5 PROPOSIÇÕES: PRODUZINDO PARECERES DESCRITIVOS NA EDUCAÇÃO INFANTIL
5.2 OS PORTFÓLIOS COMO UM MODO DE APRESENTAR OS DOCUMENTOS DO PROCESSO DE
O processo sistemático de obter, selecionar e refletir sobre as amostras e evidências selecionadas e sobre a aprendizagem realizada é o que torna o portfólio uma estratégia dinâmica e significativa de avaliação (PARENTE, 2014, p. 299).
Outro tipo de registro que pode ser considerado como documentos de processo e que pode ser apresentado e entregue juntamente com os pareceres descritivos é o portfólio, um recurso avaliativo de muita relevância que permite uma análise sobre as múltiplas produções das crianças durante o ano letivo, pois, de maneira visível, o professor pode relembrar os temas que trabalhou, com que tipo de material, como a criança realizou a atividade, o que ela demonstra no seu traçado ou no seu jeito de pintar, entre outras coisas.
É um meio que permite compilar diversas informações sobre a aprendizagem do educando em seus diferentes contextos. Sendo assim, podemos denominar o portfólio como ―amostras de trabalhos das crianças, registros de observações utilizando recursos de diferentes formatos, descrições das ações, interações e realizações das crianças, registros fotográficos, áudio e vídeo‖ (PARENTE, 2014, p. 296). No quadro que segue, podemos observar as interações das crianças em uma situação de aprendizagem que envolve pintura, esse registro fotográfico permite ao professor perceber e estudar o processo criativo que elas desenvolvem
sob ângulos diferentes e, ao fazer parte do portfólio, dá maior visibilidade a sua aprendizagem e legitimidade ao processo avaliativo.
Figura 5 - Documentação Pedagógica
Fonte: Revista Nova Escola23
Sendo assim, as documentações que compõem os portfólios auxiliam o professor em um momento mais tranqüilo a relembrar, através das diversas imagens registradas, as manifestações das crianças diante das situações de aprendizagens propostas bem como permite que o professor reconstrua o seu percurso didático, sendo também um subsídio para a sua formação enquanto docente. Nele, o professor não só reflete sobre o desenvolvimento da aprendizagem das crianças, mas também sobre as suas conquistas relacionadas ao ensino- aprendizagem ocasionando um crescimento mútuo entre ambas as partes.
Esse tipo de documentação pedagógica, que já foi adotada em algumas escolas no lugar das fichas avaliativas, pode auxiliar a professora a construir o seu planejamento a partir das análises, interpretação e compreensão de imagens, anotações, vídeos e áudios feitos no cotidiano escolar, além de dar suporte e um maior significado à produção dos pareceres descritivos, apresentando de maneira escrita e visual uma narrativa das múltiplas experiências vivenciadas pelas crianças. Com isso, no momento da entrega dos pareceres descritivos, os professores podem estar expondo os portfólios das crianças para que os pais tomem
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Disponível em: http://revistaescola.abril.com.br/creche-pre-escola/conheca-experiencias-brasileiras-inspiradas- reggio-emilia-770428.shtml?page=2#ad-image-0
conhecimento das produções realizadas por seus filhos na escola de maneira mais clara e, posteriormente, podem levá-los para casa juntamente com os pareceres.
Ao organizar o portfólio, o professor tem a possibilidade de deixar evidente, tanto aos pais quanto aos diretores e coordenadores, quais foram os objetivos de aprendizagem, quais as mudanças que ocorreram durante esse trajeto, quais as potencialidades ou dificuldades que observou, se sua metodologia foi adequada e se as propostas estavam relacionadas com a fase de desenvolvimento em que se encontram. Em suma, todas as questões levantadas e todas as respostas encontradas em relação aos diferentes registros que deram forma ao portfólio servirão de apoio para a elaboração da escrita do parecer descritivo, traçando o percurso de aprendizagem da criança na instituição de ensino.
Nessa perspectiva, os portfólios podem ser uma alternativa para tornar a avaliação mais concreta e significativa, uma vez que o professor pode, a partir da visualização daquilo que a criança foi capaz de fazer, observar, refletir e agir para que ela progrida na sua aprendizagem a partir de uma concepção de avaliação como um processo contínuo e inacabado, um movimento que precisa estar descrito nos pareceres para que os pais compreendam como ocorre o trabalho do professor e o desenvolvimento de seus filhos.
No entanto, os portfólios produzidos ainda não têm servido como base para avaliar as aprendizagens das crianças e tampouco estão vinculados com a produção dos pareceres descritivos, mas tem como única finalidade quantificar os trabalhos realizados pelos alunos ao longo do ano.
A avaliação das crianças na Educação Infantil ainda está ancorada em bases tradicionais, vista como um fim e não como um meio, avalia-se os resultados alcançados em relação a uma atividade proposta. Traça-se um caminho de desenvolvimento para essa criança que parte da instituição de ensino, delineia-se habilidades que ela deve dominar com vistas a se preparar para o futuro, colocando-as todas numa posição de uniformidade, desconsiderando sua diversidade sócio-cultural e seu modo próprio de aprender. Dessa maneira, se compararmos os portfólios das crianças, veremos muitas semelhanças entre eles, pois na sua maioria são atividades restritas que elas devem executar da mesma forma, de modo a alcançar um resultado padrão, um ideal de perfeição.
Segundo Rabitti (1999, p. 148), ―as crianças são criativas, desejosas de fazer perguntas, de projetar soluções, de construir, se elas forem encorajadas a desenvolver suas próprias boas experiências, se elas forem ouvidas, se viverem em um ambiente estimulante‖. Com a disponibilidade de escuta do professor e seu olhar atento e sensível para encadear a
relação entre as múltiplas linguagens, as crianças podem construir conhecimentos muito mais inovadores a partir do seu mundo do que apenas realizar atividades com resultados programados, pois respeita-se seus pensamentos e opiniões, e flexibiliza-se o processo educativo, oferecendo diversas possibilidades de aprender. Sendo assim, as ações das crianças não são negadas e elas vivem sua infância na escola, construindo conhecimentos a partir das suas expectativas presentes e não como um investimento futuro.
Ao dar voz à criança e permitir que ela participe na elaboração de seu portfólio, ao se comprometer em escutá-la, a professora tem acesso ao seu olhar sobre as práticas aplicadas além de proporcionar a ela um momento de reflexão sobre as experiências educativas da qual fez parte e a partir daí ter novos subsídios para direcionar suas intervenções.
Escolher o portfólio como uma possibilidade de avaliação na Educação Infantil e como subsídio para a escrita dos pareceres descritivos significa assumir uma postura formativa em oposição às tradicionais, é relacionar a avaliação ao processo diário e continuo de observar, investigar e interpretar as situações de aprendizagens oferecidas em sala de aula, o desenvolvimento da aprendizagem do educando e o sentido das ações pedagógicas realizadas. Com isso, o professor pode elaborar e apresentar um parecer descritivo muito mais amplo, organizando uma narrativa que revele ao leitor as etapas trilhadas por cada criança na construção da sua aprendizagem, pontuando seus aspectos individuais.
Dessa maneira, a professora concebe a criança como competente para atuar sobre a construção do seu conhecimento e como alguém que ―tem o direito de ter esperança e de ser valorizada; não mais, portanto, uma criança predefinida, considerada frágil, sofredora, incapaz‖ (RINALDI, 2014, p. 81) que é inventada por um conjunto de normas e determinações, negando suas ações e suas competências, mas uma criança que seja protagonista no desenvolvimento da sua aprendizagem durante a trajetória escolar, produzindo mudanças sobre si mesmas e o mundo ao seu redor, compreendendo que a avaliação deve ser feita com a criança e não a respeito dela.
5.3 A ESCRITA DOS PARECERES DESCRITIVOS: NARRANDO A TRAJETÓRIA