2 PROBLEMÁTICA, OBJETIVOS E JUSTIFICATIVAS
2.1 O CONTEXTO DECISÓRIO NA GESTÃO DOS RECURSOS HÍDRICOS
2.1.1 A necessidade de pensar e agir estrategicamente
Originada do grego “strategos”, estratégia é um termo que define a arte de planejar e combinar um conjunto amplo de ações, com habilidade e astúcia, visando à garantia
permanente de meios efetivos de alcance de objetivos estratégicos bem definidos, em qualquer época.
Segundo Keeney (1992, p. 44),
a oportunidade de decisão, quando usada como meio de estruturação dos objetivos estratégicos, representa um imenso potencial de apoio à decisão, que pode ser repetidamente utilizado como uma base segura, como um ponto de referência estável para atenuar as turbulências no contexto decisório. A gestão dos recursos hídricos, atividade reconhecidamente complexa, que tem a bacia hidrográfica como unidade de planejamento (um enfoque discutível, como será comentado adiante), impõe uma abordagem sistemática a ser sustentada por uma estrutura estratégica de trabalho, que leve em conta, permanentemente, os valores dos decisores, as ações e as informações possíveis do contexto de decisão, considerado o momento em que o processo se desenvolve.
Lanna (2000, p. 21), ao historiar a evolução dos modelos de gestão dos recursos hídricos, reconhece a água como “um bem estratégico, gerido em torno da bacia hidrográfica como unidade geográfica ideal de planejamento, gestão e intervenção”.
Segundo Kirkwood (1997, p. 3), a abordagem estratégica do processo decisório deve seguir, basicamente, as seguintes fases:
a) amplificação dos objetivos e escalas para medida de atendimento a esses objetivos; b) desenvolvimento de alternativas que, potencialmente, possam atender aos
objetivos;
c) determinação do desempenho de cada alternativa no atendimento do conjunto dos objetivos;
d) consideração das relações de troca (“trade-offs”) entre os objetivos;
e) seleção da alternativa que, no balanceamento, melhor atenda ao conjunto dos objetivos, levando em conta as incertezas.
Quando não há clareza com relação aos objetivos, é difícil tomar decisões com convicção. Diz que “para quem não sabe para onde está indo, qualquer caminho serve”.
Segundo Eden e Ackermann (1998, p. 3), “é importante desenvolver a capacidade de flexibilidade decisional a longo prazo e o oportunismo estratégico ao invés de planos de longo alcance”.
Para um indivíduo, o objetivo estratégico pode ser maximizar a qualidade de vida, embora não seja fácil definir esse conceito. O conjunto de seus valores, crenças e visão de mundo, considerada a influência do meio, constituem o contexto decisório. O contexto decisório pode ser definido de uma forma mais abrangente, como o conjunto de circunstâncias que acompanham o processo decisório. Diante disto, é fundamental construir uma estrutura estratégica de decisões.
Raramente as decisões plausíveis se encontram no nível estratégico. É necessário reduzir a abordagem, visando a uma parte do contexto decisório estratégico, definindo o contexto decisório local para situações específicas.
Por interpretação e adaptação do que afirmam Eden e Ackermann (1998, p. 34), pode-se definir como estratégia efetiva um conjunto coerente de ações discretas em apoio a um sistema bem estruturado de objetivos e suportadas por uma equipe de decisores qualificados e representativa da opinião de consenso no contexto decisório, em qualquer momento.
O caráter dinâmico e contingente do que se define como estratégia justifica o argumento que intitula este item, no sentido da necessidade de pensar e agir estrategicamente, ao invés da adoção do tradicional planejamento estratégico. Bem de acordo com a mutabilidade e incerteza que caracterizam os contextos decisórios na gestão dos recursos hídricos, a par da exigida descentralização participativa, instituída pela Lei Federal nº 9433.
O pensar e agir estrategicamente é um processo que trata de pessoas criando resultados através da negociação e não, simplesmente, de resultados. Que faz com que surja e se desenvolva o pensamento criativo, o caminho mais eficaz para que os decisores tenham novas percepções sobre os seus problemas e passem a estruturá-los e resolvê-los com outras visões, que não apenas aquelas desde há muito arraigadas.
Embora manifestando um posicionamento contrário, Eden e Ackermann (1998, p. 4) dão conta de que muitos especialistas em estratégia afirmam que investidores têm encontrado dificuldades para obtenção de financiamentos para empresas que não demonstrem possuir uma estratégia organizacional. A propósito, em matéria jornalística recente sobre o projeto Brasil de Cara Limpa, tornou-se ciência de que o Banco Mundial ofereceu, em 1997, U$ 40 milhões para as empresas de saneamento básico. “Quase 100% do dinheiro permaneceu intacto, porque as empresas brasileiras não se enquadram nas exigências técnicas mínimas para receber os empréstimos”. (Segundo o geólogo Aldo Rebouças. In: País distribui mal a água. Correio do Povo de 22/07/2001). Dentre as referidas exigências, o Banco Mundial determina que as empresas tenham um máximo de 20% de perdas nas redes de distribuição de água.
Segundo Weik (1983, p. 222), estratégia significa agir refletidamente. Vale dizer que as decisões devem desenvolver uma habilidade para agir rapidamente sem interrupções para análise, com as ações decorrendo de uma estrutura mental de trabalho antecipadamente construída, servindo as ações como base de informação para pensamento e ação futuros.
A abordagem estratégica, em termos de pensamento e ação, conduz à redução do receio de ameaças, da sensação de elevada incerteza e do grau de suposição de dependência de fatores externos.
Esquematicamente, a Figura 2.1 representa a dinâmica do que foi definido como estrutura estratégica de trabalho, diante de problemas complexos.
Figura 2.1: Estrutura estratégica de trabalho
Fonte: Interpretação do autor, com base em Keeney (1992, p. 37-48), Eden e Ackermann (1998, p. 284-302) e Montibeller Neto (1996, p. 34-37)
A estrutura estratégica de trabalho pode ser, ao mesmo tempo, uma referência e guia que possibilita uma sólida estruturação do problema a ser resolvido, considerados os valores dos decisores, as ações e as informações possíveis do contexto de decisão.
Os objetivos fundamentais são as especificações qualitativas dos valores mais importantes dos decisores. São a base do processo de decisão e essenciais para a orientação às ações, através dos objetivos-meio que os especificam, para o desenvolvimento dos modelos que possibilitam a avaliação das ditas ações no atendimento dos objetivos estratégicos, também definidos no processo de decisão.
Os objetivos estratégicos são os valores mais elevados estabelecidos pelos decisores e que exigem interpretação para poderem ser operacionalizados. Esses objetivos deveriam guiar, permanentemente, o processo decisório, em quaisquer cenários e momentos.
Segundo Ensslin et al. (1998, p. I-3), “as ações referem-se àqueles objetos, decisões, candidatos, alternativas, que serão explorados durante o processo decisório”.
As ações reais são aquelas originadas de um projeto completamente desenvolvido, que pode ser executado. As ações potenciais são aquelas que têm sua implementação
razoavelmente prevista sendo que, fundamentalmente, é sobre o conjunto dessas ações potenciais que o processo de apoio à decisão ocorre.
O processo cognitivo, através da construção dos Mapas Cognitivos, é uma ferramenta usada para a definição, formulação e estruturação de problemas. Tem por fundamento a cognição humana, um conceito geral que alcança todas as formas de conhecimento, incluídos a percepção, o raciocínio e o juízo de valor. Os mapas cognitivos são a representação gráfica do resultado da interpretação mental que o analista (facilitador) faz a partir da representação discursiva feita pelo decisor sobre um problema. Trata-se de um processo discursivo-reflexivo-recursivo. A construção e uso desta ferramenta estão descritos adiante, na parte que trata da estruturação de problemas complexos, no item 4.3 Estruturação de Problemas Complexos.
Essencialmente, segundo Keeney (1992, p. 40), “o conjunto dos objetivos fundamentais e o contexto decisório fornecem a estrutura do processo decisório”.
Para uma situação específica, o contexto decisório local possibilita a definição de um conjunto de ações reais, que terão seus desempenhos avaliados visando ao atendimento conjunto e simultâneo de um elenco delimitado de objetivos fundamentais.
De uma forma mais ampla e dinâmica, os decisores têm, diante de si, um quadro do processo decisório dentro de uma visão estratégica, existindo, de um lado, o contexto decisório estratégico, que é definido pelo conjunto de todas as ações potenciais passíveis de ocorrência e implementação e, de outro lado, os objetivos estratégicos, que surgem de uma visão mais abrangente, obtida por uma exploração mais profunda dos valores dos decisores, a partir do conjunto de objetivos fundamentais, ao longo da implementação das ações reais definidas para a situação específica inicial.
Contextualizando a questão para a área da gestão dos recursos hídricos, com foco no campo de desenvolvimento da presente pesquisa, caracterizam-se os conceitos apresentados, para uma melhor elucidação do que se entende por estrutura estratégica de trabalho.
Tomando o Comitê de Gerenciamento da Bacia Hidrográfica do rio Santa Maria como o cenário onde se desenvolve o processo decisório, considere-se, como contexto decisório local, o conjunto de circunstâncias representado pela Política Estadual de Recursos Hídricos, a preocupante e crescente escassez da água no ambiente, a crescente demanda de água para irrigação das lavouras e a indissociável questão da eqüidade social.
Os principais usuários da água, os orizicultores, podem ser admitidos como ações reais, as alternativas de solução, entendidas como meios de alcance conjunto e simultâneo dos objetivos fundamentais definidos na fase de estruturação do problema. Podem ser admitidos, como objetivos fundamentais, por exemplo, a minimização da captação de água diretamente no rio, na estiagem e a maximização do volume de armazenamento de água, na entre-safra.
Como objetivos-meio, podem ser considerados, exemplificando, a sistematização da lavoura e a construção de açudes, como formas de atendimento conjunto e simultâneo dos objetivos fundamentais estabelecidos.
As medidas de desempenho das alternativas de solução (os usuários-orizicultores), em termos de atendimento dos objetivos fundamentais, seriam obtidas através da fixação de variáveis, os critérios de avaliação. Para avaliação do nível de atendimento do primeiro dos objetivos fundamentais, poderia ser utilizado o critério de avaliação porcentagem de área sistematizada na lavoura e, para o segundo, vazão captada em represas.
Ao longo do processo decisório, através da discussão e negociação no Comitê de Gerenciamento, a ampliação do contexto decisório ocorre naturalmente. A inclusão gradual dos demais tipos de usuários da água na região da bacia hidrográfica (as ações potenciais), respeitados os múltiplos usos da água, os decorrentes conflitos de interesses, a
heterogeneidade do novo universo de atores envolvidos, com suas crenças, culturas, visões e poder econômico, a Política Nacional de Recursos Hídricos e o desejo comum do alcance do uso eficiente da água (objetivo estratégico), passam a constituir as novas circunstâncias do contexto decisório estratégico.
Na materialização do contexto decisório descrito, podem ser admitidas, como estratégias, ao longo de todo o processo decisório, a informação, a inovação e a educação ambiental, por exemplo.
A Figura 2.2 sintetiza uma possível estrutura estratégica de trabalho para o processo decisório no âmbito de um Comitê de Gerenciamento de Bacia Hidrográfica.
Assim pode ser configurada a problemática atual do contexto decisório na gestão dos recursos hídricos.