Tivemos grande dificuldade em subir a serra escalavrada. Até Salvio estava enfraquecendo, apesar de toda a sua coragem, e eu devo, a bem da verdade, dizer o mesmo de mim, embora me fosse fácil inventar uma porção de coisas a meu respeito... Mas Quincas... esse sim! Era o mesmo valente guia que já outras vezes nos salvara com a sua singular energia. Animava-nos. Subia vagarosamente e obrigava-nos a fazer o mesmo embora estivéssemos quase sem nada para comer, e, portanto, tivéssemos pressa de chegar ao “fim”. Se tínhamos bastante água, acontecia o contrário com a comida. De todos os frutos e raízes que havíamos colhido na floresta antes de descer para o vale dos escombros, só nos restavam algumas raízes que, além de serem poucas, tinham péssimo gosto e eram muito fibrosas. De tanta coisa boa que tivéramos a princípio, só nos sobrava o pior. Tanto é verdade que o mal dura mais que o bem.
Foi durante essa subida que nos lembramos novamente dos nossos invisíveis perseguidores, que haviam dado freqüentes sinais da sua presença desde que saíramos do cemitério subterrâneo até à entrada no vale dos escombros. Quem seriam? Quais seriam as suas intenções? E por que não se teriam manifestado novamente?
— Eu acho — disse Salvio — que eles tentaram nos fazer desistir da viagem, sem querer empregar violência... e, agora, depois de entrarmos no vale dos escombros, decerto acharam que não seria mais preciso intervir porque nos destruiríamos sozinhos... Mas enganam-se!
melhor assim. Já temos muitas preocupações para que ainda por cima precisemos estar pensando em perseguições e perseguidores...
Era ao entardecer e estávamos sentados sobre um bloco de granito, na imensa solidão circundante. Antes de nos estendermos para dormir, atiramos fora os restos de frutas que ainda carregávamos, e fizemos um amarrado com as raízes fibrosas, depois de comer um punhado cada um.
Dois dias depois, porém, vimos, com espanto, que também as raízes fibrosas se haviam estragado. Desenvolvera-se nelas intensa fermentação. Quincas, no dia anterior, tinha-as mergulhado na água por algum tempo para torná-las mais macias. Talvez isso as inutilizasse.
Atiramos tudo, um pouco antes do meio-dia, quando já entávamos a pequena distância do alto da serra. Passamos, então, terríveis momentos. O futuro nos parecia trágico. Como havíamos de fazer, num ermo daqueles, sem possibilidades de alimentação? Voltar? Lembrei-me com saudade daquele “varanus” que víramos lá para trás e pareceu-me que, assado, ele daria um excelente petisco... Estão vendo como é a natureza humana?
O que tínhamos a fazer era, unicamente, caminhar, e caminhar sem descanso, pois que o deserto tinha que acabar algures.
À tarde chegamos ao alto da serra.
Do outro lado... erguia-se outra montanha, além de um vale pouco profundo, por onde corria um fio d’água.
Eu e Salvio deixamo-nos cair, desolados, ali mesmo. Quincas obrigou-nos a ficar novamente de pé:
— Não! Nada disso! Nada de desânimo! São apenas quatro horas e poderemos chegar lá em baixo antes da noite... Vamos! Cada metro que andemos é um metro ganho na corrida com a morte!
Não foi possível resistir. Pusemo-nos, novamente, a caminho para o fundo do vale, e o fizemos cambaleando. Deitamo-nos, afinal, ao lado do córgo, e, apesar da fome, dormimos. Agora é que descobrimos porque nos momentos mais críticos Quincas nos obrigava a fazer maiores esforços e andar mais: era porque, além de nos fazer ganhar
tempo, nos cansava de tal maneira que dormiríamos bem, apesar da fome e da sede.
Dizem por aí, e escrevem também, que a gente pode aguentar melhor a fome do que a sede. Pode ser, mas, no dia seguinte, quando quisemos reiniciar a caminhada para subir a montanha que tínhamos pela frente, sentíamo-nos de tal maneira fracos que isso não foi possível. Terríveis dores me roíam o estômago; a cabeça me doía de modo pavoroso e as pernas bambeavam. Recusei-me a seguir. Salvio quis bancar o valente e deu alguns passos, para cair mais adiante. Quincas insistiu, gritou, xingou-nos. Só faltou nos bater. Mas ficamos ali, estupidamente, como crianças teimosas. Nada nos interessava senão cultivar as dores que sentíamos.
Quincas fechou carranca e sentou-se a certa distância, olhando desolado para o alto do morro.
Salvio fitava um daqueles arbustos ressequidos e retorcidos que cresciam no deserto. De repente, disse:
Ah... se essa árvore tivesse folhas, eu as comeria!
Eu olhei também, e tive uma inspiração. Levantei-me e curvado, apertando o estômago com ambas as mãos, arrastei-me até o arbusto. Com o nariz perto do seu caule, senti que me vinha água à boca. Lancei a mão a um galho e parti-o. Era como um talo de couve. Vi, com espanto, que esse estranho arbusto das rochas, apesar de seu aspecto requeimado, era suculento! Levei o pedaço à boca e mordi-o.
— Você está louco! — falou Salvio com voz rouca. — Deixe isso! Pode ser venenoso!
— Sei lá! — respondi com a boca cheia, babando e mastigando a polpa do galho. — É gostoso!
No minuto seguinte, os dois estavam ao meu lado e mastigavam gulosamente punhados dos galhos secos!
Engraçado! O homem é engraçado! Aquilo, para dizer a verdade, com licença da palavra, era uma porcaria! Os galhos tinham muito sumo, mas não tinham gosto de coisa alguma! Eram levemente adstringentes e deixavam um bagaço semelhante ao da cana de açúcar.
Pois essa “coisa” nos soube deliciosamente! Depois de comer o arbusto inteiro ficamos reconfortados!
Assim, pudemos continuar. Avançamos à escalada da montanha como se fôssemos a um passeio higiênico. É verdade que, comparada à montanha já vencida, esta era pequena. Mas, de qualquer modo, era uma montanha e subir montanhas só é exercício agradável para os que nasceram com coração de alpinistas.
No dia seguinte à tarde, estávamos no cimo, e então, descortinou-se ante os nossos olhos o panorama que tanto almejávamos!
Ao longe, a partir das faldas da montanha, estendia-se uma verdejante e intérmina floresta!
Esperávamos dormir maravilhosamente, pois que tínhamos, agora, bom material para sonhos cor de rosa...
Mas, tão incompreensíveis são os caprichos da biologia humana, que essa foi a pior noite que tivemos. Tive pesadelos, acordei mil vezes e vi meus companheiros também inquietos e insones. E o pior é que tivemos, pela manhã, despertar nada invejável.
O sol já se tinha erguido quando abri os olhos, e a primeira coisa que vi foi um homem, de pé, a pequena distância. No primeiro instante, pensei que fosse um dos meus companheiros, e ia chamá-lo, quando percebi que estava vestido de maneira muito estranha: Usava uma espécie de túnica, apertada à cintura por um cinto rebrilhante. Por baixo usava um calção, como vi mais tarde. As pernas estavam nuas e os pés calçados com sandálias de grossa sola, e presas aos pés por algumas correias. Estava meio de costas.
— Olá! — gritei.
O homem voltou-se lentamente para mim, e então, vi-lhe o rosto, de nobres traços e de cor acobreada. Lembrava, remotamente, as figuras dos baixos relevos do corredor subterrâneo.
Apenas olhou. Não disse uma palavra. Depois, voltou-se e ficou na posição primitiva. Então, chamei meus companheiros. Eles acordaram, vieram para o meu lado e os três ficamos sentados no chão, olhando para o estranho visitante. Quincas, apontando para o homem,
perguntou a meia-voz: — Quem é?
— Não sei — respondi, no mesmo tom. — Salvio que o descubra.
Pusemo-nos de pé e o homem virou-se para nós, mas não falou; ficou olhando curiosamente, um e outro. Salvio tomou a palavra:
— Então, senhor... senhor... Quem é?
Achei a pergunta razoavelmente idiota. Pareceu-me que ele é que tinha o direito de nos arguir. Mas Salvio fê-la, e pronto!
O nosso homem é que não se impressionou absolutamente. Pronunciou uma breve sílaba e estendeu o braço em direção à floresta, lá em baixo. Depois, começou a andar.
— Decerto quer que o sigamos — disse Salvio. — Vamos.
Seguimo-lo. Ele andava com passo seguro, elástico, elegante e nós trotávamos atrás.
— Vocês repararam? — perguntei. — Repararam como ele se parece com os homens das esculturas daquele cemitério?
— É isso mesmo! — exclamou Salvio entusiasmado. — Eu estava querendo me lembrar onde vira caras iguais a essa... é isso mesmo!
— Será um atlante? — perguntou Quincas?
— Bem... isto está parecendo um sonho, um romance... Mas creio que tenho que responder afirmativamente. Esse homem deve ser um descendente direto dos Atlantes... Bem vêem que não tem muita semelhança com os indígenas que estamos acostumados a ver...
Eu, então, senti o “estalo” de Vieira, e despejei:
— Mas Salvio, se ele não se parece com os nossos indígenas, como é que estes podem ser descendentes dos atlantes, como você tem sustentado?
— E continuo a dizer o mesmo. Os nossos selvagens são descendentes dos atlantes. Apenas, colocados em situações diversas,
obrigados a lutar com dificuldades e tendo que viver em clima e ambientes discordantes, e talvez, também, por outras causas que não conhecemos, nem suspeitamos — desviaram-se da vida primitiva e se tornaram selvagens, adotando novos hábitos, iniciando vida diferente. Perdidos pelas selvas, espalhados pelo continente durante séculos e séculos, sofreram profundas alterações. Alguns, como os incas, em terreno propício, continuaram as tradições de seus ancestrais (vocês devem saber que quando Pizarro chegou a Cruzco, esta era uma cidade sagrada, onde se adorava o Sol, e que vivia numa civilização puramente atlântida); outros, em contato com a selva brutal, corridos de um lado para outro, por grupos dispersos e diante da necessidade de lutar hora a hora por tudo — perderam a civilização e a sabedoria de seus antepassados, transformando-se nos selvagens atrasados que conhecemos. No entanto, acredito que haja vários centros pelo interior do continente, e talvez mesmo no Brasil, que conservam vestígios desse passado grandioso... pelo menos, espero que assim seja...
— Bem... acredito, então, que estamos terminando a nossa jornada...
— Naturalmente. Esse deve ser um atlante que nos vai levar ao ponto final...
— Pois eu acho que agora é que estamos chegando ao começo — opinou Quincas.
— Por que?
— Ora, Jeremias... Esse cavalheiro que vai aí na frente não me inspira confiança alguma. Ao contrário. Creio que nos vai dar muito trabalho.
— Não creio. — Por que?
— Não sei. Pressentimento.
— Pois veremos os seus pressentimentos...
Continuávamos a caminhar regularmente atrás do nosso Guia. E ele não andava ao acaso, mas seguia um caminho bem aplainado que poderia nos ter passado despercebido. Porisso, progredíamos
rapidamente. Pelo meio-dia quisemos parar para comer alguma coisa. Tentamos fazer o nosso guia compreender isso, mas inutilmente. Pelo menos, ele nos empurrou para a frente, emitindo monossílabos incompreensíveis.
— Isto vai mal! — disse eu, começando a zangar-me. — Será que esse idiota não percebe que precisamos comer?
— Não sabemos o que ele percebe, Jeremias, mas o certo é que precisamos ter paciência. Arranquemos alguns galhos dos arbustos e vamos comendo enquanto caminhamos.
Assim fizemos, e comemos grande número de galhos daquele arbusto suculento e insípido. Pouco depois, porém, vimos que tínhamos agido como tolos. Bem dizia sempre Salvio: “Saber esperar é ser sábio”.
Meia hora mais tarde, o atlante se deteve diante de uma pedra branca em forma de marco quilométrico, monólito que ostentava uma inscrição, e, por baixo dela, havia uma cavidade onde o homem enfiou a mão para retirá-la segurando um embrulho feito com grandes folhas verdes e frescas. Sentou-se no chão, de pernas cruzadas, desembrulhou o pacote e tirou de dentro dele alguns belos pedaços de carne assada!
Teimosamente, tínhamos enchido o estômago com a polpa fibrosa do arbusto, mas, mesmo assim, à vista daquele acepipe, ficamos deslumbrados, e nos sentimos capazes de começar de novo.
O homem fez um gesto que não admitia dúvida. Em qualquer parte do mundo, queria dizer:
— Sirvam-se! Se nos servimos!...
Declaro que essa foi a carne mais gostosa que já provei em toda a minha vida... e chega!
Terminada a refeição e quando já caminhávamos novamente, satisfeitos, achando tudo maravilhoso — tanto as nossas sensações são filhas do estômago — Salvio falou:
E até Quincas concordou.
Agora, a floresta estava próxima, e o terreno ia mudando de aspecto. A rocha viva já não aparecia tão uniformemente, mas pisávamos largos trechos cobertos de terra. Os arbustos que nos haviam salvo a vida lá atrás, desapareceram, e em seu lugar surgiam da terra outras plantas, ainda raquíticas, mas “plantas verdes”! Apertando o passo, chegamos à orla da floresta ao anoitecer. O nosso guia parou. Olhou para todos os lados, interrogativamente, como se esperasse ver ali alguma coisa que não estava. Depois, colocando as mãos em volta da boca, emitiu um grito agudo e trêmulo. Um minuto depois, surgiam entre as árvores seis vultos, todos semelhantes, tanto nos trajes como na fisionomia, e todos armados de arco e flecha. Dois deles traziam ao ombro... as nossas boleadeiras!