O nascimento do Programa Educação pelo Esporte (PEE) acontece um pouco depois da fundação do Instituto Ayrton Senna (IAS). O IAS representa a concretização de um sonho antigo do piloto Ayrton Senna que sempre objetivou oferecer de certa forma mecanismos para que crianças e jovens brasileiros pudessem desenvolver e transformar seus potenciais e talentos. A escolha do público-alvo foi feita a partir da crença de Ayrton no público infanto- juvenil como fonte para a construção de um país melhor para todos (HASSENPFLUG, 2004). Após a morte do piloto sua irmã, Viviane Senna, tomou para si esse antigo desejo do irmão e fundou o Instituto Ayrton Senna no qual o Programa Educação pelo Esporte foi sua primeira ação.
A escolha pelo Esporte se deu em função não apenas pela carreira de atleta de Ayrton, mas principalmente pelo entendimento do potencial das atividades esportivas como veículo para desenvolver conhecimentos, atitudes e valores importantes para a formação do indivíduo e para a vida em sociedade.
Nesse sentido o IAS começou suas atividades com a idéia de um compromisso ético, por meio de um sentimento de co-responsabilidade entre o poder público, o mundo empresarial e as organizações da sociedade civil. Para tal, e com a certeza de que esse posicionamento político traria um impacto significativo na vida das crianças e jovens participantes, o Instituto buscou um trabalho com todos os setores da sociedade, iniciando através de uma parceria com a Universidade de São Paulo (USP) para a implementação da educação pelo esporte para o desenvolvimento humano.
O projeto pioneiro do PEE foi o “Esporte Talento”, surgido em 1995, que tinha um objetivo inicial, como o próprio nome diz, de buscar e promover talentos esportivos nas modalidades de futebol, basquete, handebol e canoagem. Essa escolha se deu principalmente pelo fato do próprio convívio de Ayrton Senna com a USP, onde no Centro de Práticas Esportivas da USP (CEPEUSP) ele em suas estadias no Brasil freqüentava o local para se exercitar.
A parceria com as universidades como parceiras do Programa sempre fez parte dos objetivos do PEE, haja vista a capacidade dessas instituições em produzir e disseminar o conhecimento. A contribuição que a parceria entre IAS e Universidade espera trazer para as atividades do PEE diz respeito à criação de respostas e de modelos de ação bem-sucedidos e,
deste modo, possam inspirar a sociedade e o Estado na arrumação dos diversos problemas sociais.
E com este pensamento que a parceria entre IAS e Universidade está pautada, e se desenvolve através de três eixos principais: São eles:
• Implementar ações multi e interdisciplinares no que se refere à formulação de projetos de extensão universitária, que envolvam estudantes e professores das universidades advindos de diversas áreas de conhecimento de modo a desenvolver a educação pelo esporte;
• Utilizar os espaços e equipamentos esportivos já existentes nos campus do país (quadras, piscinas, materiais e aparelhos), para potencializar o seu aproveitamento;
• Disponibilizar ações, espaços e equipamentos para as comunidades de baixa renda que vivem próximas às universidades e que muitas vezes não têm acesso nem condições de praticar esportes ou de vivenciar o lazer.
Deste modo, envolver algumas universidades brasileiras na criação, sistematização e disseminação de seus objetivos com o Programa pareceu ao IAS um percurso adequado, haja vista que essas estratégias pretendem cumprir os intuitos de cada uma das instituições, além de contribuir para o desenvolvimento social do país. O ponto de interseção entre os objetivos do Instituto e os da universidade ganhou cenário apropriado no âmbito da extensão universitária, cujo intuito consiste em estreitar o elo entre universidade e sociedade (HASSENPFLUG, 2004).
Depois da USP, já em 1996 outras 5 universidades foram selecionadas para integrar o PEE, a Universidade de Pernambuco (UPE) com o Projeto Santo Amaro, a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) com o Projeto Guanabara, a Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS) com o Projeto Córrego Bandeira, a Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS) com o Projeto Escolinhas Integradas8 e a Universidade Federal do Pará (UFPA) com o Projeto Riacho Doce.
Em 2003, o “time” do PEE ganhou novos “reforços” com a inclusão de mais 08 universidades e seus respectivos projetos, são eles: Universidade Federal do Paraná (UFPR) com o Projeto Gralha Azul; Universidade Estadual de Londrina (UEL) com o Projeto Perobal;
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Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) com o Projeto Nova Descoberta; Universidade Federal do Maranhão (UFMA) com o Projeto Jovens com a bola toda; Universidade do Estado do Mato Grosso (UNEMAT) com o Projeto Kuramoto; Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) com o Projeto Alegria Vila São Luís; Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) com o Projeto Brinca Mané; Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) com o Projeto Quero-Quero.
O processo educativo focado no Programa Educação pelo Esporte apóia-se diretamente no Paradigma do Desenvolvimento Humano, que segundo Educação pelo Esporte (2004) é uma proposta do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e pretende integrar a produção econômica ao desenvolvimento das pessoas, da sociedade e do meio ambiente. O Instituto Ayrton Senna sistematizou sua proposta de trabalho tendo o Paradigma do Desenvolvimento Humano como um de seus princípios fundamentais. A visão apresentada por este paradigma entende que todas as pessoas nascem com um potencial e precisam de oportunidades para desenvolvê-lo, e para preparam-se para fazer escolhas para si mesmas e para a comunidade.
Deste modo, os programas do IAS, sobretudo o Programa Educação pelo Esporte, acreditam que promover desenvolvimento humano no Brasil representa um duplo desafio, uma vez que além de buscar soluções para desenvolver os potenciais das novas gerações, ainda precisam aplicar essas mesmas soluções em larga escala, mesmo sendo uma organização não-governamental. Para tal, o IAS crê que seja preciso estabelecer um pacto entre todos os segmentos da sociedade, uma vez que nenhum setor poderá enfrentar esta enorme empreitada sozinho. Segundo Hassenpflug (2004), o Estado, o Mercado e o Terceiro Setor devem adotar a ética da co-responsabilidade social, somando esforços, vontades e competências para a construção de respostas plausíveis ao desafio de desenvolver em grande escala o potencial das pessoas.
Nesse sentido, para o Projeto Santo Amaro (s/d), trabalhar dentro da filosofia da Educação pelo Esporte representa o empenho no desenvolvimento de competências pessoais, sociais, cognitivas e produtivas que entendam o esporte como uma via privilegiada para educar crianças e jovens para a vida, promovendo dessa forma o desenvolvimento humano em nosso país.
Este modelo educativo preconizado pelo IAS acredita que podemos desta forma contribuir no desenvolvimento de competências, capacidades, atitudes, comportamentos e valores.
Neste contexto, de que forma é possível desenvolver os potenciais das crianças e adolescentes? Como atrelar as premissas do desenvolvimento humano às práticas educativas adotadas no Programa Educação pelo Esporte? Segundo Hassenpflug (2004), existem dois caminhos básicos. Ao procurar definir os focos de seu trabalho educativo, o Instituto Ayrton Senna implementou diferentes caminhos para desenvolver o potencial humano, tanto na educação formal quanto na educação complementar. Na educação formal escolarizada, o IAS trabalhar no sentido do desenvolvimento dos potenciais de alunos do ensino público através de programas de aceleração da aprendizagem, correção de fluxo escolar, alfabetização, tecnologia e melhoria da gestão escolar. Já na vertente denominada pelo Instituto de Educação complementar, são oferecidas oportunidades inovadoras de aprendizagem utilizando-se da arte, da comunicação, do desenvolvimento sustentável, do protagonismo juvenil e do esporte.
Nesse contexto, o IAS procurou fundamentar sua intervenção e encontrou no relatório para a UNESCO feito pela Comissão Internacional sobre Educação para o século XXI seu principal norte. Este relatório é fruto de uma formulação conjunta de personalidades mundiais da educação, coordenado por Jacques Delors. O Instituto Ayrton Senna identifica nos quatro pilares da educação do relatório da UNESCO um referencial teórico essencial para orientar na elaboração de roteiros e propostas para o desenvolvimento de competências importantes para a vida pessoal, social e produtiva.
Para Hassenpflug (2004), esses pilares servem como mapa e bússola para orientar os educadores nos diversos conhecimentos e transformações cada vez mais freqüentes em nossa sociedade, alterando modos de enxergar, aprender, ensinar e a viver.
Os quatro pilares da educação (Aprender a Conhecer, Aprender a Conviver, Aprender a Fazer e Aprender a Ser) seria uma possibilidade concreta de dialogar com uma educação voltada para o desenvolvimento humano, visando o desenvolvimento de potenciais.
Ao apresentar os quatro pilares, Delors (2001) relata que a educação deve transmitir de forma sólida e eficaz cada vez mais saberes e saber-fazer evolutivos, e que estejam diretamente adaptados com o atual estado cognitivo da civilização, pois se constituem como as bases das competências do futuro. Nesse sentido, não basta que cada indivíduo acumule no início da vida uma determinada quantidade de conhecimento, podendo abastecer-se livremente. Antes disso é preciso estar à altura de aproveitar e explorar, em todos os momentos da vida, todas as ocasiões de atualizar, aprofundar e enriquecer os conhecimentos adquiridos anteriormente, e de se adaptar a um mundo em mudança.
Ainda para Delors (2001), para poder dar conta de toda a sua amplitude de missões, a educação organizada em torno de quatro aprendizagens, ao longo da vida, será para cada o
indivíduo os pilares do conhecimento. Aprender a Conhecer: consiste na aquisição dos instrumentos da compreensão. Aprender a Fazer: busca agir com o meio envolvente. Aprender a Viver juntos: tem o intuito de participar e cooperar com os outros nas diversas atividades humanas. Aprender a Ser: via essencial que integra os outros três pilares. Cada um dos pilares deve ser objeto de atenção igual no que se refere ao ensino estruturado, objetivando que a educação apareça como uma experiência global a levar ao limite, no decorrer de toda a vida, desde o plano cognitivo, prático, até o indivíduo enquanto pessoa e membro da sociedade.
A partir da adoção dos quatro pilares da educação como norte de intervenção, a equipe do IAS começou a empreender uma clara definição das competências que cada uma das aprendizagens deveria gerar nas crianças e jovens: Aprender a Ser (conjunto de competências pessoais); Aprender a Conviver (conjunto de competências relacionais); Aprender a Fazer (conjunto de competências produtivas); Aprender a Conhecer (conjunto de competências cognitivas).