Capítulo 1 – A questão agrária e a extrema pobreza do campo
1.2 A modernização conservadora (1965 – 1982)
Iniciados os anos da ditadura militar, todo e qualquer debate com pluralidade de ideias é interrompido e passa a se inserir com força no cotidiano brasileiro, um pensamento conservador, que vai impondo seu ponto de vista em todo o tipo de assunto referente ao papel do Estado brasileiro. Sendo assim, há uma modificação de interpretação no que se refere a questões relativas à oferta e demanda de produtos agrícolas, seus efeitos sobre os preços, o emprego e o comércio exterior, omitindo-se, por sua vez, as externalidades advindas destas questões do campo, como a estrutura fundiária, a falta de água em regiões centrais do norte e nordeste brasileiros, a desigualdade de renda e a extrema pobreza.
O pensamento que passa a se fazer hegemônico no Brasil é aderente à perspectiva funcionalista norte-americana – sendo esta muito inserida e estimulada pelo
grupo de economistas da USP, tendo Delfim Neto como grande liderança intelectual6 – que, no que se refere aos papéis da agricultura, defendem a perspectiva clássica desta esfera no desenvolvimento econômico da produção. Nesta perspectiva, cinco funções são relacionadas à questão do território rural: I) liberar mão-de-obra para a indústria; II) gerar oferta adequada de alimentos; III) suprir matérias-primas para indústrias; IV) elevar as exportações agrícolas; e V) transferir renda real para o setor urbano. Sendo atendidas estas funções, não há, por parte desta corrente de pensamento, a interpretação e consideração de que haja demais problemas ou externalidades a serem sanadas ou adequadamente solucionadas. Assim, ficam relegadas a segundo plano as questões e mazelas sociais tão evidentemente presentes na realidade agrária brasileira – tema que só voltará a ser debatido no final da década de 1990, a partir do aumento dos conflitos no campo.
Neste período de restrição à liberdade política, as funções da esfera agrária brasileira passam a ser a de perseguir objetivos estritos como a estabilidade de preços, do salário e do superávit comercial externo, sendo, neste sentido, aprofundadas as relações técnicas da agricultura com a indústria e de ambas com o setor externo, isso tudo fortemente subvencionado pela política de créditos agrícolas (DELGADO, 2005).
Esse processo de modernização técnica da agricultura e de integração com a indústria se carateriza pela mudança na base técnica de meios de produção utilizados pela agricultura, materializada na presença crescente de insumos industriais (fertilizantes, defensivos, corretivos do solo, sementes melhoradas, combustíveis líquidos etc.), e de máquinas industriais (tratores, colheitadeiras, implementos, equipamentos de irrigação etc.) e, de modo análogo, pela integração entre a produção primária de alimentos e matérias-primas e vários ramos industriais (oleaginosos, moinhos, indústrias de cana e álcool, papel e papelão, fumo, têxtil, bebidas etc.). Estes dois pressupostos advindos da perspectiva conceitual da modernização do campo irão
6 O resgate das teses modernizantes de Delfim Neto e de seu grupo começa no Governo Castelo Branco como reação ao Estatuto da Terra, mas se manifesta como projeto explícito de governo quando Delfim Neto assume o Ministério da Fazenda em 1967 e começa a implementar o Sistema Nacional de Crédito Rural como principal estrutura de fomento à produção agropecuária. As questões postas no debate agrário ficam inteiramente dominadas pela agenda oficial, que promove uma aparente metamorfose da “questão rural”, procurando fazer crescer a produção e a produtividade do setor agrícola, puxados pela demanda urbana e pela demanda externa em processo de acelerado crescimento. Neste novo contexto, as questões envoltas no papel da agricultura no desenvolvimento econômico já são outras em relação as duas primeiras décadas da industrialização. Aparentemente as “funções de transferências de recursos” e renda do setor agrícola ao setor industrial já não mais se adequam às novas necessidades da acumulação de capital. (DELGADO, 2005).
constituir mais adiante a chamada estratégia do agronegócio, que passa a dominar a política agrícola do país a partir dos anos de 1990 (DELGADO, 1995).
Os anos correspodentes à ditadura militar definitivamente tiveram por pressuposto básico as ações relacionadas à modernização da agricultura, diversificando, portanto, as relações de trabalho existentes e iniciando o processo de mecanização das lavouras. Estas ações acabaram levando apenas uma parte do Brasil a se modernizar, neste caso, as regiões com recursos financeiros e que não necessitavam de investimentos por parte do Estado, principalmente no que se refere às propriedades de uso do solo. Sendo assim, verifica-se a partir dos anos 1970, uma concentração de riqueza e modernização na região Sul, partes do Sudeste e do Centro Oeste brasileiros, tendo por contraponto, baixos indíces de modernização técnica nas regiões Norte e Nordeste do país. Essa situação passou a agravar ainda mais a diferença de riqueza entre as regiões do país, ocasionando aumento da pobreza extrema em regiões desprestigiadas pelo então governo e aumento do fluxo migratório, levando uma imensa quantidade de trabalhadores a se deslocarem em busca de trabalho.
[...] as elites dominantes permaneceram arraigadas na estrutura do poder político nacional, determinando os caminhos do desenvolvimento capitalista nacional que, em sua vertente agrária, se objetivou [...] na manutenção do monopólio da terra e dos privilégios políticos da oligarquia rural, que asseguram uma modernização conservadora, às custas da exclusão política dos setores subalternos do campo, da expropriação do campesinato e da sua proletarização irremediável (AZEVÊDO, 1982, p. 28).
Desta forma, verifica-se que o processo de modernização ocorrido no país se deu a partir de um pacto agrário modernizante via indústria/campo, socialmente conservador que, em simultaneidade à integração técnica do eixo urbano e rural, perpetuou o domínio de importantes oligarquias rurais, tornando estas ainda mais ricas e detentoras de grandes propriedades territoriais. É nesse período também que se constata a obtenção de inúmeras linhas de apoio e defesa na nova estrutura de defesa fiscal e financeira para o latifúndio rural. Tal assertiva fica evidente quando se verifica a vantagem obtida a particulares (vide tabela 1). Neste sentido, há nesta época uma valorização extraordinária dos patrimônios territoriais, muito superior ao crescimento real da economia, o que denota a perspectiva conservadora e excludente da modernização agrária nos idos dos governos militares.
Tabela 1 – Variações médias de indicadores macroeconômicos e do preço da terra Períodos Taxa média de incremento (%) PIB Geral (%) Taxa média de incremento (%) PIB Agrícola (%) Proporção saldo comercial no PIB geral (%) Proporção da Renda Líquida enviada ao exterior no PIB (%) Incremento Real no preço da terra (lavoura - %) 1965 - 1980 8,10 4,60 0,38 1,34 35,3 1983 - 1993 2,27 2,35 4,13 3,95 1,9 1994 - 1999 2,82 3,56 (-) 0,19 2,10 (-) 9,1 2000 - 2003 1,60 4,61 2,07 3,53 5,7 Fonte: DELGADO, 2005.
É dentro de um panorama de ampliação significativa dos indicadores técnicos de modernização agropecuários, aumento e diversifcação da produção, relevante alteração no padrão técnico do setor rural e, contraditoriamente, aumento da pobreza no campo, flexibilização das relações de trabalho e aumento da desigualdade, que se inscreve o período denominado de “conservadorismo modernizante”, alicerçado por uma conjuntura política fechada e por uma economia estabelecida por uma tecnocracia insensível à realidade social brasileira.
Em síntese, o processo de modernização da agricultura reforçou sua heterogeneidade em território nacional, pois ampliou os hiatos existentes entre os produtores rurais demandadores de inovações mecânicas, físico-químicas e biológicas e os produtores de subsistência. No caso dos produtores tecnificados, sua articulação aconteceu no interior dos elos das cadeias produtivas dos vários complexos agroindustriais. Contudo, estes produtores tecnificados tiveram um forte estímulo das políticas agrícolas e tecnológicas proporcionadas pelo Estado para demandarem cada vez mais os produtos das multinacionais, determinando, por conseguinte, a modernização das grandes unidades de exploração agrícola, que aconteceu preservando-se a estrutura fundiária e os interesses do grande latifúndio (PIRES, 2009, p. 420).
1.3 A abertura política e o neoliberalismo: O agronegócio como um novo arranjo