TESTEMUNHAL PUBLICITÁRIO
2. O ESTUDO DOS GÊNEROS NA MÍDIA PUBLICITÁRIA TELEVISIVA
2.1 A PALAVRA MINHA E A PALAVRA DE OUTREM
2.1.2 A palavra outra e o discurso de autoridade
Há, na teoria bakhtiniana, um conceito que fundamenta as pesquisas do filósofo russo que dá ao outro um lugar de destaque na concepção de sujeito: a alteridade. Conforme Brait (2010), é passando pela consciência do outro que nos constituímos. Miotello (2013), por sua vez, diz que apenas o outro pode constituir o eu.
Nesse sentido, o que ocorre é o dialogismo como um processo discursivo entre interlocutores histórico-socialmente situados, que sustenta não só a noção de diálogo que se estabelece entre os sujeitos e seus pensamentos, mas, ainda, reforça a ideia de que a subjetividade se constitui e é também constituída na intersubjetividade, ou seja: nada escapa às relações sociais.
Do mesmo modo, a discursividade é semente e fruto da interdiscursividade25 e, assim, as vozes sociais e seus discursos estão imbricados e não são puros ou neutros. Há sempre uma relação que os antecede.
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Interdiscurso é uma terminologia usada na AD contemporânea, mas que pode ser identificada como princípio, no pensamento desenvolvido pelo Círculo de Bakhtin.
O próprio inconsciente26 é fruto de palavras outras. Mesmo quando aparentemente pensamos em algo como fruto de nossa própria reflexão, essa reflexão dialoga com enunciados anteriores que se constituíram no contato com discursos outros que não nossos. Nesse sentido, esse outro constitui as reflexões da consciência e do seu dizer e, assim, a alteridade é presente mesmo naquilo que aparentemente é monológico (PONZIO, 2010).
Estamos tocando nesse ponto, pois a nossa fala está sempre impregnada de discursos anteriores com os quais nos identificamos, por algum motivo, e queremos reafirmar, contestar ou, simplesmente, remodelar de acordo com os nossos objetivos. Há, para tanto, estratégias discursivas e argumentativas que nos servem de apoio, de modo que o discurso apresentado seja convincente e pareça de nossa própria autoria ao ponto de mesclarem-se o discurso que carregamos com o discurso outro que nos constituiu.
A teoria bakhtiniana traz esse princípio dialógico, presente na noção de polifonia, como constitutivo de qualquer discurso que, variando de acordo com estratégias estilísticas e argumentativas, formatam o projeto discursivo de um sujeito.
Dialogismo e polifonia, portanto, não são a mesma coisa, mas fundem-se, pois o primeiro tem a ver com a relação de um “eu” com o “outro”, já o segundo, é quando esse dialogismo se deixa transparecer em um texto, isto é, todos os textos são dialógicos por essência, entretanto, a partir de recursos estilístico-argumentativos, pode-se ter um texto polifônico ou monofônico, no qual as vozes sociais podem aparecer de modo mais ou menos aparente (BRAIT, 1997).
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Em O Freudismo (2007), Bakhtin dialoga com o conceito de inconsciente proposto por Freud afirmando que a constituição do aparelho psíquico (consciente e inconsciente) é da ordem do social para o individual. Assim, tanto o consciente, isto é aquilo que é escolhido para ser verbalizado, quanto o inconsciente, as experiências íntimas não verbalizadas, ou seja, censuradas, do ponto de vista freudiano, levam em conta o caráter social e ideológico da linguagem. Nesse sentido, a interação social é o que condiciona tanto o discurso interior quanto o discurso exterior. Bakhtin afirma que na teoria freudiana as relações sociais estão presentes na vida de um sujeito, mas argumenta que o psicanalista não coloca em foco essas relações como condição necessária para a produção de um enunciado e reitera que é impossível fazer a análise dos enunciados sem considerar a luta ideológica materializada na palavra objetiva e que as verbalizações do inconsciente não diferem da consciência já que ambos expressam as relações do indivíduo e de seus vínculos sociais (LIMA; PERINI, 2009, p.80-89, passim).
Em Marxismo e filosofia da linguagem (2010), Bakhtin aborda a questão do discurso de outrem, isto é do discurso citado e suas formas de expressão na língua, afirmando que suas variantes encontram-se na fronteira entre a gramática e a estilística. Essas variantes têm relação com a dialogia constitutiva de qualquer texto e com as formas de expressão das vozes que compõe o discurso que está sendo veiculado (polifonia). Nesse sentido, Bakhtin fala em textos monofônicos e polifônicos como recursos estilístico-argumentativos.
Para o autor, o discurso citado pode assumir vozes marcadas e perceptíveis, às quais ele reconhece o estatuto de textos polifônicos, como o discurso direto e indireto. Contudo, ao discurso que carrega outros discursos, mas de forma nada aparente, ou seja, velada, o filósofo chama de textos monofônicos, como o discurso indireto livre27.
Assim, o discurso de outrem é um recurso estilístico em que é possível trazer essas vozes, de modo que discursos outros sejam veiculados na fala de um indivíduo de forma marcada ou velada.
O discurso citado é visto pelo falante como a enunciação de uma outra pessoa, completamente independente na origem, dotada de uma construção completa, e situada fora do contexto narrativo. (...) A enunciação do narrador, tendo integrado na sua composição uma outra enunciação, elabora regras sintáticas, estilísticas e composicionais para assimilá-la parcialmente, para associá-la à sua própria unidade sintática, estilística e composicional, embora conservando pelo menos sob uma forma rudimentar, a autonomia primitiva do discurso de outrem, sem o que ele não poderia ser completamente apreendido (BAKHTIN/ VOLOCHÍNOV, 2010, p.150-151).
O discurso citado se integra ao discurso citante que, por sua vez, não altera completamente o texto que o integrou, até porque esse texto que se forma nesse imbricamento é um novo enunciado; ele se atualizou e se atualiza em cada ato singular da enunciação. Conforme Ponzio (2010, p.9), cada evento de encontro de
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Há enunciados que são formatados por uma linguagem de aparência monológica, como, por exemplo, a publicidade testemunhal. Nesse tipo de discurso propagandístico, por exemplo, os textos polifônicos estão presentes de uma maneira ampla ecoando as vozes e os anseios sociais. Em uma análise mais profunda é possível perceber que nesse gênero do discurso está velada na fala do depoente e no discurso direto que traz consigo, como se a fala fosse sua, a presença da instituição e sua ideologia, bem como a presença do publicitário, arquitetando o projeto de dizer institucional. Essa é a forma de discurso que nos interessa e nos parece pertinente para a análise do testemunhal publicitário.
palavras é extraordinário, singular e único. A retomada da palavra outra já não é mais a mesma; é diversa daquela que a motivou, porque é um outro evento. A própria palavra dita em origem já não é pura; é repleta de outros dizeres.
Assim, o discurso de outrem mostra-se como uma estratégia estilístico- argumentativa em que os argumentos podem ter simplesmente o efeito de sentido em que a questão dialógica está presente na fala de um sujeito, mas, ainda, tem um funcionamento em que argumentos outros podem respaldar a minha fala, ou também podem fazer a fala de um sujeito ser tomada como única, completa, nos dizeres de Bakhtin; isto é, como disseminadora de uma ideia ou, no nosso caso, como se o testemunho fosse fruto de uma experiência real, mas que os argumentos do discurso testemunhal, na verdade, são a fala de uma outra instância, que não o enunciador, isto é, discursos que carregam interdiscursos. Desse modo, todo discurso é dialógico e dialético, pois dialoga e luta ao mesmo passo de sua composição.
Bakhtin/Volochínov almejaram tratar, em Marxismo e Filosofia da linguagem, a língua em suas regras discursivas que nos permitem identificar essas formas de um discurso relatado, propondo um modelo sociológico da linguagem em que o discurso sempre constitui e é constituído por discursos outros. Essas formas relatadas ligam e distanciam o enunciador daquele dizer outro em uma escala de aproximação que ocorre a partir dessas regras linguísticas, como, por exemplo, o discurso direto, indireto e o indireto livre.
Ponzio (2010) diz que essas formas de aproximação da palavra minha à palavra outra se efetivam por relações de engajamento ou não, de modo que é possível citar a fala de outro, mas dela distanciar-se, ou mesmo, dela apropriar-se de tal modo que as palavras se misturem fazendo eco umas sobre as outras e, aparentemente, impossibilitando ou dificultando, a partir dessas regras de formação linguísticas, identificar a origem desse dizer (PONZIO, 2010, p. 22).
Toda essa discussão está formada no plano semântico e sintático, em que o outro deve ser levado em consideração tanto pelo seu conhecimento de mundo para
perceber as significações, como pela formatação do dizer, ou seja, a melhor forma para que algo seja dito.
Essa dupla orientação do discurso deve ser observada a partir do enunciado e não da frase, sendo assim, a relação que ocorre entre língua e enunciado emerge sempre em um gênero do discurso com configurações próprias, mas também adaptáveis ao contexto, ao público (PONZIO, 2010, p.23).
Em seu capítulo “Discurso de outrem”, de Marxismo e Filosofia da Linguagem, Bakhtin se detém nessas questões do discurso direto, discurso indireto e discurso indireto livre. Este último é o que vamos nos aprofundar nas análises desta pesquisa, observando como a palavra outra pode se tornar uma estratégia em que os recursos linguísticos configuram autoridade à fala da testemunha.