1.1 Crítica à metafísica e à gênese dos valores ocidentais e a necessidade de superação dos
1.1.3 A moral decadente: Sócrates e o socratismo
A moral se torna decadente, segundo Nietzsche, quando o homem não pensa mais em si mesmo e age por impulsos e atitudes altruístas – quando o ser humano se torna altruísta e abre mão do seu egoísmo sadio, ele é como um órgão que deixa de lado sua autoconservação e, assim, prejudica o resto do organismo. Esse pensamento floresce em sociedades corroídas e abaladas, nas quais a nobreza e os ideais “aristocráticos” vão deixando de existir, tornando-se campo fértil para o advento das religiões10. Porém, as pessoas não percebem a decadência, não se dão conta da superioridade dos costumes antigos, antecessores aos seus. Pois toda época pensa ter progredido em relação à anterior.
No entanto, a suavização dos costumes, os conceitos humanitários e de igualdade, a diminuição dos abismos entre os homens e as classes apenas tentam por fim, de forma arbitrária, com a luta dos instintos fortes de alguns sujeitos. Nesse sentido, Nietzsche aponta para o fato de que os objetivos da sociedade deveriam ser iguais aos objetivos da natureza, que seleciona apenas os melhores espécimes, os mais fecundos e com maior capacidade de elevar o seu gênero. Mesmo assim, a sociedade, na figura do Estado e de seus subsidiários, ao invés de incentivar e criar condições para a emergência dos seres humanos mais evoluídos favorece o grande número; a quantidade e não a qualidade que, obviamente, pertence a poucos11 (NIETZSCHE, 2009 se, p. 213-215).
De acordo com o exposto acima, a formação de um povo pode ser encarada ou como um método seletivo, que vise encontrar e desenvolver ao máximo a força dos indivíduos superiores, ou um método nivelador, cujo objetivo será manter todas as forças, tanto as fracas quanto as fortes, em harmonia constante. A nação que se guie pela primeira máxima terá como meta oportunizar as melhores condições para a plena realização dos dons mais completos de seus
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Pelo menos essa era a análise de Nietzsche.
10 “Quando se põe de lado a gravidade da autoconservação, o aumento da energia corporal, isto é, da vida, quando da anemia se constrói um ideal, do desprezo do corpo se faz ‘a salvação da alma’, que outra coisa é senão uma receita de [decadência]? – A perda de equilíbrio, a resistência contra os instintos naturais, numa palavra, o ‘desinteresse’ – eis o que até agora se chamou moral...” (NIETZSCHE, 2008 , p. 71).
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Em alguns casos é até salutar que isso aconteça, pois um grande homem em meio a legiões de homens de pouca valia é um desperdício de força. Nada do que diga ou faça atingirá as pessoas a ponto de fazê-las progredir sob a égide de sua grandeza. Um mestre deve ter um número suficiente de seguidores, caso contrário a não equivalência é infrutífera.
próceres intelectuais. Se a segunda máxima for a escolhida, ela terá dois caminhos para pô-la em prática. O primeiro, fortalecendo os espíritos fracos e enfraquecendo os fortes, deixando-os todos num mesmo patamar. Caso contrário, desenvolvendo parcialmente os indivíduos vigorosos para, num segundo momento, atrelá-los a um objetivo maior que lhes sirva de guia para suas ações, eliminando, por conseguinte, as forças antagônicas e as individualidades mais selvagens12 (NIETZSCHE, 2009 AF, p. 287-288).
Esse “objetivo maior” e a soma dos postulados balizadores do agir humano, na perspectiva da segunda máxima mencionada acima, acabam não apenas delimitando os sujeitos ordinários, mas, igualmente, os extraordinários. Na maioria das vezes, a esse freamento nivelador nos acostumamos chamar de moral, e todos os métodos para se chegar a ele também chamamos de virtudes. Essas, por sua vez, com o tempo se reificam, como entidades eternas, incumbidas de amenizar o vazio existencial sentido pelo homem frente a sua condição finita e aos limites de sua vontade – que se bate contra o desconhecido e o não manipulável.
Indicando caminhos e soluções para os indivíduos e dando-lhes a impressão de que sua vida possui alguma importância ontológica diante do cosmos infinito, os sistemas morais, quando assentados em transcendentalismos ou teleologias salvacionistas, oferecem um “falso absoluto”, que desvia o olhar do homem do “tempo profano” e da degenerescência atrelada a ele para um “fim do túnel”, em que uma realidade e um fim mais elevado o esperam, o que justifica a sua acomodação a tais sistemas valorativos e o abandono dos traços selvagens de sua natureza.
O “elemento trágico” que permeia a existência humana é envolto num eterno caos, que não comporta preceitos rígidos para guiar o homem, muito embora ele teime na busca de fios condutores para sua vida, que na união entre o conceito racional socrático e o cristianismo ajudaram a moldar, como vimos acima, a ética ocidental moderna. Como se fez isso? Para Nietzsche, eliminando o instinto, a parte embrutecida do homem (o elemento “dionisíaco”); a “vontade de potência”, combatente inesgotável na luta pela superação de si. Mas, no entanto, depois de Sócrates e de seu discípulo mais proeminente, Platão, é vista como expressão não humana do homem.
Esse ódio demonstrado por Nietzsche aos valores mais bem quistos pelo ocidente advém de sua análise crítica da construção desses valores, aos elementos vetoriais que os ajudaram a emergir como máximas divinas e atemporais. De acordo com ele (1988, p. 21-24), os julgamentos feitos pelos sábios em relação à vida, foram apenas sintomas imediatos do tipo de
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vida que tiveram ou presenciaram. Desse modo, seus pontos de vista são apenas deformações arbitrárias vindas de um modelo de existência, e, portanto, sem valor transcendental.
A moral aristocrática, por exemplo, ao contrário da moral dos “párias”, nasce do espírito ativo de homens superiores, como expressão afirmativa de seu ser. Ela é soberana e não odeia, nem seus inimigos, no máximo, quando representam espécimes de uma categoria inferior, despreza. Ao contrário, os homens inferiores e a moral de escravos que nasce deles são resultantes de um intenso ressentimento. Por isso, sempre é condicionada por elementos exteriores e, ao invés de uma ação, é uma mera reação exacerbada àquilo que representa o horizonte valorativo de seus contrários. Nas palavras do próprio Nietzsche,
Na moral, a revolta dos escravos começa quando o próprio ressentimento se torna criador e produz valores: o ressentimento desses indivíduos a quem se proíbe a verdadeira reação, a da ação, e que só encontram compensação numa vingança imaginária. Ao passo que toda moral aristocrática nasce de uma triunfal afirmação de si mesma, a moral dos escravos opõe de início um “não” ao que lhe é inerente, ao que é o seu “não eu”: e esse não é o seu ato criador (NIETZSCHE, 1955 GM, p. 148).
No que se refere a Sócrates – como já deixamos claro, um dos pilares da mentalidade dos povos civilizados – a aparência completamente fora dos padrões estéticos gregos, muito valorizados na época, e a classe social desprivilegiada, faziam dele um “sábio decadente” em meio às virtudes de caráter tão apreciadas pelos helenos (1988, p. 22-24). Nesse sentido, tendo por base o modelo de racionalidade vindo com Sócrates, as perguntas que Nietzsche se faz são as seguintes:
Não poderia ser precisamente esse socratismo um signo de declínio, do cansaço, da doença, de instintos que se dissolvem anárquicos? É a “serenojovialidade grega” do helenismo posterior, tão somente, um arrebol do crepúsculo [...] É a cientificidade talvez apenas um temor e uma escapatória ante o pessimismo? Uma sutil legítima defesa contra – a verdade? E, moralmente falando, algo como covardia e falsidade? E, amoralmente falando, uma astúcia? (2007 NT, p. 12).
Esse olhar negativo em relação ao “socratismo” vem da análise feita por Nietzsche da civilização grega, por assim dizer, “pré-socrática” (sem querermos fazer uma alusão direta a filosofia pré-socrática). Isso porque, os gregos do período “homérico” eram detentores de um instinto aristocrático de grandeza e poder. As cidades gregas viviam em guerras constantes e todas as virtudes físicas e morais eram uma consequência da necessidade imperativa de estar sempre em prontidão. Mesmo as artes e festas celebradas eram expressões de superioridade levantadas pelos gregos para incutir medo em seus oponentes (NIETZSCHE, 1988, p. 114-116).
Por isso, não se deve pegar a filosofia socrática como ápice da civilização helênica, mas como o sintoma mais profundo de sua decadência. Foi, antes de tudo, “[...] o movimento oposto ao gosto antigo e nobre (– ao instinto agonal, à polis, ao valor da raça, à autoridade da tradição)” (NIETZSCHE, 1988, p. 116).
O declínio do povo grego, na interpretação de Nietzsche, começou a se acentuar depois da guerra contra os persas. Embora os helenos tenham ganhado o conflito e expulsado o exército invasor de um jeito humilhante, essa vitória gerou uma profunda arrogância, principalmente por parte das cidades-estados que mais se destacaram – Esparta e Atenas – e de seus respectivos aliados. Após o sucesso, pela primeira vez na história brotou o desejo expansionista e imperialista de subjugar o território grego sob a liderança de uma única força política.
A animosidade chegou às vias de fato com a guerra civil, que, ao final, destruiu cidades inteiras, matou um sem número de pessoas e tornou aquela cultura livre, antidogmática, artística e profunda, num arremedo do que era em seus tempos áureos. A filosofia socrática foi um subproduto desse processo de transformação das estruturas culturais gregas (NIETZSCHE, 1984, p. 120-123). Assim, o instinto combativo dos gregos começou a ser atraído para junto da dialética, e a decadência de Sócrates começou a ter ressonância entre os jovens de Atenas, que também estavam entrando num processo de rebaixamento cultural13. Como afirma Nietzsche:
Tantos elementos dependem do desenvolvimento da civilização grega que a totalidade do nosso mundo ocidental inteiro recebeu dela o seu impulso: a fatalidade quis que o helenismo mais recente e o mais degenerado fosse aquele que mais força histórica demonstrou. É por isso que o helenismo mais antigo foi sempre mal julgado. É preciso conhecer exactamente o helenismo recente para o distinguir do antigo. Há inúmeras possibilidades ainda não descobertas (NIETZSCHE, 1984, p. 113).