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QUICAS PRATICA UMA FELOIA

No documento ota Editorial (páginas 114-121)

Por maior que fosse a atração exercidas sobre nós por aquele estranho cenário de velhos séculos, não podíamos ficar ali contemplando as inamovíveis gavetas de bronze. Era preciso voltar à superfície. Ademais, começávamos a sentir todo o peso do cansaço até àquele momento retido pela fascinação.

Assim, pouco depois, percorríamos de novo o lôbrego corredor de lava endurecida, pisando nos mesmos lugares onde os atlantes — quem sabe há quantos séculos! — haviam pisado também, carregando seus mortos queridos!

Fomos parando pelo caminho, à procura de vestígios da perdida civilização, e, quando chegamos à caverna, já estava escuro. Deixamo-nos cair, extenuados, à claridade da lua que começava a subir. Ali adormecemos e ali passamos a noite — uma noite excepcionalmente cálida — sem querer pensar nos perigos possíveis da região agreste e desconhecida. No entanto, se fosse verdade que preocupações e recordações tristes tiram o sono, não teríamos dormido um minuto sequer. Mas as preocupações se levantaram conosco, vivas e cruciantes aos primeiros albores da manhã.

Estávamos os três completamente sós naquele ermo, expostos a todas as surpresas. Nossos companheiros nos haviam abandonado para sempre; nossas mulas já não existiam; tudo o que possuíamos e o que havíamos reunido durante a viagem — armas, máquinas fotográficas,

instrumentos, mantimentos, relíquias — tudo desaparecera. Qual seria o rumo que devíamos tomar, agora, para alcançar o Xingu?

Salvio, no entanto, apontou para oeste, com firmeza: — É para lá. Vamos.

Partimos, carregando as riquezas que nos restavam: três boleadeiras, quatro tacapes, dois arcos e um amarrado do flechas. Afinal, era melhor assim, agora que tínhamos que contar somente com as nossas próprias costas. Não tínhamos lombos alheios para carregar volumes, nem de homens, nem de mulas...

Atravessamos o acampamento onde tínhamos parado Com os selvagens louros e fomos forçados a espantar um tatu que refocilava no cadáver de um deles. Quisemos levantar a árvore, mas foi impossível. Passamos e os mortos lá ficaram.

Subimos uma encosta bastante inclinada e, lá de cima, Salvio fez-nos voltar e observar o panorama. Estávamos na borda de um grande círculo. Aos nossos pés estendia-se uma imensa bacia. No meio dela elevavam-se penhascos atormentados.

— Estamos diante da cratera de um vulcão extinto. A caverna de onde saímos fica lá naquelas rochas do meio. Devia ser uma das chaminés por onde as lavas subiram em tempos remotíssimos. Aquele salão em que estão os túmulos deve ter sido, em outros tempos, um caldeirão cheio de minerais fundidos. Possivelmente os atlantes encontraram-no e o adaptaram ao fim para que serviu.

Depois de um último olhar para a cratera, começamos a descer a encosta do lado oposto, e continuamos a viagem, triste viagem de três pigmeus perdidos num imenso terreno desolado, onde raras árvores raquíticas se erguiam penosamente do solo pétreo! Pela tarde, nossos pés cansados levantavam pequenas nuvens de poeira do chão, ao arrastar-se trôpegos. Estávamos terrivelmente cansados e parecia-nos que nos desfazíamos em suor sob os ardores do sol inclemente.

As sombras da noite foram recebidas como um incalculável benefício — porque com elas nos chegou a primeira sensação de frescor. Mas a sede aumentou, talvez porque sob o sol abrasador ela nos

parecesse normal, o que não se dava sob a frescura da noite. Não tínhamos, porém, remédio algum para isso e, assim, procuramos em vão adormecer. Por mais que nos revirássemos sobre o mato rasteiro, não conseguíamos conciliar o sono.

Devia ser meia-noite quando Quincas se ergueu e disse:

— O melhor é andar. Se caminharmos durante a noite, progrediremos mais e não nos cansaremos tanto. E temos que caminhar, para encontrar água. Quando surgir o sol não poderemos dar mais um passo. Vamos.

Nem Salvio nem eu procuramos sequer discutir. Era bom fazer qualquer coisa para acabar com aquele tormento de tentar dormir à força. E, assim, pouco depois, a lua iluminava com sua pálida luz três pobres vultos cansados caminhando pela planície sem fim, desoladamente, para um futuro misterioso.

O primeiro clarão da madrugada encontrou-nos descendo uma íngreme lombada de pedra nua. Gradativamente o horizonte se foi tingindo das cores mais variadas e mais lindas que se possam imaginar. Posta num quadro, aquela madrugada seria levada à conta de louca fantasia. Pensei comigo que não devia estar muito mal, pois conseguia, ainda, achar alguma coisa bonita...

Caminhávamos quando o sol, enorme, rubro como cobre polido, saltou acima do horizonte. Estávamos, porém, no limite da força e coragem.

— Não posso mais. Vamos parar — disse Salvio. — Sim. Vamos parar. Estou morto...

— Não! Temos que continuar — ecoou a voz rouca de Quincas, que tinha um ar de intolerável autoridade.

— Não! — protestei. — Continuar agora, para que? O melhor é descansar, dormir. Continuaremos pela tarde, com a fresca...

— De certo — murmurou Salvio, cabeceando. — O melhor é dormir. Olhem... ali está uma palmeira...

terreno desce. Vejo lá em baixo sombras que devem ser árvores. Se o terreno desce e se há árvores lá embaixo, é que há água. Vamos! Levantem-se! Para a frente!

Senhor! Como Quincas estava autoritário! E não era possível deixar de lhe obedecer. Ele adquirira uma força enorme. Levantamo-nos penosamente, e recomeçamos a caminhar, descendo a lombada. Quincas ia na frente. Levava dois tacapes ao ombro, um arco, os restos de carne o o amarrado de flechas. Depois, Salvio, com um dos tacapes e as boleadeiras pendentes do pescoço. Por último, eu, com um tacape, ao ombro, e o outro arco enfiado no braço.

Como foi penosa a marcha desse dia! Como íamos tropeçando a cada passo, pela tarde! Como cambaleávamos! Minha língua engrossara extraordinariamente. Minha saliva se tornara pastosa e amarga. E Quincas continuava inexorável!

— Para a frente! Para a frente! Vamos! — e dava largos e pesados passos! Seus pés caíam ao solo como se fossem de chumbo, e ele os arrancava de novo, impiedosamente, para de novo atirá-los para a frente.

Quando o sol ia descambando, ele carregava tudo o que poisuíamos: os quatro tacapes, os dois arcos, as flechas, as boleadeiras e o restinho de carne assada.

Eu arrastava penosamente uma perna após outra, sem levantar os pés. Salvio, ainda à minha frente, fazia o mesmo. De repente, tropecei, cai e bati com a fronte em qualquer coisa dura. Sangue começou a pingar. Salvio, voltando-se, veio cair de joelhos ao meu lado e encostou seu imundo lenço à ferida da minha testa. Quincas alcançou-nos em três passadas e parou, cambaleante, ao nosso lado:

— Vamos! Coragem... Para a frente... — dizia ele com voz rouca e odiosa.

Mas eu sentia a vida fugir-me pelos olhos, pela boca, pelos ouvidos, pelos membros entorpecidos de cansaço. Murmurei:

— Eu fico... Vão vocês... Deixem-me... sou um empecilho... — Pura quixotada! Eram frases que eu guardava de alguma dessas

deletérias leituras em que há heróis sobrehumanos! O que eu queria era que eles ficassem ali, e morressem ao meu lado. Simplesmente!

Mas não ouvi mais nada, nem senti mais sede nem calor, nem cansaço — nada! Caíra no país da Paz Absoluta.

* * *

Quando abri os olhos, minha cabeça começou a girar violentamente. Depois parou, e o solo pôs-se a executar um balanço largo e rítmico. A lua, muito pálida, no céu instável, ensaiava estranhos passos de dança. Que coisa mais desagradável! Levantei o braço, mas ele tornou a cair pesadamente para o lado — e caiu sobre um corpo, e, logo depois, chegou aos meus ouvidos uma voz longínqua e mal-segura:

— Então, Jeremias? — sopraram.

— É você, Salvio? — minha voz era um sopro também. — Sou eu... Perdão!

— Sim, Salvio...

— Perdão... eu sou o único culpado. Eu é que os trouxe... — Vamos morrer?

— Sem dúvida...

Comecei a chorar baixinho. Ele chorava também.

Ache ridículo quanto quiser, leitor. Ria-se. Mas eu queria que você estivesse em meu lugar! Queria vê-lo ali, à noite, num deserto daqueles, semi-morto de cansaço, com o corpo despedaçado e o espírito em farrapos, com sede, com fome, sem esperança! Queria vê-lo assim! Hoje eu também acho ridículo aquele choro — tanto mais que nos romances de aventuras que andam por aí os personagens padecem muito mais e nunca choram! Mas, meu caro leitor, personagem de romance é uma coisa e gente de verdade é outra!

Depois, aquela voz cansada, fraca, pastosa, perguntou: — Onde está o Quincas?

— Quincas? — repeti interrogativamente. — Não sei!... Quincas!

Eu quisera gritar, mas estou certo de que soltei apenas um som rouco e inaudível. Com grande esforço, sentamo-nos e olhamos em torno. Minha cabeça já não girava. O solo estabilizara-se em sua posição normal. A lua, muito clara, parecia correr entre nuvens diáfanas e clareava muito bem a desolada planície, recortando contra o céu escuro a silhueta de algumas árvores ressequidas.

Quincas não era visível.

— Bandido! — disse eu, raivosamente. — Foi embora! — Quem sabe se ele ficou louco!

— Louco nada! Essa gente é assim mesmo! Quis se salvar sozinho!

— E agora?

— Agora? Vamos descer por aí. Se encontrar aquele bandido, juro que o matarei!

Pusemo-nos de pé, depois de ingentes esforços. Em meu corpo não havia nenhum dos 250 ossos que não estivesse doendo. Recomeçamos a caminhada para o fundo do vale sombrio, à pálida luz da lua. Éramos duas sombras, duas almas penadas cambaleantes, descendo para o inferno!

Penso que não tínhamos dado ainda cinqüenta passos, quando caí de joelhos. Salvio deu mais um passo ou dois, e desabou no chão, ao comprido. Arrastei-me até ele e segurei-lhe a mão. Escaldava.

— Está bem — disse ele ao meu ouvido com voz extraordinariamente rouca — está tudo acabado... Leandro desapareceu, há anos. O pai de Quincas desapareceu. Tobias desapareceu, Lalau desapareceu e nós vamos desaparecer também... É pena. Vimos tanta coisa! E eu queria tanto contar ao mundo o que vimos! Se você escapar, conte tudo, Jeremias. Eu vou morrer. Mas, não faz mal. Aqui já houve uma grande civilização, e, no futuro, outra há de se erguer das cinzas da última, e há de ser uma civilização humana, sem armas, sem maldade, sem traições, sem injustiças... Os homens saberão se compreender uns aos outros, e saberão que a felicidade está em achar ótimo o dia de hoje e ter absoluta confiança no dia de amanhã. Tenho certeza!

Minhas lágrimas eram salgadas como o diabo.

Salvio queria ser sepultado lá atrás, com Lalau, num daqueles túmulos dos atlantes...

E não disse mais nada. Sua mão apertou fracamente a minha. Depois, seus dedos afrouxaram. Sua cabeça pendeu e a face pousou suavemente sobre a areia do solo.

Minha cabeça pendeu também. Larguei o corpo. Afinal, o melhor era mesmo descansar de uma vez. A lua estava quietinha lá em cima, agora. E parecia fria... fria... tão fria!

Quando fechei os olhos, comecei a ouvir música. Mas eu sabia que ninguém estava tocando nada. Era dentro do meu crânio. Sons estridentes e desencontrados de jazz feriam-me a cabeça por dentro...

CAPÍTULO 14

No documento ota Editorial (páginas 114-121)