• Nenhum resultado encontrado

2 EMBASAMENTO TEÓRICO

2.4 A INVENÇÃO DA CRIANÇA ESCOLAR NOS PARECERES DESCRITIVOS

[...] sujeitos são produzidos através de histórias e estas, ao se repetirem, tornam-se ‗verdades‘, produzindo efeitos sobre os sujeitos (PINHEIRO, 2006, p. 59).

Figura 2 – Pele de boneca

Fonte: Lia Menna Barreto11

11

Obra - Pele de boneca – 2009. Lia Menna Barreto é carioca e formou-se em desenho pela universidade federal do Rio Grande do Sul. A artista desmembra símbolos da infância e do afeto e, por meio de operações formais de desmontagem e montagem, os recoloca em um outro plano de representação. Disponível em: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa10795/lia-menna-barreto

Vimos até o presente momento como tem se delineado os conceitos de avaliação na Educação Infantil. Através do mapeamento das pesquisas apresentadas, foi possível notar que os registros feitos, das crianças, no contexto escolar ainda se restringem muito mais à relatos de comportamentos do que propriamente do seu desenvolvimento nas situações de aprendizagens, traduzindo-se em concepções que ainda se encontram muito ligadas à práticas tradicionais, que avaliam as crianças em um tempo definido e conforme itens pré determinados pela escola. Dessa forma, o processo avaliativo desenvolvido nas escolas não tem cumprido o seu principal papel, explicitado pelos Referenciais Curriculares Nacionais de Educação Infantil (1998) e Diretrizes Curriculares Nacionais de Educação Infantil (2010), que orientam os professores a um acompanhamento e um registro processual da aprendizagem do aluno.

Esses relatos avaliativos sobre as crianças se fazem presentes na escrita de pareceres descritivos: instrumentos de avaliação adotados pela maioria das escolas no qual descreve-se as ações das crianças durante o seu percurso escolar, criado na década de 70 com a ideia de dar uma visão descritiva e qualitativa ao processo avaliativo na Educação Infantil etapa distinta da educação básica, em contraposição às avaliações quantitativas baseadas em notas e conceitos, aplicadas com regularidade no ensino fundamental e que inviabiliza o acompanhamento do desenvolvimento da criança (HOFFMANN, 2014), pois apenas constatam o resultado final do que foi aprendido pelo aluno.

Desse modo, as narrativas dos pareceres descritivos têm como objetivo demonstrar como as crianças têm desenvolvido as atividades que são propostas pelos professores, bem como o seu relacionamento com os colegas e quase sempre iniciam descrevendo sobre os aspectos emocionais das crianças (alegre, inteligente, esperta, agitada, distraída); em seguida relata-se sobre o domínio de habilidades (recorta, cola, pinta, desenha) e finalmente, concluí- se a narrativa com uma mensagem motivadora: Tem ainda que melhorar seu desempenho. Você é capaz! Um beijo carinhoso!

Nota-se que esses documentos, em que são registradas as ações das crianças na escola, são escritos de maneira muito objetiva que não deixa claro os detalhes de seu percurso na construção do seu conhecimento. Por isso, tal instrumento têm recebido algumas críticas por não apresentarem, em suas descrições, uma visão completa da prática pedagógica do professor e tampouco do desenvolvimento do aluno nas situações de aprendizagens, deixando alguns pais com muitas dúvidas à respeito do trabalho realizado com seus filhos.

Percebe-se nessas narrativas uma superficialidade muito grande quanto à descrição de atividades aplicadas na sala de aula, dando-se maior destaque a aspectos comportamentais e atitudinais das crianças.

Esses pareceres por vezes seguem um mesmo modelo de escrita, que buscam avaliar as crianças sobre os mesmos aspectos orientados pelas instituições, padronizando a sua escrita e negligenciando especificidades da criança. Dentre os aspectos a serem avaliados e que são ligeiramente relatados, estão a Formação Pessoal e Social (conhecimento de si, autonomia e relação com os outros), Conhecimento do Mundo (cultura, ciências) e Expressão e Comunicação (linguagem oral, linguagem escrita, matemática, expressões motora, dramática, plástica e musical) onde se observa o nível de aquisição de habilidades da mesma, além disso, os professores são orientados a revelar as dificuldades com moderação e se preparar para falar sobre elas no momento da entrega dos pareceres aos pais. Com isso, exige-se do professor muita atenção ao proceder com a escrita do parecer, pois as palavras podem ter diferentes interpretações dependendo de quem as lê.

Então, os modelos de pareceres fornecidos pelas escolas permitem avaliar as crianças e descrever seus atos mediante uma relação de tópicos específicos, colocando todas numa mesma posição de normalidade, subjetivando-as e marcando-as na sua trajetória escolar, reduzindo o ser humano à aspectos atitudinais e desconsiderando sua história, o que colabora para a formação de um ser submisso no qual professor narra suas verdades sobre essa criança que irá ser interpretado pela escola, família e sociedade em geral.

Sendo assim, ―os Pareceres Descritivos criam um aluno/a discursivamente a partir da história que dele/a é contada nas narrativas escolares‖ (PINHEIRO, 2006, p. 64), histórias que são manipuladas e que demonstram o controle do professor na construção da personalidade do educando, tendo a palavra e a escrita como ferramentas para direcionar o agir do educando, estabelecendo valores e regras, visando transformar suas condutas para o futuro. A partir dessas histórias, é possível caracterizar um aluno como comportado ou indisciplinado, estipulando crenças sobre esses indivíduos que nem sempre condiz com a verdade.

Nesse sentido, a obra de Lia Menna Barreto, apresentada no início desse capítulo, serve como metáfora para pensarmos sobre a escrita dos pareceres descritivos, instrumento avaliativo utilizado nas escolas de Educação Infantil, em que o professor busca narrar, para expor aos pais, as transmutações que ocorrem na vida da criança ao entrar na escola, lugar em que foi instituída a responsabilidade de educar e que reconstrói um novo ser, o ser

escolarizado12, o ser aluno que deve ser moralizado e reinventado de maneira a atender os anseios da sociedade.

Com isso, ―revela-se no interior dessas instituições a expectativa de toda uma sociedade sobre suas crianças: expectativa de uma infância de submissão e de espera do tempo de não ser mais criança‖ (HOFFMANN, 2014b, p. 135), pois, sendo menores, eles têm que se submeter às instruções dos adultos para que possam aprender, e ao iniciarem a sua trajetória escolar, eles devem ser educados e mudam de patamar, de filhos que cumprem ordem dos pais tornam-se alunos, e devem obedecer ao professor, condicionando-se à uma série de regras que terão que cumprir disciplinarmente para tornarem-se sujeitos de boa conduta moral. Em outras palavras, desde o nascimento a criança deve se curvar diante de valores já estabelecidos pela família como a maneira de se sentar, o tom da voz ao falar, a maneira de se alimentar, ficando à mercê de normas que a educam desde a infância.

Assim, ao receber a criança na escola, o professor também começa a exercer o seu poder, escolarizando a criança, vigiando-a e disciplinando-a, projetando nela suas crenças e valores. E, ao iniciar sua trajetória escolar, a criança vai sendo proibida de viver sua infância. Não pode mais brincar, dançar, se expressar de forma espontânea porque o ―objetivo é pressioná-los, para que disciplinadamente estudem, aprendam e assumam condutas‖ (LUCKESI, 2011b, p. 68). As crianças que fogem à regra são consideradas problemáticas e são encaminhadas para que os pais ou outro profissional corrija seu comportamento ―inadequado‖. Portanto, quanto mais o aluno cumprir as regras e os padrões estabelecidos pela instituição, melhor será classificado sob o olhar do professor e melhor será avaliado. Através de dois pequenos trechos de pareceres que seguem, podemos ter maior clareza do discurso apresentado.

Adaptou-se e socializou-se muito bem nesta escola. Aluna assídua, alegre, inteligente, caprichosa, interessada e prestativa. Apresenta um bom relacionamento com os colegas e professora, sabendo respeitar regras e combinados.

Modelo 5 – Parecer Descritivo13

Vemos, no modelo exposto, que a aluna, ao ter cumprido de maneira positiva o que se espera dela, foi bem avaliada pela professora com uma série de elogios à sua personalidade,

12

Termo utilizado por Angela Maria Borba Cardoso em sua dissertação de mestrado: Pareceres Descritivos: Monstrando a Avaliação Escolar. Porto Alegre, 2001

13

pois adaptou-se, socializou-se e respeitou as regras e combinados14. Agora observe um parecer em que o aluno apresenta problemas.

Modelo 6 – Parecer Descritivo15

Nesse último parecer, nota-se que o aluno foi impedido de participar das atividades escolares provavelmente por ter transgredido as normas estabelecidas e é orientado a melhorar o seu comportamento. Nisso, podemos observar em Pinheiro (2006, p. 62) que os pareceres descritivos também são ―prescritivos, pois não somente descrevem os sujeitos ali narrados como também lhes inscrevem determinadas identidades. Prescrevem o que fazer para tornar- se um/a bom/a aluno/a, [...] obediente, responsável etc‖. Dessa forma, o foco dos professores na escrita dos pareceres volta-se muito mais para critérios de julgamento sobre as condutas dessas crianças do que sobre uma reflexão voltada ao processo de construção do conhecimento do educando.

Busca-se enquadrar as crianças em normativas tidas como corretas de modo a homogeneizar os indivíduos, desconsiderando suas especificidades, produzindo verdades e reinventando-os através da escrita dos pareceres descritivos de modo a comprovar a eficiência da escola na formatação do ser humano. No entanto, tal formação só irá contribuir para a criação de um ser passivo diante da sociedade dominante, o qual irá viver sempre de acordo com verdades e normas dadas, anulando sua originalidade, transformando-os em adultos sem identidade e com as mesmas ideias, misturando-se à multidão como ilustrado na obra Focus group da artista Diana Ong (2000).

14

Geralmente, no início do ano letivo, professores produzem um cartaz em que fixam na parede da sala de aula para deixar claro aos alunos as normas que devem cumprir para uma boa convivência na instituição de ensino.

15

Figura 3 - Focus group da artista Diana Ong

Fonte: Superstock16

Contrariando os argumentos apresentados até o momento, é importante romper com essas posturas tradicionais de avaliação que visam impor, através da escrita dos pareceres descritivos, uma cultura moralista, classificando, rotulando e padronizando as crianças e ―adotar a cultura de avaliação com práticas cabíveis e aplicáveis conforme as especificidades de cuidados e educação de crianças de idade entre zero e cinco anos‖ (CARNEIRO, 2010, p. 24), respeitando essa fase específica da educação e partindo de um princípio reflexivo sobre o que o aluno já oferece, direcionando-o para novas conquistas.

Certamente, ao optar por essa postura avaliativa, o professor deverá ter um olhar mais amplo sobre seu trabalho interpretando a criança, relacionando teoria e direcionando intervenções, porém, essa experiência será muito mais rica e se refletirá na escrita de uma parecer muito mais completo e significativo sobre o desenvolvimento da criança no espaço escolar.

Em tal perspectiva, ambos os seres, professores e alunos se beneficiam com o processo da aprendizagem, ao articular as diferentes experiências para enriquecer as propostas pedagógicas. Essa heterogeneidade presente na sala de aula, ao ser retratada na composição dos pareceres descritivos, detalha a evolução de cada criança nas práticas direcionadas pelo professor, ampliando as informações sobre ela e desvincula-se simplesmente em relacionar

16

determinadas atitudes e comportamentos vistos como incoerentes, mas que são próprias dessa faixa etária.

Assim, a avaliação estará voltada para ―promover situações de aprendizagem adequadas aos interesses e necessidades de cada criança e necessárias ao seu processo de desenvolvimento‖ (HOFFMANN, 2014c, 253). Nesse sentido, o processo avaliativo muda de rumo, saindo daquela postura em que a criança é avaliada apenas sob aspectos comportamentais e habilidades elencadas pela escola em que deve dominar, tornando-se um instrumento subsidiário do trabalho pedagógico garantindo a aprendizagem do educando, produzindo um parecer descritivo com narrativas que contemplem a descrição dos momentos e experiências vividos em sala de aula na busca da aprendizagem.

Mediante os argumentos expostos, em que buscou-se elucidar os vários aspectos que envolvem a avaliação na Educação Infantil, desde o mapeamento de pesquisas relacionadas ao tema e aspectos legais que orientam o processo avaliativo na escola até as contribuições de estudiosos da área, abordando suas reflexões sobre avaliação e as produções da escrita dos pareceres descritivos pelos professores, passo no próximo capítulo a apresentar a metodologia utilizada para a produção desta pesquisa.