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4.2 APROFUNDANDO NOS PILARES

4.2.3 Aprender a conviver (Competências Sociais)

Não há dúvida que o estado de viver juntos, viver com os outros, representa hoje em dia um dos maiores desafios da educação.

Segundo Delors (2001), a educação tem como missão transmitir conhecimentos acerca da diversidade da espécie humana, além de levar as pessoas a tomarem consciência das semelhanças e da interdependência entre todos os indivíduos do planeta.

O autor ainda se interroga de como podemos conceber uma educação capaz de evitar os conflitos de maneira pacífica, promovendo o conhecimento dos outros, de suas culturas, e seus costumes espirituais.

A educação, com o intuito de estabelecer um contexto igualitário, tenta, por meio de objetivos e projetos comuns, trocar os preconceitos e as hostilidades por uma cooperação serena e a amizade. Para tal, Delors (2001) acredita que a educação deve utilizar-se de dois caminhos complementares: a descoberta progressiva do outro e a participação de projetos comuns ao longo de toda a vida, como meio de aparar e evitar conflitos latentes.

Para que seja possível a descoberta do outro certamente faz-se necessária a descoberta de si mesmo, como pensa, como age, como sente. A educação oferecida pela escola, família, comunidade, dentre outros deve ajudar as crianças e jovens a descobrirem-se a si mesmos, aprimorando suas competências pessoais, como o autoconhecimento. Só desta forma poderão se colocar no lugar dos outros e compreender suas reações. Para isto, o confronto através do diálogo e da troca de argumentos é um dos principais instrumentos. Desenvolver esta postura positiva na escola tornar-se-á extremamente útil para os comportamentos sociais ao longo da vida.

Delors (2001) complementa ao relatar que, quando se trabalha em conjunto por meio de projetos motivadores e fora daquilo que se é rotineiro, as diferenças e os conflitos tendem a diminuir, chegando em alguns casos até a desaparecer. O Esporte, por exemplo, segundo o próprio Delors (2001), é um espaço onde inúmeras tensões entre diferentes classe sociais ou nacionalidades se transformam muitas vezes em solidariedade através da experiência e do esforço por uma causa em comum.

A escola como principal ferramenta da educação formal deve gerar tempo e diferentes ocasiões para iniciar crianças e jovens em projetos de cooperação, no campo das atividades esportivas e culturais, além de atividades sociais, tais como renovação de bairros, auxílio aos mais desfavorecidos, ações de cunho humanitário e solidário, etc.

As outras organizações educativas por sua vez devem dar continuidade ao trabalho iniciado na escola. Entretanto, esta prática diária pode levar professores e alunos envolvidos em projetos comuns a darem origem à aprendizagem de métodos de resolução de conflitos, o que pode mais na frente constituir uma referência para o futuro dos alunos.

Hassenpflug (2004) relata, assim como Delors (2001), que o Aprender a Conviver consiste num dos maiores desafios da educação, haja vista que o clima de exacerbação em torno da competição social desfavorece amplamente a cooperação entre as pessoas, e também a convivência baseada na igualdade. Além disso, a autora salienta que não nascemos conhecendo as regras de convivência. Elas são construídas, aprendidas e exercitadas até que sejam interiorizadas pelos indivíduos e transformem-se num padrão contínuo de conduta, se expressando de forma natural.

De fato, é bastante difícil para a educação oferecer por si só uma resposta a tudo que se refere às questões acerca do processo de convivência, mas exerce sem dúvida um papel importante na superação deste quadro. Um dos mecanismos para inspirar a cooperação e a solidariedade é o engajamento de pessoas em redes interativas, de modo a ampliar os relacionamentos e os contatos.

Em ambientes pedagógicos, pode acontecer o envolvimento de crianças e jovens em projetos educativos, desviando sua atenção de preconceitos e hostilidades para enfocar o alcance de objetivos em comum. Isto propicia muitas vezes uma identificação maior entre os participantes do grupo, colocando as diferenças em segundo plano. No caso dos jovens, uma estratégia interessante é estimular seu protagonismo, oportunizando sua participação em projetos comunitários em que possam desenvolver atitudes de compromisso e co- responsabilidade no ambiente de sua comunidade.

Ainda para Hassenpflug (2004), “conviver é encontrar-se com o outro”. Portanto, as competências relacionais são aquelas que permitem às crianças e aos jovens possibilidades para o desenvolvimento de suas relações interpessoais e com a sociedade, obtendo um nível maior de convivência. O relacionamento interpessoal diz respeito à interação entre duas ou mais pessoas, em ambientes como a família, uma amizade na escola, no trabalho, etc, e está ligada à maneira como uma pessoa percebe a outra. O relacionamento social, por sua vez, refere-se às comunidades, aos projetos coletivos, à política, à cultura, ao meio ambiente, dentre outros, e a todas as instâncias públicas da vida. Veja abaixo exemplos de competências inerentes aos níveis interpessoal e social:

QUADRO Nº 4

RELAÇÃO SOCIAL E INTERPESSOAL DO PILAR APRENDER A CONVIVER APRENDER A CONVIVER – COMPETÊNCIAS RELACIONAIS

NÍVEL INTERPESSOAL NÍVEL SOCIAL

Reconhecimento do outro Compromisso com o coletivo Convívio com a diferença Compromisso com o ambiente

Interação Compromisso com a diversidade cultural

Comunicação

Afetividade e Sexualidade Convívio em grupo

Quadro disposto em Hassenpflug (2004, p. 104).

No que se refere ao pilar Aprender a Conviver aplicado na metodologia do Programa Educação pelo Esporte, ele é tratado como primordial e intrínseco a todas as atividades esportivas.

Contrariamente ao que acontece no esporte de alto rendimento, as regras das atividades esportivas podem ser adaptadas e construídas coletivamente, objetivando ajustar às condições de desempenho de um determinado momento ou de um dado grupo específico. Esta construção se dá conjuntamente e por meio do diálogo e da negociação com o grupo.

Neste momento de conversa e diálogo, os educadores podem trabalhar as competências de cunho interpessoal e social, tais como: saber ouvir, aguardar sua vez para falar, argumentar, contra-argumentar, dentre outros. Além disso, é possível vivenciar valores éticos essenciais como respeito, responsabilidade, cooperação, etc.

É válido ressaltar que as atividades esportivas promovem também momentos de tensão, competição, disputa, que podem manifestar-se através da agressividade e do descontentamento. Estas situações adversas podem representar um importante veículo de reflexão, intermediando o autoconhecimento, o autocontrole, a superação de condutas negativas, oportunizando deste modo um conhecimento sobre si mesmo e sobre importantes competências pessoais, uma vez que ao tomar conhecimento de si, os alunos preparam-se para que posteriormente tomem consciência do outro, de seus espaços, direitos, deveres e de regras de convivência.

Além disso, o esporte é uma ferramenta que possibilita em muitos casos um direcionamento positivo da agressividade natural do ser humano, utilizando-a para dinamizar a vontade, a persistência, a determinação.

Podemos também desenvolver nas crianças e jovens competências específicas e próprias do segmento esportivo, tais como:

• Cultura de Paz;

• Resolução de Conflitos;

• Convívio com a vitória e a derrota; • Consciência de direitos e deveres;

(HASSENPFLUG, 2004, p. 106 – 109)