Depos de algumas horas de marcha sob o sol, paramos à sombra de frondosas árvores, à beira de um regato, para preparar o almoço e descansar um pouco.
E, enquanto Salvio dormia calmamente, a luzidia careca exposta ao ar, Quincas e eu mantivemos longa palestra. Quincas, apesar de rústico e sem cultura, possuía espírito lúcido e, habilidosamente, me levou a contar como havíamos resolvido fazer tal viagem.
— Por acaso. A última coisa que eu esperava em minha vida era vir meter-me nestes sertões. Salvio, tampouco, jamais pensou nisso. Ele sabia que existe, no interior do Brasil, qualquer coisa que se prende às antigas civilizações, mas eu nem sequer suspeitava disso. No entanto, é a mim que se deve a realização da viagem, ou melhor, deve-se a um tio meu, chamado Adolfo, que morreu na Venezuela há mais de um ano...
— Já sei. Seu tio deixou documentos e mapas...
— Não. Deixou-me uma arca, e, dentro dela, estava guardado um trabalho em ferro batido, pedaço de grade que não sei onde ele arranjou. Decerto foi lá pelas Guianas. Quando Salvio viu a grade de ferro, ficou como louco.
— Por quê? Que é que havia na grade?
— Para mim não havia senão desenhos de ferro, como os de todas as outras grades. Mas para Salvio havia uma significação de extraordinária importância. Basta dizer que ele passou uma noite inteira, até às nove horas da manhã seguinte, em minha casa, examinando a
grade e fazendo cuidadoso desenho dela. Eu estava até ficando com medo. Quando ele me falava naquelas coisas eu sentia que meu espírito vacilava e que sombras se estendiam sobre os meus sentidos.
Quando entramos no quarto dele, com o desenho no bolso, estávamos naquele estado de espírito que muito se assemelha ao cansaço, e evitámos falar no assunto que nos trazia juntos. Falávamos de coisas diferentes. Eu é que, reatando os raciocínios a que me vinha entregando depois do curso de paleogeografia que Salvio fizera na noite anterior, comecei:
— Pensei muito, Salvio. Estou convencido de que o nosso continente foi o berço da humanidade e da civilização. Realmente, se o homem apareceu neste continente durante o período mioceno — que foi o primeiro da Era Terciária — durante os milhões de anos que decorreram até a Era Quaternária deve ter progredido constantemente. E nessa época pôde emigrar, surgindo em outros pontos do globo e dando origem às aglomerações humanas que mais tarde formariam as sociedades africanas e asiáticas.
É o que tenho dito — apoiou Salvio.
— É evidente. O homem não poderia ter ficado estacionário durante milhares de anos para progredir de um salto mais tarde. Uma coisa, no entanto, não compreendo. Como é que os nossos antepassados americanos regrediram até chegar ao estado em que se encontravam na época do descobrimento?
— Pode ser que depois de ter atingido o auge, a civilização sul-americana tivesse decaído, até ao desaparecimento, enquanto, em outros pontos, florescia a civilização dos atlantes que, por sua vez, decaiu, dando lugar à dos egípcios e à dos maias, aztecas e incas...
— Sim. Pode ser.
— Pode ser, também, que partindo daqui, devido a causas que ignoramos, os homens tenham se passado a outro continente, deixando pequenos grupos inferiores, incapazes de continuar a civilização. E pode ser ainda que grupos saídos desta parte se localizassem em outros pontos deste mesmo continente, sem se preocupar com nenhuma espécie de progresso e, tornados selvagens, voltassem, muitos anos depois, a
atacar os que tinham ficado entregues à sua pacífica tarefa de progresso.
— Sim. Podem-se formar inúmeras hipóteses.
— Quer ver uma coisa? O idioma tupi-guarani deve ter sido perfeito, pois que, apesar de longa decadência que naturalmente o veio mutilando durante séculos, é ainda hoje uma língua falada não apenas por sábios e estudiosos como sucede com o grego e o latim, mas corretamente por muitos milhares, talvez milhões de pessoas no Paraguai, na Bolívia e nas fronteiras do Brasil. Só uma língua com grandes recursos e capacidade de resistência poderia permanecer, como essa, através do tempo, apesar da infiltração dominante das línguas castelhana, portuguesa e inglesa.
— Tem razão. Só um grande povo poderia ter manejado e aperfeiçoado uma língua assim. Mas tenho ainda uma dúvida: por que é que, em todas as regiões onde florescem grandes civilizações, sempre se encontram vestígios e aqui isso não acontece?
— Já falamos disso. Primeiro, podemos imaginar que a civilização que floresceu aqui foi muito anterior às mais antigas de que temos conhecimento na Ásia e na África. Segundo, há engano de sua parte, como também já falamos. Os vestígios abundam por todos os lados, e de tão antigos se confundem com os acidentes naturais. Mas o principal é o seguinte: o nosso povo não tem educação suficiente para se interessar peio assunto e para avaliar qualquer encontro fortuito. Um lavrador que em qualquer canto da Europa encontre um pedaço de louça de forma estranha sabe logo a quem se dirigir, sabe que convém guardá-lo para comunicar o fato a alguma instituição científica. Se for o caso, logo depois se fazem escavações no local. Mas, aqui... ninguém se incomoda com essas ninharias... e nem mesmo com coisas mais importantes.
— A propósito, lembro-me de ter visto, há alguns meses, numa casa da Praça do Patriarca, exposição de peças arquitetônicas, ou coisa parecida, antigas, encontradas numa escavação no interior de São Paulo. Que fim levou aquilo?
esquecido. Entre nós o normal é não fazer caso. Sabe o que é? Sofremos de “doutoria” aguda. Aqui todo mundo é autoridade, todos sabem demais e são superiores. Se algum trabalhador encontrar no campo uma preciosidade arqueológica, em 99 por cento dos casos meterá a enxada e destruirá tudo. Mas, se por espírito curioso resolver conservar o achado, consultará o primeiro “doutor” que encontrar — o delegado, o prefeito ou qualquer outro. Este, por sua vez, sentado sobre a Sabedoria, dará uma olhada, fará um trejeito, e exclamará: “Bobagem! Isso é uma pedra comum. Os efeitos da erosão nas pedras friáveis são caprichosos! Os veios arenosos desagregando-se produzem pedaços assim às vezes com a forma de cachimbo. Puro acaso. Isso é bobagem sem valor.” Ou então, dizem: “Ora... isso é um pedaço de vaso de barro que caiu por aí...” E assim se lavram as sentenças! Suponha que o lugar onde se fez um achado daqueles é rico em peças arqueológicas... estará tudo perdido, porque o “doutor” já explicou que é bobagem!
— E as grandes construções?
— É a mesma coisa. As que se encontram são logo identificadas como “caprichos na natureza”. Além disso, a parte mais interessante do Brasil está ainda coberta de matas, e despovoada. Há banhados intermináveis, matas virgens, serras imensas inexploradas, que podem guardar surpresas. O fato é que não se procedeu a nenhuma exploração sistemática em nossa terra, afora as pesquisas de Peter Lund e Anibal Matos, nas cavernas do Rio das Velhas em Minas Gerais. E devemos salientar que estas únicas deram grandes e proveitosos resultados. O melhor, porém, está por fazer. Não nos esqueçamos de que na Índia os templos dos misteriosos cultos antigos são todos escavados no interior de montanhas. O mesmo se dá na África e em vários pontos do Egito.
— Você quer dizer que aqui na América do Sul...
— É uma simples hipótese, bem entendido. Mas, falando seriamente, acredito que nesses imensos sertões do Brasil deve haver templos dessa espécie, que qualquer dia serão descobertos.
— Por nós?
— Nós descobriremos um, pelo menos. — Como é que o pode afirmar?