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3.4 A FÊNIX RENASCE EM NOVO NINHO

3.4.1 A Lei de Diretrizes e Bases da Educação 9394/96:

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBN) nº 9394/96 foi instituída numa espécie de “golpe civilizado” (FRIGOTTO, 2005, p. 8).

Após a promulgação da Constituição Federal de 1988, a chamada “Constituição Cidadã”, iniciaram-se os debates em torno da formulação da LDBN. “Sociedade civil organizada, por meio de suas entidades educacionais e científicas, mobilizou-se fortemente pela incorporação do direito à educação pública, laica, democrática e gratuita na Constituição”. (FRIGOTTO, CIAVATTA, RAMOS, 2005, p. 35).

Um dos pontos mais reivindicados era em relação à educação básica que se queria da Educação Infantil até o Ensino Médio, recebendo do sistema um tratamento unitário. Em termos teóricos, Saviani (1997) afirma que se defende a vinculação fundante entre educação, prática social e trabalho como princípio educativo.

Em relação à educação profissional, defendia-se a politecnia, que segundo Frigotto, Ciavatta e Ramos (2005), difere, e muito, da antiga profissionalização colocada pela Lei 5692/71 (BRASIL, 1971). Segundo esses autores, a profissionalização implica um treinamento, o desenvolvimento de uma habilidade específica, sem o conhecimento dos fundamentos dessa habilidade para o exercício de uma ocupação específica estabelecida na divisão técnica do trabalho. Já a politecnia implica o domínio dos fundamentos científicos e tecnológicos que caracterizam o processo de trabalho na modernidade. Assim, o ensino Médio

deveria proporcionar ao aluno o acesso aos processos múltiplos de técnicas de produção existentes. Defendia-se, também, a formação do professor em nível superior e um piso salarial mínimo que garantisse a sobrevivência com dignidade.

O primeiro projeto foi o do deputado Octávio Elísio em dezembro de 1988, que foi, em seguida, reformulado pela Comissão de Educação, cujo relator foi o deputado Jorge Hage. Depois de muitas idas e vindas às comissões de educação, finanças, à Câmara dos Deputados, depois ao Senado, o projeto foi substituído nessa última instância pelo projeto do Senador Darcy Ribeiro, sancionado sem muitas modificações em 20 de dezembro de 1996 e publicado no diário oficial da União em 23 de dezembro de 1996. (SANTOS, 1999).

Não analisaremos o conteúdo de toda a lei, uma vez que nosso objeto diz respeito somente à formação do professor em nível médio. E a este respeito a referida lei dispõe :

Art. 61 - A formação de profissionais da educação, de modo a atender aos objetivos dos diferentes níveis e modalidades de ensino e às características de cada fase do desenvolvimento do educando, terá como fundamentos: I – a associação entre teorias e práticas, inclusive mediante a capacitação em serviço.

II – aproveitamento da formação e experiências anteriores em instituições de ensino e outras atividades

Art. 62 – a formação de docentes para atuar na educação básica far-se-á em nível superior, em curso de licenciatura, de graduação plena, em universidades e institutos superiores de educação, admitida, como formação mínima para o exercício do magistério na educação infantil e nas quatro primeiras séries do ensino fundamental, a oferecida em nível médio, na modalidade Normal. (BRASIL, 1996).

Como é possível constatar, a LDBN admite a formação em nível médio como sendo a mínima, mas pressupõe a relação teoria e prática nessa formação, mesmo que colocada de forma vaga, sujeita a regulamentações posteriores.

A partir da promulgação da LDBN 9394/96 (BRASIL, 1996), houve uma grande polêmica em função de suas disposições transitórias constantes no § 4º do Art 87, segundo o qual “Até o fim da Década da Educação somente serão admitidos professores habilitados em nível superior ou formados por treinamento em serviço”. Acreditou-se e divulgou-se que os professores formados em nível médio perderiam seus direitos adquiridos, caso não apresentassem um diploma de nível superior. Dessa forma, o curso de formação em nível médio perderia sua razão de existir, o que, para o governo do Paraná foi providencial, uma vez que enfrentava, na época, a resistência das quatorze escolas, que insistiam em

oferecer o curso de Magistério. Tal idéia foi bastante divulgada em todas as partes do país (BRASIL, 2003).

Em 2003, por meio de uma consulta pública ao Conselho Nacional de Educação, advinda do Sindicato dos Professores Municipais de Conceição do Coité, Estado da Bahia, as dúvidas em relação a tal interpretação da lei foram dirimidas e o Parecer do Conselho Nacional de Educação 03/2003 esclareceu:

A redação do artigo 62 da LDBEN é clara e não deixa margem para dúvida. Aqueles que freqüentam um curso Normal, de nível médio, praticam um contrato válido com a instituição que o ministra. Atendidas as disposições legais pertinentes, a conclusão desse curso conduz a diploma que, por ser fruto de ato jurídico perfeito, gera direito. No caso, o direito gerado é a prerrogativa do exercício profissional, na Educação Infantil e nos anos iniciais do Ensino Fundamental.

Os professores que lograram obter formação de nível médio, na modalidade Normal, incorporaram a seu patrimônio individual a prerrogativa do magistério. Nossa Constituição Federal, a Lei Maior de nosso País, diz que o ato jurídico perfeito gera direito adquirido, e que a lei não pode prejudicá-lo (BRASIL, 2003, p. 2).

Em função disso, a assessora do Núcleo Regional de Ensino de Londrina que nos concedeu a entrevista afirmou:

Primeiro, houve um novo entendimento da LDBN. Inicialmente houve um entendimento de que, pela LDBN, até 2007, o professor teria que ter uma formação em nível superior, caso contrário estaria fora da Educação Infantil e das séries iniciais e hoje tem-se o entendimento de que não é isso que a LDBN está falando. Ela diz que o atendimento à Educação Infantil e ao Ensino Fundamental pode ser feito com nível médio se você não tem a formação superior. (Apêndice A).

Não houve uma nova interpretação da LDBN 9394 (BRASIL, 1996), e sim, um esclarecimento de que a formação em nível médio é admitida pela lei. E uma vez ministrada em uma instituição legalizada é direito adquirido, o que nos remete a seguinte inquietação: por que esta dúvida só foi esclarecida em 2003, quando o governo passou às mãos de Luís Inácio Lula da Silva? Se o próprio parecer do 03/2003 do CNE afirma que esta é “redação pouco precisa”, por que será que ninguém, na administração presidencial anterior, percebeu isto? Infelizmente não temos tempo para responder a esta questão nesta pesquisa. Fica então a clareza de que a formação de professores para atuar na Educação Infantil e nos Anos iniciais é válida do ponto de vista legal.