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A ordem como elemento constitutivo da unidade no Estado

1. PRESSUPOSTOS FILOSÓFICOS DA “CIDADE DE DEUS”

1.2 Ordem como vontade

1.2.4 A ordem como elemento constitutivo da unidade no Estado

No plano estatal, razoável (racional) é a concórdia que não pode subsistir sem a justiça. A virtude é a prática da justiça, dom de Deus para estabelecer a concórdia (o estreito vínculo entre os cidadãos e oferecer consistência para a República201). A concórdia verdadeira é aquela que reflete a ordem natural; daí a expressão “bem ordenada”. A ordem natural é vontade de Deus e esta é a lei. A lei está inscrita na consciência do homem, por isso se diz natural ao homem. A consciência do homem é a razão. Assim, o homem usa da razão para descobrir e compreender esta lei inscrita. Aquilo que se faz ou se diz conforme a lei é dito razoável. Razoável é a concórdia e a ordem é a lei. O Estado é a concórdia bem ordenada.

Esses dois elementos constitutivos do Estado – concórdia e ordem – caracterizam a unidade do pensamento agostiniano no plano público, na medida em que dá consistência (integridade) àquele. A unidade é o princípio de todas as coisas (números, pessoas, animais,

198Curioso observar que este diálogo acontece entre Agostinho e Alípio na obra “A ordem”. Alípio que estudou

direito em Roma que se tornaria bispo de Tagaste mais tarde (ano 394-395). Cf. AGOSTINHO, Santo. Contra os acadêmicos. A ordem. A grandeza da alma. O mestre.Tradução de Agustinho Belmonte. São Paulo: Paulus, 2008, p. 34.

199Cf. AGOSTINHO, Santo. Contra os acadêmicos. A ordem. A grandeza da alma. O mestre. Tradução de

Agustinho Belmonte. São Paulo: Paulus, 2008, p. 94-95.

200AGOSTINHO, Santo. Contra os acadêmicos. A ordem. A grandeza da alma. O mestre. Tradução de

Agustinho Belmonte. São Paulo: Paulus, 2008, p. 230.

201Cf. AGOSTINHO, Santo. Cidade de Deus.Tradução de Oscar Paes Leme. v. I. 10. ed. Bragança Paulista:

amizade) e reflete a beleza da criação. O bispo de Hipona identifica a razão com a força de separar as coisas que devem ser apreendidas e estabelecer conexão entre elas. Só se pode separar o que se pensa ser uno, assim como se une para se estabelecer uma unidade. Seja ao separar, seja ao unir, busca-se a unidade perfeita202. Por isso, a razão é apta a buscar a unidade. Santo Agostinho questiona: “Um conjunto de habitantes constitui uma unidade para a qual a dissensão é perigosa: pois o que significa dissentir senão não sentir em unidade?”203

O Estado é belo se reflete a unidade e enquanto se mantém a ordem natural das coisas de modo a “passar do inferior ao superior”204. Devemos usar da razão para alcançarmos os bens

superiores.

Poderíamos imaginar que a disciplina do conhecimento em busca da unidade, da ordem e da lei é exclusivamente teológica ao depender da fé. Agostinho, ao contrário, não considera a fé como inimiga da razão, a torná-las uma só unidade para o afastamento dos vícios e o encontro da Verdade. Diz que “a alma se eleva gradativamente à perfeição de costumes e de vida não apenas só pela fé, mas também com certa razão”205. A unidade do ser

– alma e corpo – se condensa na unidade da fé e da razão.

1.2.4.1 A lei eterna e a justiça

Dessa forma a prática dos bons costumes no Estado é necessária para a unidade perfeita. Isso nos torna bons e felizes. Então, poderíamos perguntar: qual é esta lei inscrita no coração do homem que precisa ser conhecida, compreendida, guardada, praticada; que guarda a ordem perfeita; que nos afasta dos vícios e nos faz praticas as virtudes; une razão e fé, a Cidade Celeste e a Cidade terrena; que une Deus e o homem; que une as naturezas divina e humana; que curva às exigências dela as leis humanas; que é justa em qualquer tempo e lugar; que deve ser obedecida para conservar a unidade do Estado, bem como conserva a unidade (integridade) do ser humano e de todas as coisas?

Santo Agostinho responde na obra “Confissões”:

Em que tempo ou lugar será injusto que “amemos a Deus com todo o nosso coração, com toda a nossa alma e com toda a nossa mente, e que amemos o próximo como a

202Cf. AGOSTINHO, Santo. Contra os acadêmicos. A ordem. A grandeza da alma. O mestre. Tradução de

Agustinho Belmonte. São Paulo: Paulus, 2008, p. 246.

203AGOSTINHO, Santo. Contra os acadêmicos. A ordem. A grandeza da alma. O mestre. Tradução de

Agustinho Belmonte. São Paulo: Paulus, 2008, p. 247.

204AGOSTINHO, Santo. Contra os acadêmicos. A ordem. A grandeza da alma. O mestre. Tradução de

Agustinho Belmonte. São Paulo: Paulus, 2008, p. 249.

205 AGOSTINHO, Santo. Contra os acadêmicos. A ordem. A grandeza da alma. O mestre. Tradução de

nós mesmos? Por isso as devassidões contrárias à natureza, sempre e em toda parte se devem detestar e punir (...) Ainda que todos os povos os cometessem, cairiam na mesma culpabilidade de pecado, segundo a lei de Deus que não fez os homens para assim usarem dele.

Efetivamente, viola-se a própria união que deve existir entre Deus e nós, quando a natureza, de quem Ele é autor, se mancha pelas paixões depravadas. Porém as torpezas luxuriosas, contrárias aos costumes humanos, devem-se repelir, em razão da diversidade de costumes, a fim de que, por nenhuma desvergonha de cidadão ou de estrangeiro, se quebre o pacto estabelecido pelo costume ou lei de uma cidade ou nação.

É, pois, indecorosa qualquer parte que não condiz com o seu todo. Contudo, quando Deus ordena alguma coisa contra os costumes ou contra quaisquer convenções, ainda mesmo que esse preceito jamais aí seja observado, deve restaurar-se. Se é lícito ao rei da cidade a que preside dar uma ordem que antes dele jamais alguém, nem sequer ele mesmo, prescreveu, e se obedecer-lhe não vai contra os princípios sociais da cidade, ante é contrário a eles o desobedecer-lhe – pois a obediência aos reis é um pacto geral da sociedade humana – com quanto maior razão se deve obedecer, sem hesitações, às ordens de Deus, Rei efetivo de toda a criação?206

A lei suprema para Agostinho é a lei do amor, a Deus e ao próximo. Lei universal inscrita no ser humano e, assim natural. Esta lei é válida para todos em qualquer época ou lugar ao ser natural ao homem. Ela existe para que o homem se uma a Deus, a Cidade terrena se torne a Cidade Celeste, os vícios sejam punidos e a ordem restaurada, a vontade de Deus seja superior à vontade humana e esta corresponda àquela. A lei é a vontade de Deus. A vontade de Deus é o amor. Por amor fomos criados; por amor se mantém a ordem; por amor devemos obediência a Deus; por amor se conservam todas as coisas, inclusive, o direito.

Santo Agostinho não separa o amor da justiça. Pode haver justiça e pode haver amor. O amor não exclui a justiça e a justiça não exclui o amor. No Estado, sem justiça não se punem os vícios para estabelecer a ordem perdida; sem o amor não existe lei universal para obedecermos nem bens superiores a procurar. Sem justiça a impunidade prolifera e sem o amor (verdade) os interesses (verossímil) prevalecem. A ordem não necessita do mal para existir em razão de tudo o que procede de Deus é bom, mas sendo praticado desordena o homem e a sociedade e, por isso, deve ser punido pela via da justiça. O amor e a justiça dão unidade ao Estado.