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1. INTRODUÇÃO

1.7 Metodologia

Neste item será apresentado o método adotado para a condução da pesquisa, qual seja, o estudo de caso. Além disso, serão feitas algumas considerações sobre outras pesquisas que influenciaram na forma de construção desta dissertação. Cabe destacar que, como orientação metodológica mais ampla, a referência mais importante foi o texto de Umberto Eco, Como se faz uma Tese (1983 [1977]).

1.7.1 – O MÉTODO DE ESTUDO DE CASO

Usando o método de estudo de caso, a elaboração do trabalho envolverá pesquisa exploratória (bibliográfica e documental) e descritiva, a fim de se mapear e esclarecer as relações entre as variáveis levantadas. Como referências para esse método de estudo foram utilizados, principalmente, o Capítulo 2 do livro Guide to Methods for Students of Political Science, de Stephen Van Evera (1997) e o artigo The Case Study:

what it is and what it does, de John Gerring, publicado no The Oxford Handbook of

Political Science (2011). Como breve introdução ao ponto, recorre-se ao Vom Kriege, o clássico maior da arte da guerra.

Assim, sobre a importância do estudo de casos históricos, Clausewitz (1984 [1832])8 defende que seu estudo é de enorme importância para o entendimento da guerra, uma vez que eles “a tudo esclarecem”, além de prover o melhor tipo de comprovação no âmbito das ciências empíricas, o que ele creditava como particularmente verdadeiro para a arte da guerra. Por outro lado, aquele autor alerta sobre a fragilidade de fazer uso de um determinado evento histórico com o fito de extrair dele uma verdade generalizada, ou seja, a formulação de uma doutrina. Para tal, é preciso analisar com detalhes o evento em si e as circunstâncias que o cercam. Na impossibilidade de que esse detalhamento seja realizado, aquele autor defende que é importante que as conclusões maiores sejam baseadas também no estudo de outros casos similares (CLAUSEWITZ, 1984 [1832], pp. 169-172).

Nesse sentido, o primeiro pesquisador a fazer uso do método do estudo de caso com o rigor científico observado hoje foi Frédéric Le Play (1806-1882), sociólogo francês. Gerring (2011) destaca que, passados quase dois séculos, as várias disciplinas das Ciências Humanas e Sociais continuam a produzir um vasto número de estudos dessa natureza, muitos dos quais se tornaram textos clássicos em suas respectivas áreas de conhecimento. Mais ainda, a julgar pelo grande volume de artigos científicos produzidos nos últimos anos, fazendo uso dessa metodologia, pode-se afirmar que o estudo de caso possui papel de destaque em áreas que vão desde a Antropologia até a Sociologia, passando, entre outros, pela Gestão, pela História e pela Ciência Política.

Até mesmo em áreas como a da Economia e da Economia Política – historicamente não muito receptivas às pesquisas baseadas em casos específicos – a produção tem sido significativa. Aquele autor acredita que se experimenta um momento de transição na pesquisa em Ciências Humanas e Sociais, de uma abordagem centrada no estudo das variáveis e suas relações de causalidade, em direção ao estudo centrado em casos específicos (GERRING, 2011, pp. 1134-1137).

Nesse passo, Van Evera (1997) destaca que há duas formas básicas para testar teorias: a experimentação e a observação que, por sua vez, pode ser subdividida

8 Carl Philipp Gottlieb von Clausewitz (1780-1831), general prussiano. É o autor de “Da Guerra” (Vom Kriege), uma das mais respeitadas obras da estratégia militar, publicada postumamente, em 1832.

Tomou parte da derrota prussiana de 1806, perante a França de Napoleão; nas reformas que se seguiram, no exército de seu país; e nas campanhas que levaram ao fim do império francês, em 1815 (BRITANNICA, 2019).

na análise large-n e no estudo de caso. Aquele autor defende que muitos cientistas sociais consideram que o estudo de caso é o mais fraco dentre esses métodos, pela falta de controle sobre o efeito que variáveis omitidas podem causar. Van Evera, por outro lado, discorda, argumentando que é possível controlar o efeito dessas variáveis omitidas selecionando, para o estudo que se quer fazer, casos com valores extremos (altos ou baixos) na variável a ser estudada (study variable). No caso desta dissertação, entende-se que as variáveis – a ocorrência de mudanças no pensamento naval (VD) e as lições aprendidas com a Guerra das Falklands/Malvinas (VI) – atendem a essa recomendação.

Outra crítica ao método do estudo de caso comentada por Van Evera é a de que os seus resultados não podem ser generalizados para outros casos, especialmente quando se tratar de estudos de caso único – como o aqui retratado –, onde seria difícil identificar uma série de condições antecedentes ao evento em si, muitas das quais podem ser únicas, aplicáveis somente ao caso específico que está sendo estudado.

Assim, uma teoria que passe com méritos no teste de um estudo de caso único, talvez requeira raras condições antecedentes, tendo um alcance explanatório de pequena amplitude. Ou seja, segundo aquele autor, a força do estudo de caso é também a sua fraqueza: a uniformidade das condições contextuais do caso controla o efeito de variáveis terceiras, mas também mascara as condições antecedentes. Como esta pesquisa não se propõe a realizar um teste de teoria, atenua-se a fragilidade apresentada.

Mais ainda, cabe destacar que esta pesquisa não se destina a formular uma teoria que busque explicar o desenrolar de outros conflitos, de caráter naval ou não.

Este trabalho, dentro das limitações acima descritas, é focado no estudo específico do caso da Guerra das Falklands/Malvinas. Cabe aqui pontuar as palavras de dois almirantes que, escrevendo sobre o Conflito no Atlântico Sul, abordaram essa questão.

Para Flores (1982) “não se pode aceitar, precipitadamente, ensinamentos gerais extraídos desse conflito. Esses ensinamentos precisam ser criteriosamente ajustados ao problema estratégico que cada Estado venha a enfrentar” (FLORES, 1982, p. 68). Já Vidigal (1984) defende que “qualquer conflito tem características próprias que o tornam, em certo sentido, único”, sendo “fundamental que se tenha cautela para não generalizar o que não deve sê-lo” (VIDIGAL, 1984, p. 3).

1.7.2 – A INFLUÊNCIA METODOLÓGICA DE PESQUISAS ANTERIORES

É importante ressaltar que outros trabalhos orientados pelo Prof. Dr. Vágner Camilo Alves contribuíram para o formato adotado nesta pesquisa. A tese de Márcio Campos, A Guerra das Falklands/Malvinas e suas repercussões no Exército Brasileiro – já citada neste capítulo –, foi o mais importante desses trabalhos. Aquele autor argumenta que a ausência de participação do Exército Brasileiro (EB) em conflito convencional no passado recente levou-o a buscar alternativas para aprendizado e evolução doutrinária. Numa linha de pesquisa de comportamento organizacional, o trabalho busca verificar até que ponto o EB implementou mudanças organizacionais e/ou doutrinárias, decorrentes do estudo da Guerra das Falklands/Malvinas. Para tanto, Campos estudou as mudanças ocorridas naquela instituição no decorrer do século XX, a sua cultura organizacional e os ensinamentos observados no conflito, buscando identificar as mudanças relacionadas ao aprendizado decorrente, bem como as causas do seu eventual não aproveitamento (CAMPOS, 2011).

Na sequência, em sua dissertação sobre a reflexão dos militares brasileiros acerca da blitzkrieg, defendida em 2014 no Programa de Pós-Graduação em Estudos Estratégicos da Defesa e da Segurança (PPGEST), da UFF (PPGEST/UFF), João Rafael Gualberto de Souza Morais utilizou como principal referência a revista “A Defesa Nacional”, inspirando o modelo adotado neste trabalho. O enfoque do trabalho de Morais é dirigido ao impacto das vitoriosas doutrinas alemãs – aplicadas nos primeiros anos da Segunda Guerra Mundial (2ªGM) – no pensamento militar brasileiro que, principalmente após a queda da França, em 1940, levantaram questão sobre a validade da doutrina militar francesa, emulada por duas décadas através da Missão Militar Francesa de Instrução. O trabalho parte da discussão anterior à guerra de 1939-1945 sobre o emprego das inovações militares surgidas no decorrer da Primeira Guerra Mundial (1ªGM), notadamente a motomecanização e o poder aéreo, para então, analisar os impactos dos métodos alemães na publicação militar brasileira (MORAIS, 2014).

Contribuiu também como referência a dissertação de João Marcos Macedo Louro, “O Cavalo ou o Motor”: análise do processo de motomecanização no Exército Brasileiro (1921-1942), defendida em 2011, também no PPGEST/UFF, tendo o autor utilizado como fonte importante de pesquisa a mesma revista anteriormente citada (LOURO, 2011). O trabalho do autor busca explicar as transformações ocorridas no EB por conta de seu processo de motomecanização, empregando como base teórica a

respeito das transformações doutrinárias, o modelo intra-forças (ROSEN, 1991) e o modelo cultural (FARREL e TERRIFF, 2002). A análise desses dois modelos utilizados por Louro contribuiu para as reflexões contidas nesta pesquisa, em especial, para o entendimento sobre a evolução do pensamento naval entre os oficiais da MB.