Vamos renascer das cinzas Plantar de novo o arvoredo Bom calor nas mãos unidas Na cabeça um grande enredo (Música “Renascer das cinzas” de Martinho da Vila”)
Consideramos importante salientar que as políticas neoliberais implantadas pelo governo estadual na gestão de Jaime Lerner (1995-2002) não acabaram, em verdade, com o ensino profissional, e sim, deixaram de ofertá-lo na rede pública estadual de ensino. O ensino profissional continuou existindo, e ainda com mais força, na esfera privada. O governo
estadual, com o PROEM, passou a oferecer o mínimo desta modalidade, localizando a oferta em seis pólos28 do Estado do Paraná, de acordo com “a vocação regional” de mercado das regiões em que estes pólos foram estabelecidos. O curso de formação de professores continuou a ser ofertado pelas “quatorze rebeldes”.
Uma pergunta inquietante é: o que resultou dessa política? Responder a tal questão é a nossa proposição neste segmento.
Silva (2003b, p. 1) resume em poucas palavras como as medidas neoliberais se concretizaram, afirmando que o governo:
Deixou as escolas sem financiamento estatal, sobretudo no que se refere à manutenção e custeio, comprometendo-se somente com o pagamento dos salários dos professores e funcionários. Para garantir ainda mais economia de custos com as escolas públicas, o Paraná diminuiu a carga horária das aulas, nas inúmeras reformas curriculares que implementou de 1995 a 2002. Com o fechamento dos cursos profissionalizantes e com formas de aumentar o número de alunos em sala de aula do ensino regular, o Estado do Paraná conseguiu diminuir o número de professores e de funcionários nas escolas.
Ainda segundo a mesma autora, a política educacional do governo Lerner objetivava, não só mudanças em termos estruturais, mas também nas representações dos sujeitos envolvidos, uma vez que buscou trazer para o campo da educação conceitos novos, próprios das ciências empresariais, bem como substituiu os conteúdos tradicionais do currículo por outros tais como: “empreendedorismo, competitividade, cidadania, consumidor, qualidade total, gestão” e outros. (SILVA, 2003b).
A escola da excelência tinha por meta a eqüidade social, a qual, segundo Oliveira (2000), não quer dizer igualdade, e sim diminuição da diferença por meio da oferta
28 O PROEM previa que o Ensino Médio Profissional fosse ofertado em seis pólos, concentrados nas regiões mais povoadas do Estado: Pólo 1 com sede em Curitiba, Pólo 2 com sede em Ponta Grossa, Pólo 3 com sede em Londrina, Pólo 4 com sede em Maringá, Pólo 5 com sede em Cascavel e Pólo 6 com sede em Guarapuava. De acordo com o projeto, cada pólo agregaria cursos voltados para a especificidade econômica de cada região.
de oportunidades, da preparação e da domesticação do trabalhador, ensinando-o a competir, para que dele seja extraído ainda mais lucro. E dessa maneira, seja possível justificar os investimentos públicos em sua formação.
Em relação aos professores, essa política representou um achatamento considerável em seus salários, bem como pouco investimento em sua formação em termos de qualificação em sua área específica de conhecimento. Lima e Viriato (2006) explicam que a formação continuada dos professores, que no primeiro governo Requião fora descentralizada nos Núcleos Regionais de Ensino, no governo Lerner foi centralizado em Faxinal do Céu29. Os autores analisam da seguinte forma esse processo de capacitação docente:
A capacitação ministrada na Universidade do Professor se divorcia da realidade dos alunos comuns, das escolas comuns. Procura convencer os professores de que eles têm o poder de mudar os rumos da educação através de seus pensamentos positivos. A sutileza do discurso Faxinalense é que o debate descarta o político, contempla uma prática pedagógica divorciada da realidade, embora teoricamente possa até mencioná-la. O importante é trabalhar com os conteúdos, sendo a técnica pedagógica privilegiada (LIMA; VIRIATO, 2006, p. 11).
O trecho acima deixa bem clara a intenção do governo de implantar a reforma, tendo o apoio “incondicional” dos professores a tal projeto. A estratégia para conseguir tal intento foi fazer uma espécie de “lavagem cerebral” nos professores. Demo (1999) também faz referências a estas intenções ao nominar o espaço e as atividades de Faxinal do Céu de “spa pedagógico”. Outro aspecto a ser destacado na observância de Lima e Viriato (2006) é o cunho tecnicista do conteúdo abordado nessa política de capacitação, ou como rotula Sheibe (2003), é o neotecnicismo na formação dos educadores.
Silva (2003b), interpretando os dados do Censo Escolar feito pelo MEC e INEP desde 1995/1996 até 2001, verificou que o significado dessas políticas para a educação pública paranaense foi o esvaziamento das escolas, sendo cerca de 112.649 alunos a menos no Ensino Fundamental, ao passo que se teve uma elevação razoável de um pouco mais de 80.000 alunos no Ensino Médio, mas atente-se para o detalhe de que as matrículas nos Cursos Supletivos de Ensino Médio cresceram de 19. 091 em 1995 para 84. 117 em 2001. A autora destaca ainda que o Estado do Paraná foi o que teve maior aumento de matrículas nessa modalidade de ensino, corroborando a idéia de uma formação aligeirada em curto espaço de tempo e de baixo custo, em detrimento de uma formação escolar sólida.
29 Um centro localizado na região sudoeste do Estado, que abriga uma infra-estrutura de alojamentos e espaços para conferências.
Em relação à qualidade, os resultados do SAEB demonstram que não só no Paraná, mas em todo o Brasil, foi decaindo à medida que as políticas neoliberais foram se efetivando (RESULTADOS..., 2004).
Em todo o complexo contexto da reforma educacional que se processou no Paraná entre 1995 e 2002, o Ensino Profissional foi o mais atingido, uma vez que sua oferta foi suprimida, deixando milhares de jovens paranaenses sem a possibilidade de “acesso à escola do trabalho, quando fosse de seu interesse por esta opção de escolaridade formal” (PARANÁ, 2005b, p. 5). Lima Filho (2004, p. 44) avalia que “as reformas realizadas no período de 1995 a 2002 constituíram um processo que vinculado ao ideário de redefinição do papel do Estado – representou a demissão da política pública, isto é, a redução da ação do Estado como executor de políticas públicas de caráter social”.
Consolidando o discurso de resgate do espaço público ao poder público do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), o Governador Roberto Requião, membro do referido partido, implementou uma série de ações30 no sentido de reassumir as responsabilidades do governo para com os setores sociais (PMDB, 2005). Entre essas ações destacamos a reoferta dos cursos de formação profissional na rede pública de ensino do Estado, em cujo contexto se encontra nossa Fênix renascendo das cinzas com o nome de “Curso de formação de Docentes em Nível Médio – Modalidade Normal”.
A partir de agora, procuraremos vislumbrar nos documentos as bases teóricas desse renascimento.
30 Exemplo destas ações é o pagamento do servidor público estadual que antes era feito por um banco privado, agora é feito por um banco público; a reestatização do Porto de Paranaguá é outro exemplo.