CAPÍTULO II – O VALOR DO DIPLOMA E DA LÍNGUA INGLESA NO
2.3 A língua inglesa nas escolas de idiomas
2.3.2 A percepção sobre o diploma de Letras e diplomas concorrentes
Ao serem questionados sobre o peso do diploma de Letras na seleção de professores de inglês para os cursos, todos os coordenadores entrevistados enfatizaram a importância da competência comunicativa – representada, principalmente, pela fluência e pela precisão de linguagem nas habilidades oral e escrita - como fundamental para a contratação de um professor e não necessariamente sua formação em Letras. Como o diploma não é uma exigência legal, com exceção de uma das escolas pesquisadas, é comum a contratação de pessoas formadas não somente em outras áreas de conhecimento, mas principalmente de alunos dos mais diversos cursos de graduação, desde que eles comprovem a proficiência em inglês considerada adequada pela escola.
Essa fluência no idioma pode ser aferida através de entrevistas e testes escritos e pode também ser comprovada por meio da apresentação de certificados internacionais, como os diplomas da Universidade de Cambridge, da Universidade de Michigan ou certificados com pontuação para a proficiência, como o TOEFL ou o IELTS. Portanto, para todos os coordenadores entrevistados é necessário, antes do diploma de Letras, que o futuro professor seja fluente em inglês, como ilustrado pelo depoimento do coordenador de Success:
Eu prefiro... se um professor chega com o Proficiency (Certificado da Universidade de Cambridge), não é? Dificilmente ele teria alguma dificuldade em qualquer uma das estruturas que o livro apresenta. Então você tem ali sem precisar de uma prova... [...] a certeza da proficiência do professor. Já o professor que chega com o curso de Letras eu já não teria essa garantia. O professor que chega aqui com... o certificado de... Cambridge .... Sem entrevistar eu já sei qual que é o nível de inglês dele. Eu já tenho uma base, pelo menos. É claro que eu entrevisto. Já o curso de Letras eu não tenho como garantir isso. Nem em questão de estrutura, não é? Estrutura gramatical... E em
fluência principalmente. A grande maioria dos professores de curso de Letras, pega aulas para trabalhar justamente a fluência. Eles usam os cursos de... aulas livres como uma... uma forma de praticar a língua, não é? (Coordenador da escola Success)
A experiência e o “jeito” para dar aula foram fatores considerados relevantes por todos os coordenadores para contratar um professor, antes mesmo do diploma de Letras. De acordo com o depoimento do coordenador de Success,
Há casos que o professor que não tem formação na língua inglesa, mas que vem a ser um dos melhores professores da escola. E... por outro lado há professores que fizeram curso de Letras e você percebe que parece que não têm jeito para atuar na área, não é? Tem muito conhecimento teórico, tem um milhão de definições, de metodologias, mas na hora de aplicar... Fica muito restrito ao próprio conhecimento, não é? (Coordenador de Success)
Para todos os coordenadores entrevistados, o diploma em Letras – Inglês é valorizado depois que a questão da competência linguística está resolvida. Quando o candidato a uma vaga de professor em qualquer uma dessas escolas, além do domínio do idioma, apresenta o diploma de Letras – Língua Inglesa (não necessariamente licenciatura ou bacharelado), é dada a ele a preferência na contratação. A proficiência na língua inglesa é o requisito básico, mas os coordenadores veem naqueles que estudam ou estudaram Letras um comprometimento maior com a profissão e, consequentemente, eles tendem a ser profissionais mais comprometidos e bem preparados para atuar nas escolas.
Segundo a coordenadora de Windsor, na última década houve uma mudança no perfil daqueles que se candidatam a uma vaga de professor de inglês. Até aproximadamente dez anos atrás, o requisito básico para o professor era que ele demonstrasse nível de proficiência avançado do idioma. Não era possível preencher as vagas somente com professores formados em Letras. Na verdade, a dificuldade em recrutar pessoas com a competência linguística exigida fazia com que o diploma do candidato praticamente não fosse considerado. A pessoa contratada podia ser formada em qualquer área de conhecimento, desde que mostrasse ter domínio do idioma.
Atualmente, a coordenadora diz não enfrentar mais esse tipo de problema. A grande maioria dos candidatos demonstra ótimo nível de proficiência em língua inglesa. Assim, já há algum tempo a escola dá preferência para aqueles candidatos formados em Letras com licenciatura em língua inglesa. De acordo com a coordenadora, a escola quer professores que queiram investir na atividade docente e que percebam que lá há espaço
para a construção de uma carreira de professor. Esse é geralmente o perfil do candidato com diploma de Letras, geralmente egresso da UFMG.
De acordo com a coordenadora da escola Windsor, o diploma em Letras – Língua Inglesa indica que o futuro professor tem uma competência definida por ela como “competência pedagógica” que vai além do conhecimento meramente instrumental da língua. Com isso, ele está mais preparado para ser um bom professor de idioma:
Então... historicamente os diplomas de língua... Sempre foram os importantes. Eles é que direcionavam a contratação e... chego a dizer quase que a permanência na instituição. Pois muito bem... As décadas foram se passando e você tem nas últimas duas gerações... As pessoas são fluentes em inglês. [...] E principalmente nos últimos cinco anos. As fronteiras estão menores. Então quê que aconteceu? Nunca foi tão fácil termos professor fluente, mas será que ele é bom didaticamente? Não. Porque não basta eu saber a língua para eu ser professor. Senão todos nós seríamos professores de português. [...] E aí eu vou começar a responder sua pergunta. Quando nós começamos a observar que a língua já estava resolvida [...].Então nós começamos a exigir... Que esse professor começasse a ter... até para entrar no processo seletivo... para nós, se ele tem Letras, ele tem uma pontuação diferenciada de quem não tem. [...] Nós temos uma avaliação de currículo... Em que a nota maior é quem tem Letras e tem experiência e ... isso conta depois, temos uma prova escrita... [...] Uma vez passando essas duas barreiras existe uma entrevista. Que aí, essa entrevista é uma coisa mais informal. Nós checamos aí fluência. E para nossa constatação total, cem por cento... Todos os egressos de uma licenciatura plena, eles se saem melhor. É. (Coordenadora da escola Windsor)
Essa melhor formação dos futuros professores de inglês que estudam ou estudaram Letras é percebida também pelo coordenador da escola Success. Ele lembra que há alguns anos, quando começou a trabalhar no curso, praticamente nenhum professor era formado ou fazia o curso de Letras. A grande maioria dos professores era formada por estudantes de outros cursos superiores e o trabalho na escola de idiomas era considerado um “bico”, uma forma de ganhar um dinheiro extra e continuar praticando o idioma. Atualmente, cerca de 50% dos professores da escola é formado ou faz o curso de Letras (bacharelado ou licenciatura). O coordenador de Success acredita que isso está ocorrendo, pois os alunos do curso de Letras – inglês estão entrando no mercado de trabalho mais bem formados e mais fluentes na LE que pretendem ensinar.
Outra explicação possível para essa mudança é que as instituições com melhores condições de trabalho recrutam profissionais mais bem formados e comprometidos com o trabalho. Além de registrarem os professores, tanto Success quanto Windsor oferecem uma quantia adicional no valor da hora/aula daqueles formados em Letras, na tentativa
de incentivar os professores a fazerem o curso e de selecionar professores mais qualificados e comprometidos.