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CAPÍTULO VI – DIREITO DE RETENÇÃO

4. Os fundamentos do AUJ nº 4/2014

4.3. A noção de consumidor

Toda a disciplina jurídica deve ser integrada no sistema a que pertence.

Os interesses do promitente-adquirente beneficiam de uma tutela especial na legislação portuguesa, dada a concessão de um direito de retenção nas promessas que envolvam a tradição do objeto prometido.

Como já referimos, a al. f) do nº 1 do art. 755ºdo CC não existia na versão primeira do diploma, tendo sido introduzida pelo Decreto- Lei 236/80, de18 de Julho281.Contudo, o preceito não divisa a categoria de promitente-comprador vulgo consumidor.

A inovação legislativa permitiu reforçar a posição jurídica do promitente-comprador, na medida em que a constituição de sinal e a traditio terem “subjacente uma forte confiança na firmeza ou concretização do negócio”.

Associada a esta querela e, independente da solução atingida, está o alcance da disposição em sede de processo de insolvência. Considerando os aspetos de natureza substancial. Uma vez declarada a insolvência existe uma natural reponderação de interesses mediante reconfiguração da relação. no propósito de conciliar quanto possível as finalidades

da insolvência com a situação da contraparte 282 .

Nenhum interesse assume feição absolutista – é certo – mas questionamos a possibilidade de comprimir os (interesses) dignos de tutela reforçada (retentor) ao ponto de os relegar para a natureza de (credor) comum. Limitação que se nos vislumbra desadequada ao fim visado.

Vejamos.

279 Apud, J.C. Brandão Proença, Para a necessidade de uma melhor tutela dos promitentes –adquirentes de bens imóveis(máxime, com fim

habitacional), ob. cit., p. 8.

280 José Oliveira Ascensão, O direito. Introdução e teoria geral, uma perspectiva luso brasileira, 11º Edição., Almedina Coimbra, 2001, p.

49.

281 interpretação restritiva do preceito é sustentada por Menezes Leitão.

Segundo o ilustre autor, o direito de retenção, tal como consagrado, só justifica existência na eventualidade de o promitente-comprador optar por uma indemnização pelo aumento do valor da coisa, por ser esta a alternativa que melhor expressa a ligação do crédito com a coisa retida. A opção pelo sinal em dobro estaria afastada. É inegável que o direito de retenção surge por justaposição ao sistema do sinal, do art.442.ºdo CC. Todavia, não vislumbramos índice seguro, nem mesmo dúvida metódica que permita enquadrar a intenção do legislador naquele sentido L. Menezes Leitão, Direito das Obrigações, Vol.I, ob. cit., p. 251. Partilhada por A. Menezes Cordeiro, Tratado de Direito Civil II, Direito das Obrigações, Tomo II, contratos, negócios unilaterais, ob. cit., p. 401.

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Da leitura dos preâmbulos283 raia uma certeza, a ratio legislativa pautou-se pela tutela do promitente-comprador, por forma a fazer prevalecer o seu crédito quando em concurso com o hipotecário. No entanto, a referência feita, em mais de que um lugar, aos particulares parece permitir desde logo, completar o regime aberto com a noção de consumidor, parte mais

débil, que a lei pretende tutelar284.É sabido, não existe um conceito único de consumidor, e

por não haver uma referência expressa nem implícita deste conceito no art. 755º, nº, 1, al. f) do CC, temos de nos socorrer da Lei da Defesa do Consumidor, por tal diploma incorporar os princípios gerais do direito do consumo.

O conceito de consumidor285 vem definido no artº 2º, nº 1, da Lei nº47/2014, de 28/07: ”Considera-se consumidor todo aquele a quem sejam fornecidos bens, prestados serviços ou

transmitidos quaisquer direitos, destinados a uso não profissional, por pessoa que exerça com carácter profissional uma atividade económica que vise a obtenção de benefícios” 286.

Trata-se de uma pessoa figurada como uma entidade não profissional e, que se assume como parte mais fraca. O anteprojeto do Código do Consumidor, por seu turno, postula também uma noção restrita contemplada no art.10.º, permitindo no sequente art.11.º, ampliar em certa medida, esse regime às pessoas coletivas (“se provarem que não dispõem nem deveriam dispor de competência específica para a transação em causa e desde que a solução se mostre de acordo com a equidade”) e às outras pessoas singulares (“que atuem na prossecução de fins que pertençam ao âmbito da sua atividade profissional”)287.

Entendemos ser esta a solução, ponderada, para o litígio em questão, constituindo a bitola do intérprete na concretização do consumidor, para efeitos de direito de retenção. Partir do núcleo restrito do conceito, de consumidor, ampliado, em certos termos, quando a equidade o exigir, às pessoas coletivas, configura resultado equilibrado e consentâneo com a

ratio legislativa

Protegendo quem efetivamente precisa de tutela – os consumidores.

283 “Ora o direito de retenção prevalece sobre a hipoteca, ainda que anteriormente registada,art.759.º,n.º2 do CC.Logo, não faltarão

situações em que a preferência dos beneficiários de promessas de venda prejudique o reembolso de tais empréstimos. Neste conflito de interesses, afigura-se razoável atribuir prioridade à tutela dos particulares” Preâmbulo do DL n.º379/86, de 11 de Novembro.

284

Cfr. A. Menezes Cordeiro, Da retenção do promitente na venda executiva, ROA,1997. M. J .Almeida Costa, Direito das Obrigações , ob. cit. , p. 432; J. C. Brandão Proença Para a necessidade de uma melhor tutela dos promitentes-adquirentes de bens imóveis (maxime, com fim habitacional), ob. cit., p. 14.

286

Para atingir o escopo do preceito, em apreço, invocamos os ensinamentos da mais balizada doutrina, a qual parte de quatro elementos, ínsitos no artigo 2º n.º 1 da Lei n.º 24/96 de 31 de Julho: elemento subjetivo, elemento objetivo e um elemento teleológico.

“O elemento subjetivo (“todo aquele”) parece aludir, numa primeira abordagem, a todas as pessoas, físicas ou jurídicas. Pese embora, a restrição que o elemento teleológico faz operar O elemento objetivo, por sua vez, possui alcance expressivo, englobando, todas as relações contratuais estabelecidas entre as partes. O elemento teleológico também consta da definição Sendo que o melhor critério para determinar se se trata de uma relação de consumo parece consistir no uso predominante dado ao bem”, Cfr, Carvalho, Jorge Morais, Os Contratos de Consumo – Reflexão sobre a Autonomia Privada no Direito do Consumo, dissertação para doutoramento em direito privado na Faculdade de Direito Nova de Lisboa, 2011, Lisboa, p. 25.

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A acompanhar a necessidade de tutela especial invocamos a proteção constitucional, máxime, a sua caraterização como um direito fundamental.

O art. 60.º da CRP consagra os direitos dos consumidores, segundo Vieira de Andrade os direitos dos consumidores têm de ser entendidos como direitos formalmente

fundamentais,” incluídos no conjunto formal dos direitos mais importantes atribuídos às

pessoas”, que integram o conjunto dos direitos de terceira geração (direitos económicos e sociais).

Com Cannaris, assomamos “é o juiz que se esforça por evitar as contradições de

valores ou de princípios, através de uma interpretação criativa do Direito”, interpretação

essa que AUJ em questão soube cuidar. 288