A Análise do Discurso francesa, doravante AD, é uma teoria que corresponde a uma atitude de pensamento crítico que luta contra formas de cristalização do conhecimento, contra a delimitação dos campos de saber (BRANDÃO, 2004), procurando mostrar como o discurso produz sentido. Ela busca trabalhar os processos de produção dos sentidos e de suas determinações histórico-sociais (FERREIRA, 2005a), isto é, considerando a relação entre o sujeito e a ideologia presente no modo de produção que domina uma dada formação social. Essa formação relaciona a lutas de classes às motivações econômicas (FERREIRA, 2005a), delimitando o real como um processo atravessado por desigualdades e contradições. É o espaço no qual os sujeitos ocupam lugares sociais e realizam práticas e trocas sociais, de modo articulado ao funcionamento da ideologia. Em AD, esse exterior condiciona a produção discursiva de modo constitutivo, intervindo nos efeitos de sentido produzidos pelo discurso. A complexidade das lutas antagônicas que caracterizam os contextos de cada formação social constitui o discurso quando da interpelação do sujeito pela ideologia, marcando a exterioridade no interior do dizer.26
Assim, o discurso é concebido por Pêcheux (2010a, p. 81) como
“efeito de sentido” entre locutores, sendo produzido, necessariamente, a
partir de determinadas condições de produção que o sustentam. As condições de produção adquirem relevância fundamental no processo discursivo, sendo pensadas, desde seu início, como um requisito indispensável da relação entre discurso e mundo, entre o dizer e a sua exterioridade.
Os trabalhos desenvolvidos pelo filósofo Michel Pêcheux, fundador e principal articulador desta corrente teórica, são influenciados, sobretudo, pela releitura que Althusser faz de Marx, pelo
26 Vale lembrar que, em AD, não existe exterioridade enquanto objetividade empírica de “fora”
da linguagem (ORLANDI, 1996), pois o exterior é constitutivo do discurso, intervindo como tal na produção de sentidos.
trabalho de Lacan com sua releitura das teses de Freud sobre o inconsciente, e pelo trabalho de Foucault que sistematizou importantes conceitos para pensar o discurso – como o de formação discursiva, que se tornou fundamental nos trabalhos em AD –, possibilitando que outros constructos teóricos fossem desenvolvidos.27
É a partir desses autores que Pêcheux elabora sua própria teoria, apresentando a AD como uma articulação entre a linguística e as ciências das formações sociais, onde o discurso é colocado num lugar particular entre a linguagem e a ideologia, e o sujeito de discurso concebido como sujeito descentrado pelo inconsciente e assujeitado à ideologia (HENRY, 2010), concepção esta que se baseia no entrelaçamento entre “sujeito da linguagem” (de Lacan e de Foucault), e “sujeito da ideologia” (de Althusser). De acordo com Mazière (2007), a AD se estrutura a partir da relação entre sujeito assujeitado (Foucault, Athusser e Lacan), a historicidade de todo enunciado singular (Foucault), e a materialidade das formas linguísticas (a partir de Harris e Chomsky, e releituras de Saussure).
Deste modo, na origem da reflexão sobre o sujeito e o sentido em AD é preciso considerar a filiação aos estudos de Althusser28. É nele que
27 A AD nasce no final da década de 60 do século XX, no seio de uma conjuntura intelectual
que procurava refletir criticamente as relações entre lógica, filosofia e linguagem em abordagens sobre a questão da leitura e dos discursos. Tocados pelas intensas lutas sociais e movimentos de contestação política que marcavam o período, os intelectuais intensificam os debates de caráter teórico-político e a produção de conhecimentos na academia. Por essa via, surge o gesto de fundação da AD que é atribuído a Pêcheux, e tendo como marco de origem o texto Análise Automática do Discurso – AAD69 (PÊCHEUX, 2010), publicado em 1969, no qual o filósofo assinala uma ruptura com o quadro epistemológico dominante nas ciências sociais e nos estudos linguísticos da época – que adotavam a concepção tradicional de linguagem estabelecida por Saussure – e propõe uma perspectiva materialista das práticas de linguagem para desenvolver uma teoria sobre a formação dos processos discursivos. Estimulando a reflexão sobre a exterioridade (incluindo o sujeito e a ideologia) e o linguístico como uma relação histórica e constitutiva do processo linguístico (ORLANDI, 2006), Pêcheux torna-se o principal articulador da nova teoria e propicia a formação de um núcleo de pesquisa na Universidade de Parix X – Nanterre, onde pesquisadores de diversas áreas, no período de 1969 a 1983, seguiram sua linha de raciocínio e contribuíram à elaboração do substrato teórico e metodológico da AD (MAZIÈRE, 2007). Em 1983, com a morte de Pêcheux, os estudos que seguiam essa corrente foram brutalmente interrompidos (COURTINE, 2005) na França, dissipando o grupo. Entretanto, são estudos que permanecem como referência, especialmente no Brasil – onde a obra de Pêcheux foi introduzida por Eni Orlandi a partir de 1970.
28 De acordo com Althusser (1992, p. 93), “só há ideologia pelo sujeito e para o sujeito”, e ela
só existe para sujeitos em suas práticas sociais concretas. Sua tese nuclear é que todo indivíduo se torna sujeito ao ser interpelado pela ideologia, considerando que só existe prática significante através e sob uma ideologia. Em Aparelhos Ideológicos de Estado - AIE, Althusser (op. cit., p. 88) entende que toda ideologia é a representação da relação imaginária (portanto uma representação deformada) dos indivíduos com as suas condições/relações reais de existência. Precisa, ainda, que as ideias e representações que, em seu conjunto, compõem a
Pêcheux busca os fundamentos para construir sua teoria, na qual a constituição do sentido liga-se necessariamente à constituição do sujeito em sua relação com a ideologia. Entretanto, marcando as diferenças de sua teoria em relação à teoria de Althusser, Pêcheux retrabalha a noção de ideologia não do ponto de vista sociológico, mas a partir da linguagem.29 Pêcheux (1997) entende que não há discurso sem sujeito e não há sujeito sem ideologia. Assim, propõe o processo de interpelação do sujeito pela ideologia deslocando a noção psicanalítica de sujeito descentrado pelo inconsciente (a partir de Lacan), e tendo como referência o materialismo histórico, mais precisamente, a superestrutura ideológica em sua ligação com o modo de produção que domina a formação social (a partir de Althusser). Ele escreve que o sujeito é “conduzido, sem se dar conta, e tendo a impressão de estar exercendo sua livre vontade, a ocupar o seu lugar em uma ou outra das duas classes sociais antagonistas do modo de produção” (PÊCHEUX, 1997, p. 166, grifos do autor).
Pêcheux se refere aqui, ao lugar social que o sujeito assume ao ser interpelado pela ideologia, lembrando que “é enquanto sujeito que qualquer pessoa é „interpelada‟ a ocupar um lugar determinado no sistema de produção” (HENRY, 2010, p. 30). Ou seja, todo sujeito é sempre-já interpelado pela ideologia. Nos escritos de Pêcheux, esse conceito marca a existência do lugar enquanto uma posição social não subjetiva no interior das formações sociais assinalando a evidência de sentido:
É a ideologia que fornece as evidências pelas quais “todo mundo sabe” o que é um soldado, um operário, um patrão, uma fábrica, uma greve, etc., evidências que fazem com o que uma palavra ou um enunciado „queiram dizer o que realmente dizem‟ e que mascaram, assim, sob a
ideologia não têm existência ideal, espiritual, mas material, regulando os aparelhos e suas práticas – materiais – que reproduzem as relações de produção.
29
Em AD, a ideologia não é concebida tal como no campo das Ciências Sociais, como a estrutura de poder dominante oposta àqueles que não estão no poder. Pode-se dizer que a AD propõe uma abordar crítica da ideologia, pois torna explícita a injunção do sujeito à interpretação (ORLANDI, 1996), considerando que o homem, na sua relação com a realidade natural e social está condenado a significar, a interpretar. O processo ideológico está justamente nessa injunção à interpretação, de modo que não há sentido sem interpretação, sem sujeito e sem ideologia. Nesse sentido, a ideologia não é vista como ocultação da realidade, mas como prática significante, efeito da relação necessária do sujeito com a língua e com a história para que haja sentido (ORLANDI, 1996; 2005). Assim, ela não deforma os sentidos, mas possibilita que eles sejam gerados como efeitos de realidade.
„transparência da linguagem‟, aquilo que chamaremos caráter material do sentido das palavras e dos enunciados. (PÊCHEUX, 1997, p. 160, grifos do autor).
Nesse sentido, é o funcionamento da ideologia que age sobre os sujeitos em suas interpretações, naturalizando os sentidos, tornando-os evidentes, “colocando o homem na relação imaginária com suas condições materiais de existência” (ORLANDI, 2005, p. 46). É assim, pela relação com a ideologia, que os sujeitos imaginariamente se inscrevem em um lugar social e produzem, pelo discurso, os efeitos de sentido que constituem a realidade.
Convém esclarecer que o sujeito, em AD, não se refere a seres individuais ou físicos, empíricos, que se apropriam individualmente da linguagem para constituir a subjetividade de forma responsável e consciente de seu dizer. O sujeito, em AD, é da ordem do discurso e, como tal, constitui-se assujeitado à ideologia e atravessado pelo inconsciente. É isso que possibilita ao sujeito assumir um lugar social e a partir dele enunciar, tornando-se um sujeito enunciador e, consequentemente, passa a ocupar um lugar social em uma formação social dada. No discurso, este lugar corresponde a uma posição-sujeito determinada no seio de uma formação discursiva, em uma determinada situação de enunciação. O sujeito enunciador se inscreve em uma posição-sujeito quando, ao produzir enunciados, estabelece relação/se identifica com a forma-sujeito, mais precisamente, com a forma de existência histórica (PÊCHEUX, 1997) de uma determinada formação discursiva, forma esta também compreendida como os saberes da formação discursiva. É nesse processo que o sujeito institui-se em sujeito de discurso, em uma forma-sujeito.
Em AD, o sujeito é, portanto, um lugar social, inserido em determinada formação social, que corresponde, no discurso, a uma posição sujeito – ou várias posições-sujeito que se desdobram a partir da função enunciativa – inscrita em uma formação discursiva, já que não existe sujeito totalmente assujeitado para assumir completamente a forma-sujeito da formação discursiva com a qual ele se identifica.
Vale lembrar também que, no processo de interpelação, ao mesmo tempo em que a ideologia interpela o indivíduo tornando-o sujeito, assujeita-o (CAZARIN, 1998). Mas o sujeito é inconsciente para esse fato. Para explicar essa subordinação inconsciente do assujeitamento e as propriedades discursivas que constituem a subjetividade, Pêcheux (1997) desenvolve a teoria dos dois
esquecimentos que, articulados, produzem o “efeito-sujeito” com base numa dupla ilusão: de que o sujeito é dono do seu dizer (origem do discurso), e de que aquilo que diz só pode ser “aquilo” (sentido literal do discurso). Essa dupla ilusão garante ao sujeito a impressão de unidade e controle de si mesmo, quando na verdade o sujeito nada mais é do que uma criação imaginária, simbólica, um efeito de sentido. A articulação existente entre ideologia e inconsciente, portanto, permite ao sujeito constituir-se por meio de “evidências” subjetivas de si mesmo, dos outros e de um referencial. Entretanto, o sujeito não tem consciência disso; ele é levado, de forma inconsciente, a assumir um determinado lugar-social. O sujeito é assim constituído pelo esquecimento daquilo que o determina.30
Do mesmo modo, o sujeito não é consciente para o fato de que a origem de sua fala tem como base a ideologia que sustenta a formação ideológica que subjaz na formação discursiva no qual ele se inscreve ao dizer. Ele “esquece” que a materialidade discursiva (o texto) possui uma opacidade ideológica que é apagada pelo efeito de transparência da linguagem, efeito este que provoca a ideia de que o sentido corresponde exatamente ao que esta sendo exposto na superfície do texto (trata-se aqui do efeito de literalidade). Isso reafirma o “efeito sujeito”. No entanto, em AD, o sujeito não é a fonte/origem do sentido, e sim a formação discursiva com a qual ele se identifica.
Voltaremos a explicitar essas noções no capítulo três quando então serão apresentadas as noções operatórias mobilizadas na análise empírica da presente investigação. De momento, basta assinalar a existência de uma relação de dependência entre sujeito, ideologia e linguagem: o sujeito e o sentido são necessariamente afetados pela relação da língua com a ideologia. Ambos são constituídos de modo concomitante, ou seja, o sujeito se constitui ao dizer e assim constitui-se o sentido. No processo de produção discursiva, portanto, intervém o sujeito e sua historicidade, bem como as relações entre sujeito, língua e ideologia, num dado espaço e tempo.
Nessa perspectiva, a processualidade do discurso jornalístico é marcada pelos lugares sociais que os sujeitos do campo jornalístico
30 Na teoria de Pêcheux (1997), o “esquecimento n. 2” caracteriza-se como a zona do dizível,
do repetível, do formulável, dos dizeres que poderiam ser ditos mas que o sujeito não diz (CAZARIN, 1998). Assim, diz da ilusão do sujeito-falante em saber o que diz, da “liberdade” do sujeito falante e, dessa forma, permite a ele construir uma impressão de realidade. Já o esquecimento n. 1, caracteriza a zona do recalque e da censura, a zona que não é acessível ao sujeito, e que explica porque sua inscrição no interior de uma formação discursiva é inconsciente.
assumem, lugares estes que sinalizam, no interior do dizer, as posições nas quais esses lugares se inscrevem, isto é, as filiações de sentido. Na análise do discurso jornalístico é preciso, portanto, considerar que os sujeitos-jornalistas reconhecem seus lugares ao serem interpelados pela ideologia jornalística que sustenta a instituição jornalística, conforme debatemos nas seções anteriores.
Como lembra Marcia Benetti (2008), o lugar de enunciado ocupado pelo jornalismo deve ser analisado do ponto de vista institucional mais do que como o lugar reservado a uma ação individual do jornalista, pois estes são sujeitos do discurso inseridos em uma estrutura social (e histórica) que os determina. Tal análise, a propósito de versar sobre o sujeito enunciador, pode ser operacionalizada, em AD, na ordem das formações imaginárias, isto é, a partir das imagens que cada um faz de si, do outro e do assunto em questão, e que irão garantir a eficácia do discurso (PÊCHEUX, 2010a).31 Assim, a relação com o leitor, por exemplo, ocorre no interior do dizer pela emergência de um imaginário de leitor para o qual se procura atender demandas – quando o jornalismo busca compreender a vida, as preferências e as necessidades do leitor, e produzir conteúdos que possam atendê-las.
A reflexão do discurso jornalístico como um gênero baseado no contrato de comunicação midiática (CHARAUDEAU, 2006) é outra perspectiva válida no âmbito da AD, pois permite debater a relação de interação presente no discurso ao considerar os sujeitos que participam do discurso a partir de condições de produção situacionais, representando no discurso um acordo tácito entre os interlocutores. Essa perspectiva permite identificar os sujeitos num determinado tempo uma vez que constitui o quadro de restrições no qual se desdobra a “situação de enunciação” e a “cena da enunciação” (MAINGUENEAU, 2010).
O contrato de comunicação é anterior ao discurso, permitindo que o mesmo seja distinguido dentre os demais como um gênero discursivo. No caso aqui, o gênero do discurso jornalístico. Neste discurso, fatores concernentes à constituição histórica e institucional atuam como fortes marcas de distinção, tais como procedimentos que visam atender à credibilidade e à construção dos efeitos de verdade:
Esses procedimentos (...) só podem ser usados, na moldura do jornalismo como gênero, de forma
subordinada às condições do contrato de
31 A noção de formações imaginárias constitui-se como uma das categorias de análise desta
comunicação, destacando-se uma consciência
ética, que incide sobre todas as condições. Assim, a verdade e a credibilidade tanto estruturam o gênero jornalístico quanto são instituídas por ele, em uma relação orgânica. Os procedimentos que asseguram os efeitos de verdade são legítimos para o jornalismo porque estão baseados em estratégias que buscam a confiabilidade, sob pena de ruptura do contrato de comunicação. Nenhum discurso está livre da verdade como efeito, e o jornalismo não seria diferente: a verdade como construção, como crença e como convicção. (BENETTI, 2008, n.p.).
Podemos então pensar que no discurso jornalístico subjaz a instituição jornalística que atua com mecanismos institucionais que caracterizam o discurso jornalístico e o controlam. Nesse sentido, vale retomar Foucault (1996), pois este nos mostra como o discurso é, ao mesmo tempo, controlado, selecionado, organizado e redistribuído por certo número de procedimentos que atingem os discursos produzindo determinados efeitos. Esses mecanismos agem como formas de controle e revelam a ligação do saber com o desejo e o poder. No jornalismo, o desejo e o poder estão ligados a uma “vontade de saber”.
Para Ponte (2005), é possível reconhecer o discurso jornalístico como aquele que reivindica a capacidade de produzir verdades sobre o mundo sustentado numa “vontade de saber”. No discurso jornalístico, essa “vontade de saber” atua impondo aos sujeitos “uma certa posição, um certo olhar e uma certa função: ver em lugar de ler, verificar em vez de comentar” (PONTE, 2005, p. 15). Essa “vontade de saber” pode funcionar, no discurso jornalístico, como um “Regime de verdade”, tal como postulado por Foucault (1986, p. 14): “Por “verdade”, entender um conjunto de procedimentos regulados para a produção, a lei, a repartição, a circulação e o funcionamento dos enunciados. A “verdade” está circularmente ligada a sistemas de poder (...) e a efeitos de poder que ela induz e que a produzem”.
Trata-se, portanto, de um saber manifesto no discurso, mas imbricado no poder e na questão da verdade. Da instituição do jornalismo desdobra-se então como característica do discurso jornalístico a “pretensão de verdade” (HARTLEY, 1996) impulsionada por uma “vontade de verdade” (FOUCAULT, 1988), que serve de suporte e instrumento às produções discursivas. A “pretensão de
verdade” – manifesta no discurso – tenta “apagar” o desejo de poder que a “vontade de verdade” representa.
Considerando que “cada sociedade tem seu regime de verdade, sua „política geral‟ de verdade: isto é, os tipos de discurso que ela acolhe e faz funcionar como verdadeiros” (FOUCAULT, 1986, p. 12), e assim que não existe a verdade como um traço universal, mas vontades de verdade que se constituem e se transformam de acordo com as circunstâncias histórico-sociais, o poder que o discurso jornalístico exerce e pelo qual luta é o poder simbólico, o qual lhe permite designar, nomear, reapresentar, enfim, o mundo em quadros ou séries de significações e sentidos que sanciona/reivindica como verdades. Com isso, o poder no discurso jornalístico diz da competência de classificar e categorizar situações – haveres e estares – e os agentes/sujeitos que dela participam, (re)orientando as leituras que se fazem do mundo a determinadas direções. Por isso o poder simbólico é entendido aqui
como poder de constituir o dado pela enunciação, de fazer ver e fazer crer, de confirmar ou de transformar a visão do mundo e, deste modo, a acção sobre o mundo, portanto o mundo; poder quase mágico que permite obter o equivalente daquilo que é obtido pela força (física ou econômica), graças ao efeito específico de mobilização, só se exerce de for reconhecido, quer dizer, ignorado como arbitrário. (BOURDIEU, 2011, p. 14).
Nesse sentido, esse poder é real e também imaginado, necessitando ser legitimado. O poder exercido no discurso jornalístico reforça sua própria definição social enquanto aquilo que é sua função primordial: a passagem do acontecido ao seu relato, e, por extensão, a função de mediação que por sua vez dá ao discurso jornalístico o poder de revelar e plasmar a sociedade e aquilo que chamamos realidade, textualizando-as (BERGER, 1996).
Produzido no interior da organização jornalística, mas imbricado em um “mercado simbólico” muito mais amplo e difuso, o discurso jornalístico exerce um poder que não reside em estruturas que lhe são inerentes sob forma de uma força de ação que se possa controlar, mas na e através da relação determinada entre os que exercem o poder e os que são sujeitos a ele. O exercício do poder simbólico exige, sobretudo, uma crença na legitimidade de quem, na instituição jornalística, pode fazer
uso da palavra (BOURDIEU, 2011). É a crença, portanto, que confirma os lugares sociais autorizados a falar em nome da instituição.
Essa crença, em nosso entendimento, tem relação com a própria credibilidade jornalística, conceito fundamental à existência e validade do discurso jornalístico e que passamos a discutir no próximo capítulo.
3 CAPÍTULO II: UMA DISCUSSÃO SOBRE A CREDIBILIDADE JORNALÍSTICA
No capítulo precedente, observou-se que o poder simbólico exercido pelo discurso jornalístico depende da existência de uma crença na legitimidade da própria instituição jornalística, a qual determina, por meio de procedimentos, normas, regras e saberes instituídos, os lugares a partir dos quais se pode fazer uso das palavras, bem como aquilo que pode (e deve) ser dito do interior do campo, funcionando como um domínio discursivo e de “fazer-saber” específico.
Bourdieu afirma: “O que faz o poder das palavras e das palavras