HISTORIOGRAFIA OFICIAL
2.1 A necessidade de repropor a cidade
2.1.2 Os CIAM´s e o redesenho da cidade
2.1.2.1 A planta como geradora do projeto e a nova implantação
O primeiro aspecto de redesenho da arquitetura do Movimento Moderno abordado nas edições iniciais dos CIAM´s é quanto à sua implantação no lote. Esta implantação estabelece vínculo com a organização interna dos espaços, portanto, ambos os aspectos encontram‐se imbricados.
De acordo com o receituário apregoado por Le Corbusier (2006)22, a planta assume o papel de geradora “do volume e da superfície pelo qual tudo é determinado irrevogavelmente” (ibidem, p. 9) e, dessa forma, ela condiciona a melhor ordenação do edifício. Esta ordenação
parte de condicionantes climáticas ou outras justificativas baseadas nos critérios de funcionalidade e economia adotadas pelo arquiteto autor da proposta. A intenção é minimizar ao máximo preocupações fachadistas, na tentativa de se opor ao ecletismo vigente – compreendido como decorativismo de fachadas antes de resolução de programas. Le Corbusier atribui à planta o poder de organizar os espaços de uma forma coerente, pois ela antecipa o resultado final e, dessa forma, estabelece uma estrutura geral coerente de diversos elementos. O que ele almeja não é apenas uma ordem arquitetônica, mas também uma ordenação para toda a cidade: A planta é a geradora. Sem planta, há desordem, arbitrário. A planta traz em si a essência da sensação. Os grandes problemas de amanhã, ditados por necessidades coletivas, colocam de novo a questão da planta. A vida moderna pede, espera uma nova planta, para a casa e para a cidade. [...] A planta procede de dentro para fora; o exterior é o resultado de um interior. (LE CORBUSIER, 2006, p. XXX‐XXXI) FIGURA 52: Edifício IAPI, projeto de Eduardo Kneese de Melo para São Paulo/SP, implantação não paralela ou contígua aos limites do lote FIGURA 53: Conjunto Residencial em Pedizes, projeto de Abelardo de Souza para São Paulo/SP, contraste entre o novo e o antigo Fonte: Revista Acrópole n°184, ano 16, Jan‐1954
As fachadas, dentro do ideário do Movimento Moderno, são encaradas como uma resultante das necessidades concretas de usabilidade e funcionalidade do edifício. Assim, se
justifica a grande inventividade em pormenores arquitetônicos, como encontrado nos projetos dos Irmãos Roberto, onde se criam sistemas de aberturas de esquadrias e de brises‐soleil móveis para melhor solucionarem problemáticas locais de propostas específicas, mas isso sem perder de vista a possibilidade de padronização para repetição do modelo. Deste modo, se não é possível romper com a implantação tradicional, criam‐se dispositivos arquitetônicos de controle climático para tornar os edifícios mais racionais. Quando se atribui à planta o primeiro foco de preocupações, a edificação passa não mais a compreender os limites e orientação dos lotes e das quadras como determinantes, explorando outras formas de implantação alheias às pré‐determinações de traçado. As figuras 52 e 53, retiradas da revista “Acrópole”, de Janeiro de 1954, ilustram esta nova intenção onde a implantação orienta‐se a partir da intenção que o arquiteto, autor da proposta, deseja estabelecer. Neste sentido, a implantação em novas e amplas áreas, sem referenciais urbanos tradicionais, são mais propícias para a arquitetura modernista se materializar livremente.
A chamada “rua‐corredor” – na qual os edifícios definem os limites do espaço público, implantando‐se sem recuos laterais ou frontais – é alvo de críticas como solução não adequada à nova arquitetura. Sert (1942) considera a perpetuação do modelo tradicional em novas propostas um retrocesso e compara as habitações nessas condições às “sardinhas compactadas em uma lata” (ibidem, p. 37). (figura 54)
A Carta de Atenas de 1941, em seu item 27, é enfática: “o alinhamento das habitações ao longo das vias de comunicação deve ser proibido”. Desse modo, nota‐se o desejo de oposição ao pré‐existente e de reinvenção da disposição tradicional para a formatação de uma nova espacialidade urbana.
FIGURA 54: Imagens que ilustram a crítica de Sert à rua‐corredor, onde compara um novo bairro que perpetua o padrão tradicional de implantação à sardinhas em uma lata por estarem as habitações “amontoadas em um espaço muito limitado”
Fonte: SERT, 1942, p.37
Na revista Acrópole de maio de 1948 o artigo do arquiteto‐engenheiro Carlos Gomes Cardim Filho23 vê o desprendimento (ou melhor, o “desrespeito” nas palavras do autor) aos limites impostos pelo lote como um aspecto revolucionário e ousado da arquitetura moderna e que deve ocorrer tanto em áreas isoladas, como em quadras já existentes:
Um dos aspectos revolucionários da arquitetura moderna, que para os antigos engenheiros seria uma eresia na arte de construir, é o desrespeito ao alinhamento oficial mais ousado, quando em áreas isoladas e mais funcional quando no interior das quadras[...].
Em seguida, destaca ser esta uma necessidade moderna para “corrigir” aspectos “errados” das cidades, a ser aplicada sempre que possível: 23 Engenheiro‐arquiteto que lecionou na Politécnica de São Paulo. Atuou junto à Prestes Maia na execução do “Plano de Avenidas” para a mesma cidade. Referência biografia do autor encontrada em FICHER, Sylvia. Os arquitetos da Poli: Ensino e profissão em São Paulo. São Paulo: Fapesp, 2005, p.215.
[...] O arquiteto deve modernamente corrigir as orientações erradas das ruas, procurando fixar a casa segundo a melhor orientação, dispensando sempre que possível de toda a preocupação do paralelismo dos alinhamentos das vias públicas. Os prédios não são feitos somente para serem vistos, mas principalmente para serem habitados. (REVISTA ACRÓPOLE, Maio‐1948, p. 23, grifo nosso).
O texto de Lúcio Costa (2010) sobre o projeto para sede do Ministério da Educação e Saúde (MES) no Rio de Janeiro, também ressalta o ato de subversão contido na proposta. Isto se dá através de uma implantação que rompe com as exigências do Plano Agache, já que este último “exigia limite de sete pavimentos alinhados em quadra com área interna” (ibidem, p.111) para as edificações a serem construídas na área. Este descumprimento da legislação municipal resulta para Costa como algo que combate a “vulgaridade das edificações vizinhas” (ibidem, p.110). (figura 55) É belo, pois. E não apenas belo, mas simbólico, porquanto a sua construção [...] só foi possível na medida em que desrespeitou tanto a legislação municipal vigente, quanto a ética profissional e até mesmo as regras mais comezinhas do saber viver e da normal conduta interesseira. (COSTA, 2010, p. 111, grifo nosso). FIGURA 55: Esquema de implantação do Edifício Gustavo Capanema em comparação com edificações vizinhas, fruto das determinações do Plano Agache Fonte: Própria autora, 2010, sobre base Google Earth <www.googleearth.com>, acesso em Fev. 2011
Neste sentido, o “desrespeito” às normas vigentes torna‐se, em muitos casos, a única maneira de concretizar este compromisso com o ideal modernista. As recomendações urbanísticas em vigência nas cidades brasileiras nas primeiras décadas do século XX não comportam o desenho modernista de espacialidade urbana e a divisão cadastral em lotes e quadras é o principal empecilho à sua concretização. Para o “desrespeito” tomar curso em áreas consolidadas, é também necessário um espaço físico maior, como a ocupação de toda uma quadra, sendo exemplos desta condição o Edifício do MES (atual MEC) e do Conjunto Residencial em Perdizes (figura 53 e 55). Outra possibilidade é a proposta localizar‐se em vários lotes aglutinados em uma quadra, como é caso do Edifício do IAPI, em São Paulo (figura 52). A planta, em seu papel de geradora do projeto, serve como justificativa para a nova implantação baseada em pressupostos como o da melhoria da salubridade e funcionalidade para os locais de moradia e trabalho.