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4. O PENSAMENTO NAVAL NAS PÁGINAS DA REVISTA

4.1.9 Pensando o futuro do Poder Naval Brasileiro

4.1.9.2 Um Poder Naval adequado ao cumprimento das Tarefas da MB

Nesse item, apresentam-se as reflexões que os oficiais da Marinha apresentaram sobre qual seria a composição de forças mais adequada para que a MB fosse capaz de cumprir as suas tarefas básicas150, bem como o entendimento desses

150 A Doutrina Militar Naval prevê que, para o cumprimento de sua missão, a Marinha deverá estar capacitada a realizar as quatro tarefas básicas do Poder Naval: negar o uso do mar ao inimigo;

controlar áreas marítimas; projetar poder sobre terra; e contribuir para a dissuasão. Reforça-se que, desde o tempo de paz, o objetivo prioritário da estratégia de segurança marítima é contribuir para a dissuasão contra qualquer concentração de forças hostis nas águas interiores e espaços marítimos, sob a jurisdição brasileira (BRASIL, 2017, cap. 1, pp. 4-6).

autores sobre a própria natureza das tarefas. Dessa forma, as reflexões aqui apresentadas dialogam especialmente com aquelas que trataram da importância do Poder Marítimo e do Poder Naval para o Brasil, expostas anteriormente.

Assim, segundo Pinto (1972) as decisões do governo brasileiro, à época, relativas à soberania nacional sobre a plataforma continental, e a ampliação do mar territorial para 200 milhas, aumentaram significativamente a importância e a responsabilidade da Marinha151. Assim, “a presença naval brasileira faz-se imprescindível em águas do Atlântico Sul”. Mais ainda, para exercer essa vigilância na costa do país, necessita a Marinha de considerável ampliação em sua Esquadra. “A simples renovação dos nossos navios por outros mais modernos não é uma solução conveniente. Continuará a Marinha carente de uma Força Naval quantitativamente necessária para atender às suas missões” (PINTO, 1972, p. 23).

Nesse passo, Nunes (1973) defende que a estratégia naval a nortear o planejamento da MB deveria levar em conta, entre outros fatores, a crescente responsabilidade da força no Atlântico – com o aumento da Marinha Mercante –, a ampliação das rotas marítimas e a extensão do mar territorial brasileiro. Em 1963, a Marinha Mercante brasileira totalizava um milhão e quinhentas mil toneladas brutas, atingindo, em 1973, a marca dos cinco milhões de toneladas, com reflexos operativos importantes: significativa extensão e diversificação das rotas marítimas; e aumento da tonelagem brasileira e aliada transitando nas LCM essenciais à economia desses países, inclusive no caso de uma eventual guerra. Assim, para aquele almirante, a extensão do MT significa, mesmo em tempo de paz, maior esforço e responsabilidade no serviço de patrulha para atender aos interesses nacionais, inclusive a afirmação da soberania brasileira naquela área (NUNES, 1973, p. 26).

Cabe aqui um parêntese sobre a questão das bases de apoio, apresentado por Flores (1975). Aquele oficial defende que se deve “buscar a otimização do produto Poder Naval = Forças Navais x Bases de Apoio152, não deixando que o apoio fique aquém dos meios a apoiar153, mas não permitindo também que seu desenvolvimento

151 Em referência à discussão corrente à época sobre o direito do mar, que culminou com a ratificação, em 1982, pela CNUDM, do mar territorial de 12 milhas náuticas. Antes da assinatura da convenção, o Brasil chegou a assumir, para si, um MT de 200 milhas de extensão.

152 A fórmula apresentada por Flores pretende enfatizar os dois fatores assinalados, omitindo a influência de outros menos concretos, como o preparo e a motivação do homem e a qualidade da liderança (FLORES, 1975, p. 11).

153 No período entre as 1º e 2º Guerras Mundiais assumia-se que um determinado Poder Naval perdia 10% de seu valor, para cada mil milhas de distância entre sua área de aplicação e suas bases de apoio.

gere dificuldades desnecessárias para a renovação dos meios de combate”. Quanto maiores e melhor balanceadas forem as forças e melhor posicionadas e preparadas forem as bases154, tanto maior será o Poder Naval (FLORES, 1975, pp. 20-21).

Na sequência, Olivé (1975) sugere os tipos de Forças Navais necessárias para a consecução das tarefas da Marinha (bem como os meios oceânicos, vetorados a partir das bases navais brasileiras ou de estações navais de apoio próximas às áreas onde fosse preciso operar): uma força de projeção de poder sobre terra; uma força de controle de área marítima (para a manutenção da liberdade das comunicações marítimas e proteção de áreas focais e de terminais marítimos); uma força de contenção; e uma força de presença. Para a primeira, seria necessário empregar um NAe com aeronaves de ataque e interceptadores, além de armá-lo com MSS e MSA. Esse navio operaria em conjunto com fragatas – também dotadas de MSS e MSA –, além de contratorpedeiros A/A e A/S, bem como navios-transporte de tropas e NDCC, capazes de operar também com helicópteros, sendo que navios de apoio logístico móvel e varredores também deveriam ser incorporados. Para aquele oficial, a fim de garantir a adequada prontidão para essa força, um novo NAe deveria ser adquirido na primeira oportunidade, mantendo no serviço ativo dois desses navios (OLIVÉ, 1975, p. 164).

Para a força de controle de área marítima, Olivé argumenta que seria preciso adquirir, ou construir, dois navios com capacidade de operar com helicópteros A/S e aeronaves V/STOL; além de navios armados de MSA e aeronaves armadas de MAA, a fim de fazer frente à crescente ameaça aérea de longo alcance baseada em terra. Esses meios poderiam ainda atuar como navios de comando e controle e operariam em conjunto com navios-escolta similares aos da força de projeção de poder, além de submarinos A/S. Para a força de contenção, seria necessária a aquisição de meios aéreos e de submarinos capazes de efetuar o lançamento de minas, além do emprego de meios

Assim, nas conferências de desarmamento de 1922 e 1930, essa ideia permitiu que os japoneses aceitassem a proporção 5/5/3 para as Forças Navais dos EUA, Reino Unido e Japão, já que a cláusula complementar que cerceava o desenvolvimento de bases no Pacífico Ocidental conferia ao Japão uma condição favorável naquele teatro, que lhe era vital. A evolução da tecnologia e dos procedimentos logísticos têm alterado a influência da distância, ampliando-a em certos casos e reduzindo-a em outros, mas nunca eliminando-a inteiramente (FLORES, 1975, p. 13).

154 Como exemplo, na PGM, a excelente força de superfície da esquadra alemã constituiu uma séria ameaça para o Reino Unido, “cuja dependência do transporte marítimo tornava inaceitável qualquer contestação sensível do domínio do mar, nas rotas fundamentais do Império”. Por outro lado, os alemães não dispunham de bases com acesso fácil para o Atlântico, e a esquadra britânica, muito bem posicionada na Escócia e nas Ilhas Órcades, exercia sobre eles um eficiente bloqueio à distância, que cerceava sua liberdade de ação até mesmo no Mar do Norte. Em consequência, “sua contribuição para o resultado final da guerra foi praticamente nula” (FLORES, 1975, p. 12).

aéreos baseados em terra, para a neutralização do poder aéreo inimigo. A força de submarinos deveria ser empregada na guerra de corso contra o tráfego marítimo inimigo, em áreas focais, e para o desgaste do Poder Naval adversário, auxiliada por pequenas unidades velozes, armadas com MSS. Para a força de presença, poderiam ser combinadas partes das duas primeiras forças para, em tempo de paz, afirmar ostensivamente a vontade do Brasil de se fazer presente, onde e quando for necessário ou desejável, apoiando o nível político com o emprego pacífico da diplomacia armada155 (OLIVÉ, 1975, pp. 165-166).

Nesse sentido, embora considerando que o apoio à política externa e o controle das AJB sejam atribuições de suma importância e de execução rotineira, Flores (1980) defende que o aprestamento para a proteção do tráfego marítimo e da fronteira marítima brasileiros deveria ter precedência porque, “além de exigir meios complexos, caros e de obtenção demorada, seria útil, quando não essencial, para o cumprimento das demais atribuições”. Por outro lado, a projeção do poder sobre terra, “que seria válida também no campo da persuasão política, em face da sua adequabilidade para a manutenção da estabilidade e da ordem, poderia vir a ter sua importância ampliada num futuro mais distante” (FLORES, 1980, p. 68). Segundo aquele almirante, as dificuldades que afligiam o Brasil no início da década de 1980 indicavam que o Poder Militar brasileiro continuaria a não receber prioridade por ocasião da distribuição dos recursos nacionais, nos anos seguintes. Para Flores, essa tendência só teria condições de se inverter se

a superação das dificuldades econômicas possibilitasse ampliar os recursos alocados às Forças Armadas, sem prejuízo do atendimento da carga social crescente; ou a ocorrência de uma ameaça externa susceptível de justificar o agravamento das dificuldades econômicas e a contenção de satisfações sociais, em proveito das Forças Armadas”. A Marinha deveria, portanto, planejar-se para um cenário de restrições financeiras que, associado às dúvidas e perplexidades que se tinha no horizonte – além das sempre presentes indagações sobre o cenário da guerra naval do futuro –, exige uma escolha criteriosa entre os objetivos a perseguir (FLORES, 1980, p. 69).

Sobre o controle das LCM, Flores defende que a determinação das necessidades de meios – aviões de patrulha baseados em terra, navios-escolta dotados de helicóptero, de MSS e de MSA de defesa de área, no mínimo um NAe (ainda que de pequeno porte, um NAeL, mas dotado de aviões de interceptação/ataque) e meios de

155 Cabe notar que fica evidente no texto de Olivé – e de outros oficiais referenciados nesta dissertação – a influência do artigo seminal do Almirante Turner (USN), Missions of the U.S. Navy, publicado em 1974 na Naval War College Review (TURNER, 1974).

contramedidas de minagem – deve ser objeto de rigorosa análise que viabilize, em situação de crise, ao menos a proteção do tráfego marítimo vital ao país, admitindo-se que o tráfego restante navegará sem proteção direta ou será, parcial ou totalmente, suspenso. Segundo aquele autor, para a defesa da fronteira marítima, cabe desenvolver certa capacidade de controle de área marítima costeira, alicerçada no emprego da aviação de patrulha e ataque baseada em terra e de embarcações rápidas e armadas com mísseis antinavio, bem como na minagem defensiva de áreas sensíveis e restritas (FLORES, 1980, p. 70).

Em relação ao emprego de submarinos e o desgaste das LCM do inimigo, Flores argumentou que é preciso contar com aquele meio no inventário da Marinha para contrapor-se às eventuais ameaças ao tráfego marítimo de interesse brasileiro e ao litoral do país, mas, nos quadros estratégicos brasileiros presumíveis, é secundária sua validade como instrumento de ataque às LCM adversárias. A partir dessa ótica, defende que os submarinos convencionais reterão sua utilidade ainda por muito tempo, já que as prováveis áreas de operações não se situarão demasiado longe das bases em território nacional. No entanto, à medida que se fizer necessário realizar patrulhas extensas e distantes, ou que o inimigo disponha de submarinos nucleares em número suficiente para operá-los em áreas de interesse imediato para o Brasil, “o uso da propulsão nuclear impor-se-á”. Sobre a tarefa da projeção de poder sobre terra, Flores entende que a ênfase deveria ser atribuída à capacidade de executar operações rápidas, com objetivos transitórios e limitados, exigindo assalto anfíbio de pequena envergadura apenas. Além do aprestamento adequado do pessoal, sua execução requereria meios navais e aeronavais para transportar a tropa, desembarcá-la com rapidez e apoiá-la em terra, bem como para prover apoio móvel a toda a força na área de operações. Com respeito à superioridade aérea local, argumenta que a atuação visualizada pressupõe oposição aérea modesta, susceptível de ser neutralizada pelos navios-escolta e/ou pela dotação de um NAeL, a qual atenderia também à demanda do apoio aerotático (FLORES, 1980, pp.

71-72).

Sob outro prisma, Martins (1980) defende que devem ser mantidas Forças Navais reduzidas, “consentâneas com nossa capacidade econômica”, mas que sejam capazes de atender a todas as áreas da atividade naval. Por um lado, essa Marinha estaria pronta para atuar em ações limitadas que envolvam a segurança nacional. E, por outro, essa configuração permitiria que, “sem solução de continuidade, se mantenham

núcleos preparados para se expandirem no momento, na direção e na extensão que problema internacional mais grave o exija, e uma economia de guerra o permita”

(MARTINS, 1980, pp. 145-146). Desse modo, confiante no caminho de grandeza que trilharia o Brasil, aquele almirante defende que

ao lado das forças de produção que levarão o Brasil a uma posição de realce no mundo, deverão coexistir forças de segurança que as garantam, apoiadas estas no mesmo adiantamento econômico, técnico e científico que criarão as primeiras. E isto não se improvisa. É fruto de uma continuidade firme de ação, sem interregnos de estagnação, nem saltos baseados em especulações imaginosas, porque os interesses em jogo são tão grandes que não admitem a possibilidade de previsões erradas, que tão caro têm custado a nações que no passado as fizeram (MARTINS, 1980, p. 150).

Por outro lado, Vidigal (1981) alerta que o conceito de força balanceada deve ser levado em conta para que se assegure o cumprimento das principais tarefas que cabem à MB, evitando-se o erro comum das marinhas menos desenvolvidas, “de possuírem grande variedade de meios para quase todas as tarefas imagináveis, mas em números insuficientes para o cumprimento efetivo de qualquer uma delas” (VIDIGAL, 1981, p. 112).

Por fim, ao analisar o conflito de 1982, Flores defende que, concernente ao Brasil, os problemas estratégicos no mar que despontam como prioritários e que, desse modo, deveriam nortear o planejamento de forças, são a proteção do tráfego marítimo e a defesa do litoral e instalações costeiras, bom como das Ilhas de Fernando de Noronha e Trindade (FLORES, 1982, p. 69).

4.1.9.3 – A MARINHA E O DESENVOLVIMENTO DA PROPULSÃO NUCLEAR