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4.1 Noções operatórias da Análise do Discurso

4.1.3 Interdiscurso, intradiscurso e memória discursiva

De acordo com Pêcheux (1997), a constituição da FD é determinada também pelo interdiscurso, que representa o lugar onde se constituem os enunciados, o já-dito e o a dizer – um conjunto do dizível, histórica e linguisticamente definido. O interdiscurso é definido pelo autor como o “„todo complexo com dominante‟ das formações discursivas”, intrincado no “complexo das formações ideológicas”, fazendo parte do processo de interpelação do sujeito. É esse complexo que fornece ao sujeito “sua realidade – enquanto sistema de evidências e de significações percebidas – aceitas – experimentadas.” (PÊCHEUX, 1997, p. 162).

Nessa perspectiva, o interdiscurso é o que determina a FD com a qual o sujeito se identifica e assume a posição-sujeito, o que indica que sempre há discurso, exterior ao sujeito.73 Todo dizer é, portanto, baseado em um (outro) dizer que já foi-dito, que tem historicidade, seu sentido pré-construído, ou seja, o “„sempre-já-aí‟ da interpelação ideológica que fornece-impõe a „realidade‟ e seu „sentido‟ sob a forma de universalidade” (PÊCHEUX, op. cit., p. 164), isto é, de sentido já dado ao mundo das coisas. Há aí um efeito de atravessamento de um já- dito que sustenta o discurso.74

73 No entanto, lembramos que pelo efeito de transparência, esse exterior específico da FD – o

interdiscurso, também conhecido como o outro mais o inconsciente –, não é percebido pelo sujeito. O sujeito sofre um assujeitamento, tal como ocorre com a ideologia e o inconsciente: ele é subordinado ao interdiscurso; busca no interdiscurso o que dizer sem se dar conta disso.

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Em reflexões posteriores, Pêcheux provoca um deslocamento em relação ao conceito de FD ao refletir sobre a ideologia considerando a categoria marxista da contradição. Ele mostra que a ideologia “não existe a não ser sob a modalidade da divisão, ela não se realiza senão dentro da contradição que organiza nela a unidade e a luta dos contrários.” (PÊCHEUX, 2011b, p. 187). Ou seja, a ideologia, que intervém desigualmente na reprodução ou transformação das relações

O funcionamento do interdiscurso põe em relação um conjunto de elementos que garantem o que se pode chamar de intradiscurso enquanto “fio do discurso” de um sujeito. Trata-se de um efeito do interdiscurso sobre ele mesmo, sendo determinado enquanto tal por este exterior que lhe constitui. Entretanto, a forma-sujeito tende a apagar o interdiscurso no intradiscurso, de modo que este seja apresentado ao sujeito por elementos de “correferência”, e o interdiscurso como o funcionamento do já-dito.

Courtine (2009) explica que a relação entre o intra e o interdiscurso coloca em movimento processos discursivos inerentes à FDs antagônicas, ou mesmo posições-sujeito que se diferenciam ou que se apresentam divergentes no seio de uma mesma FD. Assim, levando- se em conta o interdiscurso no intradiscurso, é possível identificar na discursividade do texto uma trama de sentidos e posições distintas que podem estar inscritas numa mesma FD ou em distintas FDs. A tese de Courtine demonstra que as FDs são sempre “perseguidas” por seus “outros”, os quais advêm da memória discursiva e do interdiscurso sob a forma de pré-construídos que, por sua vez, aparecem no discurso pelo mecanismo do “enunciado dividido” (PÊCHEUX, 2009).75 Ao postular

de produção que caracterizam a luta de classes, não é idêntica, mas contraditória, dividida. Nesse sentido, trata-se de pensar a FD como também dividida e contraditória; como um domínio que comporta também a alteridade, a diferença. Pêcheux marca assim, pela divisão do sentido, uma retificação à noção de FD tomada emprestada de Foucault. Em texto distinto, Pêcheux (2010b, p. 311-313) chama a atenção para o fato de que é impossível caracterizar uma FD como um espaço fechado, pois sua constituição é invadida por elementos que vem de outro lugar, fazendo se acentuar o “primado teórico do outro sobre o mesmo” nos estudos em AD, que passam a tematizar “as formas lingüístico-discursivas do discurso-outro”. As análises sobre encadeamentos intradiscursivos levam também ao “estudo da construção dos objetos discursivos e dos acontecimentos, e também dos „pontos de vista‟ e „lugares enunciativos no fio intradiscursivo‟”.

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No exame da noção de interdiscurso, Pêcheux destaca dois elementos: o pré-construído e o discurso transverso. O pré-construído foi proposto por P. Henry “para designar o que remete a uma construção anterior, exterior, mas sempre independente, em que oposição ao que é “construído” pelo enunciado.” (PÊCHEUX, 1997, p. 99) Trata que o efeito de sentido se sustenta na relação dissimétrica entre dois “domínios de pensamento” (que existem na linguagem) “de modo que um elemento de um domínio irrompe num elemento do outro sob a forma do que chamamos “pré-construído”, isto é, como se esse elemento já se encontrasse aí”, marcando, assim, a separação fundamental entre o pensamento e o objeto do pensamento, sendo que este último existe, independente do pensamento. O discurso transverso provém do interdiscurso e aparece, mas não está presente, na fala do sujeito. Ele se refere ao interdiscurso que atravessa e põe em conexão, no fio do discurso, elementos discursivos constituídos pelo interdiscurso enquanto pré-construídos. Nesse sentido, ele é implícito na fala do sujeito, mas tem uma FD de origem na qual está explicito. Assim, trata-se do discurso de outra FD que “irrompe” como pré-construído, sob um efeito de não linearidade. Ocorre, sob a forma de enunciado, quando há o atravessamento ou cruzamento entre FDs. Nas palavras do autor: “o interdiscurso enquanto discurso-transverso atravessa e põe em conexão entre si os elementos

a noção de memória discursiva, Courtine alarga o enfoque da AD sem se descuidar da articulação entre a linguística e a história – duas dimensões constitutivas do discurso – e, sobretudo, da categoria da contradição, tomada em sua reflexão como um princípio teórico que, de um lado, intervém na representação do real histórico, e de outro, constitui o objeto de análise na medida em que aponta a contradição desigual entre formações discursivas antagônicas.

De acordo com Courtine (2009), a memória discursiva é um espaço/campo de formulações possíveis com os quais o enunciado se relacionaria repetindo-os, refutando-os, reformulando-os etc. Dessas relações, o autor compreende que se produzem efeitos de memória específica, mas também relações que se inscrevem num mesmo tempo de duração, à medida que as formulações coexistem, e numa pluralidade de tempos históricos, à medida que os enunciados sucedem outros.

Armazenada no nível do interdiscurso, a memória discursiva contém tudo aquilo que já foi dito no mundo e o que será dito. Ela é constituída pelo esquecimento, ou seja, cada palavra, expressão ou proposição forma uma espécie de memória pelo número de vezes em que foi dita e, principalmente, pelo que significou em cada uma dos contextos em que foi proferida, lembrando que as condições de produção são sempre distintas formando significações singulares, particulares. Mas quando dizemos uma palavra, não temos registro, nem lembramos ou sabemos disso. Por isso, quando proferida novamente essa palavra, expressão ou proposição, ela não significa somente o que se quer dizer; ela está impregnada de tudo aquilo que já significou e que é desconhecido. Isso também explica porque o sujeito não é a origem dos sentidos: estes se formam a partir de tudo aquilo que já foi enunciado, estando amarrado aos dizeres já-ditos. De igual modo, explica porque o enunciado irrompe no fio do discurso produzindo um efeito de ressonância como um eco, uma repetição. A dinâmica do interdiscurso articulado ao funcionamento a memória discursiva permite pensar ainda os contornos da FD como “fronteiras que se deslocam” (COURTINE, 2009) reguladas pelo interdiscurso.76

discursivos constituídos pelo interdiscurso enquanto pré-construído, que fornece, por assim dizer, a matéria prima no qual o sujeito se constitui como “sujeito falante”, com a formação discursiva que o assujeita.” (PÊCHEUX, 1997, p.167).

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Nessa mesma perspectiva teórica, Orlandi (2006) explica que a FD se relaciona com outras FDs, o que pode ser comprovado quando no interior de uma FD podem ser encontrados enunciados de outras FDs. Os limites da FD ora avançam, ora recuam; são flutuantes. A FD, como um todo, é porosa, permitindo a existência de relações de sentidos entre um conjunto de FDs distintas. Essas relações também atestam o caráter heterogêneo das FDs e do discurso.

Desse modo, o discurso se relaciona com outros dizeres, de forma a provocar um efeito de sentido nele próprio, que pode, inclusive, instaurar sentidos “outros”, divergentes e/ou contraditórios. De modo geral, a prática discursiva mostra que o sujeito enuncia a partir de uma posição-sujeito inscrita em uma FD. Entretanto, apesar de ela determinar “o que pode e deve ser dito”, há ou pode haver efeitos de contradição. É o modo como a posição-sujeito se relaciona com a forma-sujeito que revela a não homogeneidade da FD e, consequentemente, do discurso.