand, que acompanhou as religiosas a Castro em 1905, à época, vigário de Morretes, onde as Irmãs de São José manteriam escola por alguns anos. Quanto ao Padre Jean Michel, informa Pizani: “foi um dos auxiliares do Bispo Dom José e passa a ser importante personagem para a conquista do Noviciado. A ele foram confiadas as Paróquias de Piraquara e de Campina Grande, e como capelão do Hospital da Estrada de Ferro, lhe era permitido viajar às expensas da Companhia para realizar o trabalho de apostolado”.167
No caso do Colégio de Castro, a figura que nos parece de maior interesse na explicação de sua implantação é a do Bispo de Curitiba, D. José Camargo de Barros.
Por Trésal sabemos que foi por sua iniciativa pessoal que as religiosas de São José de Moûtiers chegaram ao Paraná. Mas, quando da instalação do Colégio em Castro, já fora nomeado para assumir a Diocese de São Paulo, em 1904. Seria por demais duvidoso, portanto, atribuir-lhe uma participação ativa na transferência da Congregação de Curitiba a Castro? Para chegarmos a alguma conclusão, é necessário conhecer um pouco mais sobre esse prelado que foi o primeiro bispo paranaense.
Nascido em Indaiatuba, Comarca de Itu, em 1858, foi educado no Colégio dos Jesuítas e mais tarde no Seminário Episcopal de São Paulo. Foi pároco de Santa Ifigênia na capital paulista e Bispo de Curitiba a partir de 1894. Promoveu a transferência de ordens de padres europeus – Missionários de São Carlos, Lazaristas, do Verbo Divino, Franciscanos; e freiras – de São José, da Divina Providência, Zeladoras Missionárias e
165 Cidade natal de Madre Léonie, durante muitos anos superiora geral no Paraná.
166 Cfe. TRÈSAL, J. op.cit., pp. 210-213.
167 PIZANI, M. A. P. N. op. cit., pp. 110-111.
do Sagrado Coração de Jesus. Fundou associações pias e órgãos de imprensa católica.
Fez visitas pastorais, inclusive à Santa Catarina, então parte da diocese, e editou Cartas Pastorais e outros documentos de orientação ao clero. Conforme resume Fedalto: “a tudo presidia o olhar apostólico do Bispo. Grandes obras planejava realizar, quando, a 9 de novembro de 1903, foi transferido por Leão XIII para o Sólio Episcopal de São Paulo”.168 Pouco tempo, entretanto, D. José ocupou o Bispado de São Paulo, pois ao retornar de Roma em agosto de 1906, pereceu em naufrágio na costa da Espanha.
D. José realizou duas visitas pastorais à Cidade de Castro – em 1897 e 1903, das quais, de próprio punho, escreveu provimento geral no livro tombo da paróquia de Sant‟Anna. Nestes relatos, a preocupação central do prelado foi de descrever a organização da paróquia do ponto de vista do clero ultramontano: limpeza do templo;
boas condições dos paramentos e demais objetos de culto; ordem dos livros de registro do arquivo episcopal, “o qual encontramos em muito boa ordem e asseio”, anotou.169 A primeira visita teve a duração de oito dias, e a segunda, em 1903, de apenas cinco. Em ambas as ocasiões houve especial atenção ao ministrar dos sacramentos, com a realização diária de missas e novenas, totalizando, na segunda visita, cerca de quatrocentas primeiras-comunhões, oito casamentos, e a crisma de setecentas e noventa pessoas.170
O Bispo D. José prescreveu ao final de seu relato, após noticiar as ornamentações festivas da Igreja e as manifestações de apreço de que foi alvo, um provimento especial destinado a regular o funcionamento da paróquia ao longo do tempo. Entre outras medidas recomendou a utilização da batina pelos padres sempre que se apresentassem em público, como “honra e distintivo em meio dos outros homens”.171 Outra determinação, condizente com a Igreja que se reformava aos moldes da Cúria Romana, era a da recitação junto com o povo das orações ordenadas pela Pastoral Coletiva dos Bispos Brasileiros, “em voz alta e pausada, de modo que todo o povo possa ouvir e acompanhar; devem também insistir com o mesmo povo que vá
168 FEDALTO, Pedro (Arcebispo) A Arquidiocese de Curitiba na sua História. 5ª ed. Curitiba:
(s.n.), 1956, p. 22.
169 Livro Tombo nº 3 da Paróquia de Sant’Anna de Castro, p. 176.
170 Livro Tombo... op. cit., p. 179.
171 Livro Tombo... op. cit., p. 181.
repetindo, em seu seguimento, as mesmas orações”.172 Seguiram-se instruções para a missa dominical; a explicação do catecismo às crianças; a necessidade de penitência prévia aos noivos; a conservação das alfaias e paramentos; a renovação periódica da água batismal e das partículas destinadas à comunhão, “para as quais só devem empregar pura farinha de trigo; muito cuidado e exigência com o vinho para a missa, dando sempre preferência ao vinho nacional.”173
É pouco crível que D. José, observador atento de tantos detalhes no funcionamento da paróquia não tivesse considerado a questão da educação católica, que fazia parte, como sabemos, das preocupações dos bispos reformadores e que tinha sido objeto de recomendação em sua carta pastoral datada de 2 de março de 1900.174 Na estadia de 1903, teria visitado em Castro uma escola dirigida pelo pároco. Ao contrário de outros itens, que descreveu em minúcias no livro tombo, ao estabelecimento escolar dedicou apenas duas linhas. Seriam as condições da escola mais dignas de silêncio do que comentário? – “não foi menor o nosso contentamento pelo bom andamento da Escola paroquial, que, depois de criada, o Rvmo., aqui vai sustentando e dirigindo pessoalmente a custa de inauditos sacrifícios”175 – foi o que se limitou a relatar.
A descrição da visita pastoral de 1903 nos traz, porém, outra pista para ligarmos Dom José à vinda do Colégio a Castro. Nesta ocasião foi recepcionado pelo Coronel Olegário de Macedo na condição de Prefeito Municipal. À chegada do trem à estação, Olegário discursou em nome do povo, “depois que cessaram as harmonias da música e interrompeu-se a chuva de flores, que sobre nós aspergiam um grupo de meninas e moças”, comenta o prelado.176 Também em 1897 a chegada do Bispo fora saudada por banda de música, foguetório, badalada de sinos e discurso, desta feita, de Sallustio Lamenha Lins, Juiz de Direito. Recepções em tudo semelhantes à que foi oferecida às Irmãs em 1905.
Durante a visita de 1903, o Coronel Olegário e o Bispo D. José tiveram ocasião
172 Livro Tombo... op. cit., p. 181.
173 Livro Tombo... op. cit., p. 181, verso.
174 Cfe. Boletim Ecclesiástico da Diocese de Corytiba. Anno, I, nº 3 , p. 1.
175 Livro Tombo... op. cit., p. 179.
176 Livro Tombo... op. cit., p. 177, verso.
de tratar de assuntos de interesse comum. Segundo o Jornal A Estrela, “estava ainda o sr. Bispo jantando, em companhia do Dr. Dantas, (...) do sr. Coronel Olegário e algumas pessoas mais”, quando foram interrompidos por grupo de jovens que vieram fazer-lhe uma ovação e beijar-lhe o anel.177 Ora, o Dr. Dantas Ribeiro, além de genro de Olegário, era o inspetor escolar, e é de se presumir que a questão da qualidade das escolas castrenses tenha sido colocada. Também pel‟A Estrela sabemos que outras autoridades castrenses faziam parte da comissão de recepção do bispo, cidadãos como o Dr. Gastão Sengés e o camarista Indalécio de Macedo, que depois iríamos encontrar compondo o grupo de provedores do Colégio no ano seguinte. Não nos esqueçamos, igualmente, que o governador Xavier da Silva, também do grupo de provedores, mantinha relacionamento amigável com o Bispo, favorecendo, por exemplo, a instalação do Seminário Diocesano com cotas nas loterias oficiais, conforme a lei 122, de 12 de Dezembro de 1894. É provável, assim, que os primeiros entendimentos para a criação do Colégio em Castro tenham-se dado entre o Bispo e os dirigentes locais já no ano de 1903.
Ao longo dos quase noventa anos de funcionamento do São José em Castro, muitas outras figuras masculinas teriam seu espaço de atuação, como noticiaremos nos próximos capítulos, quais sejam: párocos, médicos, professores, paraninfos, inspetores de ensino e os jornalistas, que se ocupavam de dar a conhecer a seus leitores as qualidades do empreendimento escolar.
177 Jornal A Estrela, nº 12. Curitiba: 28/06/1903, p. 1.