CAPITULO 2 O FLUXO MATERIAL NA CONSTRUÇÃO CIVIL
2.2 LEAN CONSTRUCTION: A PRODUÇÃO ENXUTA NA CONSTRUÇÃO CIVIL
2.2.5. A Logística Empresarial no Contexto da Lean Construction
A logística empresarial vem ganhando destaque nos grupos de pesquisa da construção civil que adotaram a lean construction como a nova filosofia de produção e diferente de alguns anos atrás, o enfoque logístico utilizado atualmente por estes grupos começa a apresentar um caráter mais sistêmico. Embora a lean construction tenha uma grande abrangência de temas de pesquisa, a seguir será apresentada uma relação de trabalhos onde a logística empresarial é abordada mais explicitamente.
FOWLER (1997) apresenta uma visão de como atualmente a indústria da construção civil no Reino Unido esta sob uma grande pressão para realizar melhorias radicais na produtividade e desempenho de custos sem reduzir a qualidade de seus produtos finais. Em sua análise, entre as soluções para remover barreiras para a obtenção desta eficiência, o autor aponta a deficiente logística interna de canteiro, e enfatiza a necessidade de um maior foco na melhoria de eficiência das operações no canteiro.
SMOOK, MELLES e WELLING (1996) apresentaram um estudo realizado na Holanda, onde discutem a importância da cadeia de abastecimento na construção civil como um ponto importante para difusão da lean construction.
GARNETT, JONES e MURRAY (1998) consideram que “como um resultado da recente iniciativa do governo, no Reino Unido, empresários e pesquisadores têm considerado o desenvolvimento da lean construction, de um ponto de vista estratégico. Isto tem resultado num reconhecimento de um sistema empresarial para a construção que incorpora itens de longo prazo como parcerias na cadeia de fornecedores, no desenvolvimento de produtos, componentes de produção e implementação de projetos. O pensamento é que a reorganização da empresa em torno dessas competências, com a visão da lean construction, será possível maximizar as melhorias em termos de qualidade e mecanismos de entrega dos produtos”.
TOMMELEIN e YI LI (1999) apresentaram estudo abordando a cadeia de abastecimento (Supply Chain) no contexto de um sistema de produção JIT para a cons trução civil. Utilizam a cadeia de abastecimento do concreto (material) como exemplo e enfatizam a necessidade de uma estratégia logística para garantir que os objetivos conceituais propostos pelo JIT sejam alcançados.
Em um segundo artigo, TOMMELEIN e WEISSENBERGER (1999) apresentaram estudo abordando a cadeia de abastecimento (Supply Chain) no contexto de um sistema de produção JIT para o setor industrial e para o setor de edificações. O estudo aborda em uma investigação preliminar a adoção de folgas (buffers) na cadeia de abastecimento do aço estrutural e no processo construtivo. São discutidas a estratégia de adoção dessas folgas, suas dificuldades, restrições e limitações visando obter maiores benefícios com as práticas propostas pelo JIT.
SALAGNAC e YACINE (1999), consideram que “alguns fatores são prováveis empecilhos para uma profunda mudança na indústria da construção na França e outros países da Europa. A construção civil se conserva tradicional, independente de um significante fluxo de inovações relativas tanto aos produtos como a execução no canteiro de obras. Baseados em extenso estudo realizado durante 05 anos em empresas francesas, com ênfase na logística de canteiros de obras, os autores apontam a logística como um passo importante em direção a
lean construction, porque a análise logística revela claramente onde estão as limitações para
as melhorias necessárias”.
Para SILVA e CARDOSO (1999a) e (1999b), os conceitos de gerenciamento logístico possuem um grande valor para muitos setores empresariais que buscam melhorias de produtividade e competitividade através da redução de custos e satisfação de seus clientes. Com este propósito esses setores estão tentando promover uma melhor integração entre os atores internos e externos que dão suporte às atividades logísticas. Os autores reportam-se a um estudo realizado em 03 empresas na cidade de São Paulo (SP), onde investigaram como os conceitos logísticos estão sendo aplicados nas empresas do setor de construção civil. Como conclusão, são apresentadas orientações para a promoção de melhorias na eficiência logística e eficácia nos processos de produção.
VRIJHOEF e KOSKELA (1999) enfatizam que “o gerenciamento da cadeia de abastecimento (Supply Chain Management - SCM) é um conceito que floresceu nas empresas de manufatura, originado da produção Just-in-time (JIT) e da logística. Hoje, SCM representa um conceito gerencial independente, embora esteja nos domínios da logística empresarial. SCM busca a compreensão do escopo total da cadeia de abastecimento. SCM oferece uma metodologia que realça a miopia do controle na cadeia de abastecimento que tem gerado perdas e problemas. As características da cadeia de abastecimento na construção civil reforçam os problemas existentes e que podem retardar a aplicação do SCM na construção. A
metodologia oferecida pelo SCM contribui para melhor entendimento e solução dos problemas básicos na cadeia de abastecimento na construção, e oferece direções para seu desenvolvimento. É claro que as soluções oferecidas dependerão das características locais”.
HORMAN, KENLEY e JENNINGS (1997) na análise da atuação de uma grande empresa de construção na Austrália, que atua no mercado desde os anos 1930´s, fazem referencia a atual preocupação desta empresa com sua cadeia de abastecimento (Supply Chain), onde mostram a necessidade da empresa receber um melhor nível de serviço logístico para que a empresa garanta seus objetivos competitivos.
O´BRIEN (1995) apresentou um estudo de caso realizado em empresas norueguesas, enfocando aspectos ligados à produção, inventários e custo de transporte e desempenho na cadeia de abastecimento na construção civil. Aspectos de trade-offs (trocas compensatórias) entre essas variáveis são apresentados e suas principais contribuições são:
a) Os trade-offs entre transporte, inventários e custos de produção são claramente demonstrados, mostrado a necessidade da aplicação desse modelo integrado.
b) Os trade-offs Identificam a influencia da incerteza no momento de escolha, no desempenho e custos da cadeia de abastecimento e desenvolve algumas medidas para analisar a natureza e extensão dessas incertezas.
c) A análise da estrutura da empresa em conjunto com a tipologia dos fornecedores, provê a base para análise de custos de inventários, transporte e produção a partir de uma perspectiva sistêmica.
VILLAGARCIA e CARDOSO (1999) identificam e discutem os principais fatores na cadeia de suprimentos, que as empresas precisam ter consciência, para facilitar a implementação da lean construction. Apresentam como fatores chaves para promover melhorias na cadeia de suprimentos da empresa: projetos racionalizados (lean design), confiabilidade, coordenação e desenvolvimento de fornecedores. Os autores ainda consideram que “apesar da indústria da construção no Brasil ainda gerenciar suas construções de forma tradicional e que grande parte do potencial destes fatores ainda não terem sido explorados, há evidencias de que as praticas atuais de gerenciamento começam ser questionadas”.
HONG-MINH, BARKER e NAIM (1999) fazem referências a um grande projeto promovido pelo governo do Reino Unido denominado “Inovações na padronização de
componentes de sistemas habitacionais (COMPOSE)”. Este projeto buscou identificar nos componentes básicos dos sistemas construtivos, os meios para oferecer melhores opções de escolha para os clientes, bem como, otimização da cadeia de suprimentos. Os autores apontam 03 grandes direções: a primeira é na criação de melhores parcerias comerciais; a segunda é oferecer ao cliente produtos com maior valor agregado e a terceira é a conscientização de todos da necessidade de troca de informações e experiências e melhor uso de tecnologias de informações.
TAYLOR e BJORNSSON (1999) investigaram um novo modelo de relação comercial proporcionado pela internet, na cadeia de suprimentos da industria da construção civil. Os autores perceberam que através da integração global de informações melhorou a eficiência na fabricação e distribuição de materiais, reduzindo os custos tanto para os fabricantes como para as empresas de construção, como também para a própria relação comercial.
HOLZERMER, TOMMELEIN e LIN (2000), apresentaram um estudo de caso onde conceitos de logística são aplicados no gerenciamento do fluxo material e no fluxo de informações, entre o pessoal da fábrica e os instaladores de campo, em sistemas de aquecimento, ventilação e ar condicionado, na construção civil.
CHILDERHOUSE, HONG-MINH e NAIM (2000) apresentaram um estudo de como a abordagem da Supply Chain Management pode ser implantada na industria da construção civil no reino Unido (UK). Os autores propõem quatro alternativas de estratégias para a cadeia de suprimentos que podem ser implementadas conforme diferentes mercados: imóveis prontos, imóveis em construção, imóveis com componentes pré- fabricados e imóveis com projetos personalizados. As abordagens da construção enxuta e da pronta entrega são reunidas em uma abordagem holística que os autores denominaram abordagem LEAGILITY.
CRUTCHER et alli (2001) relatam um estudo de caso na cadeia de suprimentos na construção civil, no fornecimento de materiais elétricos, envolvendo uma parceria estratégica entre empresas da cadeia (Fornecedor – Distribuidor – Cliente). Entre os benefícios alcançados estão: Redução de atividades que não agregavam valor na cadeia, redução de estoques, entregas JIT, redução dos custos fixos e redução dos custos totais. O ciclo do pedido, para o cliente, que era de 90 dias passou para 63 dias. A economia para o cliente, após a implantação da parceria foi estimada em $3,800,000, somente em atividades que eram realizadas de forma redundante.
JOBIM E JOBIM (2001) realizam um diagnostico, envolvendo 16 estados brasileiros, sobre os principais problemas existentes na cadeia de suprimentos das empresas de construção civil, setor de edificações. O objetivo do trabalho foi, a partir do diagnóstico, fornecer subsídios para a busca de soluções conjuntas e para a integração das várias cadeias de suprimentos. Os materiais e componentes pesquisados fazem parte da cesta básica do Programa Brasileiro de Qua lidade e Produtividade na Habitação – PBQPH. Uma das constatações do estudo é que um dos principais problemas encontrados nos vários estados não estava relacionado à qualidade do produto e sim ao baixo nível de serviço oferecido pelas empresas fornecedoras aos seus clientes.
O estudo acima citado reforça a necessidade do gerenciamento com enfoque logístico, visto que o objetivo de um sistema logístico é a busca do melhor nível de serviço com os menores custos totais. Neste caso, a busca do gerenciamento da cadeia de suprimentos (SCM), buscaria soluções integradas que agregasse valor para todos os elos da cadeia de suprimentos e principalmente agregasse valor ao cliente final.
TANSKANEN, WEGELIUS, e NYMAN (1997) abordam o tema sobre novas ferramentas para a lean construction e apontam o uso do custeio baseado em atividades (ABC) na identificação e análise de todas as atividades envolvidas no negócio da empresa. Neste artigo os autores fazem as seguintes considerações:
a) “O primeiro passo é identificar todas as atividades e depois fazer a análise de quais atividades agregam e não agregam valor.
b) O custeio ABC auxilia a empresa a focar naquelas atividades que mais consomem recursos e o potencial de redução dos custos dessas atividades.
c) A análise da precisão e tempo de entrega tem sido desenvolvida para revelar atrasos no fluxo material e de informações;
d) A precisão de escritórios de projetos, contratantes, contratados e fornecedores de materiais podem ser reveladas através desta análise.
e) O objetivo da análise da precisão e tempo de entrega é clarear a estrutura do tempo de entrega e encontrar oportunidades para encurtá- lo.
f) Uma oportunidade de eliminar perdas de tempo é no estudo das esperas, entre atividades, na cadeia logística de suprimentos”.
KIM e BALLARD (2001) apresentam um exemplo de aplicação do custeio baseado em atividades (ABC) na construção civil, explorando a relação entre o ABC e a construção enxuta. O estudo mostra o potencial do ABC em relação ao custeio por custo padrão e que o controle de projetos baseados na construção enxuta podem incorporar o controle de custos proposto pelo sistema ABC.
Em MARCHESAN (2001) e em MARCHESAN e FORMOSO (2001) é apresentado um modelo de gestão de custos e controle da produção para obras civis baseado nos novos paradigmas da administração da produção e nos princípios do custeio ABC. O modelo busca a geração de informações úteis à gestão de processos produtivos, bem como a integração do sistema proposto ao processo de planejamento e controle da produção (PCP). Entre as principais conclusões do trabalho podem ser citadas:
§ Conferiu maior transparência aos processos de produção
§ Facilitam as identificações de ineficiências
§ Motivam ações gerenciais
§ Permitem a avaliação das ações implementadas.
§ As informações mostraram-se particularmente úteis à gestão dos fluxos físicos da produção (materiais, mão-de-obra e equipamentos).