4. O PENSAMENTO NAVAL NAS PÁGINAS DA REVISTA
4.1.5 A MB e uma Política Nacional para a Defesa
Neste tópico serão comentados alguns pontos concernentes à importância do desenvolvimento do Poder Militar e do Poder Naval para o Estado brasileiro, além de outras reflexões que envolvem a defesa nacional, presentes nos artigos pesquisados.
Os primeiros textos aqui trazidos se voltam para a questão amazônica. Para Nunes (1973), “temos de nos fazer presentes na Amazônia, procurando a fixação nesta área e ali valorizar o homem pela atenção devida aos núcleos populacionais, localizados nas fronteiras fluviais e vias de penetração” (NUNES, 1973, p. 27). Nesse sentido, Castro (1975) via aquela região ingressar “na pauta das nossas preocupações maiores e
129 João Baptista de Oliveira Figueiredo (1918-1999), Presidente do Brasil entre 1979-1985.
130 Alte Esq Henrique Sabóia (1925-2005), Diretor da Escola de Guerra Naval entre 1977-1980 e Ministro da Marinha entre 1985-1990.
de nossas realizações transamazônicas131” (CASTRO, 1975, pp. 53-55). Nos anos seguintes, pouco voltou a revista ao trato desse tema.
Na sequência, iniciando a discussão sobre o dimensionamento do Poder Militar e do Poder Naval brasileiros, Vidigal (1980b) alerta que é falso o raciocínio de que, em face de um suposto baixo nível de ameaça externa à segurança das nações em desenvolvimento, se pode adiar para um futuro mais ou menos remoto o desenvolvimento do Poder Militar desses Estados, de forma a facilitar o crescimento dos demais campos de seu Poder Nacional. Aquele almirante defende que, mesmo que se parta da premissa do não envolvimento do Brasil em quaisquer espécies de conflitos nas próximas décadas – o que seria extremamente temerário – ainda assim seria indispensável que o país dispusesse de um Poder Militar consentâneo com os demais campos de seu Poder Nacional. Assim, para aquele autor, um desenvolvimento acentuado nas demais expressões do Poder, que viesse em detrimento do setor militar, geraria desequilíbrio e, a partir de um determinado nível, coibiria o crescimento do país e estreitaria seu campo de possibilidades de atuação política, com consequências negativas que se fariam sentir também no setor econômico. Nesse sentido, “percebe-se que há uma tendência inequívoca – principalmente em países que não se sentem ameaçados, como é o caso do Brasil – para considerar irracional qualquer emprego da força”. Aquele almirante nota que conceitos dessa natureza podem ser bastante perigosos para quem os aceitar, uma vez que se tira do Estado, em grau elevado, a capacidade de influir sobre os demais e, também, torna-o vítima potencial de outros Estados que não venham a observar a mesma conduta (VIDIGAL, 1980b, pp. 63-67, 75).
131 A Transamazônica, ou Rodovia Transamazônica (BR-230), foi construída no decorrer do governo do General Emílio Garrastazu Médici, entre os anos de 1969 e 1974. Para o desenvolvimento da obra, o governo conduziu para a região aproximadamente quatro mil homens (entre 1970 e 1973), isso com o intuito de abrir estradas e estabelecer a comunicação entre as cidades. A rodovia tornou-se a terceira maior do país, com quatro mil quilômetros, percorrendo os estados da Paraíba, Piauí, Maranhão, Pará e Amazonas. A Transamazônica corta o Brasil no sentido Leste-Oeste, por isso é considerada uma rodovia transversal, no entanto, em grande parte, não é pavimentada. Os extremos da rodovia são respectivamente em Cabedelo (Paraíba) e Lábrea (Amazonas). O objetivo de se construir uma rodovia dessa proporção era para interligar as regiões, especialmente a região Norte, com o restante do Brasil, e povoar aquela área tão desabitada. A inauguração aconteceu no dia 30 de agosto de 1972, a intenção original era que a rodovia fosse pavimentada, ligando a região Nordeste e Norte, além do Peru e o Equador, somando oito mil quilômetros. Como a rodovia Transamazônica não é pavimentada, fica intransitável entre outubro e março, período que determina a época chuvosa na região. Sua construção provocou diversos questionamentos, entre eles o desmatamento que ocorre nas áreas próximas (FREITAS, 2018).
Reforçando o conceito exposto por Vidigal, Flores (1985) – já no pós-Guerra das Falklands/Malvinas, defende que
no mundo de interesses competitivos em que o direito internacional não dispõe de apoio em uma autoridade comum coercitiva, o exercício do Poder Nacional pelos Estados, em proveito de seus interesses, é um ato de rotina em que as preocupações éticas não costumam gozar de precedência, sobretudo quando estão em jogo interesses considerados vitais. A lei ideal (que não responde ao poder nem é por ele amparada) e o próprio poder são aspectos conflitantes da sociedade internacional. Assim, é improvável que, no horizonte histórico previsível, possa haver uma suave harmonização de uma e outra num produto final de elevado conteúdo ético, válido para quaisquer circunstâncias (FLORES, 1985, p. 27).
Fica evidente, nas proposições dos dois Almirantes, a influência dos conceitos realistas de anarquia internacional e self-help, comentados no Capítulo 2.
Flores (1988b) retorna para alertar que faltava ao Brasil uma política de defesa (que conteria uma parcela marítima-naval) formulada com assessoramento e influência militar, e alinhada com a percepção nacional de segurança do país, cujas diretrizes balizariam o preparo militar-naval. Ou seja, “falta-nos a macro-inspiração do que deva ser o Poder Militar em geral e a Marinha do Brasil, em particular”. Mais ainda, segundo aquele oficial, era preciso identificar os cenários de segurança presumíveis como prioritários para os próximos decênios e que papel e objetivos caberiam à ação militar-naval em tais cenários. Ademais, a ausência dessa orientação básica contribuía para gerar a fragilidade do compromisso político, administrativo e público com o preparo militar, além da desarmonia entre as FA, que disputavam por espaço, prioridades e recursos. “Resulta disso tudo uma associação deficiente entre as estratégias das três Forças Armadas, com reflexos sobre o nível operativo, bem como uma falta de clareza sobre o relacionamento entre o preparo militar, a política externa brasileira e a ordem interna”. Da mesma forma, continua Flores, ocorre com o relacionamento entre o preparo do Poder Militar e o desenvolvimento industrial, científico-tecnológico e dos transportes (que se mostrava um pouco melhor estruturado no setor aeronáutico). Mais ainda, a solução do problema da falta de orientação nacional era dificultada pelo alheamento civil pelos assuntos militares e pela autonomia corporativa militar nesses assuntos – motivada, entre outros, pela ausência de uma ameaça externa bem definida, desde o término das questões da Bacia do Prata, e pelo relacionamento civil-militar viciado por questões internas havia mais de 100 anos. Ou seja, “é preciso evoluir desta
situação, sem o que não será viável estabelecer e praticar uma política de defesa bem entendida e apoiada pela nação” (FLORES, 1988b, pp. 15-16).
Luz (1990), volta a um dos pontos abordados por Vidigal, o da decisão sobre o quanto investir em defesa, no Brasil, em meio à necessidade do desenvolvimento econômico-social. Defende aquele oficial que as diferenças de níveis de força entre os povos passaram a ser mais marcantes após o advento da revolução industrial, que reforçou a necessidade de que os Estados desenvolvessem meios cada vez mais sofisticados para garantir a sua segurança. Para Luz, em termos gerais, constata-se que, quanto mais desenvolvida for uma nação, maior será a sua demanda por investimentos em defesa; e, por outro lado, tanto maior será a sua segurança, quanto maior for o seu estágio de desenvolvimento, tornando disponíveis tecnologias mais avançadas para utilização pelas FA. Não existiria, portanto, o binômio do "máximo de desenvolvimento com o mínimo de segurança", por vezes invocado para justificar os baixos recursos destinados ao setor de defesa. Nesse sentido, o Poder Militar não dependeria tanto do que as Forças Armadas possuíssem, mas, principalmente, do que o parque industrial nacional fosse capaz de produzir. No Brasil, para aquele autor, é comum assumir-se que as hipóteses de conflito possuem baixa probabilidade de ocorrência. Em um cenário em que grande parcela do povo ainda vivia na pobreza, e onde os riscos de conflito aparentam ser remotos, Luz reconhece as dificuldades de se conseguir investimentos em segurança. “Segurança contra o quê, se a sobrevivência depende mais da obtenção de alimentos do que da destruição do inimigo?” (LUZ, 1990, pp. 85-89).
Assim, após breves reflexões sobre a questão da Amazônia, feitas por Nunes (1973) e Castro (1975), Vidigal (1980b) alerta para o perigo de postergar-se o desenvolvimento do Poder Naval necessário à proteção dos interesses nacionais, por acreditar-se que não há risco iminente à soberania do Estado. Defende ainda que, mesmo que tal postergação se faça em nome de outras prioridades – como o desenvolvimento social –, o consequente desbalanceamento no Poder Nacional limitará a atuação do Estado no Sistema Internacional. No pós-guerra, Flores (1985) reforça a visão realista de Vidigal quanto à necessidade do emprego do Poder Nacional e alerta para a necessidade de uma política de defesa para o Estado (1988b), que incluiria, em
seu escopo, uma política para o preparo e o emprego da Marinha132. Nesse sentido, não se furtou de criticar a falta de envolvimento do poder político nos assuntos de defesa e a exagerada autonomia que as Forças Armadas detinham nas decisões afetas à área. Por fim, Luz (1990) volta à questão dos investimentos em defesa, em meio às demandas sociais de um país em desenvolvimento, demonstrando que, mesmo entre os militares, não há consenso em relação a esse ponto.