4. O PENSAMENTO NAVAL NAS PÁGINAS DA REVISTA
4.1.7 A importância do Poder Marítimo e do Poder Naval para o Brasil e o
4.1.8.1 O Poder Naval Brasileiro no pós-2ªGM
Ilustrar-se-á aqui brevemente como evoluiu o Poder Naval brasileiro, a partir da 2ªGM. Vidigal (1980a) nota que, com o fim daquele conflito, veio a modificar-se a natureza da cooperação entre os EUA e o Brasil. Finda a guerra, esmodificar-se último perdeu a condição de aliado privilegiado, importante para o esforço norte-americano, em face de sua posição geográfica e da sua situação como fornecedor de matérias-primas vitais.
Desse modo, a política clássica dos Estados Unidos com relação ao cone sul – manutenção do equilíbrio de poder entre a Argentina, o Brasil e o Chile (ABC) – voltou a orientar a atitude norte-americana com relação a esses países, de forma bastante pragmática, independente da postura que eles haviam assumido durante a guerra. Assim, a Argentina, apesar de sua neutralidade pró-Alemanha, e o Chile, neutro até 1943 – quando a guerra já estava definida –, passaram a receber o mesmo tratamento do Brasil.
Assim, a cessão de cruzadores, contratorpedeiros e submarinos dos EUA, no pós-2ªGM, obedeceu rigorosamente ao conceito de equilíbrio naval no ABC. A constatação desse fato iria levar o Brasil a voltar suas vistas, uma vez mais, para a Europa, em busca de meios para o desenvolvimento de seu Poder Naval (VIDIGAL, 1980a, pp. 42-43).
Em meio a Guerra Fria, os EUA procuraram ajudar os países do cone sul na manutenção e no adestramento de suas Forças Navais, já que elas poderiam ser úteis no caso de um conflito generalizado contra o bloco liderado pela União Soviética. Para Vidigal, o Programa de Ajuda Militar Americana (Military Aid Program, MAP)139 de 1952, fornecendo material excedente da 2ªGM a preços simbólicos, simplificou, para o Brasil, o problema da manutenção dos navios oriundos dos EUA e anestesiou a vontade nacional, ao fornecer incentivos para que se perpetuasse a dependência externa, que foi se tornando cada vez maior. Na verdade, “essa anestesia não se limitou ao terreno do material, mas estendeu-se ao campo intelectual, criando-se uma total subordinação à concepção estratégica norte-americana. O Brasil passou a se identificar como o parceiro automático dos EUA no campo externo” (VIDIGAL, 1980a, p. 44). Nesse sentido, Martins (1980) destaca que, dentro de uma estratégia global de defesa antissubmarino do tráfego marítimo no Atlântico, “imposta pela Guerra Fria, os chamados Grupos de Caça e Destruição – aeronaves e contratorpedeiros nucleados por um navio-aeródromo – eram considerados, na década de 1960, a mais efetiva das armas” (MARTINS, 1980, p. 159).
Mais ainda, Vidigal observa que o recebimento de navios norte-americanos pelo Brasil, acompanhados de larga dotação de sobressalentes para sua manutenção, contribuiu para desestimular a iniciativa brasileira no desenvolvimento desse setor, especialmente em relação aos equipamentos eletrônicos que, à época, eram novidade para o pessoal da força. Assim, durante cerca de vinte anos, parou, quase que por completo, o esforço feito nesse sentido, e foi somente por volta de 1965 que a Marinha voltou a preocupar-se com a nacionalização de seu material. Naquela altura, “tornou-se evidente que os equipamentos de que dispunha a força eram irremediavelmente obsoletos e que não seria mais possível obterem-se peças de reposição, pois a Marinha norte-americana já usava equipamentos de outra geração”. O desenvolvimento tecnológico que ocorreu no setor de eletrônica naquele período contribuiu sobremaneira
139 Acordo assinado em 15 de março de 1952 pelos governos do Brasil e dos Estados Unidos, chefiados, respectivamente, por Getúlio Vargas e Harry Truman, com o objetivo de garantir a defesa do hemisfério Ocidental. Com o título oficial de Acordo de Assistência Militar entre a República dos Estados Unidos do Brasil e os Estados Unidos da América, estabeleceu, entre outros, o fornecimento de material norte-americano para as Forças Armadas brasileiras em troca de minerais estratégicos. Foi denunciado em 11 de março de 1977 pelo governo do presidente Ernesto Geisel, deixando de vigorar um ano depois. O Acordo Militar vigorou sem provocar grandes polêmicas até 1977, quando a administração do presidente Jimmy Carter levantou a questão do respeito aos direitos humanos, o que não foi aceito pelo governo brasileiro, uma vez que foi entendido como uma forma de ingerência nos assuntos internos do Estado (D’ARAÚJO, 2009).
para a obsolescência de tudo que datava da 2ªGM e veio a aprofundar o abismo tecnológico existente entre os países industrialmente avançados e os subdesenvolvidos (VIDIGAL, 1980a, pp. 47-48).
Sobre esse período, meados da década de 1960, Vidigal destaca um ponto em especial, sobre a fabricação de munição, a fim de reforçar a argumentação apresentada anteriormente. Aquele almirante comenta que, por força de seu envolvimento na Guerra do Vietnã, os EUA viram seu estoque de munição cair em demasia e, consequentemente, reduziram o fornecimento desses itens aos países aliados.
Essa restrição impulsionou o desenvolvimento de um programa de fabricação no Brasil, tendo a Missão Naval norte-americana fornecido a orientação técnica necessária para o desenvolvimento da empreitada. Foi assim iniciada a nacionalização da munição para a MB, fator crucial no setor militar, não só por ser um item de alta taxa de consumo – conforme ficou demonstrado no conflito de 1982 – como, também, pelo fato de ser necessária uma elevada reserva, quando esse item não é fabricado localmente. Partindo-se do princípio de que a munição tem uma determinada vida útil – em função da matéria empregada na sua fabricação e de suas condições de armazenagem –, compreende-se como a manutenção de uma elevada reserva pode ser dispendiosa para uma força do porte da MB (VIDIGAL, 1980a, p. 50).
Nesse passo, segundo Flores (1980), após a 2ªGM, encontrava-se consolidada na MB a prioridade aos meios antissubmarino, estando o Brasil estreitamente vinculado à estratégia naval norte-americana para o Atlântico Sul, tendo aquela nação equipado e adestrado a Marinha brasileira, além de orientado o seu emprego. Aquele autor pontua que a Marinha, cerceada na concretização do programa de reaparelhamento da década de 1930 – pelas dificuldades derivadas da crise econômica mundial nos primeiros anos daquela década e pela inércia residual inerente à esquadra que havia sido mobiliada no início do século –, embora já ciente da ameaça submarina, encontrava-se demasiado despreparada em 1942. “O preço desse despreparo foi a tutela e a sujeição à orientação norte-americana, que se estendeu até a década de 1970”. Aquele Almirante entende que, no quadro do confronto entre os blocos ocidental e comunista, era natural que a força de submarinos soviética polarizasse as atenções das Marinhas secundárias do Ocidente, cuja tarefa mais destacada seria a proteção A/S do tráfego marítimo. Essa polarização era estimulada por programas de treinamento e de cessão de unidades de escolta que, embora usadas e mais ou menos obsoletas, ainda
eram úteis, ao menos na defesa das rotas de menor valor estratégico para o bloco ocidental. Assim, a preocupação quase que exclusiva com a proteção do tráfego marítimo explica até mesmo a obtenção dos Cruzadores Barroso e Tamandaré, úteis contra eventuais “corsários de superfície – uma variação do corso mais verossímil nos anos 1950 do que no início da década de 1980 –, dos submarinos de procedência norte-americana destinados ao adestramento antissubmarino e do NAeL Minas Gerais, em versão A/S” (FLORES, 1980, pp. 65-66).
Cabe notar que, segundo Flores, a exceção mais destacada à preocupação preponderante com a guerra antissubmarino foi o desenvolvimento de uma certa capacidade anfíbia, sendo que o apoio dos Estados Unidos a esse desenvolvimento pode ser atribuído mais ao entendimento norte-americano de que “uma força de fuzileiros navais poderia ser útil na preservação da segurança interna brasileira, do que à visualização de seu emprego em uma operação anfíbia clássica”. Em síntese, a orientação estratégica imposta pelos EUA e a consequente transferência de unidades obsoletas, sob os auspícios do MAP, criou, entre outros, os seguintes problemas para a MB: um foco excessivo na guerra antissubmarino, “que deixou a Marinha despreparada para enfrentar outros tipos de problemas”; um atraso tecnológico demasiado grande,
“desacompanhado de um esforço visando à substituição das unidades usadas, por outras produzidas no país”; e uma incidência elevada de unidades atingindo ao mesmo tempo a fase final de sua vida útil (FLORES, 1980, pp. 67-68). Flores (1988) volta à questão do MAP, reafirmando que o foco limitado na guerra antissubmarino teve como consequência o atraso no desenvolvimento naval brasileiro e o despreparo da Marinha para o enfrentamento de outras ameaças (FLORES, 1988, p. 18).
Nesse sentido, Pinto (1982) relembra que o lançamento ao mar do Cruzador Tamandaré – o maior navio de guerra até hoje construído no país –, em 1890, foi o marco final de um período de intensa construção naval no Brasil. A partir daí, foi observado o declínio nessa atividade, com consequências importantes para as possibilidades do Poder Naval brasileiro. De acordo com aquele oficial, tais acontecimentos, ao lado de inúmeros outros fatores condicionantes, “foram o resultado de uma nova mentalidade implantada à época no Brasil, que virou de costas para o mar”. Assim, desde o primeiro programa de renovação dos meios flutuantes da Marinha, datado de 1850, até o último Programa de Reaparelhamento da Marinha (PRM) havido à época em que aquele oficial escrevia – o de 1977/1979 –, todos os
planejamentos morreram prematuramente. Tal fato, por si só, “deveria servir de inspiração e de reflexão para que se assumisse outro rumo que conduza a Marinha ao destino almejado” (PINTO, 1982, pp. 99-100). Flores (1988) contribui ainda para uma melhor compreensão sobre o estado das forças militares brasileiras naquele período – décadas de 1950 e 1960 –, ao afirmar que a falta de harmonia transparecia quando “a Marinha, obcecada com a ideia de uma nova Batalha do Atlântico, se preparava para a guerra antissubmarino, o Exército para a segurança interna e a Força Aérea se dividia entre a integração nacional, a segurança interna e a defesa externa”
(FLORES, 1988, p. 15).
Concluindo, observa-se que, segundo Vidigal (1980a) e Martins (1980), o MAP, no pós-2ªGM, contribuiu para a acomodação da Marinha, que deixou de buscar o desenvolvimento e a construção de meios via o esforço nacional. Mais do que isso, a MB permitiu que essa parceria limitasse a concepção estratégica da força, que assumiu papel de apoiadora inconteste da estratégia naval dos EUA. Como consequência, viu-se uma Marinha, em meados da década de 1960, voltada apenas para a defesa A/S do tráfego marítimo no Atlântico, com inventário ultrapassado e de difícil manutenção (uma vez que a USN já operava navios de outra geração). Flores (1980) ratifica as ideias anteriormente expostas e soma forças nesse resgate histórico ao observar que o despreparo da MB para lidar com a ameaça submarina ao iniciar-se a Segunda Guerra contribuiu para a subordinação às diretrizes norte-americanas. Mais ainda, Pinto (1982) relembra que todos os programas de reaparelhamento conduzidos pela Marinha até então não haviam sido concluídos. Por fim, nas palavras de Flores (1988) se reafirma o engajamento da Marinha daquele período na guerra A/S, bem como se pode notar uma maior orientação da força para as questões profissionais – a guerra propriamente dita – quando comparada ao Exército, mais envolvido com os problemas da segurança interna.
4.1.8.2 – OS PROGRAMAS DE REAPARELHAMENTO DE 1967 E DE 1977/1979