HISTORIOGRAFIA OFICIAL
2.1 A necessidade de repropor a cidade
2.1.3 O vazio como espaço projetado
2.1.3.3 Superquadras de Brasília: a perda da quadra tradicional
Juscelino Kubitscheck assume a presidência da república em 1956, período politicamente tumultuado após a morte de Getúlio Vargas. Com ele ,inaugura‐se uma era de otimismo. O fim da Segunda Guerra Mundial “assegurou a América um momento positivo na situação econômica e cultural” através da “exportação de produtos para o palco de conflitos e para aliados” (SEGAWA, 2002, p. 61). Com JK na presidência, aumenta‐se o número de indústrias e criam‐se novas rodovias para interligar o país. A arquitetura modernista brasileira está em posição de destaque no cenário internacional. Oscar Niemeyer consagra‐se como o grande arquiteto brasileiro do período; os edifícios do Bairro da Pampulha – construídos entre 1942‐43 em Belo Horizonte – tornam‐se os símbolos de sua maturidade arquitetônica. A música brasileira também se projeta no mundo através da bossa nova.
Brasília, enquanto projeto de cidade, é a concretização da utopia do Movimento Moderno e, ao mesmo tempo, do sonho de um país periférico tornar‐se moderno. Antes de
Brasília, as soluções modernistas no Brasil são propostas de três maneiras: os edifícios isolados, planos de novas áreas como bairros ou cidades menores, mas estas últimas nem sempre são concretizadas.
Os projetos que concorrem ao concurso para a nova capital federal são todos de escritórios brasileiros, sendo os cinco primeiro colocados de linguagem modernista inspirada nos CIAM´s (BRAGA, 2010). Outros candidatos também apresentam propostas com esta linguagem e, estes dato somados, demonstram o estágio em que se encontra a proposta arquitetônica modernista em território nacional ao final dos anos 1950. A nova capital é inaugurada em 1960, ou seja, a cidade é construída em três anos (!), o que ilustra bem o slogan “50 anos em 5” do governo JK. Nada propagandeia mais o “progresso” intencionado pelo governo. Durante ele, é materializada em tempo recorde, uma cidade de linguagem moderna, em área de pouca ocupação urbana e acesso.
Entre o plano de Lúcio Costa para Brasília e a realidade construída há diferenças, pois algumas das preposições idealizadas como possíveis revelam‐se inviáveis econômica, social e culturalmente. A execução em si do Plano não fica a cargo de Lúcio Costao qual comparece “apenas como consultor” e a responsabilidade fica creditada ao “Departamento de Urbanismo e Arquitetura Novacap, dirigido por Oscar Niemeyer” (BRAGA, 2010, p. 227). Este órgão é responsável pela construção e gestão das obras e elaboração de projetos complementares. Assim, Niemeyer torna‐se o autor de grande parte das edificações construídas no plano piloto.
Superquadra é o nome das porções habitacionais de Brasília e recebe esta denominação por possuir dimensão aproximada de 280x280m, superior a uma quadra tradicional (100x100m). Não há nas superquadras a divisão parcelar em lotes e, nelas, o térreo é liberado ao uso comunitário. Aliás, esta é a característica geral do Plano de Lúcio Costa para a nova capital, onde o solo é definido como bem coletivo, apesar de juridicamente nem sempre o ser.
FIGURA 74: Unidade de Vizinhança formada pelas superquadras 107, 108, 307 e 308 na Asa Sul de Brasília
Fonte: Própria autora, 2011, sobre base BRAGA, 2010 e Google Earth <www.googleearth.com>, acesso em Jul. 2011
Vale trazer, em termos numéricos, como se organizam as superquadras: a taxa de ocupação é de 15% da área total; a área permeável (incluindo o cinturão verde) é de 55%; e a não permeável (ruas de acesso e estacionamentos) é de 30% (COSTA, 2005). Ao redor da superquadra deve ser deixada faixa de 20m para um cinturão verde. Os edifícios devem possuir seis pavimentos e serem elevados por pilotis. Quatro superquadras formam uma unidade de
vizinhança que são abastecidas por equipamentos comunitários (escola, mercado, clube,
cinema, igreja, etc.) localizados em ponto acessível ao conjunto (a figura 74 demonstra a unidade de vizinhança formada pelas superquadras 107, 108, 307 e 308). As superquadras distribuem‐se em quatro fileiras paralelas entre si e ao eixo‐residencial (o chamado Eixão) que corta a cidade no sentido norte/sul.
Os edifícios das superquadras não são todos de autoria de Costa ou Niemeyer, o Plano prevê a possibilidade de outros profissionais projetarem nas superquadras desde que seguidos os critérios pré‐estabelecidos para a ocupação das mesmas. A maneira de dispor os blocos não é dada, as orientações partem da taxa de ocupação, gabarito de altura, etc., listados acima.
As superquadras representam uma nova maneira de habitar a cidade, onde os moradores não mais baseiam sua sensação de pertencimento a partir “da minha rua”, mas sim “da minha superquadra” (EL‐DAHDAH, 2005). A diversidade de usos – antes confinada e distribuída em uma única torre nas edificações modernistas, ou seja, contida apenas dentro do edifício, como é o caso do modelo da Unité d´Habitation de Le Corbusier – passa agora a se distribuir espacialmente em uma escala urbana. A área livre serve para separar as funções e organizar o espaço. Aliás, as superquadras retomam aspectos do urbanismo dos bairros residenciais alemães do entre guerras e de propostas não construídas de bairros corbusierianos da década de 1920 e 1940, como o Immeubles‐Villas Wannar, para Genebra, e a Unité
d´Habitation transitória, de 1944 (MONTEYS, 2005). O desejo presente no Movimento Moderno
de propor uma nova espacialidade – parcialmente realizado nas áreas consolidadas e quase completamente atingido em áreas de expansão, apesar destas últimas ainda se manterem dependentes da cidade existente – é agora materializado em Brasília na escala da cidade. [...] The particular configuration of the superquadra, with buildings raised on pilotis, liberates the ground from private ownership and resists any attempt to demarcate residencial territory; the Project nonetheless remains recognizable as a whole, with its single entry and continuous greenbelt, affording residents a shared ownership of amenities (school, shops, churches, playground, athletcs fields, and green spaces). (EL‐DAHDAH in EL‐DAHDAH (Org.), 2005, p. 13) O solo onde é implantada a nova capital torna‐se ideal para o desenho modernista. Isto de dá, especialmente,, por apresentar poucos desníveis, sendo quase plano. As propostas urbanas de Le Corbusier, como a Vile Contemporaine pour Trois Milions d´Habitants (1922) e o
um local apropriado para tornarem‐se realidade. Os desníveis e terraplenos no Plano de Costa para a capital federal são intencionais e criados em pontos estratégicos, como no cruzamento entre os dois eixos principais da cidade (os chamados Eixão e Eixinho), em alguns edifícios públicos para limitar o livre acesso a partir de determinados pontos e/ou para conferir a monumentalidade desejada. A elevação sobre pilotis dos edifícios das superquadras, somado ao pouco desnível, propicia a criação de um parque urbano linear de livre trânsito.
Nobre (2005) considera os blocos residenciais no Parque Guinle (1948‐54), no Rio de Janeiro, projeto de Lúcio Costa anterior ao plano de Brasília, como uma proto‐superquadra (figura 75). Para a autora é neste projeto que Lúcio Costa se desvincula definitivamente do neocolonial e se assume modernista na versão corbusieriana, isto sem deixar de apresentar aspectos de brasilidade. Os pontos em comum entre as superquadras de Brasília e o projeto no Parque Guinle (e que não deixam de representar influências de Le Corbusier) está no uso de edifícios em lâmina, portanto com apenas duas fachadas e empenas laterais; no emprego de
pilotis para elevar a edificação do solo e na negação da implantação em rua‐corredor, solução
amplamente encontrada nas áreas circunvizinhas ao Parque Guinle. Os três edifícios projetados por Costa (Nova Cintra, Bristol e Caledônia) apresentam uma unidade formal, fator que também é buscado nas edificações das superquadras.
A grande diferença entre as duas propostas está na topografia do terreno: enquanto em Brasília os pilotis realmente conseguem liberar o solo para o fluxo livre, no Parque Guinle, devido ao terreno em aclive, torna‐se necessária a criação de plataformas para deixá‐los em uma mesma cota ou então a subdivisão do vão livre em mais de um nível (casos dos blocos B e C da figura 75). Dessa forma, especialmente nos edifícios Bristol e Caledônia, o que é via pública e o que é edifício privado torna‐se claramente perceptível, ao contrário do que ocorre nas superquadras, onde o público e o privado perdem seus limites e distinção em decorrência do trânsito relativamente desimpedido sob os pilotis.
Unlike Brasilia´s superquadras, however, Guinle Park posits a definite separation between public and private realms […]. This separation can of course partly be credited to the irregular topography itself, quite unlike the nearly infinite horizontal plane of Brasilia. One cannot pass underneath the buildings in Guinle Park there is always something like a ramp, steps, or a well‐market border to overcome [...].
(NOBRE in EL‐DAHDAH (Org.), 2005, p. 39) FIGURA 75: Edifícios de Lúcio Costa no Parque Guinle, Rio de Janeiro/RJ, projetados e construídos entre 1948‐54 Fonte: Própria autora, 2011, sobre base Google Earth <www.googleearth.com>, acesso em Jul. 2011
As inovações presentes nas superquadras e o fato de estarem estruturadas dentro de toda uma cidade modernista não garante a permanência das soluções no tempo. O tombamento da área do Plano Piloto de Brasília e a legislação que estabelece a forma de ocupação das superquadras, infelizmente, não se traduz em qualidade projetual nas novas propostas. Em alguns projetos recentes, os térreos dos edifícios são ocupados por salões de festas, salões de
jogos ou até tornam‐se pátios de estacionamento e áreas de manobra de automóveis. Até mesmo os edifícios mais antigos sofrem a pressão para serem modificados para acolherem estas novas funções nos térreos ou simplesmente fechados em nome da segurança. Desta forma, cada vez mais se inviabiliza o parque linear para o livre transcurso de pedestres e, assim, estas se tornam apenas uma lembrança do que pretendiam ser.