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OS SELVAGES LOUROS

No documento ota Editorial (páginas 83-103)

Nossa canoa desceu o rio Santa Cruz rapidamente e foi logo agarrada pela correnteza do Tocantins. O achado daquele frontão nos deixara positivamente esmagados. Mesmo Quincas, que decerto não podia avaliar perfeitamente o que significava aquela placa de oricalco — estava em deplorável estado de nervos, como se tivesse levado uma surra. Nenhum de nós tinha vontade d© falar. Salvio, ao meu lado, estava com o queixo apoiado na mão e o olhar fixo. Os remos moviam-se compassadamente e o seu chapinhar na água era o único som de vida que nos chegava aos ouvidos. Eu contemplava as águas serenas do rio, mas não as via. Via um estranho povo, envolvido em amplas túnicas, calçado de sandálias, movendo-se pela plataforma de rocha, subindo para os assentos de pedra do anfiteatro... As figuras nunca terminavam de subir, e meu espírito rodava em volta da cena como falena em volta da luz, refazendo sempre o mesmo círculo.

Quando, pelo meio-dia, a voz de Quincas ressoou, pareceu-me estranha e longínqua:

— Este é o córrego da Pedra Riscada.

Ninguém lhe respondeu. Quincas apontava um riacho que desembocava no Tocantins. Riacho que, em São Paulo, seria um rio respeitável... Quincas parou a canoa na praia.

— A Pedra Riscada é logo ali — acrescentou.

— Vamos vê-la — murmurou Salvio, erguendo-se lentamente. Amarrado o barco, saltamos e subimos pela margem do regato.

Íamos por ir, como se nada mais tivesse importância, depois daquele achado miraculoso que por si só valeria a viagem.

A Pedra Riscada era uma grande laje, ligeiramente inclinada, e gravada em toda a sua extensão, com desenhos geométricos, círculos e sinais que reproduzimos integralmente para que o leitor possa fazer idéia exata da mesma.

Não fosse Salvio quem é e, certamente, o nosso trabalho estaria perdido daí por diante. Para mim, a inscrição não tinha valor algum. Não se tratava de petróglifos, nem ideogramas, e tampouco de hieróglifos. Eram simplesmente sinais, grande série de círculos de vários tamanhos, dispostos em aparente desordem. Que poderia ser aquilo? Por mim, teria simplesmente seguido a viagem, sem lhes dar importância. Enquanto contemplávamos a laje, Quincas falou:

— O Sr. Leandro esteve um dia inteiro aqui.

— E esteve também onde estivemos ontem? — perguntou Salvio.

— Não, nem eu nunca ouvi falar daquilo. Mas aqui, paramos, e o sr. Leandro ficou muito interessado, fez uma porção de cálculos, e resolveu mudar o rumo da viagem. Quando saímos de Palma, a intenção dele era seguir até Porto Nacional. Mas, depois de estudar esta pedra, ele mudou de idéia. Deixamos a canoa aqui e seguimos por terra.

Durante o silêncio que se seguia, Salvio estudou atentamente a “pedra riscada”. Depois, murmurou, começando a interessar-se:

— Dir-se-ia um rumo indicado por meio de estrelas... mas parece que falta qualquer coisa... Quincas!

— Pronto.

— Que é que o sr. Leandro fez, depois de estudar esta pedra? — Não sei. Ficou muito contente. Depois, resolveu abandonar o Tocantins e ir por terra direito ao Araguaia.

— Sim. Mas eu sinto que isto não está certo. Falta qualquer coisa. Vejo dois sinais que não têm razão de estar ao lado das estrelas... a não ser que tenham significação especial. Não há dúvida de que esses

sinais representam estrelas, e, se não me engano, trata-se do signo de Áries, ou Carneiro. Poderia interpretá-lo como querendo nos aconselhar brandura, teimosia, força de vontade, persistência. Mas, para que são aqueles dois sinais em forma de ferradura, junto àquelas duas estrelas?

— Parecem poltronas — sugeri eu.

Salvio deu-me uma palmada nas costas, já animado.

Eureka! Justamente, Jeremias! Poltronas! Vamos interpretá-los, então, como “assentos”, ou “lugar onde se descansa”...

— E daí?

— Bem... poderíamos imaginar que quando essas duas estrelas passarem por determinado lugar do firmamento, algo se deve fazer...

— Obscuro, Salvio.

— Nada obscuro, Jeremias. Creio que deveríamos saber em que momento essas duas estrelas passam pela casa respectiva, no Zodíaco. Você sabe que o Zodíaco é dividido em 12 casas...

— Não sabia. Mas quando será isso?

— Já direi. Depende de alguns cálculos simples. — Bem. E depois?

— Acredito que, descoberto isso, deveremos esperar a passagem das estrelas pela casa, e, então, seguiremos no rumo indicado.

— Ora! Leandro não esperou nada disso!

— Quem sabe? Poderemos imaginar várias hipóteses: ou ele não se lembrou de interpretar assim estes sinais, e não ligou o Zodíaco a eles; ou fez isto mesmo que eu fiz, e se encontrava exatamente no momento adequado e prosseguiu; ou interpretou tudo corretamente, e, impaciente, partiu sem esperar o momento oportuno. Não se esqueça de que ele não regressou. Não sabemos o que conseguiu, nem se vive ou está morto.

— Você quererá dizer que ele não conseguiu bom êxito por ter desprezado estes sinais?

aventura. Lidamos com conhecimentos que estão fora do nosso controle. Os nossos antepassados dispunham de sabedoria e de forças com as quais nem sonhamos. Para quase todos nós a magia é agora objeto de desprezo, mas nem sempre foi assim. No passado, ela era algo muito importante e exerceu influência decisiva sobre os destinos da humanidade. Na maioria, os sábios do passado longínquo não eram senão magos, e da magia derivaram as ciências modernas, através da Alquimia, da Astrologia... Se houve progresso por parte da ciência, isso se deve exclusivamente à magia dos nossos antepassados. E nem sequer podemos dizer que a magia não era ciência, pois que desconhecemos tudo a seu respeito, e sabemos somente o que a lenda nos transmitiu.

Eu tinha que me curvar. Salvio entendia dessas coisas e eu não entendia. O melhor era deixá-lo fazer.

Acampamos ao lado da Pedra Riscada, onde armamos a grande tenda. Enquanto Salvio se engolfava nos seus cálculos, eu e Quincas resolvemos bater o mato em volta, caçando. Quando voltamos, com um veado e uma capivara, ao anoitecer, Salvio declarou:

— Teremos que ficar aqui acampados durante doze dias. — Doze dias, Salvio?! É muito!

Salvio pôs-se a explicar a razão da espera. Mas era complicada demais, e desisti de entender. Lembro-me só de que ele achou ainda que estávamos com muita sorte.

— Chegamos aqui na época apropriada, por pura sorte. Se demorássemos mais 15 dias a chegar, teríamos que esperar durante um ano, até que os astros se achassem novamente em conjunção.

— E Leandro, Salvio?

— Talvez ele tenha chegado atrasado, ou adiantado, ou também, no momento exato. Quem sabe?

— Pode ser, ainda, que não tenha interpretado os símbolos, não é?

— Quem sabe, Jeremias! Quanto a nós, para fazermos as coisas bem feitas, devemos sair deste ponto daqui a doze dias.

Portanto, dispusemos tudo para o longo acampamento.

Três dias mais tarde chegaram Tobias e Lalau com as seis mulas. Vinha com eles o estafeta do correio, que haviam encontrado na estrada. É um pobre diabo que caminha duzentos quilômetros a pé e outros duzentos para regressar, conduzindo a correspondência. Ele passou o resto do dia e toda a noite conosco, contando-nos a sua miserável vida. No dia seguinte, bem cedo, partiu. Levava a tiracolo a mala de correspondência ao lado do bornal, onde transporta pedaços de carne seca e farinha — único alimento para um mês de viagem a pé.

Nos dias seguintes caçamos ainda e fizemos uma boa provisão de carne que Tobias preparou no fumeiro. As mulas fartaram-se de comer e descansar.

Passaram-se os doze dias. Os astros cumpriram o seu dever e pela madrugada do décimo terceiro, partimos atravessando para a margem oeste do Tocantins. Ali deixamos a canoa, bem abrigada, e recomeçamos a palmilhar a floresta. Havíamos modificado o plano inicial da viagem, pois Sálvío dizia que devíamos obedecer às indicações da Pedra Riscada. Tínhamos, agora, que marchar mais de seiscentos quilômetros para noroeste, até alcançar o Araguaia cerca da ponta norte da Ilha do Bananal. Nossa intenção era atravessar o Araguaia nesse ponto e penetrar no Estado do Pará, seguindo pela fronteira desse Estado com o de Mato Grosso. Sem Quincas, estaríamos todos perdidos. Quincas era um camarada realmente extraordinário, mateiro até às últimas fibras do seu ser. Conhecia o mato, era inteligente, tinha presença de espírito e nenhum segredo da selva lhe era desconhecido. Seu instinto de orientação, infalível. Quando eu não sabia absolutamente em que direção ficava o morro que acabava de deixar, ele o sabia sempre com exata precisão. Aliás, Salvio se orientava igualmente bem, outro tanto sucedendo com Lalau e Tobias, velhos viajantes daqueles ermos. As mulas caminhavam com segurança, evitando atoleiros e lugares perigosos. Só eu me sentia miseravelmente desorientado naquele inferno verde. Se me deixassem sozinho, daria mil voltas em torno do mesmo ponto. Também, não sei me orientar nem num edifício. Depois de entrar nele, nunca sei de que lado é a frente...

***

Marchávamos, agora, ao encontro da Serra dos Chavantes, por um terreno coberto de luxuriante vegetação. Numerosos pântanos se estendiam à nossa frente, sob a floresta espessa, o que nos obrigava a freqüentes rodeios. Atravessávamos constantemente, a vau, córregos, riachos e lagoas. Encontrávamos, também, largos trechos de terreno descoberto, seco e pedregoso.

Foi no oitavo dia de viagem depois de deixarmos o Tocantins, que nos defrontamos com uma imensa lagoa de leito semeado de ilhotas. Pareceu que nas margens e nas ilhas, alguém estabelecera viveiros de aves de todas as espécies. Víamos, de onde estávamos, milhares de asas agitando-se. Se um ornitologista fizesse parte do nosso grupo, teria a maior emoção de sua vida, vendo reunidas ao alcance da mão dezenas de espécies de aves diferentes — grandes pernaltas brancos, juburus pensativos, garças graciosas, pelicanos papudos, siriemas cismarentas, galinholas, patos, e tantas outras! Era um espetáculo maravilhoso! Por longo tempo, ficamos embevecidos na contemplação daquele viveiro natural no seio da mata. Despertou-nos um súbito bater de asas à nossa direita. Um bando de aves levantou vôo com gritos estridentes. Pouco depois, milhares de aves subiam aos ares, batendo as asas, gritando, grasnando, voando em círculos sobre a lagoa.

— Índios! — murmurou Quincas.

Estremeci. Salvio volveu para mim os olhos inquietos. Quincas, Lalau e Tobias apertaram as coronhas das espingardas que haviam retirado dos fardos, e firmaram-se melhor nas selas.

— Não elevemos atirar — disse Quincas. — Não devemos atirar em hipótese alguma, a não ser que sejamos atacados violentamente. Se formos prudentes, não haverá perigo.

E, desmontando, Quincas encaminhou-se resolutamente para o ponto de onde havia levantado vôo o primeiro grupo de aves. Seguimo-lo, depois de prender as mulas em árvores próximas. Antes que alcançássemos o grupo de palmeiras onde ele se internara, Quincas reapareceu, seguido de perto por três estranhas personagens. Duas vinham armadas de arco e flecha, e a terceira arrastava respeitável

massa de madeira que, como vimos depois, trazia encaixada na extremidade aguda pedra. Quincas falava com eles e apontava-nos. Os três pararam e fitaram-nos de sobrecenho carregado, soltando monossílabos e sacudindo a cabeça. Eram grotescos esses três selvagens nus, de pele bronzeo-avermelhada. Davam impressão de estupidez e ferocidade, de força bruta, mas não de agilidade e destreza. Pouco depois, formavam, selvagens e exploradores, um só grupo. Eu desconfiava e temia. Quincas, porém, falou:

— Está tudo em ordem. Eles moram na Ilha do Bananal. irão conosco até lá. Em troca, daremos um facão a cada um.

— Não haverá perigo de traição? — perguntei. — Não. Podemos ter confiança.

— Sempre ouvi dizer que esses índios são ferozes.

— São mesmo, quando os enfurecem com ataques inúteis. Aliás, eu, que conheço toda a bugrada desta zona, posso lhes dizer que a maioria dos índios é mansa, cordata o não tem desejo de guerrear com os brancos. Os índios sabem, porém, que não podem confiar nos brancos, porque estes, sempre que os vêem, começam por atirar sobre eles, Mas os índios têm uma espécie de sentido que os avisa do perigo e os põe de sobreaviso quando os visitantes têm más intenções. Podemos confiar nestes. Sabem que não temos intenções malévolas.

— Não é preciso falar mais — disse Salvio — confiamos em você, Quincas.

Realmente, era o melhor que tínhamos a fazer. O acertado era ouvi-lo e obedecer às suas sugestões.

Começava a escurecer. As tendas foram armadas rapidamente, e as redes suspensas, porque o tempo não estava muito firme. Os três índios desapareceram no mato e a noite se passou sem novidade.

Quando rompeu, o sol já nos encontrou a caminho, guiados pelos três selvícolas, que caminhavam a pé na nossa frente, o corpo ligeiramente curvado para diante, passo rápido, cadenciado e leve. As cabeças dos três moviam-se continuamente para um e outro lado, em constante vigilância. Passavam entre os ramos tão habilmente que não

faziam rumor algum e mal moviam os galhos. Esgueiravam-se por entre emaranhados de cipós e arbustos, que nós tínhamos de cortar com facões.

Na vertente da serra dos Chavantes, os três índios foram inestimáveis guias. Sem eles, teríamos que perder muito tempo procurando caminhos praticáveis, evitando banhados. Eles seguiam sem hesitação, por uma trilha que não percebíamos mas que, evidentemente, existia e era clara para seus olhos. Não precisamos atravessar nenhum pântano enquanto os tivemos por guias. Observei que, caminhando, não trocavam palavra. Seguiam em silêncio, um atrás do outro.

Vi um deles flechar uma ave em pleno vôo e ir buscá-la sem titubear no meio da macega espessa. Trouxe-a, depenou-a e ali mesmo fez fogo e assou a ave. Não era hora de almoço, mas os índios não ligam para isso. Comem quando têm oportunidade. A ave foi dividida em três pedaços, cada um apanhou o seu e continuaram a caminhar enquanto arrancavam bocados às dentadas. Soube, depois, que os indígenas comem continuamente, havendo alimento e não estando ocupados em qualquer tarefa que os impeça de o fazer. Também, não havendo alimentos ou estando empenhados em alguma ocupação muito séria, são capazes de passar três ou quatro dias em completo jejum. Aliás, o jejum entre eles é usado e com diversas virtudes. Usam-no para curar quase todas as doenças. Desde que se ache indisposto, o indígena deixa de comer completamente e só bebe água morna, até que se ache inteiramente bom.

Passados dez dias do encontro da lagoa, chegamos ao Araguaia, alguns quilômetros acima da ponta norte da Ilha do Bananal. Quincas calculara a viagem em 20 dias, no mínimo.

Depois de acamparmos, os três meteram-se pelo mato e desapareceram, dizendo que esperássemos. Passada uma hora, reapareceram pilotando uma enorme canoa. Salvio, eu, Lalau e Tobias embarcamos. Quincas iria por terra, com as mulas, para nos encontrar à altura da ponta norte da Ilha.

Descemos o Araguaia, e, nesse mesmo dia, ao entardecer, encostávamos, diante da ilha, onde esperamos por Quincas, que não

demorou muito. Surgiu-nos ainda com o sol de fora. Atravessamos todos, então, para a margem fronteira. Ali, cada um dos índios recebeu a sua faca de mato, o que os deixou exultantes de satisfação. Depois, voltaram à sua canoa. Quincas ainda os convidou para nos guiar até o Xingu, mas eles se recusaram terminantemente. Não iriam por coisa alguma, visto como não estavam em boa harmonia com os tapirapés e caiapós e só se arriscariam a entrar em seus territórios em grandes bandos bem armados.

Novamente sós, na manhã seguinte iniciamos a marcha pelo território paraense, rumo ao vale da fronteira que divide as serras do Roncador e dos Gradaús.

O itinerário era o seguinte: Seguir uma linha paralela à fronteira de Mato Grosso e Pará, até chegar ao Xingu. Descer por este rio seiscentos quilômetros, e, tomando por terra, seguir para oeste até encontrar o rio Iriri, atravessá-lo e, seguindo o mesmo rumo oeste alcançar o rio Curuá — nosso objetivo final, de acordo com as conclusões a que chegara Salvio por meio de seus cálculos mágicos.

Durante os dois primeiros dias atravessamos imenso prado semeado, aqui e ali, de pequenos bosques.

Na madrugada do terceiro dia tivemos o mais angustioso despertar de toda a viagem até então: estávamos cercados de selvagens, e Quincas classificou-os logo como tapirapés. Apresentavam-se também inteiramente nus, mas muito bem armados, como se andassem em tarefa guerreira. Tinham aspecto muito desagradável e exalavam um cheiro característico mais desagradável ainda. Fizeram-nos levantar, juntar à pressa tudo o que tínhamos. Depois, rodearam-nos e obrigaram-nos a caminhar para onde eles queriam. Comecei a duvidar seriamente das teorias pacifistas de Quincas, tanto mais que as nossas seis mulas, ao que parece, haviam sido mortas por eles. Talvez não conhecessem esses animais e os julgassem perigosos, mas, de qualquer modo, tive vontade de fazer barulho por causa disso. Quincas dissuadiu-me:

— Seria loucura, “seu” Jeremias. Eles não sabem o que fizeram. Se reclamarmos, vão pensar que estamos com disposição de guerrear, e enfurecem-se. Enfurecidos, são como animais selvagens. Deixem correr.

Daqui por diante as mulas de pouco nos iriam servir.

Enquanto Quincas tecia estas ponderações, os tapirapés faziam grande algazarra, empurravam-nos para que andássemos mais depressa. Não compreendiam que nós não sabíamos andar pela selva como eles o faziam. Todas as nossas bagagens iam nos ombros de meia dúzia deles, mas acredito que com a intenção de ficar com eles e não para nos livrar do peso. De repente, um deles deu com o tacape no ombro de Salvio. Salvio gritou e cambaleou. Eu saltei sobre o selvagem e acertei-lhe um murro num dos olhos com uma presteza de que não me julgava capaz. Sangrando, o índio que caíra sentado levantou-se e pulou para mim. Esquivei-me e ele bateu com a cabeça num tronco de árvore com tanta infelicidade que pareceu ter perdido os sentidos. No mesmo instante, Quincas pulava sobre mim.

— Você está louco, Jeremias! Está louco! Eles nos matarão! — Deixe-me, Quincas! Esses imundos selvagens...

— Cale-se!

Salvio interveio:

— Quincas tem razão, Jeremias. Fique quieto. Eles não sentem as coisas como nós as sentimos... Precisamos não os atacar, não dar sinal de raiva...

— E deixar que eles nos amassem com os tacapes? Ora, Salvio! Seja como for, os selvagens encararam a coisa de maneira diferente daquela que Quincas esperava. Tangeram-nos novamente para diante, e um deles ficou ao lado do companheiro ferido. Estou absolutamente convencido de que se tornaram mais delicados daí por diante. Penso que o único modo de ensinar cortesia aos selvagens é abrir-lhes as cabeças.

Assim caminhamos o dia todo, sem outro incidente. Já caíra a noite quando chegamos à aldeia, Apesar de estarmos esgotados de cansaço e de fome, mantivemos atitude superior e enérgica.

As cabanas dos índios estavam dispostas pelo terreno sem ordem, aos grupos, sob árvores, em volta do grande terreno limpo de vegetação, mas cheio de detritos de toda espécie: ossos, carcaças meio

apodrecidas, frutos estragados, jacás não terminados, pedaços de troncos e galhos de árvores. No centro do terreiro havia um grande galpão coberto de palha, e fechado parcialmente numa das extremidades. Era a “casa dos homens”, na qual as mulheres não podiam entrar sob pretexto algum.

Quando chegamos, houve grande algazarra. Mulheres e crianças, inteiramente nuas, nos rodearam, falando como gralhas. As mulheres me pareciam todas velhas, desleixadas, pouco limpas, com os longos cabelos negros desgrenhados e untados, exalando cheiro desagradável, os imensos seios pendentes e as pernas arqueadas. Algumas traziam ao peito crianças que se agarravam como carrapatos. Os pequenos que andavam pelo chão eram sujos, magros e todos ostentavam enormes ventres. Alguns roíam pedaços de ossos, como animaizinhos. Mas pareciam sadios e alegres, vivos e ágeis. No que todos eram indiscutivelmente de primeira força, homens, mulheres e crianças, era na gritaria, na algazarra que sabiam fazer a primor. Depois, mãos pouco limpas, de grossas unhas enegrecidas, se estenderam para nós, a fim de nos apalpar. Mas repelimos essas carícias indesejáveis, embora sem violência. Estávamos dispostos a não deixar que eles entrassem em liberdade excessiva conosco.

De repente, a algazarra cessou. Mulheres e crianças se afastaram rapidamente. Os homens abriram alas, para deixar passar um enorme selvagem, troncudo, excessivamente enfeitado de penas multicores e trazendo na mão um formidável tacape cheio de pedras

No documento ota Editorial (páginas 83-103)